HISTÓRIAS E CAUSOS DA AVIAÇÃO

 

Uma Coletânea Internética

elaborada por

 

ZAIRO P. JUNIOR

 

2ª PARTE

 

Capítulo 2 - Histórias da Força Aérea Brasileira

O "PEGA PRA CAPAR" DE CUMBICA: P-40 VERSUS P-47!
"1ª Versão"


O clima era de guerra total! O país AZUL, com capital em S.Paulo e com o seu complexo aéreo sediado às margens do riacho Baquirivu (também conhecido como Baquirivu River pelos alunos do Curso de Tática Aérea), havia se declarado em operações de litígio com o país VERMELHO, capital Rio, e que sediava sua Força Aérea às margens do Canal do Itá (ou Vala do Sangue, como era conhecido pelos habitantes de ("Saint Cross Sur-Mer"). Esta era a ficção CTAna.
Os anos eram cinqüenta e a realidade era a ocupação da então Base Aérea de São Paulo (Cumbica) pelos Esquadrões Operacionais da FAB que, a cada formatura de Curso, eram deslocados para o local com a finalidade de "encenar" ao vivo, a manobra de encerramento das atividades escolares.
Em que pesem as limitações de espaço útil disponível, até para o parqueamento dos aviões, o panorama visto "a vol d'oiseau" era digno de emoção: eram dezenas de B-25, de P-40, P-47 assim como SA-I6 e B-17 adornando as laterais da única pista existente e que, por essa razão, acabaram servindo de "barreira de parada" para aeronaves que perderam a reta durante "pousos estranhos e pistas conhecidas"...
Na distribuição dos meios aéreos do país AZUL, o aeródromo de Cumbica sediou as Unidades de interceptação e caça-bombardeio P-47 (oriundas do 1o Gp.Av.Ca - Sta. Cruz), as aeronaves de interceptação P-40 (oriundas do 1o /14o G.Av. -Canoas) e aeronaves de bombardeio leve B-25 (oriundas das Bases do Nordeste) assim como aeronaves de reconhecimento - foto B-17 (oriundas do Recife) e aeronaves de busca e salvamento SA-I6 (oriundas do 2o /10 o GAv - Cumbica).
Por outro lado, o pais VERMELHO (inimigo) sediava aeronaves de escolta e interceptação P-47 (pertencentes ao 2o/1o Gp.Av.Ca Sta. Cruz) e aeronaves de transporte de tropa C-47 (sediados no 1o e 2 o GT - Galeão e Afonsos).
Em determinado dia D-l, as tripulações de Caça da F.Aé. AZUL foram "brifadas" sobre uma eventual incursão aérea inimiga a ocorrer num dia D e que exigiria "esforço máximo de combate (EMC)". Por conseqüência, as Unidades se entregaram ao afã de crescer sua disponibilidade de aviões para estar pronta para atender ao chamamento que viria (certamente) da maldita sirene que tocava no meio do estacionamento dos aviões de caça, ensurdecendo ao derredor e azucrinando os pilotos em alerta no solo, debaixo dos aviões.
Não deu outra: lá pelas tantas (eram cerca de 11 horas da manhã) a sirene se esgoelou e fez "tocar horror" no então, pacífico (porém, preparado?) estacionamento dos caçadores do 1o Gp.Av.Ca e 1o/14o G.Av. Correria geral. "Papo" cortado repentinamente, guarnecer em acelerado, partidas sem cumprir o "check list" etc. O mais importante mesmo era decolar rapidamente e, se possível, também de forma organizada...
Eu, como de costume, despeguei na ala do meu saudoso e imitado (e jamais igualado) líder Cap. Av. BERTHIER FIGUEIREDO PRATES, Comandante Emérito da d'Ouros do 1o Esquadrão.
Após a decolagem, o "bandão" mais ou menos se posicionou para se opor à audaciosa incursão inimiga que, conforme informara NARIZ (unidade de radar de controle do espaço aéreo), detectara um ponderável número de aviões voando na proa de Cumbica e proveniente do setor do vale do Paraíba.
A cena era mais ou menos a seguinte: por parte da F.Aé. AZUL eram 8 P-47 em linha de frente, escalonados para cobrir o setor do sol e 8 P-40, na mesma formatura e voando mais baixo, todos com os olhos voltados para o setor de onde viria a ameaça. Estávamos sobrevoando o território entre Jacareí e Cumbica.
Por parte da F.Aé. VERMELHA, eram 12-P47 voando em linha de frente (formatura Cruz) escoltando 12 C-47, voando em esquadrilhas de três aviões. Entretanto, surpresa: toda a formação voava a muito baixa altura, o que quase impossibilitava qualquer passe de tiro!
Evidentemente, essa impossibilidade (?) jamais passou pela cabeça de BERTHIER que, após comandar "Atq 2", fez um passe sobre uma esquadrilha de C-47, voando quase rasante e se posicionou de tal forma que obrigou o ala a passar entre os C-47 e o chão!!
Mas o "pega pra capar" não parava aí... Quando o "pela coruja" começou, houve um "barata voa" geral e a escolta (P-47 vindos de Sta Cruz), ao se posicionar para se contrapor aos passes da F.Aé. AZUL, se deparou com uma mistura de P-47 e P-40! E ai, sem que tivesse havido nenhum comando, o combate adentrou a uma fase do NÃO ENTENDIDO: quais eram os P-47 da F.Aé. AZUL e quais os da F.Aé. VERMELHA?
E, como era de esperar, tudo se transformou em P-47 versus P-40! E o espaço aéreo (agora sobre Mogi das Cruzes) foi transformado em um verdadeiro circo aéreo! Era uma ciranda só, um grande cobrinha de avião a cata de avião (dizem os gaúchos que eram muitos P-40 atrás de muitos P-47) e deu de tudo. Inclusive um P-47 com o motor fundido pelo "uso macio" no combate e pilotado pelo Cap. GESILDO PASSOS, que acabou pousando em MARTE com o motor parado... Não sei se todos acabaram pousando em Cumbica, independentemente do país a que pertenciam! O fato é que não houve acidentes reportados.
Esta estória deve ter outras versões, vistas por outros olhos e em outras circunstâncias. Na minha visão, esta foi uma das facetas do "pega"... Cabe completá-la, talvez... principalmente na visão dos "gaúchos"!

L.N. Menezes Maj. Brig. RR Cmt BASC - 1975-1976


O DIA EM QUE DEUS PROVOU QUE É BRASILEIRO

"2ª Versão"

No dia 25 de maio de 1949, "ELE" mandou chamar o São...tos-Dumont e disse: Você se lembra daquela turma que nos deu tanto trabalho lá no "Vale do Pó" há alguns anos ? Sim, Excelência, foi uma operação de esforço máximo para tentar trazer de volta para casa todos eles, o que, infelizmente, não conseguimos. Mas os que não voltaram estão sendo muito bem tratados, como merecem os Pilotos de Caça, que aqui chegam, quando em missão em defesa da democracia e da liberdade. Pois é, mas eles estão armando uma outra para amanhã, que não vai ser fácil!!! Você tem "carta branca" e 24 horas para reunir o maior número de "santos" possível. E, como esta é a sua especialidade, deve instrui-los de forma que possam agir com toda eficiência. Desta vez, não quero falhas. Sim, Excelência. Onde e quando será a operação? Nos céus de Cumbica, em São Paulo, Brasil.
E, como já disse, amanhã, dia 26 de maio de 1949, às 11 horas. Quero todos a postos, desde o "briefing, acompanhamento da decolagem durante o desenrolar da missão até o pouso de todos, sãos e salvos. Mas, Excelência, assim com tudo correndo tão bem, não vai ficar evidente que nós interferimos? É, talvez. Então, deixa um pousar em Marte, prá disfarçar. Bem, se não foi isso o que aconteceu lá na Sala de Apronto do Céu, peço que alguém faça uma hipótese melhor, que justifique terem todos, absolutamente todos, saído ilesos deste "pega" memorável (para ficar na memória inesquecível), em que 36 caças e 15 transporte de tropas incorporaram o espírito do "Barão Vermelho" e sentaram a pua, literalmente. Ao ensejo do cinqüentenário desta missão realizada em 26 de maio de 1949, resolvi acrescentar ao que já foi contado, o que eu, "Jambock Az de Paus", vi e me lembro, esperançoso de que cada um dos participantes, em contando suas lembranças e suas impressões, possibilitem que, algum dia, um historiador profissional e paciente junte tudo e descreva com fidelidade o quadro completo da missão, que já tem tantos nomes como: "O dia em que o pau comeu" ou "O dia do pega pra capar". E que agora acrescento: "O dia em que Deus provou que é brasileiro". Então, vamos a ela. O 1o/1oGp Av Ca, Esquadrão Jambock de Santa Cruz, ainda equipado com os P47-D, do qual eu comandava a esquadrilha de Paus, deslocou-se para Cumbica em 20 de maio de 1949, para participar das manobras de encerramento do Curso de Tática Aérea (depois, Curso de Aperfeiçoamento). Como constatei na minha caderneta de vôo, executei uma missão no dia 21, outra no dia 24, duas no dia 25 e uma no dia 26, retornando com o Esquadrão para Santa Cruz no dia 27. Como se pode ver, a missão do dia 26 era a de encerramento da manobra e os instrutores do Curso (aquela turminha do Vale do Pó), para encerrar com chave de ouro, armaram essa missão inédita em manobras do CTA. (Mas creio que eles não faziam a menor idéia do que ia dar...). No briefing, fomos informados pelo S-2 (Oficial de Informações) que havia possibilidade de uma tentativa de ocupação da nossa Base (Cumbica) por uma tropa aerotransportada e que a nossa missão era evitar que as aeronaves de transporte de tropas chegassem a ponto de lançamento, ou seja, Missão de Defesa Aérea. Nosso setor de vigilância seria entre Cumbica e Santos. Outro esquadrão de Caça, o 1o/14o GP Av CA, equipado com P-40's, também tomaria parte na defesa da Base, ocupando o setor entre Cumbica e Marte. Após a decolagem, o Esquadrão se posicionou na área de vigilância com as esquadrilhas voando em alturas escalonadas, em "line abreast" (depois, "linha de frente"), formatura que possibilita melhor vigilância do espaço aéreo e permite partir para o ataque imediatamente. Deslocávamos no eixo Cumbica/Santos/Cumbica, invertendo a direção com "breaks" bem fechados de 180 graus. Quando, com a proa de Cumbica, executando o enésimo "break" para aproar Santos, lá pelos 90 graus, "garça" na faca, asa apontando para o solo, vi um C-47 voando muito baixo, seguido de outros em linha. Imediata e simultaneamente, completei o restante do "break" e já, de nariz pra baixo, cantei "boogie 12 horas baixo" (inimigo à frente e abaixo) e chamei a esquadrilha para Ataque no 2. Por sorte, a aeronave que vi primeiro e ataquei era o líder, mas estava muito embaixo de mim e o meu ângulo de ataque foi maior do que gostaria, já que eles estavam a muito baixa altura. Passei entrando pelo sovaco do C-47, filmando com a "câmera-gun" a cara assustada do sargento que se encontrava na abertura da porta (aviões sem portas, prontos para o lançamento de pára-quedistas). Devido ao ângulo que vinha, tive que sair por baixo, o que foi um sufoco, mas guerra é guerra... E cabrei para ganhar altura para outro passe. Não me lembro de quantos passes fiz, mas, lá pelas tantas, acho que já sem o ala, numa cabrada, vi que o céu estava mais para inferno, com todo mundo engajando com todo mundo... Éramos 36! Isso mesmo: 36! Sem contar os C-47. Mas, nessa hora ninguém queria mais saber de C-47, porque o "circo" estava com a lona bem esticada e em plena função. Não sei como a coisa gerou mas, baseado em alguns dados que tenho vou dar a minha hipótese a ser confirmada por outros Jambocks ou Pampas (ou ainda os Pif-Paf's da escolta). A escolta feita pelo 2o/1o Gp.Av.Ca., esquadrão Pif-Paf de Santa Cruz (que não fora à manobra), foi surpresa para mim (surpresa propositada ou ineficiência do nosso S-2?). Isto pode ter acontecido também com os P-40's. Fiz os passes nos C-47's ignorando os outros P-47's. Quando cantei o "boogie" (inimigo/aeronave não identificada), o controle da missão "Maestro" chamou os P-40's (em outra freqüência já que os P-40's não tinham VHF), para virem da sua área e cobrir a vertical da Base dizendo que ela estava sendo atacada. O que eles queriam era levar a ação para onde eles pudessem ver do chão. Mas os P-40's foram para onde o pau já estava comendo e, em lá chegando, foram recebidos pela escolta (o que não esperavam) e consideraram isso uma provocação da nossa (Jambock's) parte e passaram a atacar qualquer P-47. Como não éramos de ferro (agora já somos, e bem enferrujados) os C-47 passaram a mero espectadores e todos queriam era ver "o circo pegar fogo". Nós queríamos era nos divertir com os P-40's - ou eram eles que estavam se divertindo conosco? A Doutrina voou aos cacos pois a Defesa Aérea não deve aceitar o combate com a escolta (que é o que ela quer para desviar os atacantes das aeronaves que ela está escoltando) e se concentrar a tentar que eles cheguem a ponto de lançamento. Os únicos certos eram os Pif-Paf's da escolta tentando dar combate aos Pampas. Pampas engajando com Jambock's não era parte da missão já que ambos eram da FAA (Força Aérea Azul). Éramos 36 caças rodando feito loucos em um espaço aéreo bem pequeno. A esta altura o São...tos-Dumont devia estar correndo de um lado para outro acionando, coordenando e incentivando a sua equipe e lembrando a todos-os-santos que "ELE" dissera que não queria problemas. Dá para imaginar mais ou menos assim: - "Cuidado!!! preciso de cinco santos imediatamente... aquele P-47 vai bater no elemento de P-40... depressa!!! ... e o P-47 passou entre o líder e a ala que só viu o vulto e até hoje está pensando o que teria sido aquilo. - Cuidado!!! dois santos imediatamente comigo... aquele P-47 fundiu o motor... vamos aproveitar este e colocá-lo no chão em Marte para disfarçar.. como o MESTRE mandou. Muitas estórias individuais podem ser contadas mas não sou historiador, não fiz pesquisa e isto é só o que me lembro... alias o que não me lembro é de muito mais, como por exemplo não lembro quem era o meu ala nem em que passe o perdi, não sei quantos P-40's andaram (indevidamente) na minha cauda... não me lembro do pouso etc. Só sei que comi um bocado de C-47's como mandava a missão, filmei muita cara de sargento na porta deles, cambalhotei adoidado e que, como todos, depois de 2 horas de vôo, cheguei ao chão são e salvo como "ELE" determinara. À noite daquele dia memorável, começaram as gozações que ainda duram até estes 50 anos e de vez em quando aparece um contando qualquer detalhe a mais. Espero que em futuro bem próximo alguém já tenha completado a coletânea das informações necessárias para produzir a ESTÓRIA COMPLETA desta missão.

A LA CHASSE!

ACONTECEU...


Estávamos em dezembro de 1960. Tínhamos o privilégio de ocupar a posição de Instrutor do 1o/4o G.Av., sob a batuta do famoso Berthier Figueiredo Prates, "O Sol". Olha que grupo: Teodósio, Plínio, Moreira, Amazonas, Frota, Carvalho...!
Tínhamos o F-80 e o T-33 na mão. Aliás, é a instrução, quando a ministramos, que nos faz aprender mais que o aluno.
O Berthier tinha vindo dos "States", onde aprendeu toda a ciência do VI. Meia-barra, um quarto de barra, cheque cruzado, nem os cartões-verde do CAN tinham tanta eficiência, como anos depois pude constatar. Sua fama, baseada em reais qualidades de exímio piloto de caça, impregnava os instrutores. Por isso, sentíamo-nos, todos, os melhores Ases da Caça. Era verdadeiramente a Sorbonne, como batizada anos mais tarde.
Comandando a Base, estava o Cel. Ovídio, vulgo Tanaka, boa gente, motivo de muitas historietas que ainda serão contadas. A lembrança está feita.
Encerrávamos o ano de instrução. Tínhamos voado bastante. A turma que concluía o curso, recebia nosso atestado de elevada proficiência como Piloto de Caça. Muita "cambalhota", formatura-diurna e noturna, muito emprego em Aquiraz, e em Aquiraz muita areia nos olhos (uma vez, ao retornar do estande, onde exerci o papel de controlador, passei momentos terríveis devido ao banho em casa; a chuveirada trouxe a areia dos cabelos, das sobrancelhas e dos cílios para dentro dos olhos, ocasionando momentos terríveis, com dores e alfinetadas que passaram depois de uns 30 minutos de aflição e muitas doses de Lavolhos).
Participamos do 23 de outubro em Copacabana, num dos empregos mais eficientes sobre alvos colocados à cerca de 1 Km da praia, na altura do Hotel Copacabana Palace. Nesse ano ocorreu o acidente do Muniz. Olha aí outra história tão badalada, mas ainda não contada.
Chegamos á tradicional festa de encerramento do ano PACAU. Presentes estavam o Ten. Brig. Reinando e comitiva composta por altas autoridades vindas da Corte.
Começou, então, o também tradicional vôo de demonstração. Eram cerca de 32 aviões no ar, o que me encheu de orgulho, junto com o Frota, ele Oficial de Manutenção e eu de Suprimento. Graças a essa disponibilidade (100%), tenho em minhas alterações um dos elogios mais curtos e mais significativos de tantos quantos recebi ao longo da minha vida militar.
Desse grupão participavam instrutores e alunos. Puxando, ia o Berthier, com o Tozmann na ala.
Atrás, na última esquadrilha, íamos, o Plínio Lemos de Abreu puxando, o Frota de 2, Amazonas de 3, e eu de 4. Era a esquadrilha de demonstração que, modéstia á parte, vinha se apresentando magnificamente, tal como no 23 de outubro já mencionado, em Copacabana. A idéia era a seguinte: decolavam os 16 elementos e o Berthier esperava com o Grupo no PE enquanto a esquadrilha fazia seus 10 minutos de show. Depois a esquadrilha juntava no grupo e, então, o Berthier fazia as passagens. Assim foi feito. Quando encerramos o festival de acrobacia na ala, reunimos o grupo para o inicio das passagens, sentido 13/31, sabendo que as autoridades estavam no Esquadrão, de frente para o pátio, assistindo a tudo. Hoje, o visual está um pouco modificado, mas quem olhava da pista para o esquadrão via, à esquerda, o aeroporto, à direita o Contra-Incêndio, e em cima do Esquadrão estava a Torre de Controle, tendo à sua direita, a uma distância de uns 10 metros, uma antena da mesma altura, de ferro, subindo de uma base quadrada para terminar num ponto, portanto com 4 lados triangulares. Tudo isto, do lado do Cocorote.
Após a primeira passagem, com os 32 aviões em 2 esquadrões de 16 (que tempo bom, aquele!), Berthier puxa cobrinha de elemento a partir do final da pista 13 (naquele tempo era 12). Curva à esquerda, vai até o Pici e escorrega, em cobrinha de elemento, para a primeira passagem sobre a pista.
De repente, lá de trás eu vejo que o Berthier está sobre o pátio de estacionamento e sobre a pista... e todos vão atrás. A situação era a seguinte: assistência na porta do Esquadrão, composta por comitiva, militares, civis, autoridades, crianças... e, à frente, estacionados lado a lado, estavam o C-47 do Brig. Reinaldo (era o avião do GTE na época), e dois CONVAIR da VARIG, todos em frente ao aeroporto.
Berthier deixa o Tozmann na ala esquerda e passa baixo, baixo mesmo, na porta do Esquadrão. O Tozmann sente apenas um chiado sob seu avião, mas prossegue normalmente, sem desgrudar os olhos do líder, como todo bom estagiário que se preza.
Lá para trás ficam muitas painas brancas, voando, que faziam parte do revestimento superior do CONVAIR. O Tozmann simplesmente arrancou o dorso do C-47 e do CONVAIR do lado, deixando a assistência estupefata. Brig. Reinaldo, Cel. Ovidio, comitiva, todos dão um passo atrás. Passam os 16 elementos. Berthier faz curva à esquerda sem saber o que aconteceu. Também ninguém lhe avisa. Completa 270 e vem em nova passagem, sentido Base-Esquadrão, baixo, muito baixo. Mais baixo ainda vem Amazonas, o 31 e eu na ala, o 32. Olho para todos os lados. Amazonas é louco! Vai me deixar plantado numa árvore! Vem literalmente pulando obstáculos. E eu corcoveando ao seu lado. Olho à frente e vejo os quadrados brancos e vermelhos da Torre se aproximando. Crescendo! E a assistência embaixo.
Amazonas falando no rádio: uma árvore, outra árvore... Seguro até não poder mais. Vejo a torre na frente, e penso: não dá mais para ficar. Amazonas vai bater. Cabro o F-80, inclinando para ver a batida, reduzindo um pouco a velocidade e vejo, no último momento, que ele, sabendo que não dava mais para cabrar e passar por cima, coloca o avião na faca e tenta passar entre a torre e a antena. Bate com o tip-tanque direito na antena e este é projetado fora, caindo na soleira de uma residência do Cocorote. Retorno à sua ala para avaliar o estrago. Ele não tinha ligado o "auto-drop", que num caso desses serviria para ejetar o tip esquerdo, evitando assimetria praticamente mortal.
Mas o bicho era bom mesmo, aliás dos melhores com quem convivi. Segura o avião, combustível jorrando da ponta da asa direita, faz curva à direita, entra na perna do vento, faz a curva-base, baixa o trem e flap, pousa e eu arremeto... sem alijar o tip esquerdo!
Brig. Reinaldo abandona o recinto, dizendo: - ISTO NÃO É UM ESQUADRÃO, É UMA ESCULHAMBAÇÃO! Não era. Foi e é uma das Unidades mais admiráveis desta Força, que apenas escreveu uma página memorável, naquele dia, parte de uma história que a Força nunca contou... Oficialmente.

Carlos Almeida Baptista - Ten.Brig. Cmt 1o/I4o Gav. Cmt 1o Gp.Av.Ca.- 1977

 



UMA CHEGADA IFR...

No ano de 1956, encontrava-me servindo no 1o/1 o/ Gp. Av .Ca. na Base Aérea de Santa Cruz, equipado na época com os jatos de caça Gloster Meteor MK-VIII (F-8). Em maio, foi previsto um deslocamento de todo o Esquadrão para Porto Alegre e, em lá chegando, efetuar treinamentos de vôos a baixa altitude, em que a velocidade e o descortínio da região requerem do piloto uma atenção redobrada em sua navegação, levando-o a adquirir maior rapidez em suas decisões.
Uma frente fria, estacionária do Sul até acima do Rio de Janeiro, passou a prejudicar e retardar o dia da saída, tendo em vista que muitos dos F-8 ainda estavam sem a instalação dos equipamentos de rádio-compasso e a autonomia dos aviões era quase na conta. Os Esquadrões de Controle e Alarme (ECA 1 e 2) estavam em contato diário com o rádio, informando a evolução meteorológica.
Tudo preparado, "briefing" realizado, recomendações dadas e... o mau tempo nos segurando no chão. O que causava um ansiedade só amenizada pela atuação sempre bem-humorada do Ten. Pessoa.
Finalmente, no dia 5, com a melhoria do tempo em Porto Alegre, o Esquadrão pôs-se no ar, liderado pelo Oficial de Operações, Cap. Cassiano Pereira. Participavam do vôo os seguintes oficiais: Cap. Joel Rócio, Ten. Jorge Frederico Bins, Ten. José Pessôa Cavalcanti de Albuquerque, Ten. Cláudio Souza de Oliveira, Ten. Ruy Messias de Mendonça, Sérgio Camisão, Volnei Monclaro Mena Barreto, Edmar Flaeschen, Carlos de Almeida Baptista, Juarez de Deus Gomes da Silva, Werther Souza-Aguiar Temporal e Ary Camargo. No avião de apoio seguiram o Maj. José Carlos Teixeira Rocha, o Cap. Afrânio da Silva Aguiar (Cmt. do 1o/1o ), Cap. Antônio Carlos Azevedo da Rocha Paranhos, Ten. Joaquim Francisco Lins Araújo e o Ten. Arm. Adalberto José do Espírito Santo (Betinho). Coube-me o F-8 4400 (A1).
O vôo transcorreu sem contratempos, a 30,000 pés para as três Esquadrilhas que estacionaram na Base Aérea de Gravataí. Nos dias subseqüentes foram cumpridas as missões previstas, tendo entrado em pane elétrica do trem de pouso o F-8 4403 (A4).
Finda a missão, houve o infalível jantar na Cantina do Galeto, com a festiva presença de outros companheiros do 1o/14o Gp. Av. de Porto Alegre, Maj. Josino Maia de Assis, Cap. Adélio DeI Tedesco, Cap. Hildebrando Pralon Ferreira Leite, Cap. Med. Dr. Jorge, Ten. João Hoeppner, Ayrton da Silva Passos e Wanderley Montandon.
No dia da volta, dia 10, a frente continuava sobre o Rio de Janeiro. O Cap. Aguiar lideraria o Esquadrão e eu fui consultado se levaria o 4403 que, além da pane do trem (tinha que ser recolhido manualmente), ainda tinha cedido seu horizonte artificial e bússola elétrica para outros aviões que necessitavam desses itens. Aceitei e ficou estabelecido que eu voaria em Elemento com o Ten. Camisão para apoio de rumo, já que a bússola magnética não era precisa. Prossegui em direção a Florianópolis, que ainda permitiu ser vista pela metade. Subi para os 32.000 pés previstos e, já no topo e conhecendo bem os recortes do litoral, coloquei o 4403 na reta, anotando o rumo que a bússola marcava (que não correspondia à realidade, mas não me deixava variar a proa). De vez em quando era chamado pelo Cap. Aguiar para saber se já avistava o Esquadrão, na mesma altura, o que não aconteceu. Identifiquei minha passagem sobre Santos e já comecei a preocupar-me, pois ouvi a torre de Santa Cruz (Primave) informar um teto de 1.000 pés com chuva intermitente. Na minha estimada próximo a Santa Cruz chamei o "Safa-Onça", que me deu um rumo proa norte. Voei mais um pouco e a nova chamada me deu um rumo sul. Já tinha passado Santa Cruz. O Esquadrão descia por Esquadrilhas. O Ten. Bins informou-me estar descendo sobre o mar, próximo à Restinga.
Como, sem horizonte e uma bússola confiável, não poderia entrar em nuvens, reduzi as rotações das turbinas para um regime mais econômico e iniciei algumas curvas, procurando ver algo em baixo. Numa dessas, vi uma abertura e através dela umas casas, mas não consegui identificar se estava do lado do mar ou para dentro. Apliquei os flaps de mergulho para manter próximo ao "buraco" e entrei em contato com o Controle de Aproximação, no canal 5, informando-o da minha posição estimada e dizendo ter entrado em pane de instrumentos. Este mandou-me aguardar e desviou as aeronaves no setor, para a Ilha Rasa, Galeão etc.
Meu combustível já estava próximo do fim e eu, preocupado, já pensava em me ejetar e pensando: - Se as turbinas pararem, vou descer um pouco para o interior, com medo do avião cair sobre a área residencial, e não querendo ir para o mar preocupado em cair muito longe da costa. Revi os procedimentos previstos para o assento Martin Baker (mira para dentro, calcanhares nos estribos, fios e traquéia desconectados etc.). O Controle autorizou-me a descer e eu enfiei-me pela estreita abertura, na vertical, turbinas reduzidas e flaps de mergulho.
O altímetro girava como um ventilador. Aos 8.000 pés avistei o Estádio do Maracanã, um pouco à direita, girei o F-8 para lá e nivelei a 1.000 pés aproando os Afonsos, com muita chuva. Não conseguia ver quase nada. Tentei, então, ir para Santa Cruz por trás da Serra da Madureira (Nova Iguaçu). Não deu, tudo negro com a chuva. Virei à direita para o Galeão e a torre informou-me: aeroporto fechado pela chuva e vento forte de través. Respondi-lhe: - Não tenho alternativa. E joguei-me na pista 14, quando pude, então, respirar aliviado.
Logo depois, chegou o Maj. Hélio Langsch Keller no T-6 1612, que já andava me procurando, pois havia avisado à Primave que me encontrava próximo ao Maracanã. O Maj. Keller perguntou-me se tinha combustível para ir para Santa Cruz. Respondi-lhe que não dava nem para girar as turbinas. Voltei no T-6 com ele.
No dia seguinte, foram enviados um carro com JP-1 (a aviação comercial ainda não operava com jatos) e o carro do APP (Auxiliar Power Plant) para o Galeão, para trasladar o valente A4 para Santa Cruz, que acredito não ter sabido o quanto esteve perto de estatelar sozinho em algum morro das redondezas.

Werther Souza-Aguiar Temporal - Cel. Av. RR


O CASAMENTO DO CORDEIRO DE FARIAS (Cacaio)


O Cordeiro sempre foi um sujeito fora de série! Era o filho mais velho de Antônio Carlos Cordeiro de Farias (sobrinho do Marechal Cordeiro de Farias) e de Dona Maria Lídia Goulart Brasil (filha de Dr. Carlos Brasil e Dona Angélica, de tradicionalíssima família mineira), todos gente muito fina.
Corria o ano de 1966, e nós acabávamos de ser admitidos como cadetes do primeiro ano da Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos. Éramos uns 25 "pára-quedistas" na turma de 1963 proveniente da EPCAr (Barbacena) , e como minoria absoluta em uma turma de 210 cadetes, os laços de amizade foram naturalmente surgindo entre nós neste período inicial de adaptação.
As nossas origens eram as mais diversas (como não podia deixar de ser), e as curriolas foram logo se formando. Existiam inicialmente duas grandes "facções" como em toda turma: a dos "laranjeiras" (cadetes de Outros Estados que moravam na Escola) e a dos "bananeiras" (pessoal que tinha residência no Rio de Janeiro).
Os laranjeiras se subdividiam basicamente em "gauchal" (quem tinha nascido do Rio para baixo), e "aratacal"; (quem tinha nascido do Rio para cima). As outras origens eram desconsideradas,,,
Os bananeiras, por sua vez, se subdividiam em "pessoal da orla" (quem morava na zona sul do Rio de Janeiro) e " brejal " (o resto).
Durante os três anos de Escola de Aeronáutica, o "pessoal da orla", Infiltrado as vezes por integrantes de outras facções, invariavelmente se reunia nas noites de sábado no belo apartamento da família Cordeiro de Farias, na Avenida Atlântica, Posto 6, em Copacabana. Seu Antônio Carlos (por nós chamado de "Comodoro") e Dona Maria Lídia nos tratavam como filhos, e uma grande amizade sempre uniu a todos.
Nesta época marcavam ponto na casa do Cordeiro, entre outros: Domingues (Dodô), Sá (Sazão), Vergara (Curumim), Vicente (Bagaço), Souza Jr (Caju), Franco (Franquini), Kuster (Mulher Burra), Dellamora (Pato), Berford (Vareta), Milton (Macaco) e ainda integrantes de outras turmas mais antigas, como o Aristides Leite (Tide) que era nosso instrutor de T-6, o Bahiano (Rosas, da Intendência), o Américo e o Mello Maia da turma de 62, além de mim e do próprio Cordeiro (Cacaio para a família e Maluco para a "turma da orla"), A programação noturna podia ser qualquer uma, contanto que passássemos antes no Kalil, um botequim na Rua Ataulfo de Parva, no Leblon, próximo de onde se localizam hoje o Alvaro's e o Degrau. O Objetivo de passar no "escritório" (como o chamávamos) era um só: aprimorar o planejamento para a noite e "tomar um L.T. (London Tower - um whisque horrível...) antes de "morrer".
O Aspirantado no inicio da 1969, e a conseqüente transferência para Natal e Fortaleza (onde respectivamente eram realizados os Cursos Operacionais de Bombardeio e Caça), fizeram com que a turma se dividisse um pouco. Mas mesmo assim, servindo em locais diferentes, sempre procurávamos nos encontrar no Rio nos fins de semana e nas férias.
Quando o Cordeiro anunciou que ia se casar com a Ângela, também de Belo Horizonte e sua namorada já há um bom tempo, a '"turma da orla" se preparou para tornar o evento inesquecível. Nossa preocupação era manter uma tradição antiga na Caça, que determinava que "casamento de piloto de Caça só valia se fosse realizado com muita esbórnia..."
Iniciava o ano de 1972, e nesta época eu e o Cordeiro, recém promovidos a 1º Tenente, servíamos no 1º Grupo de Aviação de Caça, sediado na Base Aérea de Santa Cruz. Comandava o Grupo o Ten. Cel. Barros (Barrinhos), e o S3 era o Maj. Baltar. Eu servia no 2º Esquadrão (Pif-Paf), que era comandado peio Maj. Ribeiro (Ribeirinho) e o Cordeiro servia no 1º Esquadrão (Jambock), comandado peio Maj. Pereira (Macuco), autor dos mais incríveis rasantes de F-8 que se tem notícia...
Por ser muito querido por todos, e pela grande festa que iria acontecer, o casamento do Maluco foi piruadíssimo, tanto que o 1º Esquadrão até escalou uma esquadrilha de AT-26 Xavante, em missão 6F, para ir a BH. O resto do povo que não conseguiu ir voando, foi de automóvel.
A esquadrilha estava assim formada:
Líder - Maj, Pereira (comigo de "saco" para localizar a casa dos avós do Cordeiro em BH)
nº 2 - Ten. Cordeiro (O noivo)
nº 3 - Maj. Baltar / Ten. Wiedeman
nº 4 - Ten. Miana (Turco)
Além do "pessoal da orla", foram de carro, que eu me lembre: Jairo (Pirú), Lazzarini, Fernandes (Piu-Piu), Azambuja, e vários colegas de turma, além de outros oficiais que também serviam em Santa Cruz.
Para "animar" a festa, levamos alguns fumígenos "Day-Night" (vencidos, usados nos exercícios de sobrevivência) e algumas bombas tipo cabeça-de-negro, potentíssimas!
Decolamos de Santa Cruz para chegar em BH lá pelas 13:00 horas, pois o casamento religioso aconteceria as 19:00 horas daquele mesmo dia, 07 de Abril de 1972, em uma das principais igrejas da cidade. Após algumas passagens baixas sobre a casa do Dr. Carlos e Dona Angélica, rumamos para o Aeroporto da Pampulha, onde pousamos e preparamos as máquinas para pernoite. Nos alojamos no Cassino da Aeronáutica, e já de 5ºA, retornamos à casa que tínhamos acabado de sobrevoar.
Os avós e os pais do Cordeiro estavam radiantes, e como sempre, receberam a todos com muito carinho e amizade. Durante o coquetel que se seguiu nos jardins à beira da piscina, outros convidados foram chegando: paisanos amigos do Cordeiro e de seus dois irmãos, e mais alguns companheiros da FAB. Generosas doses de whisque iam sendo consumidas, e já próximo da hora do casamento, um dos garçons foi arremessado dentro d'água, só para ver se já estávamos no ponto.
Lá pelas tantas, alguém olhou para o relógio e já eram quase 7 horas da noite! Estávamos atrasados! Imediatamente reunimos a turma e fomos para os carros e, em desabalada carreira, partirmos para a igreja. Fui no automóvel do "Tuga" (um dos irmãos do Maluco), com mais dois paisanos, e fomos os primeiros a chegar no local do evento.
A igreja estava repleta de gente, e no altar o padre já fazia o seu discurso para um casal. Nosso primeiro comentário foi: "pô, sacanagem, o casamento já começou". Para recuperar o tempo perdido e a baderna que deixou de ser realizada, o Tuga pegou uma cabeça-de-negro que mais parecia um obus 105 e, sem a menor cerimônia, pediu licença a algumas pessoas que estavam na entrada do templo, e arremessou o petardo no interior da igreja.
A explosão que se seguiu foi terrível! Até nós ficamos assustados! As pessoas começaram a sair correndo de dentro da igreja, e só então percebemos que tinha ocorrido um grande engano: as pessoas que saiam eram completamente desconhecidas de nós, e ao mesmo tampo chegavam os convidados do "nosso" casamento! Tínhamos jogado a bomba na igreja certa, mas no casamento errado! A confusão que se seguiu foi séria, pois alguém identificou o Tuga como o autor do "atentado", e só não houve briga feia entre os convidados dos dois casamentos porque estávamos em número muito maior, Assim sendo, os nossos desafetos tiveram que "entubar" a bomba antes que a coisa ficasse pior para o lado deles. Rapidamente a igreja se esvaziou, e os convidados da família Cordeiro de Farias puderam então entrar e se acomodar para assistir ao casamento do Cacaio que, com esta introdução, já prometia ser inesquecível!
Nas dirigimos então para uma das laterais do altar, e ficamos aguardando a chegada dos noivos. De repente um burburinho, e verificamos que era a chegada do Cordeiro. Vinha acompanhado do Turco Miana, fardado, que com .espada numa das mãos e uma "ampola" de whisque na outra, empurrava o Maluco igreja adentro! Enquanto os "obuses" explodiam ensurdecendo a platéia, o noivo chegava ao altar sendo recebido com aplausos e gritos de "arremete Maluco!" e outros gracejos impublicáveis. Para um espectador normal, a balbúrdia devia estar incrível!
O Cordeiro ficou então aguardando a Ângela sozinho no altar durante una dez minutos, conversando conosco e argumentando que não tinha mais jeito, ia casar mesmo, etc. Nisso chega a noiva deslumbrante, maravilhosa e feliz como toda noiva, e dirige-se para o altar sob uma salva de palmas, assobios e gritos. Encontra-se com o Maluco e ficam os dois conversando conosco! Algo estava errado. Por onde andaria o padre, que ainda não tinha dado as caras? Começa então um coro de "queremos o padre! queremos o padre!". Logo após o Tuga me chama e diz: - Peixão, acho que vai dar m....!" E eu perguntei: "Porque, cara?" Ele então sacramentou: "Fui procurar o padre na sacristia para ver o que estava acontecendo, e encontrei ele já paisano arrumando uma maleta. Quando perguntei se ele não ia se aprontar para o casamento, me disse que não ia participar daquela bagunça, e que ia embora. Não acreditei, mas ele foi embora mesmo!"
E agora ? Os noivos no altar, a lgreja cheia de convidados, representantes do Governador e do Prefeito a bordo, e o mais importante, o Marechal Cordeiro de Farias na primeira fila achando tudo aquilo muito engraçado! Como e que o padre dá o pinote?!
Voltamos à sacristia para ver o que dava para fazer, e então encontramos o outro padre, o do casamento anterior, que tinha sido bombardeado durante o sermão pelo próprio Tuga, também arrumando seus paramentos numa malinha para ir embora. Este padre era a nossa única salvação, pois se ele não topasse realizar o casório, a confusão ia ser completa.
Fomos então solicitar a ele que realizasse a cerimônia, tentando explicar que aquilo era uma tradição, que éramos todos gente muito boa, etc., etc,. O padre nos fuzilou com os olhos, e talvez por ser um religioso e por estarmos dentro da casa de Deus, não pronunciou os palavrões que certamente lhe passaram pela mente... Continuamos a argumentar, e mais alguns intermináveis segundos se passaram até que o revoltado sacerdote finalmente admitiu conduzir a cerimônia, porém, não resistindo mais, explodiu rangendo os dentes: "Se eu ouvir qualquer ruído durante o casamento, vou embora e não caso F.D.P. nenhum!".
Feito o trato, voltamos para dentro da igreja e avisamos que agora a coisa era séria, e que todo mundo tinha que ficar calado. Foi o casamento mais rápido e silencioso que já vi até hoje! Apesar de alguém ter puxado umas palmas quando o padre apareceu no altar, o casório foi finalmente sacramentado! Aliviados da tensão, finalmente estávamos todos contentes com o desfecho. Nem bem o padre tinha dado as costas para a platéia, o Caju pegou um fumígeno, destampou o lado "Day" (O da fumaça vermelha), e o colocou respeitosamente sobre o altar principal. O efeito causado pelo pirotécnico foi incrível! Achando que aquilo fazia parte da decoração contratada, os convidados ficaram parados olhando a fumaça envolver toda aquela parte da igreja, o que me deu tempo de acionar um outro fumígeno na saída principal do templo. Em poucos minutos a igreja estava completamente IFR, e os pobres dos convidados tendo que tatear para conseguir sair e respirar um pouco de ar puro do lado de fora. A recepção foi na casa da noiva, onde a primeira providência que tomamos foi a de desligar a chave geral da casa e tentar roubar o bolo. Mas parece que a família da noiva já havia sido informada das nossas intenções, e montaram um esquema de segurança para proteger as comidas e bebidas! Achando que já havíamos sacaneado demais toda a cerimônia, deixamos o casal se mandar para a lua de mel sem maiores problemas, e nos retiramos da recepção.
Voltamos para a residência do Dr. Carlos, onde aos poucos foram chegando os amigos e parentes que queriam continuar as comemorações. Como sempre, nada faltava, a Dona Angélica já estava preparada para aquela Invasão, Rapidamente os empregados foram mobilizados a em pouco tempo comidinhas rolavam regadas por farto whisque. Uma nova festança começava!
Mais uma vez o Tuga me chama de lado. E eu: "Pó, Tuga, o que é desta vez?" E ele: 'Você não vai acreditar. Tem um caminhão azul ai na frente cheio de soldados da Aeronáutica." Realmente não acreditei, mas fui lá conferir. Encontrei um 2º Ten. I.G. meio sem jeito, no portão da garagem, com um Caminhão de Choque lotado de P.A. estacionado no outro lado da rua.
"Algum problema, companheiro?" perguntei. O Tenente então me explicou que tinham recebido uma denúncia do Bispo de BH, que um pessoal da Aeronáutica teria dado tiros a tentado incendiar uma igreja na cidade, ao endereço que lhe deram tinha sido o da casa do Dr. Carlos. Eu então disse a ele que estava tudo bem, e que tinha sido algum mal entendido. Feliz por não ter que tomar nenhuma atitude aquela hora da noite, o Tenente bateu uma continência, fez meia volta e decolou com sua garbosa tropa.
Voltei para dentro da casa para tentar recuperar o tempo perdido, e mal iniciara a explicação para uma jovem nativa de como se faz um barril na ala, quando alguém chegou avisando que tinha um Choque do Exército no portão. Eu falei: "Não, era da Aeronáutica a já foi embora." Veio a contestação: "Este caminhão é verde!"
Desta vez fomos todos lá fora conferir. e realmente um jovem Tenente do Exército, comandante do Choque, todo paramentado para guerra, contou a mesma estória, a da denúncia do Bispo. Enquanto ele falava, percebi que o Marechal Cordeiro da Farias vinha em nossa direção para saber o que se passava. Esperei que chegasse mais perto, a então pedi (maldosamente) ao Tenente que segurasse o meu copo de whisque. Quando o Marechal chegou e se dirigiu ao jovem oficial com um cândido algum problema, meu filho?", o rapaz quase teve um infarto, pois estava diante de uma lenda viva do Exército, e com um copo de bebida na mão, fardado e de serviço. Tentou me devolver o copo, e eu fingi que não vi. Mudou o copo de mão, bateu uma continência, disse que não era nada, pediu licença, fez meia volta e tirou o time de campo (levando o copo de whisque...).
Depois disso ficamos ainda no portão algum tempo conversando e aguardando os Fuzileiros Navais, que infelizmente não compareceram a festa.
No dia seguinte, já sóbrios, enquanto preparávamos as aeronaves para retornar a Santa Cruz, começamos a juntar todos os fatos ocorridos no dia anterior, e chegamos, por unanimidade, a uma conclusão: aquilo ia dar cadeia! Não deu outra: o Bispo da BH comunicou os fatos aos seus superiores, a creio que até a CNBB entrou na jogada, pois poucos dias depois fomos todos chamados pelo Brig. Edívio Caidas Sanctos, então Comandante do COMAT, que segundo soubemos depois, tinha recebido uma ordem do Gabinete do Ministro para "ouvir e punir os responsáveis".
Por sorte dos companheiros que foram de carro, só foram chamados os integrantes da Esquadrilha, que tiveram os nomes levantados nas fichas de hospedagem do cassino de BH...
Nossas previsões então se confirmaram: cada um de nós pegou 4 dias de prisão, com exceção do Maj. Baltar (o mais antigo) que levou 6 dias da cadeia, e do Cordeiro, que também foi chamado e só não foi punido porque era o noivo...
Creio que este talvez tenha sido um dos casamentos mais tumultuados de um Piloto de Caça, a com toda certeza, o único que terminou em cadeia.

Reinaldo Peixe Lima - Cel.Av.(RR)


COLISÃO COM PÁSSARO


No dia 08 de Novembro de 1983, as 12:30 P, decolamos da Base Aérea de Canoas (RS) para uma missão operacional de emprego do 1/14o G.Av, a qual constava de navegação rasante com ataque ao estande de Butiá (RS).
A esquadrilha, composta por 3 aeronaves F5-E, tinha como pilotos o Cap. Arsand (líder), Cap. Servan (nº 2) e Ten. Sevalho (nº 3).
Voávamos com velocidade de 360 KT, mantendo formatura para penetração rasante (100 a 500 ft acima do terreno), ou seja, O nº 2 voando de um lado do líder, afastado 1000 ft numa relativa de 45º, e o nº 3, do outro lado, mantendo a mesma relativa e distância.
Após 15 minutos de vôo, próximo a Bom Retiro do Sul (RS), eu voava à direita. do líder, acompanhando a navegação através de um cheque cruzado entre os pontos do terreno, o mapa e o cronômetro, ao mesmo tempo em que checava minha posição na formatura. Quando, ao olhar para frente, avistei um bando de urubus bem na minha trajetória de vôo, conclui que, pela distância, não daria tempo para desviar.
Como os urubus estavam no meu nível de vôo e acima, minha única chance de escapar seria tentar desviar para baixo e, apesar do desconforto e da resistência que, inconscientemente os pilotos opõem às manobras com "G" negativo, empurrei o manche para frente. Acompanhei a passagem do urubu mais próximo virando a cabeça para o lado direito, achando que ele bateria na empenagem vertical.
Foi nesse momento que senti o choque. Havia colidido com outro urubu.
A primeira sensação foi de dormência no lado esquerdo do rosto e que a visão não estava normal.
Imediatamente, recuperei a atitude normal de vôo porque estava me aproximando rapidamente do chão, comecei a subir para uma altura de segurança (2000 ft) e, enquanto fazia uma análise da situação, falei no rádio: "Bati num urubu!"
Quando falei, não ouvi minha voz nos fones do capacete. Como devido ao impacto, a máscara de oxigênio havia sido arrancada, achei que não ouvira a transmissão porque o microfone, que faz parte da máscara de oxigênio, estava muito afastado da boca. Com a mão esquerda, coloquei a máscara sobre a boca, abaixei a cabeça para apoiá-la sobre o peito e falei novamente. "Alô, alô, alô..." Continuei não ouvindo minha voz e achei que estava com pane rádio, desistindo de qualquer outra tentativa.
Posteriormente, fiquei sabendo que os outros pilotos da esquadrilha receberam minha transmissão, porque o fio que tinha se rompido era o dos fones e não o do microfone.
Haviam decorridos uns 60 segundos desde a colisão, e a situação era a seguinte;
- não sentia nenhuma dor, somente uma dormência no rosto;
- havia examinado meu rosto através do espelho do pára-brisa, verificando que o lado esquerdo estava disforme devido aos cortes, ao sangue e aos pedaços de carne do urubu, o que não me permitia avaliar corretamente a gravidade dos ferimentos. Aparentemente, a pálpebra do olho esquerdo estava fechada no meio daquela massa de carne, sangue e penas. O quadro me preocupou bastante. Achei que poderia ter perdido o olho esquerdo e não somente a visão.
- estava perdendo muito sangue e, por isso, temia perder os sentidos;
- havia um buraco, no alto, à esquerda do pára-brisa, e eu só podia enxergar para frente pelo lado direito, porque o outro lado estava cheio de rachaduras. Em função disso, reduzi a velocidade para 280 kt, a fim de evitar que a pressão aerodinâmica do ar pudesse quebrar totalmente o pára-brisa; e
- o avião voava normalmente, com os instrumentos dos motores dentro das faixas normais de funcionamento.
Se me ejetasse naquele local, a meio caminho entre Canoas e Santa Maria. além da perda do avião, que funcionava perfeitamente, o resgate de helicóptero demoraria demais e eu estava precisando de cuidados médicos com urgência. Além disso, uma ejeção naquelas condições poderia agravar meus ferimentos.
Optei por tentar voltar com o avião, pois esta seria a maneira mais rápida de eu ser socorrido.
Decidi que aproaria Canoas com curva pela esquerda, para dentro da formatura, para aumentar a possibilidade de que o outro avião da esquadrilha me visse e me acompanhasse, dando apoio caso eu necessitasse.
Ao fazer força sobre o manche para iniciar a curva, senti uma dor muito forte na altura do biceps do braço direito. Olhei para o local, notando que o tecido do macacão estava rasgado e sujo de sangue. Achei que o causador desse ferimento fosse o pedaço metálico do arco do pára-brisa, o qual havia se rompido com o impacto e estava cravado na forração interna da nacele, bem ao lado do braço ferido.
Optei por não olhar dentro do rasgo do macacão com receio do que pudesse ver. Preferi o desconhecido
A partir desse momento, a dor no braço não parou mais, só aumentou.
Mais tarde, a investigação do acidente ratificou minha suspeita; aquele pedaço do arco do pára-brisas cortou 50% do meu bíceps direito antes de cravar na forração interna da nacele,
Terminei a curva e verifiquei que a proa para Canoas estava somente 10º defasada do rumo da pista 12 , o que permitiria uma aproximação direta para pouso.
Mantinha 2000 ft e 280 kt. Pela distância da Base, levaria aproximadamente 10 minutos de vôo. Meu pensamento era que se começasse a me sentir mal devido à perda de sangue, me ejetaria. Só então vi que havia um F-5 na minha ala direita que, pela matrícula, era pilotado peio Cap. Arsand.
Informei a ele, através de sinais visuais, que eu prosseguiria na frente para pouso, ao que ele aquiesceu com movimentos de cabeça.
Naquele momento a dor no braço estava tão forte que não me permitia fazer mais nenhum movimento com ele. Apesar de estar segurando o manche com a mão direita, as curvas eram feitas com a mão esquerda mas, como podia ainda mexer o polegar sem aumentar a dor, utilizava o compensador do manche para variar a arfagem.
Ao avistar a pista de Canoas, iniciei os procedimentos para pouso. Através de sinais visuais com a mão esquerda, comandei o "flap de manobra" para o ala, e trem em baixo ao atingir a velocidade de 250 kt.
Então surgiu outro problema; ao fazer o cheque para pouso, verifiquei que as luzes de indicação de trem de pouso baixado e travado, das pernas principais, não estavam acesas, Somente a bequilha tinha indicação de travamento. Fiz sinal de trem de pouso para o ala, seguido do sinal negativo e ciclei a alavanca do trem. As luzes continuaram apagadas.
O ala iniciou o escalonamento para checar visualmente e, ao chegar do outro lado, fez sinal de que o trem estava baixado. Agora, eu só não sabia se ele estava travado.
Apesar de não haver indicação, eu havia sentido aquele tranco característico de quando o trem trava embaixo, o que me deixava mais confiante de que era somente uma pane de indicação.
A partir dai, passei a me preocupar somente com o pouso porque a visão de profundidade estava bastante prejudicada por não ter havido tempo suficiente para uma adaptação, e também porque teria que pousar com a mão esquerda.
Prossegui na aproximação final, mantendo 160 kt, 05 kt acima do previsto para aquele peso e configuração, para ter algum planeio após a redução das manetes,
Ao cruzar a cabeceira, reduzi as manetes e segurei o manche com a mão esquerda para manter o nariz do avião levantado até o toque.
Pousei curto e sai na interseção "Charlie" porque lá estava uma ambulância me aguardando.
Desci do avião, entrei na ambulância e segui para o Hospital de Aeronáutica de Canoas, onde passei algumas horas na sala de cirurgia para os remendos necessários.
Hoje, passados 14 anos daquele acidente que me privou da visão do olho esquerdo, período durante o qual tentei de todas as maneiras continuar pilotando e acredito ter provado, na prática, que tinha condições para isso e período, também, durante o qual encontrei o apoio de muitos e a incompreensão de alguns, estou afastado da atividade aérea.
Lembro com saudade daquela época em que servia no Esquadrão Pampa. Começaria tudo novamente.
A la chasse!!

Ten Cel. Av. Ricardo da Silva Servan



SANTA CRUZ: O BERÇO DA CAÇA


Século passado: Freguesia de Santa Cruz Zona Rural a oeste do Rio de Janeiro, distante umas 20 léguas do Palácio do Imperador. Assim deve ter sido informado D.Pedro II, quando veio a escolher aquele aprazível sítio para o seu merecido descanso, que pouparia Sua Majestade das cansativas subidas à serra de Petrópolis. Grande sabedoria!
Século XX: Campo de São José, subúrbio de Santa Cruz. Essa teria sido a resposta que os operadores do Graf Zeppelin receberam das autoridades brasileiras que lhes atribuíam uma área para a construção do hangar para aquele dirigível. Visão do futuro.
Em 1936, já consolidado como Aeroporto Bartolomeu de Gusmão, o Campo de São José recebeu a última atracação de um dirigível comercial. O Hindemburg, acidentado em 1937, fez aquele pouso em Santa Cruz. Entretanto, embora com os vôos dos dirigíveis suspensos, os alemães da Luftschifbau Zeppellin permaneceram em Santa Cruz, guarnecendo e fazendo a manutenção das instalações , inclusive do hangar e da fábrica de hidrogênio, que passaram a comercializar. Foram mais de 6 anos na esperança e na expectativa da reativação dos vôos dos dirigíveis alemães.
Em abril de 1942 foi ativado no Aeroporto Bartolomeu de Gusmão o 1º Corpo de Base Aérea. Segundo a estrutura do recém criado Ministério da Aeronáutica, o Corpo de Base era uma unidade destinada a operar uma Base; faziam parte do efetivo de oficiais do 1º Corpo os Capitães e/ou Tenentes José Vaz da Silva e Hérmio Vargas de Carvalho. Eles foram os primeiros aviadores a fincar a bandeira da FAB em Santa Cruz..
Com o País já em estado de beligerância, em 16 de janeiro de 43, o 1º Regimento de Aviação foi transferido dos Afonsos para Santa Cruz, de onde já vinha operando com seus Boeing F4B-3, Vultee V 11-GB-2 e Corsários V65-B desde o final de 1942. Naquela data, o Decreto-Lei 5.198 também mudara o nome do Aeroporto Bartolomeu de Gusmão para Base Aérea de Santa Cruz.
Embora os primeiros vôos de aviões de caça baseados em Santa Cruz devam ser atribuídos aos pilotos de Boeing F-4B-3 do 1º R.Av., os primeiros caças P-40 só começaram a operar em Santa Cruz, vindos de Natal, em outubro de 44. Enfim, cabe ao historiador apurar onde está a verdade histórica. Quem são os caçadores primogênitos?
Falei em sabedoria e visão de futuro. Facilmente, pode-se conferir. A extensa planície que contêm as regiões de Itaguaí, Japerí, Guaratiba e Santa Cruz, limitada pela Serra do Mar e pela, Baía de Sepetiba, possui uma climatologia peculiar. Sob uma frente fria, é a última a fechar; apesar dos baixios e manguezais, a formação de névoa úmida é raríssima; uma brisa constante sopra de nordeste pela manhã; se ocorre ao contrário, vindo de sudeste, é chuva na certa. Em contrapartida, à tarde, a brisa sopra do sul, indicando bom tempo, mas se o vento aumentar, virando para sudoeste, é sinal de chuva. E na pista, vento cruzado é coisa rara.
Nos meses de maio a outubro a brisa matinal se transforma num vento constante que normalmente atinge 18 nós, retesando a biruta do topo do hangar. E um fenômeno meteorológico característico daquela planície. Nessa época, quem viaja de carro pela Rodovia Presidente Dutra, no trecho entre Nova lguaçu e Raiz da Serra, sente no volante a brusca ação do vento ao entrar naquele "canal aerodinâmico" soprando da terra para o mar, e que pára, quase de súbito, por volta do meio-dia.
Certamente, por tal razão e pela reduzida densidade demográfica, o ar de Santa Cruz é diferente. Quem vive lá acostuma-se e não repara; mas é só ausentar-se por um período, curto ou longo, que ao regressar vai notar. O ar que se respira em Santa Cruz, hoje, é o mesmo que respirei há 50 anos quando fui lá pela primeira vez. Então fico pensando: aquele ar , aquela brisa, aquele céu, aquela enorme planície, não estão ali para agricultores, industriais, ou construtores de apartamentos. Estão ali, delineados por uma mão divina, especialmente para aqueles aviadores que voam muito em torno de suas sedes: os caçadores! E onde eles sempre viverão no futuro.
É um pedaço de espaço aéreo privilegiado onde o espetáculo não para. A memória fotográfica de quem passou por lá registrou com certeza, imagens inesquecíveis: o "balsing" do Maurício Seidl, levando o P-47 ate o vôo de dorso para enquadrar o objetivo, logo nivelando e atinando com as 8 ponto 50 para incendiar o alvo, provocando entusiasmo nos estagiários da turma T-48 do Curso de Tática Aérea e susto nos Aspirantes da minha turma; os "streams" de ponta de asa vistos pela primeira vez, provocados pelos P-47 nas cobrinhas sobre a Base; a rotação de 90 que o "hot pilot" Müller Bueno, decolando como nº 4 fez com o P-47 que mal saíra do chão, para cortar a curva de reunião, indo estatelar-se no Canal do Itá; a esmerilhada que o Vahia deu no "belly" do seu F-8, ao recolher o trem de pouso cedo demais quando decolava como nº2 de uma formatura de 16 Glosters, deixando um rastro de querosene pulverizado que borrifou quem vinha atrás. E o meu salto, que toda a Base viu... E, para variar, o pouso dos DC-3 da Comercial, quando o Galeão e RJ fechavam, uma festa para os Aspirantes residentes, com o Cassino de Oficiais fervilhando de passageiros(as) assustados(as), e um inferno para o Oficial de Serviço de Operações.
Em suma:
a atmosfera que sempre se respirou em Santa Cruz não é apenas diferente, é melhor!

Ten Brig (Ref) João Soares Nunes
(Pacau de Copas, Pif-Paf d'Ouros, Jambock honorário/ Jaguar honorário nº 16 )


SEM "CRASH-HELMET"(1) E COM ANJO DA GUARDA


1949. Acabara de deixar o comando do 2o / 1o Ca.(2) em Santa Cruz; era instrutor do Curso de Tática Aérea em Cumbica.
Até que não faltava avião para voar. Em ordem crescente de interesse; PT-19, BT-15, AT-6, AT-11, AT-7, B-25J, A-20K e P-47D40.
Podia-se voar de dia e de noite, já que morávamos na Base e vinha-se passar o fim de semana no Rio. Não havia limite de horas de vôo.
O vôo de P-47 era isolado. A acrobacia noturna era linda; em noite limpa via-se o céu alternar com a cidade toda iluminada lá ao longe. Era o nosso horizonte, de vez que a área da Base até a cidade era totalmente desabitada e escura. Esse divertimento não demorou muito e cortaram minha alegria.
O Oficial de Operações da Base não era muito chegado a esse esporte e, uma noite, quando estava tranqüilamente me distraindo, sou chamado pela Torre e mandado parar de fazer acrobacia.
Nesse dia o Operações iria pernoitar na Base e achou que era muito perigoso. Restou a acrobacia diurna.
Decolei por volta das 14:00 horas. O palco era a vertical da pista. O tráfego era muito pouco. Não havia aeroporto comercial e o vôo da Base quase nada.
Nesse dia talvez fosse a minha primeira manobra, um "looping"(3). Iniciei o pique para ganhar velocidade (Para os jovens que só voaram jato - era necessário picar e embalar para se fazer um "looping"), atingi umas 350 mph (Milhas por hora) e comecei a puxar, passando, em baixo, a uns 4.000 pés(4) acima do solo.
Estava agora subindo e atingindo uns 45 graus de cabrada(5) quando houve um estrondo.
O "capot" do motor, sua metade superior, se soltara, batera no parabrisas, rebatera sobre o "canopy"(6) e o estilhaçara; continuara em direção à cauda mas, ao passar sobre minha cabeça rasgara o capacete - aquele que não era "crash-helmet" e sim de lona - abrira um corte em meu couro cabeludo, espalhara dezenas ou centenas de estilhaços para todo lado e continuara em queda livre.
Com a pancada na cabeça eu desmaiei; o avião foi subindo, subindo e, quem viu do solo disse que parecia tudo bem, não fosse o avião começar a girar para o dorso já próximo ao estol(7).
Aí é que entra o anjo da guarda ! Foi nessa hora que eu recuperei os sentidos. Estava quase de dorso e muito mole; meu altímetro marcava uns 12.000 pés(4).
Minha cabeça doía muito; não sabia o que havia acontecido; a ventania dentro da nacele(8) era muito forte e não conseguia ver nada com o olho direito.
O motor rodava suave e grande quantidade de poeira subia do assoalho da nacele.
Passei a mão pelo rosto e a luva veio toda suja de sangue; alguma coisa espetava meu olho direito; a Torre perguntava o que havia acontecido.
Estava um pouco ao sul da pista e para leste. Pedi emergência e vim para o pouso. Sujei todo o avião(9) com trem, flap de pouso, flap de mergulho e abri o "cowl-flap"(10). Eu estava alto e queria chão o mais depressa possível
Lembro-me bem da final curta; toquei no início da pista e fui freando e cortando tudo que podia; motor, magnetos, bateria e gasolina.
Ao mesmo tempo fui apagando de novo. Acordei no acostamento esquerdo da pista, com a bequilha(11) furada e todo o resto inteiro. Como a torre havia acionado a emergência, a ambulância acompanhara meu pouso e um médico já estava na minha asa. Havia me desamarrado e forçava minha respiração apertando a mascara no meu rosto; logo após a pancada, eu selecionara o regulador para 100% de oxigênio.
Ajudou-me a descer, levou-me para a ambulância e direto para a enfermaria.
Meu olho direito continuava sangrando e ardendo. A cada movimento da pálpebra era uma fisgada. Pensei que tinha vazado o olho! Não sei quem cortou o que restava do capacete e do macacão e começou a limpeza.
Daí por diante, os doutores é que me contaram. Embora não tenha recebido anestesia geral, deram-me uma injeção que me deixou meio tonto.
O corte na cabeça levou uns doze pontos. Principalmente o lado direito estava cheio de pedacinhos de vidro e foi necessário retirá-los um a um.
O olho deu algum trabalho, porque havia pedaços de "perspex"(12) enterrados na córnea, depois de perfurarem a lente de celulóide(13) dos óculos que, felizmente, estavam baixados como manda o figurino - não fosse isso e eu teria ficado cego. O macacão, na região dos ombros, parte superior das costas e dos braços, estava todo rasgado e perfurado.
Aí os doutores se divertiram durante muito tempo com pinças, catando pedaço por pedaço, e me pintando todo com mercúrio cromo.
Passados uns dias, quando tudo parecia sanado e esquecido, na hora de me pentear - o que ainda fazia naquele tempo - comecei a sentir alguma coisa espetando na cabeça. Quando passava a mão e apertava, sentia que havia cacos de vidro (perspex) sob o couro cabeludo. Várias vezes tive que me submeter a anestesias locais para que os doutores, com pequenas incisões de bisturi, os pudessem retirar.
O final !
O que restou do "capot do motor", e não foi pouco, caiu sobre o prédio do comando com tremendo estrondo, furou o telhado e foi parar sobre a laje de concreto, bem em cima da sala do comandante da Base, onde ele se encontrava no momento.


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) "Crash-helmet" = Capacete anti-choque.
(2) Ca. = naquela época os Grupos da Aviação tinham a designação do tipo de seus aviões (Caça, Bombardeio Leve, etc.)
(3) "looping" = acrobacia que consiste em efetuar uma "cambalhota" para trás.
(4) pés = medida de altura em aviação (comprimento). 1000 pés equivalem aproximadamente a 300 metros.
(5) cabrada = ato de subir - levantar a parte dianteira (nariz) do avião.
(6) canopy = capota da cabine dos aviões de caça.
(7) estol = fenômeno da perda de sustentação aerodinâmica do avião.
(8) nacele = o mesmo que cabine.
(9) sujar = preparar (configurar) o avião para pouso.
(10) "cowl-flap" = aletas instaladas próximas ao motor que, quando abertas, aumentam a sua refrigeração.
(11) bequilha = pequena roda instalada na cauda dos aviões (quando instalada na frente também é chamada de "triquilha").
(12) "perspex" = nome comercial de antigo material similar ao plástico "acrílico" de hoje.
(13) celulóide = antigo material plástico, transparente em cuja fabricação entravam celulose e cânfora.

João Eduardo Magalhães Motta
Brig. Ref.- Piloto de Caça de 1945.

UM BUFÃO NO EXTERIOR


O teto era de uns 900 metros, a camada de estrato-cumulus encobria todo o céu, o ambiente era como o de um imenso auditório, um maracanãzinho supergigante. Era o Dia Nacional do Paraguai: na comprida avenida perfilavam-se as tropas militares para o desfile, A multidão, aglomerada ao longo do trajeto, e as tropas vestidas de gala davam colorido e toque de festa ao ambiente.
Na véspera, no aeroporto principal, houve demonstração aérea promovida por um pequeno avião a jato francês adaptado para manobras acrobáticas, o Morane Soulnier, MS-760. Mais uma esquadrilha brasileira de F-8 e seu avião reserva juntaram-se a essa demonstração.
O piloto francês era experimentado nesse tipo de demonstração; evoluiu todo o tempo diante do público que acorreu ao evento, explorando as manobras no plano vertical e mantendo-se dentro do campo visual da assistência. Nesse aspecto, nossa demonstração deixou muito a desejar nossas evoluções exploraram mais a velocidade e muito menos a capacidade de manobra dos F-8. Fizemos vários passes a 900 Km/h mudando apenas a formatura. O resultado foi que saímos do campo visual do público, além de demorarmos muito a reaparecer.
O "orgulho nacional" dos oficiais brasileiros que estavam assistindo a esta primeira demonstração (entre eles, vários do Grupo de Caça) ficou ferido e alguns deles procuraram por fogo nos brios do piloto-reserva, para que fizesse algo de espetacular e "recuperasse o prestígio" da Força, posto em cheque pela demonstração do francês. Imagine o leitor o fogo que acenderam no número 5, o reserva da esquadrilha!
Ficara decidido, a pedido do adido militar brasileiro no Paraguai, o Gigante H, que o reserva voaria no dia seguinte, o dia da parada antecedendo à esquadrilha.
O comandante dos cinco era o Lopes LG, que tinha uma grande estatura física e ainda maior senso de responsabilidade, o que o levava a ter grande receio de que qualquer exagero de entusiasmo viesse a resultar em acidente. Ele foi relutante em concordar que o reserva (a essa altura já possuído pelo espírito bufão passasse a 300 metros sobre a parada executasse um giro acrobático ascendente ao final da passagem. Mas o adido militar havia sugerido essa manobra e ele teve, a contragosto, que concordar. Não antes, porém, de recomendar em particular ao nosso "herói vilão e bufão" que se ativesse estritamente ao combinado.
Mas a mente endiabrada do vilão já estava determinada a tirar um zero dos 300 para as passagens, a multiplicar por cinco os giros acrobáticos em linha de vôo. Faria apenas uma "concessão" - subiria a 70 metros para os giros.
Enquanto falava o prudente, o vilão nada ouvia; em vez disso, repetia mentalmente seu plano diferente para o dia seguinte.
Chegara a hora da decolagem, uns dez minutos antes da hora culminante da parada, Presidente nacional e Presidentes convidados adidos, Oficiais Generais e demais pessoas proeminentes. Todos reunidos ;obre os palanques montados para o evento.
Decola o bufão e ganha altura, reconhecendo os pontos de referência que usaria no terreno para iniciar o temerário mergulho sobre a avenida da parada; marca o ponto terminal onde fará a curva ascendente de 90 graus para a direita, imediatamente seguidos de 90 nivelados para a esquerda roçando a base da camada de nuvens a 900 metros e continuando com mais 90 graus para a esquerda, descendo para a próxima passagem.
Tudo marcado, as manetes são levadas à plena potência, a avenida está enquadrada... ao ser atingido o nível das copas das árvores mais altas, o velocímetro marca 480 nós (890 Km/h); nessa velocidade ele sabe que terá apenas 2,5 segundos para esquivar-se de um obstáculo divisado a 500 metros à frente; calcula visualmente esse meio quilômetro e, sem piscar os olhos, vigia o aparecimento de quaisquer obstáculos, principalmente torres de energia elétrica de um lado e do outro da avenida1 denunciando a presença de fios (impossíveis de se ver naquelas circunstâncias). O bufão voa agora pouco acima do nível das copas mais altas, o que vê é um borrão de cores, divisado por visão periférica.
O efeito de estufa do ambiente daquele dia multiplica o ruído das turbinas e produz-se um efeito de alo luminoso em torno da máquina.
Ao passar a 30 metros, o palanque das autoridades move-se e descompassa o ritmo cardíaco dos presentes pelo susto. Alguns da tropa montada são derrubados de suas montarias pelos animais assustados.
Em manobra apertada, o bufão enquadra novamente a avenida e repete a passagem vindo da outra direção. Alguém de boa iniciativa, comandante da parada manda telefonar para a torre de controle do aeródromo e pede que se comunique com o piloto. A ordem é suspender os passes. Mas a mensagem só alcança-o quando já havia executado por completo o 'crime premeditado". Ao realizar o quinto giro acrobático 70 metros, ele ouve a mensagem da torre.
Ao ver a esquadrilha decolando para suas passagens corretas e prudentes a 300 metros de altura o endiabrado resolveu dar seu show para os espectadores que ficaram no aeródromo e "quebrou o pau" também lá.
Veio, então, para o pouso, não, porém, sem puxar um fechadíssimo pilofe. O vento soprava a 90 graus da esquerda, com referência à pista escolhida; tendo a manobra sido feita para a esquerda, os 90 graus finais da curva de 360 graus foram feitos com vento de cauda; portanto, com mais velocidade e curva mais apertada para compensar a massa de inércia do avião. O comprimento da pista era o mínimo recomendado para operação normal do F-8, cruzando a cabeceira da pista com 110 nós.
Teria sido melhor indicado usar a pista oposta, pois a última curva seria feita com o vento de frente, mas o vilão já estava com a cabeça quente demais para lembrar desse detalhe.
Veio mesmo com o vento de cauda na última curva. Por haver apertado excessivamente a manobra, a velocidade indicada não pôde ser reduzida idealmente, sendo mantida 20 nós acima. Na reta final curtíssima, foi aplicado o freio aerodinâmico, mas com aquela velocidade reduzida ele era de pouco efeito. O F-8 cruzou a cabeceira com 130 nós, 20 além do máximo recomendado para a pista. Na cabeça de show do bufão não passou a idéia de arremeter e sair para outra manobra de pouso. Em ação relâmpago, jogou as rodas no chão e apertou o freio, que no Gloster era um comando parecido com uma banana e no próprio manche. Sua ação era conjugada com os pés - quanto mais se afundava o pé, mais freio; todo um pé afundado significava 100% do freio liberado pela banana para aquela roda e 0% para a outra; centralizados os pedais, a ação de freio era aplicada meio a meio para cada roda.
Ao apertar a banana a pleno com 130 nós, não houve nenhuma resposta, o avião não desacelerou, era como se não houvesse freio; o atrito aquecera os freios a ponto de anular seu efeito. Afundando o pé esquerdo totalmente sem frear, o bufão jogou a roda esquerda para o limite da pista do lado esquerdo; quase chegando lá, chutou a fundo o pedal direito e apertou a banana... guinada do nariz para a direita, freio aliviado... quase no limite lateral direito da pista, chutou a fundo novamente , pedal esquerdo... e assim foi repetindo a manobra improvisada, até perceber que o fim da pista estava a uns 50 metros à frente e o avião ainda se movia com 40 nós sem querer parar. Recolher o trem? Mil vezes não, pensou o Bufão! Vou usar meu último recurso de criatividade. Havia ainda pela frente uma área gramada de uns 200 metros depois uma vala cruzando em diagonal o eixo da pista. O Bufão deixou o F-8 correr pela grama sem usar o freio, até sentir a vala a uns 50 metros. Então, chutou a fundo o pedal esquerdo, apertando a pleno a banana e ajudando com a turbina direita após iniciado o giro á esquerda... uma nuvem de poeira moveu-se em direção da cauda... e mais nada! A garça está inteira, parou sem quebrar, da mesma forma que os besouros voam ninguém consegue explicar como.
O "salvador" da honra pátria pára um momento para descarregar tremenda tensão emocional que viveu naqueles trinta minutos... e volta ao estacionamento a 10 km/h, com sensação de febre alta. Só agora estava chegando a hora da reflexão.
O terrível pensamento de considerar o que teria acontecido se houvesse a menor falha de pilotagem quando, rasante sobre a avenida, aumentava o calor febril.
Ninguém mais, além dele, compreendia a angústia daquele sentimento enquanto as têmporas pulsavam e a febre ardia.
Ainda se teria que defrontar com o Adido Militar numa festa à noite. Como sair-se dessa? Não havia remédio; teria que enfrentar. .
O Adido era um homem alto, pesadão e carrancudo. O bufão chegou propositadamente atrasado à festa e, temeroso, perfilou-se diante do homenzarrão para receber a reprimenda.
Mas em público, disse o Adido: "Grande vôo, garoto!". .
O alívio que essas palavras trouxeram não diminuiu em nada o tremendo sentimento de culpa do nosso Bufão.
Ao voltar ao Brasil, a punição foi em cascata, agravada de estágio em estágio da cadeia de comando, sempre pelo máximo permitido pela código... ainda assim foi pouco!

Cel RR Francisco Xavier Silva dos Santos Piloto de Caça Turma 1948.



NOS PRIMÓRDIOS DA AVIAÇÃO SUPERSÔNICA.

A notícia caiu como uma bomba no meio da tenentada, durante e leitura do Boletim no final do expediente, dentro do hangar do Zepelin naquela tarde chuvosa do mês de julho.
Corria o ano de 1973, e eu, 1º Tenente "antigão", líder de esquadrilha piloto de TF-33, F-8 e de AT-26 Xavante, servindo no 2º/1º Gp.Av.Ca. há mais de dois anos, estava sendo transferido para a 1a ALADA em Anápolis, juntamente com mais 4 companheiros do Grupo de Caça. O Jairo (Pirú), o Miana, o Fernandes (Piu-Piu) e o Cortez (Bidon), todos já casados, encararam bem a possibilidade de ir para Anápolis. Eu, pelo meu lado, fiquei meio preocupado em trocar o Rio de Janeiro por Anápolis. Principalmente sabendo que seria o único oficial solteiro servindo na 1a ALADA durante os próximos anos. Bem, afinal de contas a Força Aérea tinha recém adquirido os F-103 Mirage III para que nós, Tenentes e Capitães Caçadores, os voássemos. Assim sendo, fui matriculado no Curso de Aperfeiçoamento na EAOAr (que ainda era em Cumbica), e alguns meses depois me desimpedi de Santa Cruz. Juntei todos os meus pertences (couberam em duas malas) devolvi o apartamento alugado no Leblon, coloquei tudo dentro do meu Puma e "decolei" rumo ao Planalto Central.
Durante a viagem, com pernoites em São Paulo e Goiânia, tive bastante tempo para me acostumar com a idéia e, principalmente, começar a gostar dela. Senão, vejamos: piloto de caça, solteiro, com 26 anos de idade, cheio de saúde, com uma conta bancária ainda "adubada" em razão de uma Loteria Esportiva faturada em 1970, dirigindo um Puma amarelo novo (era o "carro" da época), estava sendo convocado para integrar o seletíssimo grupo de pilotos que teriam o prazer e a responsabilidade de voar um dos melhores caças do mundo, o Mirage III, famoso por seu desempenho nos conflitos do Oriente Médio. Era o primeiro avião supersônico a voar na Força Aérea Brasileira! Não havia do que reclamar. .
A chegada à Anápolis foi decepcionante. Entrei na cidade num domingo de manhã, com tudo fechado, poucas pessoas nas ruas, um deserto. Após dobrar umas três ou quatro esquinas, voltei ao ponto de partida e descobri que já tinha percorrido todo o centro da cidade. Quem conhece Anápolis hoje não imagina como era há 25 anos atrás...
Foi quando vi um militar fardado da Aeronáutica e me lembrei que eu tinha de achar onde ficava a Base Aérea. Era o sargento Fausto, controlador de vôo, que estava indo para a Base para entrar de serviço. Ofereci-lhe carona, e lá fomos nós. Passamos pela Vila dos Oficiais, pela Faculdade e pegamos a estrada Belém-Brasília, rumo Norte. Alguns quilômetros acima, 90 graus à direita para pegar um acesso de terra que terminava no portão próximo aos bombeiros: era por onde se entrava na 1a ALADA.
A Base ainda estava em construção, e as vias de acesso eram de terra. Não existia o prédio do Comando, nem rancho, nem hospital. Felizmente, o Cassino já estava pronto e lá me alojei. Os prédios do GDA e do hangar de Manutenção já estavam operando, mas uma poeira vermelha tomava conte de tudo.
No dia seguinte, apresentei-me ao Cel. Av. Antônio Henrique, o primeiro comandante da 1a ALADA, Jaguar 01 e um dos oito "Dijon Boys" que Fizeram curso do Mirage na França. Fui recebido muito bem pelo comandante", que me deu as boas-vindas e me informou que eu devia imediatamente me dirigir à quadra de futebol de salão, porque minha Esquadrilha (Amarela) ia disputar um jogo decisivo contra a Azul. Voltei ao Cassino e lá encontrei todos os oficiais, que se preparavam para o jogo e para a Educação Física.
Quase todos eram meus conhecidos, pois os que não tinham servido em Santa Cruz ou Canoas foram instrutores da minha turma no 1º/ 4 º G.Av. em Fortaleza, em 1969.
A 1a ALADA, naquela época, possuía, em seu efetivo, um Grupo de Caçadores fora de série, não só pela experiência de vôo como também pelas qualidades humanas e peculiaridades individuais de cada um.
Eram comandados do Cel. Antônio Henrique, por antiguidade, os seguintes Pilotos de Caça: Ten. Cel. Bins (Binsinho, Sub-Cmte.), Ten. Cel. Frota (Cmte. do GDA), Ten. Col. Jaeckel, Maj. Trompowski, Maj. Starling Maj. Blower, Maj. Villaça (todos "Dijon Boys") e, ainda, Maj. Fleury e os Cap. Candiota, Cardoso, Ary Pimenta, José Euclides, Iso Cavalcanti, Bukowitz, Montgomery, Túlio, Mourão e Rodrigues, além da tenentada citada anteriormente.
A instrução para nós, pilotos chegados em 1973, só começaria no início de 1974, de forma que passamos aquele final de ano pilotando o C-42 Regente na "coca-cola" para Brasília. Serviço também era conosco: OPO, Of. de Dia e também de controlador no Estande de Tiro do Gorilão, em Planaltina, onde o 1º GDA, ainda em dezembro de 1973. fez sua primeira campanha de Tiro Terrestre.
Aos poucos, nós, os recém-chegados, fomos tomando conhecimento da nova nomenclatura das coisas em Anápolis, pois, como era de se esperar após longos anos operando aeronaves americanas ou inglesas, a chegada dos Mirage trouxe junto toda uma nova influência francesa: novos nomes para instrumentos, partes do avião, manobras, novas músicas, queijos e vinhos etc. Tudo enfim, era alimentado por nós pilotos, que fazíamos questão de "afrancesar" o que fosse possível, pois desta forma demarcávamos nossa área, a dos Pilotos de Mirage, os únicos pilotos supersônicos da FAB! Assim, uma nova terminologia aeronáutica foi surgindo, logicamente envolta em muita gozação de nossa parte.
Imaginem Tommy Blower dando instrução de duplo-comando para o Burkowitz, e ordenando o seguinte: "Buko, agora verifica a "Boule," abre o PC "Maxi," e quando atingir Mach 1.25, verifica o "souri".
Os termos mais usados por nós, as novidades vindas da França que constantemente repetíamos (principalmente quando a platéia era de pilotos subsônicos), eram os seguintes:

Pos Combustion Pós-Combustão, popularizando o PC
PC Maxi Pós-Combustão Máxima
PC Mini Pós-Combustão Mínima
Radome Proteção de fibra que protege o Radar no nariz do avião
Pérche O grande sensor à frente do Radome, no nariz do avião
Sous arrière Pequeno tanque de combustível localizado sob a cauda
Bidon Tanque de combustível alijável, utilizado sob as asas ou fuselagens
BidonzaraIho O tanque maior, de 556 gl
Elevon Superfície de comando, que faz às vezes de aileron e profundor
Doppler Radar Doppler, novidade na época, com estações pré-programadas
Sur-vitesse Sobre-velocidade
Boule Indicador de Atitude
Souri Regulador de fluxo de ar , nas duas entradas de ar da turbina
Enfoncer No sentido de ligar. Logo virou enfunchar, na língua dos tenentes
Acrocher Acoplar (O Radar)
Mini-stop Dispositivo semelhante ao anti-skid
À la Chasse! Até hoje é o nosso grito de guerra

Iniciamos o curso teórico em abril de 1974, e após 12 missões (aproximadamente 10 horas de instrução duplo-comando), iniciaram os vôos solos. Isto aconteceu apenas depois que a primeira turma que solou no Brasil, cujos pilotos foram Fleury, Candiota, Mourão e Montgomery, ponderou contra as quase 25 horas de duplo-comando que foram obrigados a cumprir. Como na França tinha sido assim, os "Dijon Boys" com toda a razão, adotaram o mesmo Programa de Instrução em Anápolis. Após a chiadeira, uma criteriosa análise do Programa foi realizada pelos instrutores, que decidiram então pela redução no número de missões de duplo-comando, e o aumento de missões "solo".
Das duas, uma: ou os instrutores franceses não faziam muita fé nos pilotos brasileiros, ou os descendentes de Saint-Exupéry tinham uma certa dificuldade em aprender a voar a "Jaca"... Acho que a primeira suposição deve ser a mais correta, pois a gloriosa "L'Armée de L'Air" não tinha nenhuma amostragem da habilidade e da inventividade dos descendentes de Santos Dumont.
Estes primeiros anos de operação foram muito bons, pois as aeronaves estavam novas, havia muito suprimento e um bom suporte técnico dado pelos franceses. Voávamos bastante.
O SISDACTA não era operacional ainda, e os testes de detecção Radar aconteciam diariamente. Os Xavantes de Santa Cruz, operando de Anápolis, faziam determinados circuitos nas médias altitudes, enquanto os Mirage circulavam nas grandes altitudes, acima de 40.000 pés, auxiliando os técnicos na delimitação dos espaços onde haveria um controle Radar efetivo.
Nesta época, um Radar "Picador" (que nada mais era do que um Radar de Campanha localizado em frente à Torre, do outro lado da pista) garantia nosso recolhimento com qualquer tempo. Era um bom Radar, e muito bem operado por dois Tenentes controladores franceses, e também pelo Isso, Candiota e Miana, que receberam instrução desses oficiais, e posteriormente passaram a conduzir nossas operações com a mesma eficiência.
Quando o SISDACTA iniciou sua operação, já tínhamos alguma experiência em vetoração Radar, e as missões ,de interceptação, procedimentos GCA e missões de alerta previstas no Programa de Instrução finalmente tiveram início.
Que avanço incrível! como era bom voar controlado pelo Radar! Finalmente , o Caçador, que sempre esteve completamente só e isolado em sua cabine, tinha alguém olhando por ele! O controlador informava até posição das formações de nuvens pesadas! Durante as missões de combate na área de instrução, de vez em quando éramos questionados por ele: "Jaguar Amarelo: conta-corrente!", o que nos obrigava a olhar o totalizador e o liquidômetro, conferindo o combustível. Ou então: "Amarelo lider, 10 mil pés!'. Esta era a altitude mínima que determinava o encerramento do combate. Durante um deslocamento ou viagem, a qualquer momento o piloto tinha informações de proa, tempo, distância e condições meteorológicas de qualquer pista dentro de seu raio de ação, sem precisar abrir mapas e fazer contas. Isto era fantástico!".
Como diria o Blower: "Ah! Estes americanos..."
No final de 1974, o 1º GDA deslocou com oito "máquinas" para Fortaleza para realizar sua 1a Campanha de Tiro Aéreo. Seria o coroamento do ano de instrução, com a realização das missões que faltavam para a declaração dos novos Pilotos Operacionais. Os pilotos foram divididos em dois grupos de instrutores e alunos, e cada grupo permaneceu aproximadamente 20 dias operando no Nordeste. Que maravilha! Tiro aéreo, água-de-coco, e ainda tínhamos tempo de sobra para desenvolver um bom relacionamento com a população feminina local.
Na parte operacional, alguns problemas preocupavam o Oficial de Operações do 1º GDA quanto ao sucesso das missões de Tiro-Aéreo com , F-103 Mirage.
Senão, vejamos:
1) o avião-reboque teria que ser um AT-26 Xavante;
2) o Mirage III tinha dois canhões DEFA 3Omm, que atiravam defasados alguns graus um do outro, espalhando chumbo no mundo;
3) o diferencial de velocidade entre o Mirage III e o Xavante no momento do tiro seria em torno de 300 nós;
4) a biruta e ser utilizada seria a mesma do Xavante, de pano de cor branca;
5) o Mirage só realiza um tiro ar-ar efetivo se o Radar estiver acoplado no alvo;
6) a biruta do Xavante não tinha refletor Radar.
Com exceção do item n º 6, não havia com interferir no problema. O pessoal do Setor de Operações juntou-se, então, aos sempre "guerreiros' da Seção de Armamento e, depois de muitos estudos e tentativas conseguiram confeccionar um refletor Radar. Este refletor nada mais era do que uma chapa de lata, de 1 metro quadrado, dobrada ao meio em "V" e fixada no mastro da biruta!
Os procedimentos com o piloto do avião-reboque foram acertados, e decolou então o primeiro elemento de Mirage para a missão de teste do refletor Radar. A engenhosa invenção de nossos especialistas dera um bom resultado, mas outro problema surgiu durante este vôo de avaliação: o Xavante camuflado de verde, voando sobre os verdes mares cearenses era praticamente invisível, bem como a biruta de cor branca, que também se confundia com a espuma das marolas levantadas pelos constantes 15 nós de vento.
E agora? Como fazer para que os pilotos não perdessem de vista o reboque? Não tínhamos muito tempo a perder, e nem como repor as missões abortadas.
Mais uma vez a criatividade e o "jeitinho" resolveram o impasse. Não me lembro de quem foi a idéia genial, mas o avião reboque passou a levar na nacele traseira, de saco, um estagiário do 1º / 4º G.Av. munido de um espelho (daqueles do "kit" de sobrevivência, com um buraco no meio), que tinha por missão "iluminar" o Mirage que estivesse no poleiro iniciando mergulho. Não é que deu certo?
O "papo-rádio" recebeu então uma inovação: quando o piloto caía no mergulho já vinha gritando no canal tático: "Az no mergulho. Espelho, espelho, espelho !!!" e iniciava o desespero para avistar o avião-reboque. Só depois de avistar o reflexo do espelho salvador, o piloto podia colocar "piper" na posição correta, atrás do Xavante, para então deixá-lo escorregar até alcançar a biruta, e só aí iniciar a tentativa de acoplagem. Isto tudo acelerando a "viatura" para mais de 400 nós e procurando o ponto certo da reversão. Com o diferencial de 300 nós de aproximação da biruta, não sobravam mais do que alguns segundos para buscar a visada correta puxando os "Gs" necessários para tentar um bom tiro.
A rajada padrão era de 1/2 segundo, conforme previsto na N.P.A (será que alguém já conseguiu contar 1/2 segundo mentalmente durante o tiro? É uma dúvida que me persegue até hoje...), e imediatamente após nariz para cima, numa recuperação que mais parecia uma puxada de "looping" quase na vertical do Xavante. Sem tirar o olho do reboque, sem piscar para não perdê-lo de vista, o piloto afrouxava o manche lentamente para cair novamente no poleiro.
Depois de algumas missões de tiro-foto, já estávamos "safos" nos posicionamentos e nas manobras, quase um "ballet", em torno do avião reboque...
Começaram, então as missões "molhadas" de tiro real. Logo na sua primeira missão de treinamento, o "velho" Trompowski encheu a mão. Com apenas 25 tiros dados, fez mais de 10 furos na biruta! Para nós, era um ótimo resultado, partindo do principio que apenas dois tiros de calibre 30mm eram suficientes para derrubar um Caça.
Corremos todos para a crítica-foto, na intenção de aprender como se fazia, mas o filme não havia rodado. Mesmo assim, ficamos todos satisfeitos, pois ficou provado que, sendo bem pilotado, o avião fazia o seu papel e a coisa funcionava.
Nas missões seguintes ninguém acertou mais nada, nem um furo. No outro dia, depois de várias missões com a biruta voltando "cabaço", começamos a sentir que a coisa não seria como estávamos imaginando. Nas missões com 100 tiros começaram a ocorrer alguns poucos acertos coisa de dois ou três em cada missão, percentuais desmoralizantes para quem vinha de Esquadrões onde missões de mais de 50% (com T-33 e F-80) não eram raras.
O que estaria acontecendo? Já era para alguém ter feito uma missão decente!
Para cômputo do Esquadrão, apenas as três últimas missões iriam valer. Assim sendo, nossa agonia aumentava na medida em que chegavam ao fim as missões de treinamento, sem que conseguíssemos um bom resultado.
Pensando sobre o assunto, lembrei-me da fórmula de sucesso em combate aéreo, adotada por todos os ases e sobreviventes da guerra aérea que, como todos nós sabemos, e a seguinte: "Para se abater uma aeronave inimiga, é preciso mergulhar de cima, por trás, com o sol nas costas, chegar o mais perto possível sem ser percebido e dar uma boa "rajada!".
Foi, então, que percebi o que estava acontecendo: estávamos atirando de muito longe. A própria distância de "foul", onde o dedo já devia estar fora do gatilho, era muito grande.
Tomei, então, uma "importante" decisão: eu ia atirar de mais perto! Dito e feito! Fui confiante para as missões "valendo", e obtive o seguinte resultado:

número de acertos 21
minha média 7%
número de fouls todos os passes
minha média para o GDA zero%
conseqüência bronca & muitas estrelas(#)


(#)estrela= multa monetária (não oficial)
Coisas de Tenente! Bons tempos aqueles!

Peixe Lima, R - Cel. Av. RR.
Jaguar 25 Cmte. 1º Gp.Av.Ca.


1º/4º GRUPO DE AVIAÇÃO - 1963


O 1o/4o G.Av. no transcurso do ano de instrução de 1963, cumpriu sua missão em condições consideradas "de emergência" por toda a FAB.
A interdição de pista do aeródromo de Fortaleza (para obras) trouxe a conseqüente suspensão da Instrução dos Estagiários em 15 de abril de 1963. A partir dessa data, até 11de junho, a Unidade processou o seu deslocamento para a Base Aérea de Natal.
Cumprindo ordens do Comando da 2a Zona Aérea, ficou a Unidade pronta para deslocamento a partir de 0000P(1) de 12 de maio de 1963, só tendo conseguido o apoio necessário da Aviação de Transporte 30 dias após, ou seja a 11 de junho !
Note-se que as coordenações e ações necessárias a respeito haviam sido executadas entre 15 e 30 de abril pelo próprio Comando da 2a Zona Aérea (em Recife).
Essa deficiência afetou sobremaneira a moral da nossa tropa que iniciou a Operação sentindo-se "sem apoio".
O transporte de nosso material e equipamento foi realizado por aeronaves C-82 e C-119 do CATTER(2) e, no intuito de acelerar a operação, utilizando aeronaves-extras do GTE(3), Pq. Aer. Afonsos e os B-25 da BAFZ (Base Aérea de Fortaleza).
A 12 de junho de 1963 decola a primeira missão de instrução em Natal. Para tanto, o setor Operações foi obrigado a traçar novas diretivas de segurança, fazer novos levantamentos de meios de apoio; estudo da área, estabelecimento de procedimentos de emergência, adendos às NPA(4), etc. em tempo recorde.
Para o cumprimento de sua missão (instrução aérea em Natal e instrução terrestre em Fortaleza), foi a Unidade obrigada a dividir sua vida administrativa entre duas sedes.
Passamos a funcionar com 2 Ajudâncias, e 2 Chefias do Material e Seções de Suprimento, 2 Seções de Manutenção, etc.
Essa obrigação trouxe encargos novos, que consumiram incalculável número de homens/hora de trabalho fora do expediente normal, e obrigou a Unidade a manter expediente continuado nos dias de Sábado e Domingo (na sede de Fortaleza) nos setores de Comando, Ajudância e Chefia de Material (Suprimento e Manutenção).
A obrigatoriedade de dividir seu efetivo entre as duas sedes, e o compromisso de ministrar a instrução terrestre em sedes diferentes da instrução aérea, trouxe a necessidade de apoio de transporte entre ambas as localidades.
As ações do Comandante da 2a Zona Aérea demonstram, claramente, o interesse da autoridade na solução do problema. Assim, determinou que fosse assegurado apoio de transporte para nossa unidade por parte da BAFZ, Base Aérea de Natal (BANT) e Parque de Material de Aeronáutica de Recife (PAMA RF).
Essa determinação, entretanto, não foi cumprida pela BANT ou pelo PAMA RF já que, do total de 70 viagens de apoio, a BANT e o PAMA RF realizaram apenas 2 (duas) cada.
Isso trouxe sérios prejuízos, não só à operação em Natal como à solução dos compromissos administrativos/operacionais da Base Aérea de Fortaleza, já que a mesma arcou com a execução total do programa de apoio.
Visando as missões de suprimento e manutenção entre as sedes de Fortaleza, Natal e Recife, o Comando da BAFZ colocou à disposição do 1o/4o G.Av. uma aeronave T-6 G. Essa providência trouxe benefícios incalculáveis à condução dos trabalhos fora da sede.
A operação em Natal foi feita com mais de 50% das horas voadas de F-80/T-33, utilizando gasolina(5) 100 octanas. Esse procedimento obrigou cercar a instrução de cuidados especiais, no que se refere à utilização de regimes do motor e limites de operação. Apesar disso, conforme previsto antecipadamente, houve acréscimo de consumo de partes móveis do sistema de combustível (bombas, boosters, fluxômetros,
O dia de instrução, em Natal, iniciava à 06:00P, com a 1a saída às 07:00P, e terminando com o último pouso às 19:30P. Conseguimos, com grande esforço dos Instrutores - heróis anônimos da grande batalha - realizar 5 tempos de instrução por dia, o que garantia 24 saídas/dia com a disponibilidade média por saída de 4 F-80 e 2 T-33. Note-se que o nosso Esquadrão possuía, voando, 7 F-80 e 3 T-33!
Em conseqüência, a semana da manutenção iniciava às 07:00P de 2a feira e terminava às 18:00P do sábado. Esse esforço foi ainda mais solicitado, quando as inspeções de 100 horas dos motores passaram a ser feitas em Natal.
Durante a operação, o pessoal da manutenção conseguia bater vários recordes: mudar um pneu de F-80 em 4 min, realizar uma inspeção de motor em 48h e trocar um motor em 2 h.
O nosso pessoal subalterno ocupou a Base Oeste, em Natal e, apesar das deficiências das instalações, nunca teve sua moral baixa, demonstrando ser um composto de elementos de elite.
O Programa de Instrução foi cumprido com alterações, em virtude da Base Aérea de Natal não possuir "stand" de Tiro e Bombardeio apropriado normal o que assegurou, para a média dos Estagiários, 68 horas de caça.
Asseguramos, também, a conquista de alguns recordes quando o Esquadrão voou 493 horas em 16 dias (mês de outubro) e 198 h em 4 dias de instrução.
Com as obras da pista de Fortaleza no seu Estágio final, o Esquadrão iniciou seu regresso a 27 de novembro de 1963, depois de haver concluído a instrução a 26 de novembro ou seja, 3 dias adiantado.
A par de todas essas marcas obtidas na instrução aérea, cabe, ainda, anotar o exemplo de disciplina e organização que nossa Unidade deu, no período que passou em Natal.
O trabalho realizado pelo 1o/4o G.Av. durante o ano de 1963, representou experiência única na FAB, quando uma Unidade de Instrução, sem capacidade tática de mobilidade e flexibilidade, bipartiu-se e operou fora de sede, de forma continuada, por um período de 8 meses.
Em que pese o ônus trazido à instrução propriamente dita e/ou à administração da Unidade, a experiência trouxe alguns frutos dignos de nota e que representam incalculável acervo na obtenção de dados operacionais, para as necessidades futuras.
Cabe, ainda, anotar o espírito de sacrifício, compreensão do dever e responsabilidades do pessoal envolvido na "Operação Natal" e, ainda, a forma de perfeita identificação com o mesmo problema por parte dos Escalões de apoio da Base Aérea de Fortaleza.
No dia 6 de dezembro de 1963, a FAB recebeu, após o que acima ficou relatado, nova turma de PILOTOS DE CAÇA.

Lauro Ney Menezes
Maj.Brig. R.R.- Piloto de Caça de 1948.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) 0000 P = Zero horas(00) e zero minutos (00) no fuso horário do Leste do Brasil (P)
(2) CATTER = Comando Aerotático Terrestre.
(3) GTE = Grupo de Transporte Especial.
(4) NPA = Normas Padrão de Ação.
(5) Os motores à jato podem "queimar" quase todos os tipos de líquidos combustíveis. Os aviões F-80 e T-33 normalmente usavam um tipo de querosene de muito alta densidade energética, denominado JP-4. Este combustível atualmente só é usado por aviões militares americanos e naquela época só existia na Base Aérea de Fortaleza.
(6) CMMBEU = Comissão Militar Mista Brasil Estados Unidos.
(7) Realizou a EAOAR (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais) entre Junho 63 e novembro de 63

DEFESA AÉREA DO BRASIL


Embalado pela mentalidade de piloto de caça, cujas missões operacionais realizam em toda sua plenitude o sonho do aviador, assumi o cargo de GM-4 do Ministro Márcio de Souza e Mello, em 1967.
O Ministro Márcio, homem de grande visão e sabedor do que se passava em matéria de controle de trafego aéreo sobre o território brasileiro, por ia ter exercido o cargo de Presidente da CERNAI, conversava muito comigo sobre as idéias que eu lhe expunha, bem corno me transmitia os pensamentos preocupantes que constantemente o assaltavam quanto ao destino da FAB, ao declínio na área nacional que ela poderia sofrer por ação nem sempre patriótica de políticos e, a nível internacional, a queda do respeito e devida consideração ao Poder Aéreo do Brasil.
Por outro lado, eu já conhecia o assunto "Defesa Aérea", não só porque o havia estudado na ECEMAR como, também, por ter sido instrutor dessa matéria na Escola de Aeronáutica, em 1960.
Além disso, durante uma visita aos órgãos de controle de tráfego aéreo e de auxílio à navegação aérea dos Estados Unidos da América do Norte, em 1964, tomei ciência de como aquele pais executava a respectiva Defesa Aérea e das dificuldades que de vez em quando surgiam como conseqüência do fato de haver dois sistemas semi-independentes envolvidos na execução do processo com um modo de defesa aérea: um operado por pessoal civil e outro, por pessoal militar.
Em outras palavras, como os dois sistemas não eram integrados, havia um momento crítico durante o processo de defesa aérea, que era a transferência de operação da responsabilidade de um sistema para o outro. Felizmente, esse problema não existia no Brasil, já que o pessoal de controle aéreo e proteção ao vôo era militar.
E foi assim que surgiu a idéia da criação de um sistema integrado de controle de trafego aéreo e defesa aérea, pois essas duas ações se complementam quanto a infra-estrutura de superfície e ao controle aeroespacial.
Para se ter uma idéia do que se fazia no Brasil antes de 1969, basta dizer que o controle de vôo, além de cobrir um espaço relativamente pequeno em relação ao território nacional, era baseado em dados fornecidos por quem era controlado, fossem eles verdadeiros ou não, razão pela qual o nosso país era considerado zona perigosa pela aviação comercial internacional.
Quanto à defesa aérea, na prática ela inexistia, o que muito preocupava o Ministro Márcio, por considerá-la, juntamente com a Aviação Estratégica, garantia da existência da Força Aérea no Brasil, pois essas missões só podem ser executadas pela organização que tem capacidade operacional para atuar na dimensão aeroespacial, ou seja, a FAB.
O Sistema Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (SINDACTA) começou a ser planejado e seu projeto tornou-se uma bola de neve, uma vez que as necessidades em pessoal, tecnologia, equipamentos e, principalmente, recursos financeiros cresciam em progressão geométrica, o que demandava tempo e muita paciência para a execução gradual das diversas etapas. Embora muitos anos já tenham-se passado, lembro-me que inicialmente o Gabinete do Ministro lançou mão, não me recordo se formal ou informalmente, de dois oficiais do Estado-Maior da Aeronáutica, devido ao fato de haver necessidade de um elemento de ligação com aquele órgão, uma vez que a coordenação dos demais órgãos envolvidos no empreendimento era dele, e também porque naquela época o controle das finanças do Ministério da Aeronáutica era efetuado no EMAER; foi assim que o Jordão e o Mil-Homens passaram a fazer parte da equipe encarregada do projeto.
À medida que o trabalho foi sendo desenvolvido, outras convocações de pessoal foram sendo feitas.
No que concerne à Defesa Aérea, chegou-se à etapa de seleção das aeronaves projetadas prioritariamente para o cumprimento daquela missão e a escolha daquela que fosse mais conveniente e interessante para a FAB e para o Brasil.
Para isso foi criada a CEPAI - Comissão Especial para o Projeto Aviação de Interceptação, com missão bem definida.
Daí para frente o Menezes já relatou sucintamente o que ocorreu ate a escolha e autorização presidencial para a aquisição de dezesseis aviões MIRAGE III.
Todavia, o Menezes, no seu relato, menciona a reviravolta da decisão do Governo norte-americano, chegando mesmo a insistir para que o Brasil enviasse uma equipe para voar a aeronave F-5A.
Essa insistência não ficou só no convite supracitado, pois lá pelas tantas o Ministro Márcio recebeu a visita de um cidadão norte-americano, cujo objetivo era convencer o Ministério da Aeronáutica a adquirir o referido avião.
Como eu era o responsável, dentro do Gabinete do Ministro, pela solução da escolha da aeronave de Defesa Aérea para a FAB, o Ministro Márcio encaminhou o cidadão em apreço para mim.
Esse senhor, cujo nome não me recordo, apresentou-se como sendo primo e assessor do Presidente dos U.S.A., Mr. Richard Nixon, e disse que havia sido incumbido pessoalmente por ele para convencer as autoridades brasileiras competentes a adquirir aeronaves F-5 A.
Desde o início do processo de aquisição em tela, havia no Gabinete do Ministro uma ligeira preferência pelo avião PHANTOM F-4 por várias razões, entre as quais posso citar:
- vínculo operacional sólido entre a FAB e a USAF, adquirido durante a 2ª Guerra Mundial, quando aquela Força Aérea fazia parte do Exército americano (USAAF);
- a maior parte dos equipamentos aeronáuticos do Brasil era de procedência norte-americana;
- conseqüentemente, as atividades e estrutura brasileiras de suprimento e manutenção baseavam-se em normas e procedimentos da USAF;
-existência da Comissão Aeronáutica Brasileira em Washington (CAB-W);
-a literatura inerente a equipamentos aeronáuticos importados era, em sua maioria, de origem norte-americana; e
- era opinião quase unânime ser o F-4 a melhor aeronave interceptadora de defesa aérea na ocasião.
Por esses motivos, disse ao referido senhor que, ao invés de perdermos tempo com o F-5A deveríamos começar logo a discutir e a negociar a compra de aviões PHANTOM F-4 por parte da FAB.
Ele me respondeu que isso era inviável, por contrariar a política norte-americana de não fomentar corrida armamentista na América do Sul.
Disse-lhe então que o F-5A não interessava à FAB e que se os U.S.A. desejavam ganhar a concorrência internacional para fornecer aeronaves interceptadoras no Brasil teriam de propor a venda de aviões PHANTOM F-4, o que ele reafirmou ser impossível.
A não aceitação do F-5A por parte da FAB devia-se ao fato de ser do conhecimento geral as deficiências que ele apresentava quanto à sua autonomia e a relativamente baixa potência das respectivas turbinas para missões de interceptação e combate, o que também limitava o seu poder de fogo.
Mais ainda, de acordo com a conclusão do relatório do comandante do "Tiger Squadron", ativado para testar o F-5A em condições reais de operação no Vietnã, "essa aeronave não interessava ao inventário da USAF; seria boa para o Programa de Assistência Militar".
Ora, se o F-5A não interessava à USAF, por que serviria para a FAB?
Depois disso o mercado norte-americano deixou de ser cogitado como fornecedor do avião interceptador da FAB naquele momento. Talvez deva também ser trazido a público as principais razões que levaram o Ministério da Aeronáutica a descartar as aeronaves SAAB DRAKEN 35 e o LIGHTNING MK-55.
O primeiro, de fabricação sueca, teve como principal obstáculo o fato de ter sido projetado para operação em clima de inverno rigoroso corno o que atinge os países escandinavos, e por isso não se adaptar na versão original ao clima de países tropicais.
Como efeito, haveria necessidade de o projeto do avião ser retornado à prancheta dos engenheiros, a fim de que fosse "tropicalizado", isto e, que ele fosse redimensionado para nova distribuição interna de equipamentos adequados a operação em condições climáticas bem diferentes e temperaturas bem mais altas encontradas no Brasil, o que, obviamente, elevaria o valor do contrato de compra e venda.
Além disso, a inexistência de um fluxo de suprimento até então entre a Suécia e o Brasil e a diferença de normas e métodos de manutenção entre as respectivas Forças Aéreas provavelmente demandariam um tempo de adaptação superior ao desejado.
Já a aeronave inglesa LIGHTNING MK-55, apesar de ter sido a primeira a ser discutida e negociada com a equipe que a representava especificamente para essa oferta à FAB, encontrou dificuldades de natureza econômico-financeiras quanto aos interesses nacionais, uma vez que a Inglaterra não quis abrir mão de uma formula contratual para a correção monetária do valor das parcelas financiadas, alem de exigir o pagamento de mais de 50% do valor total do contrato antes de entregar o primeiro avião, o que não era nada confortável para o Brasil, devido à cláusula "Atos de Deus" que isentava o fabricante de multa caso não cumprisse os prazos de entrega fixados.
Com os franceses foi mais simples negociar, já que o objetivo da França era exportar o que fosse possível e impossível e ela, na época, estava vendendo aeronaves MIRAGE para vários países.
Assim, a negociação da compra dos aviões MIRAGE III para a FAB foi relativamente fácil, embora as discussões com os franceses as vezes não tenham sido muito tranqüilas.
Acredito que eu tenha esboçado um quadro conciso, porem satisfatório, do que se passou na fase do projeto SINDACTA, que resultou na introdução no Brasil da Aviação Supersônica de Caça de Interceptação para Defesa Aérea.

Cel.Av. R.R. Cassiano Pereira
Piloto de caça - Turma 1952
ex-Cmt. 1º /4 º G.Av.


ACONTECEU TAMBEM...


Onze de novembro de 1955. Para a velha guarda esta é uma data muito significativa, uma das mais políticas de todos os tempos. "Novembrada", retorno à normalidade constitucional, volta aos quadros vigentes. No centro político do Poder Nacional o ambiente era tenso e os quartéis "ferviam".
Estávamos em Natal, onde terminávamos um dos mais felizes anos de nossa vida militar e profissional. Na véspera tínhamos concluído o estágio de seleção de caça no 2º/5º G Av., e aguardávamos a cerimônia de encerramento programada para o dia 15.
Dos 36 estagiários iniciais cerca da metade conseguia chegar ao final. Já gozávamos a possibilidade da classificação em um dos dois "terríveis" lugares a que o fluxo de carreira nos conduziria, Santa Cruz ou Canoas.
Santa Cruz, perto de casa, com as recordações da Campanha da Itália, que sempre exerceu tremendo fascínio sobre mim. Canoas, lá no gauchal, motivo de misteriosas lendas propagadas pelos PAMPAS. Domínio de Lima Mendes e Diomar Menezes um, de Rafael e Argolo outro. Fantasmas que tomavam conta de seus espaços, asas cortadas em serviço da Força, mortos pela dedicação com que se engajavam em transmitir ensinamentos adquiridos pela jovem FAB, nos rigores de uma guerra fora do continente.
Tínhamos passado rigorosa seleção e considerávamo-nos os maiores Ases de todos os tempos. Durante todo o ano tínhamos estado na ala dos melhores instrutores do mundo. Horácio, Silas "El Encaudador", Feitosa, Oliveira, Teodósio, Zani, Rezende, Porto, Melinho, Granja... Em suas alas participamos de inúmeras demonstraçôes de arrojo e perícia, cumprindo missões. . . ou não.
De vez em quando, fazíamos a alegria da manutenção no regresso das missões, ou a alegria dos banhistas nas praias e, às vezes, da população amiga de Natal. Aliás, povo amigo ali estava. Que paciência tinham conosco, jovens irreverentes que muitas vezes abusavam da bondade potiguar. Quanta "bagunça" fizemos no cinema América, sempre bem absorvida por aquela gente maravilhosa. Na manhã daquele dia 11, linda por sinal, fomos escalados para um vôo de manutenção de T-6. Estávamos radiantes. Tínhamos passado pela terceira seleção (a primeira na EPCAR, a segunda na Escola de Aeronáutica, a terceira, agora, no 2º/5º G Av. Nosso sonho estava perto de se concretizar: Santa Cruz, e o lº Gp.Av.Ca. Eu era do Rio de Janeiro, havia ido muito bem no estágio, porquê iria para Canoas?).
Na hora de vestir o macacão de vôo lembrei-me da moça com quem flertara na semana passada e que muito me tinha impressionado. Era uma "deusa" que havia sido sagrada Rainha das Praias, ou Rainha do Verão Potiguar, qualquer coisa assim. Restava-me pouco tempo em Natal, mas quem sabe? Coloco as botas, equipo-me, e aí chega ao meu lado o Montandon, grande Az da nossa turma, com sua fala enrolada e pergunta:
- E ai, Carlão? Também estou no vôo, num outro T-6. Que tal?
Sinto que o capeta acabou de incorporar. Digo-lhe que não tem combinação.
- Sai para lá. Quero voar sozinho. Vou comemorar muita coisa, e não quero companhia, obrigado.
Eu queria comemorar a vitória do menino que um dia, lá pelos idos de 1944, sentindo a falta de Mário, amigo de meu irmão mais velho e assíduo freqüentador dos saraus das sextas-feiras que se realizavam em minha casa, perguntou:
- Afinal onde é que anda o Mário?
E aí me responderam:
- Você não sabe? Foi para a guerra, com um tal de Grupo de Caça.
Pronto, a guerra acabou. Para mim o Mário, recém-formado Sargento Especialista da Aeronáutica, "paquerador" da minha irmã, era herói para chegar lá e acabar com aquela bagunça toda.
Um certo dia de junho de 1945 me disseram "O Mário vai chegar da guerra". Fui esperá-lo na Avenida Rio Branco. De repente, avenida lotada, multidão praticamente histérica, chegam os pracinhas. Beijos da multidão. As mulheres os tiravam de forma e abraçavam com grande fervor. Era a pátria reconhecida. Quantos papeizinhos vi serem entregues furtivamente, protótipos do que hoje se chama "torpedos"
Aproximam-se caminhões pintados de cáqui. Em cima estão aviadores, do ar e de terra, para mim aeroespaciais, vindos de outras galáxias, vestidos de cáqui e bonés brancos muito amassados, tipo rasgadões. Lá estava o Mário. Não deu para gritar seu nome pois emudeci com a visão dos aviões entrando rasante pela Avenida. Que espetáculo!
Vou ser disso aí! E fui!
Era uma vitória que tinha todo direito de comemorar.
Cheque externo, cheque interno, ansiedade, coração explodindo no peito, dei partida no T-6, joguei meu código e sai taxiando. Surpresa. Olho para o lado e vejo o Montandon bem perto fazendo sinal de que ia comemorar comigo. Faço sinal para que se afaste. Ele distancia um pouco.
Consigo autorização para decolar. Alinho o avião no centro da pista. Um vulto a esquerda me chama a atenção. É o Montandon, espremido no canto esquerdo da pista. Seja o que Deus quiser! Vamos para o céu. Ou para o inferno!
Decolo individual; acho que o Montandon abriu para não dar na vista do pessoal do esquadrão. Curvo à esquerda e logo em seguida o vejo escorregar na ala, do lado de dentro para o lado de fora da curva.
Aprôo a praia, à direita da cidade e já fazemos nosso primeiro rasante. Espero que ele suba quando necessário, penso comigo, não vou comandar nada.
Em determinado momento comando a reunião. A partir daí, o capeta realmente incorporou. Manhã linda. Céu azul, água bem verde, resolvemos fazer uma série de acrobacias na ala, do jeito que nossos instrutores gostavam de fazer conosco. Vamos baixando, iniciando o "looping" rasante no sentido do litoral. Agora uma série de "tounneaux" lentos, bem preguiçosos, com o Montandon dando show na ala. Vá ser bom assim!
Então o capeta soprou no meu ouvido: passa na Escola Doméstica que a moça vai adorar.
Onde é que está a Escola? Ali, do lado daquele quartel do Exército, para cá daquela subida onde fica o Hospital. Comando a cobrinha e lá vamos nós. De quando em vez troco o passo da hélice para dar maior emoção em baixo. Montandon ajudando, já nem o vejo. O problema é dele. Ala bom não perde o líder de vista e ele é simplesmente sensacional.
De repente o anjo da guarda expulsa o capeta. Venho a mim e me dou conta de que devia estar exagerando. Nunca tive notícias de qualquer instrutor que abusasse desse jeito. Já não estava mais copiando ninguém. Estava, sim, inventando demais.
Chamo a torre e inicio o regresso à Base. O Montandon, muito vivo, se afasta e logo depois chama também pedindo instruções para o pouso.
Chegada no estacionamento, em frente ao esquadrão. Estranho! O que estão fazendo tantos militares do Exército e da Marinha ai no Esquadrão! Tem gente até de cadeiras-de-rodas e de muletas ali na frente. Que houve?
Vejo o Horácio vir caminhando na minha direção. Cara de muito zangado. Sobe na minha asa, nem me deixa sair da nacele. Começa a repreender-me seriamente... Só ouço o final: "Estão desligados da Caça. Recolham-se presos ao alojamento".
Só no alojamento é que fomos saber da "novembrada" no Rio. Em Natal somente a cúpula da Base sabia o que estava acontecendo. No 1º/5º G.Av., do Vahia, todos sabiam. No 2º/5º G.Av. à exceção do Comandante, ninguém sabia de nada. Nós muito menos.
Existia uma combinação com as demais autoridades militares da área sobre a possibilidade de deterioração da ordem política no País, com envolvimento da autoridade militar dividida então em dois grupos: Eduardo Comes e Henrique Teixeira Lott. Em caso de emergência passaria um T-6 da Base sobre a cidade, em passagens baixas e com troca de passo da hélice. Seria o sinal para todos que estivessem fora retornarem aos quartéis, do jeito que estivessem e com os meios que pudessem arranjar.
Esse povo esperava UM e teve DOIS aviões, fazendo muito mais do que trocar o passo da hélice. Só podia tratar-se de guerra a vista, muito mais que emergência. E correram todos para os quartéis!
Na fotografia da turma de conclusão de curso eu e o Montandon não aparecemos. Estávamos desligados da Caça e íamos parar em Belém, se não me engano.
Dois ou três dias depois os Instrutores se reuniram e pediram ao Comandante que o caso se encerrasse com a punição, no que, para felicidade nossa, o grande Horácio concordou.
Eu fui para Santa Cruz, e o Montandon para Canoas. Juntamo-nos depois no 1º/4º G.Av., onde participamos juntos de outras divertidas e emocionantes histórias.

Carlos de Almeida Baptista - Ten.Brig.
ex-Cmt do 1º Gp.Av.Ca.


 

 

ESTÓRIAS DA CAÇA


Ano: 1963
Local : Fortaleza
Esquadrão: 1º / 4º G.Av.
Missão: Vôo de Esquadrão - 8 av + 1 av (reserva em vôo)
Data: Um dia festivo
Escala: Lider do Esqd.- Maj. Av Menezes (Cmt. do 1º / 4º G.Av. )
Av. Reserva : 2º Ten Av. Euclides
Cena : Dia anterior - apenas 8 aviões (F-8O e TF-33) disponíveis. O Ten Euclides na pista atrás de disponibilizar mais um avião para o vôo do dia seguinte. O 3S Cid (mecânico famoso, pois suas ferramentas se resumiam numa só - uma única chave de fenda de meio metro enfiada na cintura), já doidão porque sabia que não teria avião reserva disponível para o dia seguinte e com o "Zé Euclides" atrás dele o tempo todo pedindo para disponibilizar mais um avião, sem saber mais como se livrar dele, num lampejo do sabedoria, disse-Ihe que iria disponibilizar o F-80 "4225" para ser o reserva no dia seguinte. O "Zé EucIides", todo satisfeito, foi para Cassino feliz da vida com o seu aviãozinho prometido... A manutenção suspirou aliviada...
Dia do vôo : "Zé Euclides" apanhou a disponibilidade e recebeu "4225" como Av. Res. Foi para a sala do brifim, quando a Maj. Menezes Ihe disse que só tinha 8 aviões e que ele, Euclides, estaria dispensado do vôo. O "Zé" retrucou dizendo que tinha conseguido disponibilizar mais um avião e, portanto, tinham 9 aviões disponíveis. Assistiu ao brifim e ao término distribuiu os aviões colocando a plaqueta do "4225" no seu nome.
Todos se equiparam e partiram para os aviões. O "Zé" ficou procurando o "4225" na pista e, como não encontrou, saiu perguntando onde estava o avião? A resposta veio imediata - na entrada da base! O "F-80 4225" era o avião-monumento!
Coitado do 3S Cid! A iniciativa custou-lhe uma boa detenção!
Obs.: Esta estória foi contada pelo próprio S.O. R.R. Cid no dia do aniversário do 1º/4º G.Av. em 29/jul/98 e assistida pelo Bhering (Brig R.R.) e pelo Luzardo (Cel. Av. R.R.). Demos todos boas gargalhadas...

Bons tempos!!!



A IMPLANTAÇÃO DA DEFESA AÉREA : ORGANIZAÇÃO E MEIOS


Antecedentes
O ano era 1967 e assumia o Ministério da Aeronáutica o ministro MARCIO DE SOUZA E MELLO. Homem sábio, pleno conhecedor da Aeronáutica e do "métier" da arma aérea, se permitia filosofar em torno de temas que, em sua opinião, deveriam ser tratados com extrema prioridade pois, caso assim não fosse, estaria sendo colocada em risco a "sobrevivência do Poder Aéreo Brasileiro". Esses temas eram: a Capacidade Aeroestratégica e a Defesa Aérea.
Dizia, então, o Min. MARCIO: "a capacidade aerotática existente na FAB, e que a tantos encanta, poderá vir - a qualquer momento - ser questionada, independentemente da Doutrina. Basta acrescentar o componente da "vontade política governamental" ao processo, para que Exército e Marinha passem a executar as tarefas aéreas (táticas) de interesse de suas próprias operações, com seus próprios meios. Entretanto, jamais, sob qualquer argumento, as tarefas aeroestratégicas e de Defesa Aérea serão alocadas a qualquer outro segmento do Poder Militar, que não seja ao PODER AÉREO!"
Com essa visão aparecem, pela primeira vez, no Organograma da Reforma Administrativa do Min. Aeronáutica (Dec 60.521 de 30 Mar 67) o COMANDO AÉREO DE DEFESA AÉREA e o COMANDO COSTEIRO (com encargos aeroestratégicos). Como conseqüência, além do surgimento organizacional, cabia prover os meios, para tornar realidade o conceito filosófico.
Àquela época, ocupava a função de Chefia do GM4 o Cel Av CASSIANO PEREIRA, exímio Caçador e homem sobejamente conhecido por suas posições firmes no exercício da profissão. Absolutamente alinhado com a filosofia do Ministro, coube ao Cel CASSIANO criar e operacionalizar a CEPAI (Comissão Especial para o Projeto Aeronave de Interceptação). Essa Comissão trataria dos estudos relativos à escolha de uma aeronave pura de interceptação, nova (sem ser usada) e supersônica.
Esses requisitos eram originados do pensamento do próprio Ministro. Para tanto, o GM4 designou o então Membro do Gabinete do Ministro, Ten Cel MENEZES L.N. para Chefiar a CEPAI, fazendo agregar a ela o Ten Cel MARCIO NOBREGA MOREIRA (GM3), o Ten Cel ANTONIO CLARET JORDÃO (EMAer) e o Maj Esp CESCCATO (DIRMA).
A CEPAI estruturou seus trabalhos em Projetos: Projeto USA, Projeto França, Projeto Inglaterra, Projeto Itália e Projeto Suécia. A idéia era avaliar, respectivamente, as aeronaves F5A/B, MIRAGE III, LIGHTNING MK55, F104 e SAAB DRAKEN. Para tanto, consultas formais, a nível de Governo, foram iniciadas com vistas a enviar equipes de avaliação a esses países.
Surpreendentemente, o Governo norte americano se colocou contrário à avaliação de aeronaves supersônicas por parte do Brasil já que, em sua concepção, aeronaves dessa performance estariam vetadas aos países latino-americanos, por desequilibrar "o balanço do poder ao Sul do Rio Grande"...
Isto posto, a avaliação do F5A/B foi eliminada e a CEPAI fez organizar seu roteiro de avaliações incorporando, para isso, alguns Pilotos de Caça das Unidades Aéreas para compor seus times. Dessa forma, os Projetos tiveram a seguinte constituição:
França:
Ten Cel Av MENEZES, LN <B
Maj Eng OSIRES, S
Inglaterra:
Ten Cel Av MENEZES, LN
Maj Av BARROS, AFS
Maj Av FROTA, IM
Maj Eng ROBERTO
Itália;
Ten Cel Av DELVAUX,
Maj Av FROTA, IM
Suécia;
Ten Cel Av DELVAUX,
Maj Av FROTA, IM
Cada um dos times cumpriu sua tarefa de avaliar um interceptador para guarnecer o recém-criado COMDA e produziu seus relatórios.
Inesperadamente, no transcurso do andamento dos Projetos, o Governo norte-americano insiste para que o Brasil envie um time para voar o F5A/B, embora permanecessem as restrições de exportação. A contragosto do Min. MARCIO (pressão política?), a CEPAI montou um novo time para a missão USA, composta de:
Ten Cel BARROS, AFS
Ten Cel ERNANI, A
Ten Cel MARQUES, HPC
Essa avaliação(?) foi "hors-concours"...
A análise dos relatórios, feita a nível do GABAer/EMAer, resultou na escolha do MIRAGE III, em detrimento das outras aeronaves.
Aquisição do MIRAGE III
Para apresentar a solução a nível presidencial, a CEPAI elaborou um substancioso relatório que seria encaminhado ao Pres. Costa e Silva para a necessária aprovação, o que foi feito.
Há um fato curioso (presenciado pelo Chefe da CEPAI), no que tange à análise presidencial do relatório. O Min. MARCIO, em despacho pessoal, apresentou o Relatório da CEPAI indicando o MIRAGE III e seu arrazoado. O Pres. Costa e Silva ouviu atentamente o Min. MARCIO e, ao final dos esclarecimentos, teria declarado:
- "Min. MARCIO, estou com um problema político com o governo inglês e seus bancos no que se refere ao financiamento para as obras da Ponte Rio-Niterói. Muito me ajudaria se a solução da FAB fosse o LIGHTNING".
O Min. MARCIO retirou-se e convocou o Chefe da CEPAI e instruiu:
- "Onde estiver escrito MIRAGE nesse Relatório, apaga e põe LIGHTNING". O que, a contragosto, foi cumprido. E o Relatório BRAINGLA (Brasil-Inglaterra) recebeu o APROVO por escrito do Pres. Costa e Silva, que dias depois adoeceu, vindo a falecer.
Passaram-se alguns meses. Quando já empossado o Pres. MEDICI, o Min. MARCIO retorna ao assunto fazendo um retrospecto histórico do processo. Após tudo ouvir, o Pres. MEDICI acrescentou:
· "Min. MARCIO, não temos mais o problema financeiro citado pelo meu antecessor. Se a escolha técnica da FAB foi o MIRAGE francês, que o seja".
O Min. MARCIO reuniu seu Alto Comando no Salão Nobre do MAer - BRASÍLIA e cientificou a todos que daria início ao processo de aquisição de 16 (dezesseis) aviões MIRAGE III, para equipar a 1a ALA DE DEFESA AÉREA, a ser instalada em Anápolis (GO). Isto posto, redigiu de próprio punho mensagem telegráfica a ser expedida para conhecimento de toda a FAB, cuja cópia ampliada está compondo o Histórico do 1o GDA.
Iniciava-se a fase SUPERSÔNICA de Caça na FAB!

Maj Brig RR L.N. Menezes

 

ESTÓRIAS DE NATAL...


Corria o ano de 1955 e o 2o/5o GAv. (F-47) desenvolvia toda a ativa rotina de instrução anual. Diariamente saíam os vôos da "madrugada", formaturas, combates, tiros aéreo e terrestre, bombardeios etc.
No dia 12 de outubro haveria uma demonstração de tiro e bombardeio real. Os aviões escalados, incluindo os de reserva, já pela manhã ostentavam suas duas bombas de 500 libras (226 kg), que pareciam fazer o "Thunderbolt" ficar com um aspecto mais atarracado. Metralhadoras municiadas, gasolina a pleno.
Na hora aprazada, escalado de no 4, ocupamos o F-47 4181 (2 de Paus), cujo VHF, após a partida, negou-se a falar. Corte do motor, corrida para o F-47 4195 (3 de Paus) que, já com a inspeção externa adrede realizada, aguardava a chance de mostrar suas aptidões.
Partida, rolagem, cheques, tudo OK. Decolagem. Trem em cima, curva de reunião, fechando o "canopy", cujo característico "cascudinho" no alto da cabeça indicava seu quase fechamento. Nesse momento, o lado esquerdo do "canopy" solta-se dos trilhos, levanta-se e, sob o impacto do ar gerado pela velocidade, é completamente arrancado e, ainda preso pelo lado direito, passa por dentro da nacele atingindo a cabeça do piloto, provocando como que um rápido relâmpago de luz e dor, seguido da perda dos sentidos. O capacete de pano é arrancado com os fones, máscara de oxigênio e microfone.
Os demais componentes do Esquadrão, que corujavam a decolagem, viram o "canopy" cair na pista e o avião embicar em direção à vila residencial da Navy.
O piloto recuperou os sentidos já quase sobre as casas. Com o susto, deu uma puxada no manche, que fez o 4195 subir quase na vertical. A seguir, passou a contabilizar os estragos: parte posterior da cabeça com o couro cabeludo rasgado levantado, sangue no macacão empapando as pernas e o chão do avião, dor no ombro direito provocada pela pancada dada pelo "canopy" ao dar uma rabeada e soltar-se completamente, atingindo também a face direita, dando a impressão de que havia arrancado os dentes.
O pensamento veio rápido: ir até o litoral e alijar as bombas no mar. "E, se com a perda do sangue eu tornar a apagar?", pensei. Decisão: voltar rapidamente e caprichar no pouso, na esperança que os petardos não se soltassem. Assim foi feito e o pouso foi suave, a entrada no estacionamento dramática, com todos acenando para o piloto parar fora da linha, o que não foi obedecido.
Saída do avião, ida para o hospital e costura do rasgo (18 pontos), pelo 1o Ten Med Francisco Emigdio Krause (KRAUSE). O Maj Av Carlos Júlio AMARAL da Cunha, sub-comandante da Base, veio ajudar e, como havia a impossibilidade de anestesia, sentou-se em frente a mim e disse: - "Quando doer, aperte a minha mão que alivia a dor". Só que, na aflição, ele é que apertava a minha a cada espetadela da agulha e, com a força que lhe é peculiar, quase esmagava meus dedos.
O Maj Av HORÁCIO Monteiro Machado, comandante do Esquadrão, também presente, animava o médico, dizendo: - "Use linha branca para não destoar", numa alusão aos meus já precoces cabelos brancos. Após, uma bandagem em forma de turbante, que ostentei durante vários dias, modificando um pouco o plano de uniformes.
Dias depois passei a fazer uns vôos tranqüilos, mas inquietantes, puxando as birutas-alvo para tiro aéreo de várias esquadrilhas, tornando-me freguês dessa atividade. Para tanto, ao vestir o capacete, contava com o auxílio do Ten BATISTA, FLAESCHEN, VOLNEI e outros que, esticando-o de todos os lados, permitia que cobrisse o turbante.
Esta foi uma das várias experiências passadas no "Trator Voador". Uma experiência dolorosa.

Cel Av RR Werther Souza-Aguiar Temporal
Piloto de Caça - Turma 1955


O DIAMANTÃO


Em 1962, o Cap Soares teve a idéia de fazer um "grupão" de Gloster, e fez um vôo, aproveitando uma 5 F3 (vôo de Esqd). Encampei logo a idéia (eu era o Cmt do 2o Esqd) e, então, foi criado, extra-oficialmente, o Diamantão.
Inicialmente, eram nove aviões do 2o Esquadrão, formando um diamante. Devido à disponibilidade dos Av, o Diamantão passou a ser integrado por 5 F8 do 2o Esquadrão na frente, e 4 F8 do 1o Esqd, em diamante, fechando o grupamento.
A disponibilidade prejudicou os treinamentos que, em conseqüência, foram poucos. Mesmo assim, o bom treinamento dos pilotos nas diversas missões da Caça propiciou um bom resultado final.
Um TF7, pilotado pelos Ten Pontes e Vasques, fez a filmagem de um dos poucos treinamentos do Diamantão. Tenho esse filme até hoje. Foi feito um vôo, especialmente para que o pessoal em terra pudesse assistir. Constava de apenas um looping na cabeceira da pista 04 (05 hoje?), mas foi tão bom que resolvi emendar um tonneau barril. MOREIRA, embaixo, pressentindo tudo, após o looping, disse: - "Vão virar!".
Os vôos passaram a fazer parte das demonstrações de BP, AF e TT que, periodicamente, eram feitas em SC. Depois desses Atq, os Av se reuniram para exibir o Diamantão. Feita a demonstração, vínhamos para o pilofe, a comando pelo rádio, o líder puxava um looping, o 2 e o 5 puxavam para a esquerda, o 3 e o 4 para a direita e os 4 Av do 1o Esquadrão seguiam em frente, efetuando um tonneau quase lento, para depois fazer um pouso normal. E todos pousavam na mais perfeita ordem!
Em uma dessas demonstrações, o 4 de uma Esqda do 1o Esqd (que era o último do Diamantão) não soltou as bombas no BP (provável pane elétrica) e fez todas as manobras que já mencionei com duas bombas de 500 libras nas asas!
Instalamos, ainda, um sistema de fumaça nos aviões, que consistia em um tanque de óleo diesel (no cofre de munição) e tubulações que conduziam esse óleo para o escapamento. O resultado foi muito bom. Usamos esse dispositivo uma ou duas vezes (existe até uma foto no Cmdo do 1o Gp Av Ca), pois s freqüentes indisponibilidades causavam a troca de aviões, e abandonamos a sua utilização.
Certa vez, em uma demonstração sobre o Galeão, ao nos aproximarmos para um pouso simulado, o Ten Drumond, ala direito (substituto) da última esquadrilha, sentindo que ia "espirrar" (um urubu, talvez), avisou pelo rádio. Rapidamente, comandei a dispersão. Foi avião para todo lado... Soubemos, depois, que o pessoal lá embaixo achou tudo formidável! O Cap Gaio, comentando, disse: - "Isso não foi um peel off, foi um esculhamboff"!
Em meados de 1963, já com BERTHIER no Cmdo do 1o Gp Av Ca, fomos ao Paraguai, com ele liderando o Grupo. Esse, talvez, tenha sido o último vôo do Diamantão, já que a indisponibilidade e a falta de oportunidade prejudicavam o vôo de grande número de aviões ao mesmo tempo, pois os Esqd faziam missões diferentes e em épocas diversas.
O Diamantão era assim constituído:
Bezerra
Moura Salazar
Soares Gaio Camelier
Baère Baptista
Martins

Cel Av Ref Ary C. Bezerra Cavalcanti
Cmt 1o Gp Av Ca - 1965/66
Cmt BASC - 1970/72


QUASE ACONTECEU


Estamos em 1957 (ou 58?). Pertencíamos ao 1o Gp Av Ca em Santa Cruz.
Lá, vivíamos uma grande família aeronáutica, cujo pai era o Comandante da Base, Cel Lafayette, da 2. Guerra Mundial. Aliás, só para dar água na boca da juventude fabiana, o comando era coadjuvado pelo Mota Paes de Sub-Cmt, e pelo Keller "The Killer", no Cmdo do Gp.
Para quem entrou na Força atraído pelos P47 que sobrevoavam a Av. Rio Branco, num dia de 1945, era emoção demais. Ali, então, com 13 anos de idade, dizia para os colegas: - "Vou entrar nessa turma e vou voar esse avião".
Não só entrei, como tive a suprema honra de comandá-lo. Quanto ao P47, ainda o peguei no 2o / 5o Gav, lá em Natal, nos seus últimos estertores, arrancando-lhe 72 horas e 20 minutos. Aliás, confesso que foi o avião no qual me senti mais Piloto e com o qual me considerei mais eficiente.
Minha grande emoção, nessa época, foi assistir o Horácio, Cmd do Esqd, subir à plataforma, após as primeiras considerações do dia, e colocar as plaquinhas (dele e a minha) na escala para uma 11F1, combate individual, dizendo:
-"Ten Carlos, vamos ver se você realmente é bom nesse esporte. Vamos ao combate"!
Quase desmaiei! Que emoção! Duelar com um Jambock da Campanha da Itália!
Voltemos à Santa Cruz. Decolagem por elementos. Tratava-se de uma esquadrilha cuja missão era 5F, formatura normal na área de instrução. Decolo na ala do Lopes (Lopão, Vultizão). Ele era, então, um "Senhor" Operações do Aguiar, que, por sua vez, era um excelente Comandante do Primeirão. Do lado de lá do hangar, no Segundão, estavam Marion, Binzão, Bezerra, Dias e... quem era o Operações do Grupo? O Gadelha. Que time!
Como eu já era veterano, conseguia decolar na ala olhando para todos os lados. Assim é que Lopão, que liderava a esquadrilha, iniciou a corrida de decolagem, da cabeceira da 04, numa bela manhã de céu azul, no lado esquerdo da pista, já que a curva de reunião seria para a esquerda.
Deixando o espaço para o no 3, entre nós dois, lá ia eu caprichando na posição, mantendo a referência do detalhe na asa com a posição do líder na nacele.
Saímos do chão. Veio o comando visual do recolhimento do trem. Tudo formidável. O ar escorregava que nem manteiga. A aeronave tentando subir mais do que o comando. Estamos passando o hangarzão, com Lopão forçando a ficar mais baixo para facilitar o segundo elemento, mas, já perto da Vala do Sangue, íamos atingindo os 300 pés.
E aí começo a ver alguma coisa à frente. Melhor fazer logo essa curva de reunião para a esquerda, pô! Mas o padrão manda que seja mais na frente. Estou mantendo a abertura lateral na ala, pois cerrar só quando se inicia a curva. Aí, encaro firme à frente e vejo: um enorme urubu na proa, 12 horas nível.
Esqueço o Lopes e travo então minha batalha particular com aquele monstro. Seus irmãos já derrubaram muitos Pilotos por aí, no Brasil e no mundo. Anos mais tarde, lá mesmo em Santa Cruz, os urubus derrubaram um dos melhores alunos que tive no 1o / 4o GAv, o Pimentel, de saudosa lembrança.
Encaro o bicho. Parece um condor! Estamos frente a frente. Se subo, ele sobe também. Virar para a esquerda não posso, porque o Lopes está lá. Virar para a direita não dá mais tempo. Arrisco a ter um ponto de impacto pior. Vou enfrentar! Se desço, ele desce também. Se passar por cima da nacele, apanha minha empenagem e me mata. Se não for na minha direção, entra numa das turbinas. Tem que ser bem reto comigo, contanto que não me entre pelo canopy. Será que este canopy vai resistir a essa pancada? Dizem os ingleses que sim, mas não confio muito.
Sabe de uma coisa? O nariz. É aí o melhor ponto para o impacto! Não sou bom o bastante para isso! Não tem jeito! Seria muito sorte. Ele sobe, eu desço, ele desce, eu subo. Maldito! Quer me matar? Como tenho sido feliz aqui em Santa Cruz! Que fiz eu de tão bom para merecer um início de vida profissional tão feliz? Será que ainda vai dar para conhecer o Nero Moura? Não posso morrer sem ter essa felicidade.
Bingo! Bateu! E agora, onde foi? O avião está voando. Deixo-o um pouquinho solto. Está estável. Não tem sangue no pára-brisa. Temperaturas e pressões, tudo OK. Motores bem afinados. E a empenagem lá atrás? Mexo um pouco no manche, para os lado, não há problemas. Devagar, para cima e para baixo... nada. Aperto mais, como que comandando cobrinha... nada. Uma eternidade que ocorreu em frações de segundos.
Aviso o líder, peço pouso de emergência controlada e chego ao chão. Coração batendo mais suavemente, rolo para o estacionamento. Todos correm para o avião. Deu troca de nariz! O avião saiu na missão seguinte. A fotografia está aí, para tirar todas as dúvidas. Obrigado, meu co-piloto.
Quase aconteceu!

Ten. Brig. Carlos de Almeida Baptista
Cmt 1o / 14o GAv
Cmt 1o Gp Av Ca


O ÚLTIMO TRASLADO DE F-5E DE PALMDALE PARA SANTA CRUZ


Fevereiro de 1976, ia começar o último traslado de F-5E da Fábrica Northrop, em Palmdale na California, para o Brasil.
Era uma esquadrilha de 4 aviões. Para marcar a data, foram convidadas as famílias do pessoal da Comissão de Fiscalização e Recebimento (COMFIREM), além de outros convidados especiais. A ocasião, apesar de festiva, não alterava o regime de trabalho da Fábrica.
Convém lembrar que a Northrop utiliza instalações alugadas à Força Aérea Americana. No caso, o local se chama Fábrica da Força Aérea n o 42 (A.F.Plant n o 42) e o aluguel é uma maneira interessante para baixar os custos.
As instalações possuíam vários hangares e duas pistas quase num "V" perfeito. Do lado direito externo do "V" ficavam, de baixo para cima: o hangar de montagem do B-1 da North American, o hangar de revisão dos SR-71 "Blackbird" da Lockheed, o hangar de revisão dos TR-1/ U-2 também da Lockheed e a montagem do Ônibus Espacial da Rockwell.
Na parte central do "V" estava sendo fabricando o "Tristar" L-1011 da Lockheed. Do lado esquerdo interno, a Douglas montava o A-4 "Skyhawk" de Israel e, mais abaixo, próximo a estes, eram montados os nossos F5-E "Tiger II".

Por esta descrição, já se pode avaliar a importância do local e o grau de segurança e sigilo envolvido nas instalações. Basta dizer que eu nunca tive a oportunidade de ver A-4 de Israel de perto. Naquela área só tive autorização para visitar a linha de montagem do "wide body" Tristar e do Ônibus Espacial. Olhar de perto o U-2, o SR-71 e o B-1, nem pensar!
Muito bem, o Comandante da esquadrilha do último traslado me informou que havia uma equipe de filmagem da Northrop e que a mesma havia solicitado a possibilidade de uma passagem sobre a Fábrica. A finalidade era compor o filme que estavam fazendo sobre os "aviões brasileiros".
Eu "tremi na base". Nós ,no Brasil, tínhamos uma certa "tradição de passagens baixas", as quais estávamos acostumados a fazer. Normalmente estas passagens visavam o deleite do pessoal da manutenção. Acontece, porém, que nas "Terras do Tio Samuel", passagem baixa era considerado palavrão! E como agravante, nosso conceito perante as autoridades da USAF já não estava muito bom. Esquadrilhas anteriores haviam feito algumas trapalhadas tipo "Overnight Tapachula" e o Coronel, responsável pela COMFIREM americana, já me tinha passado vários "sabões".
Dentre os episódios ocorridos, me recordo da esquadrilha que resolveu usar o código de "Brazilian Air Force Flight". Evidentemente a esquadrilha era composta de 4 aeronaves: o "One", o "Two", o "Three" e o "Four". Numa das comunicações iniciais com um dos centros de controle, o líder da esquadrilha se identificou como "Air Force...One"! Após varias confirmações e apreensão geral dos ouvintes da freqüência, as coisas foram esclarecidas. Não era o avião do Presidente da República!
Num outro episódio, o líder usou o número do seu avião para identificar a esquadrilha, por exemplo: "Flight 4836". Nestes casos, para não congestionar a freqüência, somente são falados os três últimos números, ou seja "Flight 836". Convém esclarecer que para o cúmulo da coincidência, havia na mesma hora e na mesma área, um vôo da Linha Aérea TWA cujo código era "TWA 836". Em resumo, o sotaque do controlador e a sua falta de habilidade, fizeram com que a esquadrilha confundisse as ordens do Controle. Algumas vezes o líder obedecia as instruções que eram para o "TWA 836" e noutras, não obedecia as que eram para o "Flight 836"! Conclusão: a esquadrilha e o Boeing chegaram a distâncias próximas de colisão.
Tanto a Northrop, quanto a USAF, se empenhavam bastante em nos ajudar e os "causos" só nos eram comunicados depois de resolvidos. Desde o primeiro traslado que eles tinham sugerido que se usasse o código rádio "Tiger Flight", talvez já prevendo que esta designação seria bem própria para aviões de caça. Alguns de nossos lideres contudo achavam que "Tiger" poderia dar a entender aos controladores que éramos "tigres" no domínio do idioma inglês e que isto poderia, ao contrário, dificultar as comunicações.
Voltemos à esquadrilha. Eu ponderei com o líder, descrevendo em poucas palavras as ocorrências anteriores e dizendo que o Coronel da USAF já estava a fim de se ver livre dos brasileiros e que nós não deveríamos "forçar a barra", etc. etc.
-"Deixa de besteira, não vai ser nada de mais, só uma passagem baixa para comemorar a despedida e para que o pessoal possa fazer a filmagem!".
-"Tá bom chefe, eu vou pedir ao Piloto da Northrop, Mr.Darrel Cornell, que é um bom amigo, para falar com o Coronel Morgan. Se for autorizado, eles mesmos engrenam com o Controle de Tráfego".
Desta maneira, pensei, "I take my body out" e não tenho que ouvir mais um sermão do representante da Força Aérea Irmã.
Ao relatar o pretendido para o Mr. Cornell, notei que ele começou a apresentar pequenos tiques nervosos similares ao do delegado chefe do "Inspector Closeau" no filme "A pantera cor de rosa"...
Passaram-se uns 40 minutos e eu já estava até mais tranqüilo, quando a voz de trombone texano do Coronel Morgan soou atrás de mim:
-"Major! I whanna-give-ya som-instructions!" Me virei, engoli em seco, fiz a saudação militar e falei (em americano mais arcáico):
-"Senhor, é melhor dar as instruções diretamente ao líder da esquadrilha..."
Ele retrucou:
-"Não! Eu vou falar para você por que sei que você me entende. Você repete na sua língua para eles!"
Eis as instruções:
- "Vai ser dada a pista 04 (lado esquerdo do "V", de cima para baixo), mesmo que o vento seja outro."
- "A esquadrilha deverá decolar por elemento, fazer a curva de reunião e voltar no sentido contrário pelo eixo da pista 22, não abaixo de 300 pés, não acima de 300 nós."
- "Ao passar pelo través do nosso hangar, colocar o nariz para cima e subir de maneira a estar acima de 1000 pés sobre a cidade dos velhinhos."
- "Logo em seguida fazer curva à direita, continuar subindo e então trocar a frequência para o Controle de Subida de Los Angeles."
Nota: A tal cidade era um condomínio especial para pessoas de idade e ficava situada em algum lugar acima da perna esquerda do "V". Os velhinhos seguidamente acionavam a USAF pelo excesso de barulho provocado pelos aviões, principalmente os SR-71.
Após as detalhadas instruções, o coronel pediu que eu as repetisse, para ter certeza de que eu havia entendido. Assim o fiz.
Tudo pronto! Lá fui eu para a sala de brifim "ensinar o padrenosso aos vigários".
Juro que repetí tudo direitinho, dando bastante ênfase para o detalhe das alturas e velocidades.
O pessoal da esquadrilha, nem me deu "colher de chá" de fazer perguntas. Tudo muito simples...
As despedidas foram feitas, o pessoal do apoio entrou no C-130 e as famílias se posicionaram.
Tudo pronto! Foi dada a partida! A controladora de solo deu a pista errada! Eu com o meu receptor de VHF portátil já comecei a ficar preocupado! Felizmente, a moça se lembrou do combinado e modificou a pista em uso. Tudo bem! O primeiro elemento fez uma pequena volta no táxi e foi para a cabeceira 04.
Começou a decolagem, um elemento depois o outro, tudo dentro do padrão. Ao longe pude ver a curva de reunião e a curva para enquadrar a pista. Foi a última coisa que ví, pois o líder colocou o nariz pra baixo, tão baixo que a esquadrilha sumiu. Evidentemente havia aproado a pista errada, o lado direito do "V", onde estavam o B-1, o SR-71, o U-2 etc!
Como a nossa platéia não estava conseguindo ver a esquadrilha, pensei comigo:
-"Eles vão passar lá longe e vão embora, é possível até que ninguém note."
Tentei disfarçar e olhei para o final da outra pista para ver se conseguia ver algo. Dito e feito! O líder se apercebeu do engano e após percorrer toda a pista errada no razante, fez um "balsing" para a esquerda, baixou bem baixinho sobre a cidade dos velhinhos e veio com os quatro aviões "fedendo", colado ao chão, no sentido contrário ao da passagem que tinha sido combinada!
Pouco antes o Controle havia autorizado o treinamento de aproximação VOR de um C-141 "Starlifter" para a Pista 22. A Torre percebeu que as coisas não estavam bem e mandou o "gigante" arremeter! Quando olhei para o lado em que a esquadrilha se dirigia, pude ver bem longe, o dito avião subindo em curva de grande inclinação para a esquerda, similar à tentativa desesperada que os urubús fazem para desviar ao perceber que um avião está em seu rumo de colisão!
Felizmente, quando a esquadrilha passou, o C-141 já tinha saído e livrado a área.
Eu tentei e conseguí sumir das vistas do Cel. Morgan. Soube que ele andou me procurando. Saí o mais rápido que pude para o local do churrasco de despedida. Providencialmente, a Northrop não havia convidado nosso Coronel para este evento! Depois do churrasco, todos voltamos para Los Angeles onde ficava o escritório principal da COMFIREM. Nos dias seguintes só voltei a Palmdale para desmontar o nosso escritório e habilmente conseguí me esquivar da "autoridade"! Um mês depois regressamos para o Brasil.
Com certeza a Northrop deve ter colocado os devidos "panos quentes" na USAF, e nos velhinhos...
No ano seguinte, ficaram prontos os F-5E comprados pelos chilenos. Todas as esquadrilhas para o traslado dos aviões chilenos, por medida de segurança, foram lideradas por um oficial da USAF. É verdade, porém, que este oficial só os liderava até que livrassem a última base em território americano...

Euro Duncan - Cel.R.R. Ex-Cmt do 2 o /1 o Gp.Av.Ca.


EU, "O SENHOR" E A NOITE


Nos idos de 1964, assume o comando da Base Aérea de Santa Cruz um coronel muito conhecido pela sua seriedade e sobretudo por ser muito "brabo". Quem andasse "fora da linha" virava logo personagem da 4a parte do boletrim diário.
Certa noite, após o jantar, o comandante liga parta o Cassino dos Oficiais para saber o nome do filme programado para aquele dia no famoso Cine Senta a Pua.
Naquela época, para quem morava na vila, o cinema era a única diversão noturna. Televisão nem se fala. Aliás, diversão para nós, os moradores e também para os mosquitos, os quais pelo seu tamanho, foram apelidados de "parquitos", um cruzamento de pardal com mosquito.
O comandante liga para o cassino e quem atende é o Oficial de Operações.
De cara leva logo uma espinafração, porque lugar de OOP era na sala de tráfego e não no cassino.
O tenente desculpou-se alegando estar com sede e que tinha ido até lá para tomar um refrigerante. Aliás, a sala de tráfego também era local preferido pelos "parquitos".
Em seguida, o comandante já meio aborrecido, pergunta pelo nome do filme programado.
O tenente responde:
- Eu você e a noite.
O comandante, que não havia entendido bem, perguntou em voz alta:
- Como ???
O tenente humildemente responde:
Eu, "o senhor" e a noite.

"Samtho Le Brow"

 

O ÚLTIMO VÔO DO T.CEL.AV. PIRAGIBE FLEURY CURADO


Conheci o Fleury ainda nos tempos de Anápolis, da 1a ALADA, onde servimos juntos durante os anos de 73 e 74. Nos tornamos amigos logo de cara, principalmente depois que descobrimos que fazíamos aniversário no mesmo dia, 23 de dezembro. O signo - Capricórnio - ele curtia bastante.
Mais tarde, em 76, Fleury assumiu o Operações do 1o Gp. Av.Ca. com S3 (oficial de operações do Grupo) do T.Cel. Baptista, e me perguntou se eu gostaria de voltar a servir em Santa Cruz. Logicamente, após 3 anos de Mirage, voar mais um avião supersônico novo, o F-5, recém incorporado à FAB, e ainda mais no Rio de Janeiro, para mim era um convite e tanto. Aceitei na hora, mas como o GDA (Grupo de Defesa Aérea) estava recebendo novos pilotos, o COMDA (Comando de Defesa Aérea) só me liberou no meio do ano, após muita nacele traseira de F-103.
Em julho finalmente, fui transferido para o Grupo de Caça e iniciei logo a instrução no F-5. No final daquele ano, já operacional na nova "viatura", assumi o Operações do 1o Esquadrão, que era comandado pelo Maj. Sérgio. O comandante do Segundão era o Potengy.
Fleury era um líder natural, inteligente e congregador. Juntamente com o Baptista, outro caçador de altíssimo gabarito, formaram uma dupla inesquecível em termos de camaradagem, operacionalidade e prestígio para o Grupo de Caça naqueles dois anos. Some-se a isso ,o fato de que o Comandante da BASC era Cel. Nelson Taveira, caçador de coração e um dos grandes comandantes que por lá passaram.
Foi nesta época, final de 76 início de 77, que o Grupo veio a ocupar as suas atuais instalações na "Cidade da Caça", deixando para trás o Hangar do Zepelim, o "Bibicão", palco e testemunha de tantos fatos históricos da nossa Aviação de Combate.
Após estes 2 anos no Grupo de Caça, Fleury foi para a ECEMAR (Escola de Comando e Estado Maior da Aeronáutica), e lá permaneceu com instrutor.
Já com a "bolacha cheia", isto é, com o Curso Superior de Comando realizado, Fleury estava pronto para assumir o Comando do 1o GAC (Grupo de Aviação de Caça), o que ocorreu em janeiro de 1980, quando substituiu o T. Cel. Ribeiro.
Para mobiliar o seu Estado Maior, Fleury não teve a menor dificuldade, pois todos queriam servir com ele no Grupo. Para S3 convidou o Potengy, outro Caçador puro-sangue, que na época voava no DAC como checador de Boeing 737, e não pensou duas vezes para largar a "boca boa" e vestir macacão de vôo novamente. Como S4 (oficial de material do Grupo) foi convidado o Tacarijú, Eu e o Caju, que estávamos na "geladeira" no COMAT (Comando Aerotático), voltamos para o Grupo como S2 (oficial de informações do Grupo) e S1 (oficial de pessoal do Grupo) respectivamente.
Os Comandantes de Esquadrão eram o Quírico 2o /1o e o Zorron no 1o /1o, que completavam o experiente time de "Caciques" do Grupo de Caça, pois todos nós já tínhamos bem mais de 1000 horas de Caça e no mínimo 500 horas de F-5.
Aquele ano começou com novidade, pois o Grupo deslocou para Canoas logo no início de fevereiro para fazer uma campanha de Ataque ao Solo no Estande de Tiro São Gerônimo. Era o princípio de um conceito inovador, onde uma Unidade de 1a Linha não precisava interromper sua atrividade operacional para ficar imobilizada praticamente 2 meses, voando apenas em prol da instrução dos novos pilotos.
Regressamos de Canoas em março, e uma boa notícia nos aguardava: o Grupo de Caça havia sido convidado para visitar a 1a FIDA - Feira Internacional de Aeronáutica (hoje FIDAE), em Santiago do Chile.
Sempre houve muita afinidade entre as Forças Aéreas do Brasil e do Chile, sendo que no ano de 1977, nós havíamos recebido seis pilotos da FACh (Força Aérea do Chile) para ministrar toda a instrução teórica e prática do F-5. Nessa época o Chile, sob o Governo do Gen. Pinochet, sofria um terrível embargo comercial dos Estados Unidos, e tinha muitas dificuldades para fazer voar sua frota de F-5. Em 8 meses de instrução bastante puxada, e muita dedicação de ambas as partes, os pilotos chilenos receberam do 1o Grupo de Caça seus diplomas de pilotos operacionais de F-5.
O convite para visitar a FIDA certamente teve a ver com esta convivência anterior e a camaradagem gerada entre os Pilotos de Caça do Brasil e do Chile. Vinha a ser também uma forma de retribuir a acolhida e o suporte dado pelo Grupo de Caça e pela FAB, em uma época difícil para aquele país amigo.
Ficou decidido que iriam 5 pilotos: o Cmt. do Grupo, os Cmt. dos dois Esquadrões, o Póvoas (que era o Chefe do Centro de Operações Aéreas - COA - da Base) e eu como S2.
Partimos para o Chile num Avro da FAB em 16 de março, e após um pernoite em Buenos Aires, seguimos para Santiago no dia seguinte.
Recebidos por um oficial de ligação, fomos para o Hotel de Trânsito da FACh, no centro de Santiago. Naquele mesmo dia chegaram de Antofogasta os pilotos de Caça da Ala no 1, que hospedava o Grupo 7 (dos F-5E) e os Grupos 8 e 9, que operavam o Hawker Hunter. À noite, no bar do Hotel, encontramos nossos ex-alunos Coudou, Bascuñan e Zuniga, que fizeram a maior festa e nos apresentaram aos resto do Caçadores.
Foi quando conhecemos o T. Cel. Guevara, comandante dos famosos "Panteras Negras", o Grupo 9 da FACh, Esquadrão altamente operacional e guerreiro, que havia participado de missões reais de emprego na derrubada do governo Allende, inclusive do ataque final ao Palácio de "La Moneda", sede do Governo.
Guevara era uma figura carismática e líder natural de todos aqueles Caçadores que ali estavam presentes. Sentimos isso quando de sua chegada no local, quando imediatamente passou a ser o centro das atenções. Dirigiu-se até onde estávamos eu e o Fleury, e iniciamos uma conversa fraternal, de Caçadores que se admiram e se respeitam. Em poucos minutos já éramos amigos de infância. Foi impressionante a empatia e o entendimento entre Guevara e Fleury!. Creio que reconheceram um no outro as qualidades que os destacavam dos demais...
Neste momento, acho eu, cruzaram-se os destinos, e provavelmente já estava escrito em algum lugar o que viria acontecer poucos dias depois. Era o primeiro "elo" da corrente...
Nesta conversa inicial, já ficou claro que Guevara era um apaixonado e vibrante Piloto de Caça, com um amor excessivo ao Hunter, aeronave que considerava como uma das melhores do mundo. Ele havia participado do traslado de uma das 6 aeronaves que vieram voando da Inglaterra, em uma rota audaciosa e temerária que saindo de Londres, passava por Sevilha, Las Palmas, Dakar, Monróvia (Libéria), Ilha de Ascenção, Recife, Rio de Janeiro, Assunção e finalmente Antofogasta, no norte do Chile! Nas etapas Monróvia - Ascenção (890 milhas náuticas ) e Ascenção - Recife (1240 milhas náuticas), foram utilizados tanques externos que tiveram que ser alijados no meio do Oceano Atlântico.
O convite para visitar a Ala no 1 em Antofogasta, e conhecer os Esquadrões de F-5 e de Hunter surgiu já no dia seguinte, durante a inauguração da FIDA. Participameos de um almoço com o Comandante da Força Aérea, Gen. Fernando Matthei, onde estavam presentes todos os pilotos de combate que se encontravam em Santiago. Nesta oportunidade, o Cmt. Guevara fez valer o seu prestígio, e conseguiu do Gen. Matthei a autorização para a nossa visita à maior Base da Aviação de Caça da FACh. Mais um "elo" na corrente...
Ficamos ainda dois dias em Santiago aguardando não só o término da FIDA, como também a permissão das autoridades do Ministério da Aeronáutica para permanecermos mais 3 dias no Chile, nesta visita à Ala no 1, a qual não constava da programação inicial.
Tudo acertado, viagem autorizada, seguimos em vôo comercial para Antofogasta ( o 3o elo se juntava à corrente). Lá chegando, ficamos impressionados com a aridez do local: situada às margens do Oceano Pacífico, a cidade limita-se a leste com um dos desertos mais áridos do mundo - deserto de Atacama - que serviu inclusive com campo de treinamento para os primeiros astronautas norte-americanos que pousarsam na Lua!. Trata-se de uma região de baixíssimos índices pluviométricos, e quase não existem árvores. Tudo é da mesma cor marrom do deserto.
Neste primeiro dia fizemos um "tour" pela cidade e nos alojamos em uma casa de hóspedes na Vila dos Oficiais, com a dispensa cheia , taifeiro, e tudo o mais.
Os Esquadrões chegaram de Santiago naquela tarde, e à noite saímos para jantar com nossos amigos em um dos vários restaurantes da cidade especializados em frutos do mar. O litoral do Chile é quase todo banhado pela Corrente de Humboldt, que vem da Antártida trazendo em suas águas geladas muitos peixes e mariscos, que fazem da indústria pesqueira uma das principais atividades econômicas daquele país.
No dia seguinte visitamos os Esquadrões e todas as instalações da Ala no 1, cuja postura guerreira nos impressionou. Todos prédios eram camuflados (inclusive o playground das crianças!), e baterias de mísseis e canhões antiaéreos guarneciam todo o perímetro da Base. A situação de litígio constante com a Argentina e com a Bolívia levaram o Chile à essa postura de "pronta-resposta" realmente efetiva. Na parte da tarde uma surpresa nos aguardava: fomos de helicóptero - um Sikorsky S-55 - conhecer o deserto de Atacama. Posamos no meio do nada, e o helicóptero cortou o motor. Nunca vi nada parecido em termos de aridez e secura. Era o tipo de lugar onde um piloto de Caça devia evitar uma ejeção!
Durante a visita ao Grupo 9, o Cmt. Guevara novamente atiçou os caçadores presentes, enaltecendo as qualidades do Hunter contra o F-5 em missões de combate. Com a "grita" dos pilotos de F-5, ele então fez o desafio: realizar um vôo de dois Hunter biplace contra dois F-5F, cada aeronave levando um piloto chileno e um brasileiro, para tirar a dúvida de quem seria o melhor...
Deveríamos retornar à Santiago no dia seguinte, e naquela noite haveria recepção na residência do Gen. Opazo, Comandante da Ala no 1. A autorização para o vôo, dada creio, pelo Próprio Gen. Matthei, chegou ao nosso conhecimento durante o jantar ( mais um "elo"!). O vôo seria realizado pela ,manhã, e a tarde regressaríamos paro o Brasil, via Santiago.
Após o jantar regressamos para a "nossa" casa na Vila, e ainda antes de nos recolhermos, sentamos na sala para conversar. Nossa preocupação era grande, porque o Fleury ia voar com Guevara, e aí residia o perigo. Por melhor que fosse o desempenho do Hunter, nós sabíamos que ele jamais seria capaz de superar em combate uma aeronave de outra geração como F-5! Sem pós-combustão, sem flape de manobra e pouca potência, comparado com o F-5E o Hunter não tinha a menor chance de sobreviver.
Alertamos o Fleury para que tivesse muito cuidado, pois o Guevara, pela sua personalidade e sendo um dos pilotos mais voados em Hunter da FACh, ia fazer de tudo para não perder aquele combate.
No dia seguinte acordamos cedo, tomamos café e fomos para o brifim, dado por Guevara. Nos F-5F, com pilotos do grupo 7, iríamos eu o Quírico, e nos Hunter iriam o Fleury e o Póvoas. Tudo acertado, nos equipamos e seguimos para os aviões. Ainda cruzei com o Fleury e Guevara que seguiam para a linha de vôo dos Hunter, e discretamente fiz-lhe o sinal de "olho vivo", ao que ele me respondeu com um sorriso e o sinal de positivo. Foi a última vez que o vi.
No cheque rádio, todos os aviões entraram, mas o destino não quis que eu participasse daquele vôo: meu interfone não funcionou nem por decreto, apesar dos esforços dos mecânicos. Desci do avião a contragosto, mas não havia a menor possibilidade de realizar um vôo daqueles sem comunicação bilateral entre os pilotos.
Fiquei na pista observando as decolagens, primeiro os Hunter e depois os F-5. Foi quando notei que havia uma camada baixa de nuvens sobre o mar, e também uma densa névoa onde as aeronaves desapareciam após a curva de decolagem ( a corrente estava agora quase completa...)
Encaminhei-me então para a sala do OPO (oficial de permanência operacional), onde o Zorron, o Oficial de Permanência e outros pilotos monitoravam, as frequências dos dois elementos que acabavam de decolar. Os combates seriam realizados em área de instrução sobre o mar, algumas milhas ao Norte da Base, e sob vigilância Radar constante.
Eu ainda tentei acompanhar o que estava acontecendo no combate, mas com o papo-rádio em espanhol não dava para entender muita coisa. Preocupado, não consegui me desligar do vôo, apesar do papo no OPO ter "gerado". Lá pelas tantas senti que o combate havia terminado, e uma das aeronaves não entrava no cheque-rádio. Prestei um pouco mais de atenção, e informei ao OPO , Imediatamente todos pararam de conversar. Pelos códigos, o OPO informou que o líder dos Hunter é que não estava respondendo. Foi feita então uma indagação pelo líder dos F-5 ao Controle Radar, que informou ter também perdido o contato com a aeronave. O acidente para mim estava configurado, e em segundos, revi o "filme" do acidente do Ten. Fiuza em Santa Cruz, cujo avião foi encontrado na Serra do Mar 10 dias depois da perda de contato rádio e Radar.
O líder comandou então reunião, e comunicou estar retornando à Base. Fomos para a pista aguardar as aeronaves, e lá já encontramos quase todos os os pilotos da Ala, inclusive seu Comandante.
Alguns minutos depois, dois F-5 e um Hunter puxaram o pilofe. Nesse momento, a aeronave de Fleury e Guevara já estava entrando na fase de "Incerfa" (incerteza de condições de vôo). Os pilotos desceram dos aviões com ar sério e preocupado, o que certamente não ocorreria em uma situação normal, pois as gozações e o "debrifim" teriam início antes mesmo do primeiro cigarro.
Eu e Zorron fomos ao encontro do Quírico, que em poucas palavras nos informou que os F-5 (como era de se esperar) encaudaram os Hunter, e Guevara, após tentar sem sucesso livrar-se dos perseguidores, colocou o nariz embaixo e fugiu para dentro das nuvens, cujo topo deveria estar a uns 3,500 pés, e a base indefinida, porém muito baixa sobre o mar. Os F-5 então abandonaram a perseguição e deram o "combate encerrado".
Os minutos que se seguiram foram de agonia, com todos olhando para a inicial na esperança de ver um Hunter, e também para o relógio, de olho no tempo de vôo restante. Podia ser até que o Guevara estivesse vindo em vôo razante para um ataque à Base, ou algo assim... Qualquer pensamento valia pra manter a esperança, e nos fazer acordar daquele pesadelo.
O tempo, porém, esgotou-se rapidamente e tivemos então a certeza de que aquela aeronave tão ansiosamente aguardada, não estava mais voando. Sua autonomia esgotara-se. Imediatamente decolaram várias aeronaves, e a busca do Hunter inciava-se.
Fomos então para o Centro de Operações Aéreas da Base, para acompanhar as informações que chegavam das aeronaves. Do COA foi feito então, via telefone, o comunicado do ocorrido ao COMAT no Rio de Janeiro: o Cmt. do Grupo de Caça havia desaparecido abordo de um Hunter da FACh, juntamente com o Cmt. do Grupo 9.
As Aeronaves, nessa busca inicial, voaram até o por do Sol e retornaram sem nenhuma notícia.
À noite, reunidos em nossa casa, tristes e abatidos ao encarar a dolorosa realidade, resolvemos que o Póvoas, Quírico e Zorron retornariam imediatamente para o Brasil, e eu ficaria em Antofogasta acompanhando as buscas.
No dia seguinte, enquanto despedia-me dos companheiros no aeroporto civil, chegava na Base uma aeronave C-130 SAR do 1o /6o G.Av. de Recife, enviada pela FAB para auxiliar nas buscas.
Durante a semana seguinte, todas as aeronaves disponíeis voaram do nascer ao por do Sol, e não encontraram absolutamente nada, nenhum destroço, nenhum vestígio.
No velho helicóptero Sikorsky, eu voei sobre a escarpada costa chilena por aproximadamente 250 milhas, desde Tocopilla (ao Norte de Antofogasta) até Taltal, um pouco mais ao Sul, em uma minuciosa busca por destroços e informações. Nestes vôos, sempre razante, pousamos em todas as vilas de pescadores e pequenas praias onde houvesse alguém para perguntar por indícios dos pilotos e da aeronave. Novamente as buscas foram infrutíferas: ninguém viu ou ouviu nada, e nenhum vestígio foi encontrado.
Sem possibilidade de realizar uma busca submarina com equipamentos apropriados (próximo à costa do Chile, nesta região especificamente, ocorre a Fossa de Taltal, uma das maiores profundezas abissais do Planeta, com mais de 8.000 metros de profundidade), em reunião com a Coordenação das buscas e o nosso pessoal do C-130, o Gen Opazo decidiu encerrar as buscas.
À noite, enquanto fui me despedir do Cmt. da Ala no 1 , em sua residência encontravam-se todos os comandantes de Unidade e os oficiais superiores da Ala. Foi quando o Gen. Opazo referindo-se àquele terrível acidente que privava as nossas Forças Aéreas de dois grandes líderes da Aviação de Caça, disse: "Aquela aeronave estava tão carregada de amizade, vibração , companheirismo e garra, que caiu..."
Voltei ao Brasil, ao Grupo de Caça, ao dia-a-dia do Esquadrão, com aquele sentimento de perda do grande comandante, e acima de tudo, do grande amigo. O que teria acontecido? O que realmente aconteceu dentro da nacele daquele Hunter? Apesar da manobra de Guevara não ter sido uma manobra "padrão", ele era experiente o suficiente para saber o que estava fazendo, ao assumir um risco calculado de recuperar a aeronave naqueles 3.500 pés sobre o mar, mesmo em condições de pouca visibilidade.
O tempo se passou, e alguns anos mais tarde, em 1987 quando eu cursava a ECEMAR, tive a oportunidade de conviver com vários oficiais estrangeiros que integravam minha turma. Entre eles havia um piloto de Caça chileno , Maj. Sarabia, que sempre participava das nossas "peladas". Numa das "cervejadas" depois de um destes jogos, conversávamos sobre aviação (para variar), quando surgiu o papo do acidente com o Hunter em 1980.
Sarabia havia chegado para servir na Ala no 1 no ano seguinte ao do acidente, e voara tanto no Grupo 9 quanto no Grupo 7, sendo operacional em Hunter e F-5. Contou-me então o seguinte: "durante um vôo de instrução de combate, alguns anos após o acidente que vitimou Fleury e Guevara, dois pilotos em um Hunter biplace, em uma situação de vôo picado, com alguns graus de flape em baixo e alta velocidade, tentaram recuperar a aeronave de um mergulho e o Hunter não obedeceu, cada vez picando mais. Como tinham altitude suficiente, tiveram tempo de reduzir o motor e baixar o flape de mergulho, conseguindo recuperar o avião com alguma dificuldade. Voltaram para a Base e relataram o fato. Foi então programado um vôo, com dois pilotos experientes, apenas para testar a aeronave nas mesmas condições em, que quase ocorrera a perda de controle. Novamente a aeronave se comportou com a mesma tendência de picar, que se acentuava na medida em que aumentava o angulo de picada e a velocidade".
Finalmente o acidente do Fleury estava explicado 7 anos depois! Infelizmente o Hunter não era tão bom quanto Cmt. Guevara supunha, e levara a vida de dois grandes comandantes de Caça por uma falha de projeto!
Foi o último e derradeiro elo da corrente, que se fechou naquela manhã sombria em Antofogasta, Norte do Chile, na Latitude exata onde passa o trópico de Capricórnio...

Reinaldo Peixe Lima - Cel.Av.RR
Jaguar 25
Cmt. 1o GAC 1988/1989



A QUASE QUEDA DO DOIS VERMELHO


- O DOIS VERMELHO ESTÁ CAINDO! O brado de alerta através da frequência tática quebrou o silêncio-rádio imposto pela doutrina de emprego do Esquadrão Pampa, em seu deslocamento operacional entre sua sede, em Canoas, e Santa Cruz.
-Puxa, logo agora, na rota do Tubarão Feliz e no través de Paranaguá, onde nem mais avistamos a linha do litoral... pensei eu. Coitado do DOIS VERMELHO, vai cair no mar!. Mas... o DOIS VERMELHO SOU EU !!! O pensamento fluiu como um raio e a descarga de adrenalina me fez instantaneamente recobrar o pleno raciocínio. O F-8 4448, comigo dentro, mergulhava em acentuado ângulo e naquela manhã do dia 27 de novembro de 1962, ao olhar para a frente, não era do horizonte a visão que me parecia, mas de um oceano imenso, que nada tinha de poético.
O recobrar da consciência, depois de alguns (quantos?) segundos desacordado, por falta de oxigênio - anóxia, como dizíamos naquela época, hipóxia como de diz hoje - levava-me a lutar para completar a batalha pela sobrevivência. Uma olhada no painel de instrumentos indicava a passagem pelos 30.000 pés, já 10.000 de queda. E a velocidade... não era a-toa que o Gloster estava endemoniado, pulando que nem cabrito. O ponteiro do maquímetro ( medidor de número Mach) já havia ultrapassado a marca vermelha de seu limite e andava perigosamente na casa dos .85 . O F-8 estava entrando em compressibilidade e se as providências não fossem imediatas os planos e a cauda em breve começariam a nos deixar. Portanto, manetes no bolso, flape de mergulho aplicado e, com muito cuidado, muito cuidado mesmo... bem suave e devagarinho... vamos iniciar a recuperação. Mais uma olhada no Maquímetro... .83 , já dentro dos limites, altímetro estabilizado em 25.000 pés... muito bom!. Grande F-8, havia suportado com galhardia a ultrapassagem de seus limites!
MAS, AFINAL O QUE HAVIA ACONTECIDO COMIGO? E O QUE FAZER AGORA?
Recapitulando: havíamos decolado de Canoas com 12 Gloster Meteor do 1o /14o Gp.Av., com destino a Fortaleza, sede das reunião anual da aviação de caça, com um pouso intermediário em Santa Cruz. O então T.Cel. Bins Netto - o nosso querido Binzão, Comandante do Esquadrão - liderava a formação. Eu me havia escalado como número dois da terceira esquadrilha para poder fazer o cheque de então Tem. Luyet para líder de Esquadrilha em vôo.
Após a decolagem iniciamos a subida, já em formatura de Batalha, a princípio para os 30.000 pés, altitude máxima de deslocamento até que se esvaziassem os tanques de asa, após o que ascenderíamos para o nível de cruzeiro ideal, FL400.
Na metade final dessa última subida, lá pelos 36.000 pés, comecei a me sentir desconfortável e inquieto na cabine, com uma forte sensação de que algo não ia bem. Imediatamente pensei no suprimento de oxigênio - e aqui vai uma informação técnica necessária: o F-8 era pressurizado, com a cabine mantendo-se a 17.000 pés quando a aeronave voava a 40.000.
Nós usávamos máscaras de oxigênio incorporadas aos nossos "crash-helmets", desde a partida dos motores, uma vez que o microfone ficava dentro da máscara. O suprimento de oxigênio vinha de um reservatório localizado na fuselagem e era feito através de uma traquéia que passava sob o assento do piloto e chegava a um terminal preso ao cinto do assento. Nesse terminal o piloto encaixaria o terminal de sua própria máscara, dessa forma permitindo o fluxo desde o tanque, sob pressão, até o consumidor.
Voltando à estória, desde o final da subida, eu estava me sentindo diferente, inclusive com uma tremenda dificuldade para manter a posição na formatura, incapaz que era de antecipar-me às variações de velocidade, para efetuar as devidas correções. Havia desconfiado da tal da anóxia, mas todo o procedimento previsto na NPA (Norma Padrão de Ação / Lista de Verificações) havia sido feito e refeito, sem apresentar qualquer dúvida: oxigênio ligado em "HIGH" - lá estavam as duas bolinhas indicando fluxo adequado para altitudes elevadas; quantidade remanescente no reservatório - mais da metade; conexão da traquéia sob o assento ( que durante as inspeções periódicas para verificação do assento de ejeção era desconectada) - lá estava a traquéia, conectada em seu devido lugar; unhas arroxeadas? - e lá eu tirava as luvas e conferia um certo tom lilás. Não era essa a coloração normal? Então, o que estava ocorrendo comigo? Se não era oxigênio, seria então algum mal-estar?, Seria um enfarte? Não, dizem que enfarte vem acompanhado de dores fortes e eu não estava sentindo dor. Na realidade eu estava mais para bêbado. Mas, como ? se eu não havia ingerido sequer uma coca-cola. Então...
Então gritaram que o DOIS VERMELHO estava caindo...
Apesar de estar mantendo um nível razoavelmente mais baixo - FL 250 (25.000 pés) - eu continuava grogue. Volta e meia o Luyet, que agora voava na minha ala, corrigia minha proa, sem que eu me desse conta de que havia efetuado um desvio de 10 ou 20 graus. A solução seria baixar ainda mais, porém o consumo aumentaria perigosamente. Comecei a pensar em desviar para São Paulo e pousar em Cumbica. Mas, a idéia de que deveria prosseguir, de que o nosso Esquadrão não poderia chegar capenga em Santa Cruz, me fez protelar a decisão e, pela enésima vez, efetuar a verificação do oxigênio.
O fato é que ao fazer um movimento mais brusco com a cabeça, eis que me deparei com a traquéia da minha máscara balançando que nem tromba de elefante de circo. Ali estava a causa de tudo : a traquéia se havia soltado do encaixe no cinto e a máscara, volumosa, não me permitia ver para baixo, na altura do meu umbigo, onde as conexões deveriam estar feitas. E não me havia ocorrido fazer uma verificação com as mãos, pelo tato, abanando a traquéia, coisa tão banal, porque essa verificação não constava da NPA e eu, entorpecido pela deficiência de Oxigenação, Não conseguia ir além da pura e simples repetição dos itens da NPA.
Restabelecido o suprimento de oxigênio, duas coisas aconteceram: 1) a reassunção imediata e instantânea de toda a minha capacidade de raciocínio; e 2) a maior dor de cabeça que já senti em toda a minha vida. Parecia que o cocoruto da cabeça ia abrir-se em dois hemisférios.
Agora, vendo lá de cima e bem à frente no céu aqueles pontinhos brilhantes - o Esquadrão Pampa - imaginei que talvez ainda desse para entrar em forma antes da tradicional passagem rasante em casa dos Jambocks e Pif-Pafs. Bastaria aumentar as rotações para o máximo contínuo, retardar a aplicação do flape de mergulho na descida e pedir a colaboração do Comandante para fazer uma curva bem aberta e ...
Quando o Esquadrão efetuava a passagem baixa sobre a pista, com seus doze Glosters impecavelmente formados, me surpreendí filosofando: - como é pequeno o divisor entre a vida e a morte! Se o grito do DOIS VERMELHO ESTÁ CAINDO tivesse sido dado uns poucos segundos depois, com certeza teria sido tarde demais! E eu não estaria aqui! Puxa, como é bom estar vivo para poder sentir estas emoções, que não são dadas a qualquer um! E completei o pensamento: agora, chega de sustos e vamos tranquilamente curtir o restante da missão!
Longe estava eu de supor que a volta de Fortaleza para Santa Cruz, não seria assim tão tranquila... mas essa é uma outra estória, que qualquer dia eu conto.

A la chasse!

Rui Messias de Mendonça Maj. Brig. R.R.

 

O 1º GRUPO DE CAÇA: ANOS 48/50 - VISTO POR UM ASPIRANTE- ESTAGIÁRIO


"Saint Croix sur-mer"
Àquela época, servir na Base Aérea de Santa Cruz (BASC) não era servir no Rio. O meio de transporte mais expedito(?) era o trem da Central (também conhecido como Trem da Base e que fazia o trajeto direto Central-BASC pela manhã (saída 05:35h) e retornando à tarde (saída às 16:20). Fora disso, a alternativa era o trem normal até Santa Cruz e o restante via ônibus ou taxi até a Base. Tempo de deslocamento: 1:30h.
Época houve em que, não estando a Central do Brasil totalmente eletrificada, o trem da Base era "modular": até Deodoro o módulo era elétrico. A partir daí, o módulo era "Maria Fumaça"...! O que obrigava troca de máquina... e tempo de espera! O Trem da Base , passou a ser também conhecido com "Trem das Professoras", a partir de uma autorização dada às professoras estaduais/municipais que lecionavam nos subúrbios localizados na "ferrodrômica"... Com essa mixagem muitos casamentos ocorreram.
Para os proprietários (poucos) de "pés de borracha", a "via crucis" passava pelos subúrbios (via Cascadura-Afonsos-Realengo) ou via orla marítima, enfrentando o "zig zag" não pavimentado da Grota Funda e o trajeto via Campo Grande e Jacarepaguá. Tempo de deslocamento: 01:30h.
O Trem da Base merecerá um capítulo especial por óbvio...
A BASC era, então, uma composição de heranças. O imponente Hangar do Zeppelin era o ponto central das atrações e da vida da Base. No seu entorno, as memórias alemãs: as instalações da fábrica de hidrogênio ( mais tarde conhecida como "oficina do Baytack"), as oficinas gerais (mais tarde "a garage do Ten. Freire e a vizinha "ferraria do velho Peixoto"). Junto do Portão Principal, as instalações "brasileiras": o almoxarifado de intendência, a infantaria e o Rancho dos Praças e Subalternos.
A partir da "cerca alemã", apareciam as instalações da Base Americana com seu Posto Médico, seus alojamentos de praças, Cassino de Oficiais com seus alojamentos ( em forma de U) com quartos para dois Oficiais cada, o Cinema, a estação meteorológica e, para o lado da estrada interna, o Suprimento Técnico "do Harrington" e as oficinas de manutenção técnica (aviação), hoje o MTU (Mobile Training Unit) dos F-5.
O Cassino dos Oficiais - com o Rancho, Salão de Estar, barbearia do Felizardo, o bar (sem bebidas), o Clube do whisky dos Veteranos (com o líquido de cada um), o piano do Antonio Henrique - era o centro de convivência da oficialidade; os Aspirantes à margem... Com quadra de Esporte (ainda não havia piscina) dali se fazia girar toda a vida social dos Oficiais, já que o "serviço" estava no prédio do Comando e no Hangar. Os Aspirantes ocupavam o alojamento 3, habitado também por "fantasmas e almas penadas"...
O Grupo de Caça ocupava as construções laterais (externas e internas) do Hangar que se avizinhavam do pátio de estacionamento. O Comando do Grupo ocupava o segmento central externo das instalações, enquanto o 1o Esquadrão o segmento sul e o 2o Esquadrão o segmento norte (hoje, a Embarcada).
Os aviões do 1o Esquadrão eram estacionados no pátio sul do hangar enquanto os aviões do 2o Esquadrão estacionavam no pátio oeste, disputando espaço com as aeronaves em trânsito e da Esquadrilha de Adestramento, que ocupava o pátio norte.
À época, o 1o Grupo de Caça tinha como dotação cerca de 25 aviões/Esquadrão sendo que o 2o Esquadrão tinha um acervo misto de P-47 com T-6, já que abrigava o ESTÁGIO PARA SELEÇÃO DE PILOTOS DE CAÇA (ESPC).
A Esquadrilha de Adestramento era equipada com aeronaves administrativas de "raça" variada: T-19, T-6, L-6 (Neiva), UCA-4F2 ( Grumman anfíbio G-44 Widgeon), UC-61A (Fairchild asa-alta, avião do Cmt. da BASC) e o C-45 Beech-bi. Era o nosso relax: os "rambles" de fim-de-semana ...
"Modus Vivendi"
Estrutura organizacional e as atitudes.
Até a vigência da Portaria 295, as Unidades Aéreas não tinham estruturação formal própria na FAB. No caso do 1o Gp.Av.Ca., uma NPA (norma padrão de ação) interna regia o funcionamento e estrutura do Grupo e seus Esquadrões. E, em decorrência desse documento interno, é que as funções e responsabilidades eram definidas.
O que causava curiosidade é que, em caso de dúvidas, valia a norma interna muitas vezes em confronto com a legislação em vigor que era, por todos considerada ultrapassada e, portanto, inaplicável! .
Em assim sendo, para os novos Oficiais, a Norma Interna, as atitudes dos Comandantes, as posições dos componentes da Unidade Aérea, etc. ganhavam um peso específico e respeito enormes. E isso exacerbava o ESPÍRITO de CORPO, na época ainda em formação, porém muito presente e disponível para ser estimulado no coração de todos. Como o foi...
É nessa época que se inicia o movimento de ORGULHO de PERTENCER: "nós não éramos melhores ou piores: apenas diferentes..."
O Serviço Diário: as inovações
O Serviço diário (Superior de Dia, Oficial de Dia e Oficial de Operações) era executado de conformidade com o Regulamento. Entretanto, o Grupo de Caça instituiu alguns serviços de atendimento ao vôo diário, que complementavam a prestação de serviços do pessoal de operações e controle de vôo. Como era o caso do Oficial do Carro de Pista: chefiando uma "jipona" do tempo da guerra, equipada com rádio VHF/HF, com um motorista e, às vezes um técnico de rádio, se postava na cabeceira da pista em uso e, cumprindo normas operacionais, não só complementava as ações da TWR (Torre de Controle) como assistia aos pilotos em casos de dúvidas da NPA, nas emergências e no cheque de "trem em baixo". O serviço era dado em meios-expedientes e estava "a postos" SEMPRE que houvesse atividade aérea programada. Os meios para o serviço de Carro Pista pertenciam à Seção de Viaturas do Hangar, vinculada ao S4 (Oficial de Material) do Grupo e a escala de Oficiais era feita pelos Esquadrões.
No mesmo escopo, o 1o Gp.Av.Ca. instituiu - inovando totalmente - um SERVIÇO de ASSISTÊNCIA ao VÔO (SAV), cuja missão era a BUSCA e RESGATE na área de instrução, principalmente das tripulações caídas no mar. Atente-se que ainda não havia serviço SAR ( Search and Rescue) oficialmente organizado.
O SAV era chefiado por um piloto do Grupo e possuia, como meios físicos: uma ambulância equipada, uma viatura jeep, uma motocicleta Harley (vinda da Itália), uma aeronave de ligação leve (L-6), uma lancha equipada e uma base náutica/ancoradouro em Sepetiba. Para operacionalizar a base náutica, a BASC até fez instalar o PRIMEIRO telefone assim como iniciou a implantaçãp de rede elétrica em SEPETIBA que, à época, vivia suas noites da base do lampião. Sem falar, evidentemente, nos "camarões casadinhos" do bar do LELETE, degustados à luz de velas pela Esquadrilha de pernoite.
O começo de tudo...
A apresentação dos Estagiários aos Veteranos (fevereiro) e aos Instrutores cumpria um ritual ainda não visto (ou sentido) por nenhum dos Aspirantes, e não praticado em nenhum outro canto da FAB.
A Unidade estava pronta para nos receber: nomes nas plaquinhas, distribuição por Esquadrilha, escaninhos/armários alojamentos já personalizados, NPA/apostilas já impressas e identificadas por recipiendário, equipamento de vôo separado e preparado. Em suma, nos sentimos "ardentemente" desejados e esperados...
A rotina diária era "war-like". Fizemos um rápido repasse na Instrução técnica do T-6 (todos já éramos solos) e iniciamos a instrução aérea do ESPC imediatamente. Os tempos de vôo começavam ao nascer e terminavam no por do sol.
Além da instrução aérea, cada um de nós exercia uma função no solo (auxiliar...) o que fazia sobrar muito pouco tempo para qualquer atividade "fora do esquadrão". Não satisfeitos com isso, os Veteranos/Instrutores nos impuzeram um rítmo de trabalho que obrigava o pernoite obrigatório no Quartel, já que o Curso Técnico do P-47 (Centro de Instrução Técnica- CIT) era ministrado todos os dias , das 19:000 às 22:00h !
A grita foi geral: "voltamos aos tempos de Cadete!"
A Instrução Técnica do P-47 merece um capítulo em separata pois, àquela época, o conhecimento dos Manuais de Operação e Utilização (traço 1) eram sensivelmente igual a zero, em toda a FAB. O motivo primeiro é que eram em inglês tipo "Technical Order" ou seja, "até para americano ler e entender é dose..." Segundo, por que o embasamento técnico do aviador era sofrível o que , além do complicador da língua, tornava o aprofundamento extremamente difícil.
A solução encontrada pelos VETERANOS foi "ensinar no avião em tamanho real" ou seja: desmontou-se um P-47 (acidentado), separaram-se SISTEMAS por SISTEMAS em painéis operacionais (com movimento e funcionamento). Os SISTEMAS eram não somente explicados como as partes estavam em funcionamento: as panes e procedimentos de emergência eram simuladas e solucionadas pelos Estagiários... operando o sistema!
Era, verdadeiramente. um "MTU dos anos 48!"
Isso sem deixar de mencionar o fato que, TODA a documentação já estava em português, eliminando a necessidade de domínio de inglês. E foi nesse "pavilhão do saber" que - com pleno êxito - aprendemos a respeitar (e não temer) essa jóia aérea que era a nossa futura máquina de guerra: o P-47 THUNDERBOLT.
Justiça aqui deve ser feita ao então Chefe da Seção de Instrução do 1o Gp.Av.Ca. (1o Ten.Av. ANTONIO HENRIQUE ALVES DOS SANTOS) que idealizou e colocou em operação o CIT P-47, auxiliado pelos Veteranos !SS ADOLFO, 1S MICCHELONI, 1S BRAGA, 1S FAZANI, 1S CID, 1S PELAGIO, 1S TORRES, entre outros.
Todos voávamos em torno de 25h/mês, o que permitiu atingir a marca de 120 horas voadas em cerca de 5 meses de instrução. Era o ritmo de guerra e a intenção era solar o P-47 até junho!
Os possíveis tempos livres eram utilizados para estudar o "inimigo" - o P-47 - e as NPA (antes Normas Padrão de Operação - NPO) e as Normas de Instrução que cercavam o vôo no ESPC além - evidentemente - dos "debriefings" da Esquadrilha, onde cada um dos estagiários recebia uma análise de seu aproveitamento semanal. Era, na realidade, um pré-balanço da roseira"...
Aprendendo a ser Caçador
"Esqueçam o que aprenderam: agora vocês serão treinados para ser Pilotos de Caça. E o T-6 é um P-47 mais leve"... diziam os instrutores.
E foi assim. O treinamento no ESPC era, na realidade, um Curso de Caça "apéritif"... : todas as missões do Curso de Caça estavam presentes no ESPC, com a diferença de , ao invés de estarmos a 350 mph (e 10 toneladas) estávamos a 140 mph ( e a 2 toneladas)!
Na época, o aprendizado da Linha de Frente era fundamental. Primeiro, por representar uma excelente ferramenta de treinamento ( e seleção) e segundo , por que todo o dispositivo ofensivo/defensivo da Caça se baseava na disposição dos aviões na referida formação: com quase todos os olhos vigiando o setor sol . Era da LF (Linha de frente ) que se partia para o combate!
São bem lembrados os "briefings" dos Veteranos MOTTA PAES (Operações do 2o Esqd/ESPC) que não só enfatizava a interdição do uso do motor como "demonstrava ", subindo com a Esqda de T-6 até 11000 pés, de tal forma que - todos com o "motor no batente" - só cabia ser exímio na pilotagem, nos cruzamentos, etc: o motor já estava no "esbarro"...
Outras fases exigentes eram compostas pela ACROBACIA feita com extrema exigência de perícia, e as FORMATURAS (de elemento, básica) onde cada um de nós era levado ao seu limite de capacidade de auto-disciplina, controle de exaustão e pilotagem, tentando "desgarrar jamais" e ser um verdadeiro e elogiável "ala carrapato"... A fase de formaturas (5F) representava - pelo menos - um terço do programa.
Nos COMBATES eram separados os homens dos meninos , e são muito lembrados os "black-outs", os "red-outs" e (por que não) os "yellow-out", quando alguns T-6 foram levados à carga de 13 g!
tudo em busca dos melhores ...
O Estágio finalizava com a FASE de EMPREGO, cheia de novidades e vibrações pois, naquela época, o "dedo no gatilho" só existia no 1o Gp.Av.Ca.! Cabe ainda não esquecer as missões isoladas de T-6, voadas com máscara de oxigênio e as aproximações velozes, à guiza de pré-aclimatação com o TIJOLO!
Neste "ritmo alucinante", solamos o trator voador em junho de 1948, como previsto inicialmente. E iniciamos o Curso de Caça no P-47. Dos 25 aspirantes apresentados diplomaram-se 11(onze) no Curso de Caça.

Maj.Brig.R.R. Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - turma de 1947


TEIA DO SUFOCO


Em meados de 1987, servindo no 1o Grupo de Aviação de Caça, fui escalado para executar um ataque simulado a uma Força Naval, como parte dos exercícios realizados na "Operação Unitas", cujo número não me recordo mais.
Recebi a O. Frag. (ordem fragmentária), oriunda do antigo COMAT (Comando Aerotático), no início da noite e me coloquei a planejá-la juntamente com o companheiro que voaria a missão comigo.
A decolagem estava para as 5:00h da madrugada do dia seguinte e a missão era bastante vibradora e operacional, a exemplo de tantas outras que realizamos em "Santaca".
Os navios de guerra brasileiros e estrangeiros, encontravam-se aproximadamente 180 NM(milhas náuticas) de distância do través de Vitória (nosso Ponto de Início da Navegação a Baixa Altura - PINBA) e longe "pacas" de Santa Cruz. Para esta missão estava previsto um Reabastecimento em Vôo (REVO) a baixa altura, no regresso, após o ataque.
Com o planejamento concluído, estudamos minuciosamente todas as possibilidades do ataque e executamos o brifim.
No dia seguinte, antes de ir para a sala de equipamento de vôo, passamos no OPO (sala do Oficial de Permanência Operacional) e pegamos com o "ALEMÃO" (um Cabo de cor negra que sempre atendia os pilotos com competência e um sorriso estampado no rosto) o nosso código IFF(identification friend-or-foe) e as matrículas das máquinas que utilizaríamos.
Cheques preliminares, partida nos motores, rolagem, autorização de posição, decolagem da pista 04 e lá fomos nós para cumprirmos mais um "quadrinho".
Eu era o piloto líder das duas aeronaves F-5E e estava bastante tranqüilo, pois o planejamento da missão tinha sido minucioso e o meu ala era um piloto altamente operacional e muito experiente na aeronave.
Horário de decolagem foi britanicamente cumprido. Fiz a curva após a decolagem até Vitória, sob as ordens do Controle Rio. Próximos ao nivelamento, fui orientado a passar à escuta do canal de Defesa Aérea, que, a partir daquele momento, nos controlaria até o final da missão.
O "silêncio rádio" deveria ser observado com rigor, para não facilitar a identificação das aeronaves atacantes pelos navios "inimigos".
A visualização dos alvos foi facilitada devido as boas condições meteorológicas reinantes na área do objetivo e, ainda, pela precisão da "dica" que foi passada pelo PDATAR ( Posto Diretor Aerotático no Ar) operado por uma aeronave P-95 Bandeirulha dos companheiros de Salvador.
Efetuado o ataque com sucesso e com a missão cumprida, passei até o Barão (aeronave tanque KC-130), iniciando assim o retorno para casa.
A partir desse instante começou o desespero!
Meu ala, que até não havia falado praticamente nada, de repente botou a "boca no trombone" e informou que estava em emergência. Quis saber logo do que se tratava, pois estávamos muito longe do continente e uma ejeção naquela posição seria praticamente o fim do meu azarado companheiro de missão.
Orientei-o para que ganhasse altura na proa da Força Naval, porque, caso tivesse que abandonara aeronave, seria melhor que o fizesse próximo de algum navio para facilitar o resgate.
Entretanto, meu ala não falou mais nada, não subiu, não curvou, dando nítida impressão que havia "cristalizado".
Após algumas tentativas de contato com outro avião, já preocupado com o combustível que começava a ficar crítico, escutei a seguinte mensagem: "francês, tô com uma aranha caranguejeira enorme a bordo andando no painel de instrumentos"!
Para breve descrição do aracnídeo, supus que perderíamos o piloto e o avião a qualquer momento, pois conhecia bem a "coragem" do meu ala para esse tipo de situação, tendo em vista que tratava-se de um fraterno amigo e colega de turma.
Ciente do grave problema, consegui coordenar o "rendez-vous" com o Barão e informar à Defesa Aérea, que há muito tentava falar conosco em vão, que estávamos com um pequeno problema técnico à bordo, não dizendo, evidentemente, que a pane era da aranha...
Passei a encorajar o bravo piloto, que, naquela altura do campeonato, estava com voz de desesperado. Sugeri que ele desse uma porrada no animal, lembrando ao Caçador que ele tinha uma mão enorme e que estava de luvas. Porém, o Guerreiro respondeu que se ele errasse o alvo, o bicho poderia pular no colo dele ou cair vivo no soalho da cabina, o que, em ambos os casos, seria a desgraça total.
Aos poucos consegui voar na proa do KC-130 para que tentássemos um REVO naquelas condições psicológicas porque, caso não lográssemos êxito, perderíamos a máquina talvez o piloto e certamente a aranha, grande responsável por toda a confusão.
Afortunadamente, tive a idéia de sugerir ao meu ala que esmagasse a fera pernuda e cabeluda contra o painel do avião utilizando a prancheta de vôo.
Após algum tempo, já com voz mais firme e nitidamente aliviada, o corajoso Guerreiro informou que achava que tinha "matado" a pane. Não podia confirmar, porque a fera mortalmente ferida, tinha caído do painel e o nobre amigo tinha "perdido o visual" com ela.
O REVO foi feito literalmente à jato e o regresso à Base, quase supersônico.
Pousamos o mais rápido possível. Ainda bem que a pista de taxi não tinha "pardais" ou radares, como os do Eixão em Brasília ou a Linha Vermelha no rio, pois teríamos sido multados várias vezes por excesso de velocidade.
Eu, mais do que ninguém, estava curioso para ver o bicho que causou uma catástrofe aviatória ou abortou nossa missão.
Após o corte dos motores o meu ala saiu da cabina que nem um raio e, colocando mais uma escada na lateral da fuselagem do avião, escalou o mecânico que continuasse a busca, pois provavelmente o animal havia se escondido em algum buraco a bordo.
Soube mais tarde, através do mecânico ( que me pediu segredo absoluto), que a aranha não era maior que uma tampa de garrafa de cerveja e que o nobre Caçador tinha "pressionado" o coitado do sargento da pista para esquecer o assunto e manter "sigilo militar" a respeito do acontecido, para que ele não caísse na boca do povo.
Esse foi o meu ala. Bom Amigo, excelente piloto, instrutor criterioso e oficial competente. Tinha, é verdade, um certo trauma de dormir com luz apagada e pavor de estórias de assombração, além, é claro, de medo de aranhas.
Quis o destino que, anos mais tarde, um acidente de automóvel o afastasse do nosso convívio prematuramente.
Peço ao grande Arquiteto do Universo que o abençoe e ilumine onde quer que ele esteja.
"A la chasse " meu irmão!!!

Luiz Roberto Moura e Souza (Francês) - Cel.Av.
Ex-Comandante do 2o /5o G.Av.
Jambock Honorário no 59

PARAFUSO CHATO INVERTIDO DE P-47


Do efetivo do 20 Esquadrão Pif-Paf da Base Aérea de Santa Cruz, com 50 horas de vôo no P-47 Thunderbolt, considerava-me conhecedor de todos os seu segredos.
Ao meio dia de 14 de abril de 1948, no P-47 4141, iniciei, a partir de 30.000 pés, picada para ganhar velocidade para uma Curva de Immmelman.
Adquirida a velocidade, veio a puxada para executar a manobra. O sol estava a pino o que me ofuscou a linha do horizonte. Desvirei, ainda com o nariz alto, o que provocou a entrada em parafuso.
Por estar sem as 8 metralhadoras, portanto mais leve, a subida até 30.000 pés para realizar manobras e acrobacias a grande altitude, foi rápida, tendo gasto pouco combustível do tanque auxiliar. Com tanque auxiliar quase cheio, o centro de gravidade deslocado, não era aconselhável executar acrobacias, recomendação essa que só tivemos conhecimento após o acidente que estamos relatando.
Já em parafuso, achei que seria barbada retornar ao vôo normal. estava enganado. Fiz todos os procedimentos para tirar do parafuso, sem resultado. Atochei a manete dos gases e, então houve uma inversão brusca no sentido do parafuso, o que resultou uma forte batida da minha testa no canopy. Naquela época usávamos um capacete de lona, aonde a máscara de oxigênio se prendia.
Com a batida, apaguei. Nessa altura, com a manete para frente, o P-47 entrou num parafuso chato invertido. O sangue voltou logo para a cabeça o que provocou em poucos segundos, a visão vermelha. Antes, porem, pude ver no altímetro que estava cruzando 10.000 pés, altura determinada para abandonar o caça, caso não conseguisse sair do parafuso.
Nem com o auxílio das pernas consegui segurar o manche. Os paloniers (pedais), em movimentos rápidos, iam a fundo e voltavam para trás.
Não havendo mais possibilidade de sair do parafuso chato, levei a mão à alavanca de emergência do canopy, tendo o mesmo imediatamente sido ejetado pela força centrífuga. Com muito esforço, usando os dois braços para trazê-los à barriga e abrir o cinto de segurança, fui ejetado da cadeira pela mesma força centrífuga. Achei que seria pego pela empenagem, mas felizmente não o fui.
Como o meu corpo girava bastante, não puxei logo a argola de abertura do pára-quedas. Abri os braços, o P-47, em parafuso com o motor acelerado, passou diversas vezes por mim. Sorte não ter aberto logo o pára-quedas. Quando parei de girar e sentindo que o P-47 já estava mais longe, abri o pára-quedas, aproximadamente a 5.000 pés.
Fiz uma inspeção para ver os estragos que teria sofrido. Sangue ofuscando parte da visão, corte no pescoço e, à primeira vista, sem os pés, no que foi logo observado com satisfação que somente tinha perdido os sapatos.
Olho para baixo e vejo o P-47 ainda em parafuso atingir o solo, num laranjal em Sepetiba. Vejo a torre da Radiobrás bem abaixo de mim.
"Glisso" com o pára-quedas, ora para um lado ora para o outro para desviar da torre e do lodo da Baía de Sepetiba, até tocar o solo em um outro laranjal a uns 500 metros do local em que caiu o P-47.
A emoção foi tão grande de estar vivo que levou-me a beijar o chão. O ten. Barbosa, mais conhecido como "Boquinha", grande amigo, no SAR (Servico de Busca e Salvamento) Santa Cruz, saiu em uma moto Indian para me achar. O terreno era difícil para moto, o que resultou em um desastroso tombo.
Quando chegamos à Base, disse-lhe: "eu salto de pára-quedas e você que se quebra seu desastrado". Abraços dos amigos da querida Base de Santra Cruz. Daí por diante passei a chamar o Thunderbolt de "Senhor"; havia perdido, por algum tempo, a intimidade com o P-47, aeronave que tenho orgulho de ter voado mais de 800 horas.

Cel.Av.Ref. João Luiz Moreira da Fonseca
Piloto de Caça - Turma de 1947


O BACALHAU VOADOR

Era final de 92 e nós estávamos voando de Brasília para Natal, onde faríamos a outorga do "troféu Instrutores de 1966" ao Estagiário mais eficiente do Curso de Caça que se encerrava.
Dos dezesseis instrutores que seguraram a barra lá em Fortaleza, na "Sorbonne da Caça" em 66, ainda estamos por aí 13. Nos deixaram o Fleury, o Zé Areal e o "Azul"Gonçalves.
A bordo do Bandeirante íamos o Blower, o Vilaça, o Celestino, o Starling e o Jac Bac. Nos conduzia o nosso jovem comandante, Lauro Menezes. Pifaram o Veiga, Marées, Felinto, Chagas e Salazar. O Raposo foi direto do Rio para Natal.
Jac Bac era o Operações do Esquadrão naqueles tempos de 66 e para nós de Santa Cruz, que não o conhecíamos, foi uma experiência enriquecedora conviver com ele. Suas estórias, no entanto, já eram do nosso conhecimento desde há muito. O cara realmente era e é, uma figura com poucas; um tipo inesquecível.
Comecemos pelo nome, Marcos Silveira, e o apelido, Bacalhau. Acho que foi o Blower que, reagindo a agressiva sonoridade do apelido o modificou para Jac Bac. E o negócio colou. Para nós de 66 ele é, carinhosamente o Jac Bac até hoje.
Sem sombra de dúvida houvesse ele sido contemporâneo dos grandes pioneiros, teria seu nome inscrito nos anais da História da Aviação. Além de exímio piloto, o que mais impressionava-nos era a absoluta tranquilidade com que ele se havia nas mais incríveis emergências (algumas, há que ser fiel à verdade, que ele mesmo, com suas maluquices criava) e a sua absoluta vocação para a aventura.
Uma vez, numa decolagem de doze aviões, um Estagiário saiu da reta lá na frente e deixou o remu (turbulência) direto para o Bac lá atrás. O TPA (Tanque de Ponta de Asa), abastecido com cento e cinquenta galões, bateu na pista e voou longe. Para um piloto normal seria a catástrofe certa. Na melhor das hipóteses, em se safando, ele voltaria apavorado: o F-80 era "impilotável" à baixa velocidade com tamanha assimetria de peso. Para o Bac foi um acontecimento absolutamente corriquero. Com aquela "delicadeza" que lhe era peculiar, ele entortou o avião e saiu razante, de lado, todo derrapado, até ganhar velocidade e retornar para o pouso. E sem sequer alijar o outro tanque (no T-33, com o "autodrop" ligado, o alijamento seria automático: saía um, saía outro; no F-80 havia que comandar).
Em outra ocasião, tivemos aquele apagamento do motor na demonstração de 23 de outubro na Praia de Boa Viagem. A turma do armamento da Base havia caprichado nos alvos e misturado um pouco de pólvora à gasolina nos tambores.
Eu, Segurança de Vôo do Esquadrão e coordenador da demonstração, bem que avisei para a galera não atirar de perto. No que fui apoiado incondicionalmente pelo Bac, que era o líder do vôo.
Não deu outra. Ele atirou na cara do alvo, houve uma tremenda explosão e o F-80 saiu do outro lado razante sobre o mar. Depois ele explicou que havia sido necessário manter razante para preservar a velocidade e não perder rotação enquanto era dada a nova partida! O motor havia parado e ele executava a complicada sequência manual de partida no ar do F-80 (automatismo, só muito mais tarde com a nova geração de T-33).
Mas foi durante o vôo para Natal que eu soube de uma que me era desconhecida.
Ele havia saído de Fortaleza e estava servindo no Parque de Recife. Um dia, decolou para fazer uma experiência de B-26 e resolveu dar uma "voltinha" no Atol das Rocas.
Ele era metido a mergulhador, parceiro contumaz do Bill lá em Noronha (este era um cozinheiro paraibano que aprendeu a mergulhar com os americanos que andavam pela ilha no início do programa espaciaL, e ficara famoso com as loucuras subaquáticas que aprontara).
Não esqueço o episódio do mergulho que ele fazia com o Marquinhos (que devia ter uns dez anos) na ponta sudoeste da ilha, naquele paredão que parece descer para o fundo do mundo (bem em frente ao Buraco do Diabo).
Foi quando apareceu um enorme tubarão branco (ele fala em dez metros dando o desconto de pescador, aceitemos cinco). Cruzaram frente a frente, com afastamento lateral, e o bicho curvou para o lado da dupla.
Diz o Bac que só havia uma coisa a fazer: engajar combate. Ele comandou "Ataque 2" para o Marquilhos e fechou a curva para cima da fera. Depois de algumas enroscadas sem vantagem para ninguém, o "inimigo" desistiu e terminou indo embora!
Ainda sobre o mergulho, ele dizia não gostar de sair com o pessoal de Recife porque eles mergulhavam em navios afundados em locais de água suja, havendo que descer agarrado a um peso até uns 30 metros sem saber exatamente o que havia lá embaixo, nem mesmo ao chegar ao fundo.
O que ele gostava era mar aberto. era suficiente entrar no meio dos cardumes sob ataque das gaivotas, mergulhando para sair embaixo onde estavam os grandes predadores. Aí era só escolher e mandar bala, embora às vezes ocorressem surpresas assustadoras.
Pois é, mas voltando a Rocas.
Depois de curtir o visual, ele resolveu cumprir os itens de vôo de experiência e embandeirou um motor, desembandeirou e repetiu com o outro. Só que aí, houve um disparo de hélice e o melhor mesmo foi ficar no embandeiramento inicial.
Ele até que disse ter sentido um pouquinho de receio e solidão lá no meio do oceano (naturalmente, ele estava voando solo). Como a situação não tinha mesmo jeito, ele tomou o rumo de casa e botou a boca no trombone, tentando se comunicar com alguém. Foi atendido por um Pan Am que voava de Dacar para Recife.
Ao informar a emergência, o americano teve o maior chilique no rádio e, na maior adrenalina, procurou manter o moral do Bac, dizendo que havia sido piloto de B-26 na guerra, e que compreendia a situação, que o Bac tivesse calma, que tudo ia acabar bem, que o avião não merecia a fama etc. etc. etc. E o Bac sem entender direito o porquê de tanto "AUÊ"...
Despediram-se pelo rádio muito depois, com o aeroporto à vista e o Bac só veio a compreender o trauma do gringo 25 anos depois. O avião que a FAB chamava de B-26 havia sido, na guerra, o A-26. Um excelente avião, confiável e estimado por todos que o voaram. A FAB os teve, primeiro em Cumbica, voando bombardeio, ataque e reconhecimento.
O verdadeiro B-26 foi um bimotor Martin chamado Marauder. Os primeiros modelos da séria "A", foram tão tenebrosos que grangearam ao avião o apelido de "Widow Maker" (Fazedor de viúvas). Daí trauma do piloto americano. Ele havia sido um sobrevivente do B-26 e certamente achava que o Bac ia "entrar pelo cano".
O Jac Bac hoje é um pacato empresário em Goiânia (há que ver para crer). Eu sei, por exemplo, que não faz muito , ele andou voando no garimpo em Roraima e que tem estórias de arrepiar por lá
Um dia ele conta.


Cel.Av.R.R. Paulo Pinto
Piloto de Caça - Turma de 1961


O "PEEL-LOTT"

O "peel-off" é definido como a manobra que permite mais rapidamente passar-se de uma formatura básica a uma "cobrinha", para o pouso individual; é uma curva de 360o, usualmente cabrada, iniciada em velocidade de cruzeiro (ou superior) e terminada em velocidade de pouso, com trem e flap em baixo. Mas o "peel-off" (cada tipo de avião tem o seu...) vira rapidamente uma competição velada entre os pilotos (todos vaidosos, por constituição). Assim, disputa-se o "peel-off" mais rápido, o mais apertado, o mais cabrado, etc.
O Lott era um grande piloto; só isso salvou-lhe a vida mais de uma vez. Numa delas, regressando de um "reboque de biruta" em T-6, entrou "na inicial" bem baixo (uns 100 pés) e puxou um "peel-off" p'ra valer, ultra apertado! O pessoal que estava à porta do Esquadrão começou a achar que a coisa não ia dar certo: a 180o ele estava praticamente em cima da pista, o trem começando a sair e o flap descendo... o avião "tremendo", meio estolado... e ele insistindo na "apertada"!
Não deu outra: o avião entrou em parafuso (para fora do "peel-off"), mas tão baixo que tocou logo o chão (o trem ainda baixando, não travado) e continuou se arrastando, um pouquinho, no lado esquerdo da pista. Tinha sido inventado o "PEEL-LOTT".


O MONUMENTO RODOVIÁRIO E O TEIXEIRA


O Monumento Rodoviário, marco turístico no alto da serra, tinha um farol rotativo bem igual a um farol rotativo de aeródromo; de fato era azul e branco, mas lá de cima todos os gatos são pardos...
Vôo noturno de P-47; o tempo não está lá aquela coisa, mas ainda vai dando e os pilotos decolam para sua hora de vôo. Ainda há muitos buracos e dá para ver Petrópolis, Niterói, etc. O Teixeira (Boca Mole), o piloto de caça mais calmo que já vi, estava lá sobre a serra, na área de instrução, pensando não se sabe o quê. Tempo de regressar para o pouso, ele aproa mais ou menos o sul e vai começar a baixar dos 15.000 pés quando se surpreende com o farol rotativo de Santa Cruz (SC), bem mais perto do que esperava. Quem sabe, talvez um vento norte em pouco mais forte... Força a descida e embala para os 2000 pés do tráfego e... bolas, cadê o resto de SC ? Não se vê nem a cidade nem a Base... No reflexo cabra a máquina e volta a subir para, então, identificar SC lá longe, ainda... Não era a sua hora pois a 2000 pés naquela região não dá!


O "BELLY-TANK" DO VAHIA


Em 53, se não me engano para comemorar o aniversário da Caça, vão decolar 32 Gloster, novinhos em folha! É avião p'ra todo lado! Parece até congestionamento de trânsito! O Vahia é o número 16 do 1o Esquadrão. Quem está de fora vê surgirem regularmente, lá pelo fim da pista, os aviões, no ângulo de subida típico, embalando e iniciando a curva de reunião. De repente um avião sobe em ângulo acentuado, na reta, e ... pegando fogo! Vai saltar, vai saltar! Todos se retesam...
...De repente, também, o fogo apaga e a máquina começa um tráfego pela direita e vem para o pouso, pesado (afinal menos de 3 minutos de vôo). O 2o Esquadrão começa a livrar a pista, correndo! Lá vem o "incendiado", que pousa sem mais problemas. O Vahia, na ânsia de decolar correndo para entrar em forma e fugir da clássica "atrasada" de todo os 16, tira o trem muito cedo, o "belly-tank" a pleno toca o chão, se rompe e pega fogo, deixando um bonito rastro de chamas. Prepara-se para saltar quando o carro-pista avisa que o fogo acabou.... então ele volta e pousa.


SILAS; "EL ENCAUDADOR"


Lá por volta de 1954/55, os "Emborcados Primordiais" (nominalmente Antônio Henrique, Silas, Perez e Ó de Almeida, sob o comando do Horácio Cavalinho) estavam no Estado Maior da Aeronáutica, no edifício do Ministério, no Centro do Rio, tentando planejar a força que seria embarcada (no Porta Aviões). Para não perder o toque e manter o treinamento, uma vez por semana voavam os F-8 em Santa Cruz (SC), fazendo usualmente combates, de elemento ou individual. Pegava-se um "asa alta" no Calabouço (Santos Dumont), ia-se a SC, voava-se as a máquinas e regressava-se à tarde.
Naquela época SC havia instalado os cabides de foguete em alguns aviões, o que os deixava menos aerodinâmicos do que os outros, embora só se percebesse a diferença quando eram levados aos limites do "envelope". Na hora da escalação das aeronaves botava-se o Silas sempre em avião com cabides de foguete... que assim mal acompanhava os combates de elemento e nunca vencia um individual. Isto chegou a abalar-lhe o moral (bom piloto, bom líder, forte à bessa)... até que foi descoberta a gozação!

Cel.Av. Nelson José A. do Ó de Almeida
Piloto de Caça - Turma de 1949


AFINAL, PRIMEIRO OU SEGUNDO ESQUADRÃO ?


"Afinal, o grande dia chegou !
Do solo esperado no Buldogue Alado
Eu já solei o Trator Voador
E já posso dizer afinal, com grande satisfação
Sou parte integrante da turma vibrante
Do ..... ??? ..... Esquadrão."
( Do Cancioneiro de Caça )

Até o ano de 1952, inclusive, a formação inicial dos nossos pilotos de caça era efetuada em Santa Cruz (BASC), no chamado ESPC - Estágio de Seleção de Piloto de Caça - em aeronaves T-6, ao fim do qual os sobreviventes passariam a voar os F-47.
Em 1953, a turma de aspirantes de 52 seria cobaia de uma experiência importante: a formação do piloto de caça diretamente em aviões P-40, no 1o/14o Gav, a partir do término do curso da então Escola de Aeronáutica.
Tendo essa inovação dado certo, a turma seguinte, formada em sua maioria pelos aspirantes de 53, apresentou-se no final de janeiro de 1954, na Base Aérea de Porto Alegre, primitiva denominação da atual BACO, para o que deveria ser um ano inteiro de instrução. Lamentavelmente, porém, os bons e velhos P-40 já estavam chegando ao final de sua vida útil. Mal fora iniciada a instrução aérea, recém começados os vôos de quatro aviões, foram detectadas rachaduras nas longarinas das asas.
Vôo suspenso, inspeção geral pelos Inspetores do Parque, vôos de experiências e - triste fim para um magnífico avião - um acidente fatal que, no segundo domingo de maio de 1954, dia das Mães, roubou a vida do dedicado Oficial de Material do Esquadrão, Cap. Flávio Argollo, quando a asa de seu P-40 desprendeu-se durante a recuperação de um vôo picado.
Como proceder, então, para continuar a instrução dos aspirantes ? Rapidamente o Estado - Maior da Aeronáutica encontrou a solução: tornar Unidade de Instrução o Esquadrão Operacional recém transferido de Santa Cruz para Natal, o 2o/5o Gav, dotado dos F-47 remanescentes, que haviam cedido lugar, na BASC, aos novíssimos F-8 e TF-7.
Dessa forma, no final da tarde do dia 9 de junho de 1954, dois C-47 despejaram no quente nordeste brasileiro um bando de atônitos aspirantes trazidos da gélida Porto Alegre. Mais atônitos ainda ficaram quando, diretamente dos aviões, foram eles encaminhados para a sala de aula, para as duas primeiras horas de instrução sob o título Apresentação do F-47. Começava aí a estória do AFINAL. Vejamos como e por que.
As aulas eram iniciadas às 8 da manhã e prosseguiam ao longo do dia, às vezes até tarde da noite. Era a corrida contra o tempo, uma vez que o ano de instrução (fevereiro a novembro) havia começado com atraso superior a quatro meses e urgia recuperar o tempo perdido. Para isso os dias eram considerados úteis de Segunda a Domingo, inclusive. Folga no fim de semana era luxo para ser curtido pelos demais companheiros da Base e do 1o/5o G.Av, o Esquadrão Rumba, dos B-25. Nós, os Pacáus, devíamos ser superiores a essas pequenas frivolidades.
Ao longo do CIT (Curso de Instrução Técnica do F-47), cabeças fervendo com tantos conhecimentos novos que nos eram ministrados aos borbotões, foram surgindo algumas musiquinhas, compostas nas horas, ou melhor, nos minutos vagos, por aspirantes (com eventuais colaborações dos Instrutores), nas quais os temas tratavam do regime espartano-eclesiástico imposto por nosso Comandante. Duvido que entre seminaristas pudesse haver mais abstinência sexual do que entre nós. E não era por falta de vontade, era de tempo mesmo! Enfim, chegou o grande dia !
Na véspera, para não estragar a disponibilidade de 100% para o "solo", havia sido escalado um único avião para as famigeradas "corridas na pista". Do nascer do sol em diante, por todo aquele dia nós - aspirantes e instrutores - fomos sendo submetidos àquela prática infernal e absurda, nascida na mente de não sei qual inventor ou batráquio. Aliás, em toda a minha vida não encontrei um piloto sequer que houvesse defendido a necessidade daquela "coisa", da qual conheço muitas estórias tenebrosas, inclusive aquela acontecida comigo nesse dia e que eu contarei em outra oportunidade.
Só para dar uma palhinha: faltavam apenas dois aspirantes e, como já era quase noite e não haveria tempo para duas corridas, nosso Instrutor - meu e do Gohn - decidiu que faríamos a corrida de uma só vez. O Gohn, mais antigo, iria dentro da nacele; ele, o Instrutor, do lado de fora, em pé sobre a asa esquerda, com a coxa apoiada no punho de subida na fuselagem; e eu, aspirante ignorante (será que existe algum que não o seja ? ) também do lado se fora, em pé sobre a outra asa, porém SEM QUALQUER APOIO para o corpo, senão o agarrar-me de qualquer modo à borda da nacele. Para subir na asa já foi um sufoco não havia escada, nem estribo, nem onde segurar-me.
Quando, porém, logo na partida, aquele ventilador quadri-pá começou a jogar em cima de mim o vento gerado por aquela montoeira de 2.000 cavalos do Pratt & Whitney, eu comecei a desconfiar que aquilo ia acabar em besteira, para não dizer outra coisa. Mas, como eu havia dito no princípio... essa estória outro dia eu conto.
Voltando ao 26 de junho: o dia amanheceu com céu claro e radiante, pano de fundo perfeitamente ajustado ao cenário de uma obra-prima da aviação de caça: o desabrochar de mais uma geração de pilotos de F-47. Só quem teve o privilégio de voar o Tijolo pode compreender a emoção de um rapazola de 21 anos recém completados, ao desprender-se do solo no comando de tão magnífica máquina de guerra impulsionada por um motor cujo roncar, potente e harmonioso, até hoje soa como música nos ouvidos de quantos com ele puderam vibrar.
Como sóe acontecer, nessa noite houve a comemoração ( ou bebemoração ?) do solo. Num refinado ambiente da cidade de Natal, não me perguntem qual. Mas, que foi lá mesmo, isso foi !
Lá pelas tantas passa pela mesa onde eu me encontrava o Comandante do Esquadrão, o então major Teixeira Rocha, com um sorriso Mandrake e lança o desafio: - Você Mendonça, que vive a fazer musiquinhas a meu respeito, por que não faz agora uma sobre o solo do F-47 ? E eu , no ato respondi: - É p'ra já Major!
Lembrei-me nessa hora de uma musiquinha que havíamos feito, o Silva Maia e eu, então cadetes do 1o ano da Escola de Aeronáutica, por ocasião do solo do último cadete da turma (W. Rodrigues, o Automovinho) no velho e querido PT-19, aproveitando a melodia da canção - tema de um filme de aviação sobre a batalha da Inglaterra. O filme eu não recordo o nome, mas a música começava assim : Bless them all, bless them all ... referindo-se aos heróicos pilotos da RAF, a quem "nunca tantos deveram tanto a tão poucos", como proclamou Winston Churchill. Assim, o "bless them all", acabou virando "afinal, afinal o automóvel solou...".
Uma vez tendo decidido reaproveitar a melodia faltava colocar-lhe a letra. Era conveniente encaixar uma referência ao emblema do esquadrão, o Tetéu, aquele buldogue imenso, com cara de poucos amigos, segurando um porrete pronto para dar bordoada..., e também fazer menção à robustez do F-47 (em caso de pane de motor, o nariz para baixo e quanto menos curva melhor. Se não tiver pedreira na frente, mantém a reta que ele leva tudo nos peitos - assim recomendavam os Instrutores). Daí o Trator Voador.
Um tanto entorpecidos pelas muitas cuba-libres entornadas, fomos dando forma à nossa musiquinha e antes do final da comemoração, tinha surgido o AFINAL, tal como hoje se conserva. Voltando, agora, à pergunta - título dessa estória: AFINAL, PRIMEIRO OU SEGUNDO ESQUADRÃO ?, É óbvio que o original era SEGUNDO Esquadrão (do 5o Gav, que pouco tempo depois iria para Fortaleza e passaria a 1o/4o Gav) . Mas (e aqui vai uma força para os pilotos dos PRIMEIROS Esquadrões) o AFINAL teve história muito breve em Natal, ou seja, como "segundo esquadrão", porque no final daquele ano de 1954, nós fomos transferidos para Santa Cruz, levando conosco a "musiquinha". Em lá chegando, passamos a ser Jambocks do 1o/1oGp Av Ca e, naturalmente, o AFINAL passou a ser cantado como PRIMEIRO Esquadrão "deste pequenininho".
Moral da estória PRIMEIRO ou SEGUNDO, não importa. O que importa mesmo é que de zero a setenta mil, quem comanda é a Caça, pó, pó, pó, pó, pó !
A LA CHASSE!

Maj. Brig. Ruy Messias de Mendonça Piloto de Caça - Turma de 1954

 

O PILOFE



O pilofe individual era um desafio: aquela manobra para pouso rápido, característica das "chegadas" às Bases de Operações da Aviação de Caça, em qualquer parte do mundo. Essa manobra visava expor, o menor tempo possível, em situação desvantajosa, os aviões e seus pilotos, diante de algum eventual ataque da caça inimiga. Entre nós era sempre um desafio, uma tentação para os exibicionistas mostrarem como eram bons no controle da máquina. A marca dos 35 segundos para o F-47, da puxada inicial ao toque na pista, era o limite dos limites, já podia ser considerado perigoso. Pois o avião fazia a curva apertada já nas franjas da perda de sustentação; se no início da manobra era a proximidade da perda de sustentação em velocidade (stall de velocidade), nos últimos 90 graus da curva já era a proximidade da perda em baixa velocidade. As variações de configuração durante tão rápida manobra * baixamento do trem de pouso, baixamento dos flapes, abertura das aletas de refrigeração do motor (cowflapes) na reta final curtíssima, não esquecendo o chamado "panelão" (movimento amplo e circular com o manche, como mexendo a colher num panelão) para forçar a perda de sustentação do avião próximo ao solo e sobre a pista. Tudo isso era para apressar o momento do toque depois da puxada. A idéia do piloto chegante era que todo o esquadrão estivesse de olho na sua manobra, ele tinha que provar o quanto era bom! Todas essas coisas combinadas exigiam uma concentração de tigre acuado. E era preciso sentir o corpo integral da máquina, fazer-se um só corpo com ela. É no assento que o piloto faz sua ligação com o corpo da máquina, é por ali que ele se faz xipófago com ela. Ou essa simbiose é desenvolvida ou nunca a máquina será por ele dominada integralmente. O sentimento no assento tinha que fazer sistema com o do peso do nariz do avião, sentido pelo bíceps do braço direito, e os pedais tinham que acompanhar e compensar a inclinação das asas e as variações de configuração, para manter centrada a bolinha (terrivelmente vagante no F-47 para quaisquer variações, quer de potência do motor, quer de altitude do nariz em relação ao horizonte). Isso no F-47 era muito mais difícil do que em qualquer caça a jato. Qualquer falha do piloto, dentro desse envelope crítico do pilofe exibicionista, resultaria em perda de sustentação numa condição dificílima de recuperação. Ironicamente, era mesmo uma manobra terminal: terminava o vôo e, algumas vezes, também a vida do exibicionista. Todos os acidentes em pilofes que nos chegaram à memória foram provenientes de "chegadas" individuais. Houve uma única exceção, mas foi com um F-8 que ocupava a posição de número 2 num vôo de esquadrilha em que éramos o número 3. O líder da esquadrilha era o Cap Joel Rocio. Ele puxou um pilofe fechado, como se estivesse em vôo individual. O piloto da posição 2 era pouco experiente e tentou seguir a apertura daquela manobra, sem fazer a curva um pouco mais aberta e por cima do rastro de turbulência do avião líder. Vínhamos atrás dele e já afrouxando a pressão no manche, sentindo o perigo por antecipação, devido ao rastro turbulento de dois aviões à nossa frente. Quando faltavam 90 graus de curva para o alinhamento com a pista, vimos o número 2 entrar em perda de sustentação. Ao tentar recuperar, aplicou todo o motor, nivelou as asas, mas não conseguiu evitar que a asa esquerda arrastasse no solo e arrancasse a perna esquerda do trem de pouso. Sua arremetida até hoje ainda está diante dos meus olhos: poeira, capim, a asa esquerda arrastando-se na grama e a perna do trem esquerdo fazendo piruetas no ar. Foi uma decolagem com a roda direita, roda do nariz e asa esquerda. Abandonamos o pilofe e aceleramos as turbinas para alcançar o avião do Macedo. Entramos na sua ala direita e passamos a voar por baixo para ver os estragos e descrevê-los ao Macedo, para que ele planejasse o pouso de emergência. O trem direito não se movia na posição depois do colapso da perna esquerda. Ele voou até que lhe restassem 30 galões de querosene e veio para o pouso. Tocou suave com a roda direita e a roda do nariz. Tentou segurar a asa esquerda no ar o quando pode. Mesmo assim, quando ela tocou o solo, o avião girou bruscamente e só foi parar no descampado à esquerda da pista, do outro lado da estrada. Não houve injúrias ao piloto. Essa experiência já nos apanhou de costas quentes * gato escaldado até de água fria tem medo. De outra feita, voando como número 2 de uma esquadrilha, durante um pilofe para pouso na pista o4 da Base Aérea de Santa Cruz, pegamos o rastro turbulento do avião líder, pilotado pelo companheiro falecido Cap Luiz Gonzaga Lopes. Fomos apanhados pela asa esquerda. O avião virou de dorso repentinamente, quando estávamos naqueles mesmos últimos 90 graus da curva, com trem e flapes em baixo e com aquelas 7.000 RPM mínimas nas turbinas. Arremetemos ao mesmo tempo que tirávamos a garça do dorso e saímos por cima de Sepetiba. O F-8 era bom de manobra * fizemos uma bela e saudosa amizade.


Cel.Av.R.R. Francisco X.Silva dos Santos Piloto de Caça - Turma de 1949




 

O COCAR DO GRUPO DE CAÇA

"SENTA A PUA" (COCAR de GUERRA) (Origem, descrição, criação e grito de guerra)

I - Origem do Símbolo É preciso lembrar que, com os incessantes e arrasadores ataques de submarinos alemães e italianos nas costas atlânticas, desde os EEUU. até o Brasil, seria muito arriscado transportar os aviões adquiridos por via marítima. E por essa razão ficou resolvido, pelas autoridades da Força Aérea, que todos os aviões adquiridos na América, desde os frágeis PT-19 até os mais avançados como os B-25, Hudson, etc., de deslocariam por via aérea, por seus próprios meios, até o destino final, o Brasil. E levas e levas de pilotos e mecânicos do Brasil desembarcaram nos E.U. para formar essas equipagens de transporte. Assim, era comum se ver em New York, em Miami, em Los Angeles, San Antônio, e em várias cidades americanas, os grupos de pilotos e mecânicos brasileiros, perambularem pelas ruas daquelas cidades, antes de receberem os aviões e levá-los para o Brasil. O quepe branco já os diferenciava dos militares da terra. Mas, a maior diferença era na alimentação que lhes era oferecida, que contrariava todos os hábitos alimentares a que tivessem se habituado: feijão com açúcar, ovos em pó, leite também, etc.,etc. O então Cel. Av. Aquino (Geraldo Guia Aquino) comparou-os a um "bando de avestruzes". A comparação virou apelido e difundiu-se entre nós. Assim, o avestruz do símbolo do 1o Grupo de Caça encontra sua origem nessa denominação histórica criada pelo Cel. Aquino (falecido quando já era Major Brigadeiro do Ar Reformado). O desenhista, para a feitura do símbolo avestruz, inspirou-se na fisionomia do Ten. Pedro de Lima Mendes, que realmente, era uma figura que se destacava do corriqueiro pelo seu perfil aquilino, seu porte e sua simpática personalidade
II - Descrição do Símbolo A moldura auriverde simboliza o Brasil (mesmas cores da Bandeira - Inicialmente, o símbolo foi projetado como uma circunsferência perfeita, porem, ao chegar-se à Itália, foi verificado que o símbolo não caberia na placa lateral do P-47 Thunderbolt. Optou-se então por uma elipse com razão de 80% e espessura da moldura igual a 6% da largura da elipse). O campo rubro sobre o qual se situa o avestruz guerreiro representa o céu de guerra onde combatiam os Pilotos de Caça (vermelho puro). A parte inferior, onde está pousada a figura principal, são as nuvens brancas, o chão do aviador. O escudo azul com a constelação do Cruzeiro do Sul é o símbolo usual que caracteriza as Forças Armadas do Brasil (mesmo azul da Bandeira). O risco branco vertical, à direita, que é encimado por uma explosão de obus, foi acrescentado posteriormente, já no meio da guerra quando o 1o Grupo de Caça já estava em combate, e representa a incessante e certeira ação da artilharia antiaérea inimiga que fustigava os caçadores no Teatro Italiano. O Avestruz representa o piloto de Caça brasileiro, tendo como inspiração a fisionomia do Ten. Lima Mendes, com seu perfil aquilino e, ainda, o "estômago" dos Veteranos do 1o Grupo de Caça. O quepe branco caracteriza mais nitidamente a sua nacionalidade, visto que o quebe branco era usado exclusivamente pelos brasileiros. A arma empunhada pelo avestruz é a representação do poder do fogo do P-47, com suas oito metralhadoras 50. O dístico "Senta a Pua!" é o grito de guerra do 1o Grupo de Caça.
III - Grito de Guerra O Grito de Guerra "Senta a Pua!", foi lembrado pelo então Ten. Rui Moreira Lima que o ouvia, constantemente, quando servia na Base Aérea de Salvador. Ouvira-o do então Capitão Aviador Firmino Alves de Araújo (falecido como Brigadeiro do Ar) que, com essa expressão - pronunciada de modo impulsivo - concitava os companheiros e subordinados ao cumprimento rápido das missões e ordens que dele recebiam. Nada melhor, portanto, que aplicá-lo ao combate, como já o tinham o "A la chasse!" dos franceses e o "Tally Ho!" dos ingleses e americanos.
Maj Brig (Ref)Fortunato Câmara de Oliveira (autor do Símbolo) - 56 Missões de Guerra

O Código JAMBOCK Quando o 1o Grupo de Caça chegou à Itália passou imediatamente ao comando de 350th Fighter Group. Em Tarquínia, Itália, recebeu o nome de código com que iria operar até o fim de guerra: Jambock O 350th th tinha sob seu controle operacional quatro Esquadrões de Caça, sendo três americanos e um brasileiro. Naquela ocasião, um Grupo de Caça na Força Aérea Brasileira, correspondia a um Esquadrão de Caça ou Fighter Squadron na USAF. Assim, durante nossas operações de guerra, éramos no 350th , o 1st Brazilian Fighter Squadron. Os outros três esquadrões: 0 345th e 347th . Cada um tinha seu nome de código (code name), sendo todos obrigados a usá-lo em qualquer espécie de vôo. O procedimento é internacional. Alemães, japoneses, russos, franceses, ingleses, enfim, qualquer Força Aérea no mundo adota esse sistema. De um modo geral há um código de identificação do esquadrão, seguido de uma cor para cada Esquadrilha é um número para o piloto. Eu, por exemplo, me identificava na Itália como "Jambock Green Two". Por que Jambock? O que significa essa estranha palavra que, vinda dos americanos, não consta nos principais dicionários ingleses? Quando com ela nos batizaram perguntamos ao Oficial de inteligência do 350th qual o seu significado. "Jambock significa chicote". Isso nos bastou. Nenhum de nós teve a curiosidade de verificar em um dicionário se essa palavra existia. E ficamos de Jambock por longos 25 anos, com a certeza de que chicote era sua tradução correta. Em 1969 porém, em uma entrevista comercial que tive com um diretor da Cia. de Cigarros Souza Cruz, Sr. Kenneth H.L. Light, este me perguntou donde eu tinha tirado o nome de minha firma Jacel Jambock, e o que queria dizer Jambock. - "Sr. Light, Jambock é uma palavra dos senhores, era nosso nome de código na Itália e quer dizer chicote" - "Não, Coronel Rui, essa palavra não existe nos dicionários tradicionais como Michaelis e Webster. Já a procurei. Acho que o senhor está enganado". Respondi-lhe em tom de brincadeira que, se morresse naquele instantes, "passaria a melhor" jurando que Jambock era chicote. Depois de algumas considerações, o Sr. Light se propôs a investigar o verdadeiro significado daquela mágica palavra. Passados uns 45 dias fui avisado de que ele tinha uma surpresa. Procurei-o imediatamente. Mal nos cumprimentamos, foi falando: - "Realmente, Coronel Rui, Jambock quer dizer chicote, mas não chicote comum que o senhor estava pensando que era. Jambock é um chicote especial, feito com couro de rinoceronte e utilizado pelos nativos da Transvaal para dirigir o gado, seja em carros de boi ou em manadas". Tinha outro rumo, agradeci e resolvi continuar a pesquisa, indo ao Consulado da África do Sul no Rio de Janeiro. Ali constatei que a palavra teve origem na Indonésia. Havia uma vara de madeira para castigar escravos, chamada por eles de Sambok. Posteriormente, a palavra e o instrumento de tortura emigraram para a Malásia. Quando os escravos maláios foram levados pelos ingleses para a África do Sul, introduziram o Sambok na língua afrikaan, em 1804, com a mesma grafia. Os sul-africanos brancos passaram a adotá-la em seu vocabulário escrevendo-a de modo diferente: Sjambok Na África do Sul o Sjambok de madeira foi substituído por um chicote feito com couro de rinoceronte ou hipopótamo velho, utilizado como instrumento de tortura contra escravos. Hoje, alguns fazendeiros conservadores ainda usam o Sjambok para castigar os filhos e os empregados que cometem pequenas faltas. A palavra é encontrada no pequeno Dicionário Oxford (inglês-afrikaan), edição atual, escrita em 1804: Sjambok Em outubro de 1944, o 10 Grupo de Caça recebeu na Itália a palavra Jambock como código de identificação, com grafia diferente. Caiu o S inicial de Sjambok, sendo americanizada com um C antes do K. Por uma ironia dos fatos, o chicote utilizado pelos brancos contra os escravos africanos, indonésios e maláios passou a ser usado contra os "arianos puros" de Adolf Hitler, manejados por brasileiros livres que foram à Itália defender a liberdade e a democracia. Hoje os jovens Jambocks de Santa Cruz, voando os velozes F-5 nos céus do Brasil, tal qual os Veteranos nos Thunderbolts nos da Itália, se identificam no ar, usando orgulhosamente o mesmo código, tradição legada pela unidade guerreira que tanto se destacou no Vale do Pó. Alguns códigos utilizados pelos Pilotos do 350th Fighter Group 1st Brazilian Fighter Squadron Jambock 345th Fighter Squadron Lifetime 346th Fighter Squadron Minefield 347th Fighter Squadron Midwood Torre de Controle (PISA) Black Ball Tower Controle de radar sobre os Apeninos Hubbard Destacamento aerotáticos Rover Jô e Rover Pete

Maj Brig (Ref) Rui Barbosa Moreira Lima - Veterano de Guerra - 94 missões

 

COMEMORAÇÃO DO 54º ANIVERSÁRIO DE REGRESSO AO BRASIL


Por indicação dos meus companheiros do 1o Grupo de Caça, coube-me a tarefa de falar nesta data. Indicação muito honrosa mas que colocou-me no seguinte dilema: Fazer da minha fala uma repetição das citações extraordinárias que o 1o Grupo recebeu dos mais representativos Comandos Militares Aliados, inclusive uma Citação Presidencial de Unidade, concedida pelo Presidente dos Estados Unidos, ou então deixar que meu coração a minha alma falasse numa breve evocação daqueles dias de luta. Optei por esta segunda alternativa, embora sabendo que aqui ou ali, possa ser traído por um traço de emoção incontido. O 1o Grupo de Aviação de Caça sob o comando do Tenente-Coronel Nero Moura, desembarcou no Teatro de Operações italiano no dia 6 de outubro de 1944. Seu efetivo era composto de 48 pilotos, todos voluntários, e cerca de 300 homens de terra, que constituíam o escalão de apoio. A maioria dos pilotos era formada por jovens Oficiais da Ativa, oriundos das 2 primeiras turmas da Escola de Aeronáutica, além de 4 capitães, um pouco mais antigos, como comandantes de esquadrilha. Quanto aos Pilotos da reserva, ao todo 13, eram constituídos por estudantes civis que entusiasmados pela aviação e pelo momento histórico que o Brasil vivia, abandonaram seus estudos e, sob supervisão do Ministério da Aeronáutica, foram fazer o curso de aviação militar nos Estados Unidos, em Centros de Preparação da Força Aérea Americana. Foram muito moços, alguns quase meninos, que procediam dos mais diversos pontos do país. Eu, pessoalmente tive a oportunidade e porque não dizer a honra, de representar a mocidade acadêmica da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco! A primeira base de operações localizava-se na região de Tarquínia, cerca de 100 km ao norte de Roma. Do que havia sido uma Base Aérea, só restava uma pista de concreto recoberta por malhas de aço, ao redor da qual, por entre ruínas de instalações bombardeadas, se acotovelavam os aviões e as tendas de americanos e ingleses. Ali, encontramos, a nossa espera, um local plano para instalar as barracas de lona que algum tempo seriam o nosso alojamento, ao lado dos aviões P-47, que já estavam a nossa espera. Essa base era a sede do 350o Regimento de Caça da Força Aérea Americana, unidade de elite que vinha operando em ação de combate primeiro na Inglaterra, depois no Norte da África e agora na Itália. Era constituído de 3 Grupos de Caça e estava subordinado ao 22o Comando Aerotático da Força Aliada do Mediterrâneo. A integração do 1o Grupo de Caça Brasileiro ao 350o Regimento tornou essa unidade mais aguerrida ainda, e fez com que a Força Aérea Brasileira, a partir daquele instante, fizesse parte da Força Aérea Aliada do Mediterrâneo. No princípio, passamos por uma fase muito penosa: os rigores de um inverno, que precocemente se anunciava, impunha grandes sacrifícios a todos nós no afã de preparar o Grupo para o início das operações de guerra. A chuva e o frio muito próximo de zero transformavam a base num misto de lama e gelo, dificultando enormemente a movimentação dos aviões. Foi exatamente nesta fase que o escalão terrestre mostrou extremo empenho e eficiência, trabalhando ao relento, em condições adversas, a fim de preparar os aviões para a luta que se avizinhava. Esse empenho e eficiência do escalão terrestre foi uma constante durante toda a campanha, e teve vital importância na atuação geral do Grupo. Vencendo todas essas dificuldades, em menos de 1 mês estávamos operando como uma Unidade de Combate. A essa altura os pilotos brasileiros já estavam cientes e preparados para o tipo de missão que deveriam executar: Bombardeio de Megulho e Ataque Razante ao Solo. É que, pelo enfraquecimento da aviação inimiga, já não havia necessidade de se fazer escolta para bombardeiros médios e pesados. Por esse motivo, praticamente toda a Força Aérea Tática do Mediterrâneo concentrava seus esforços nos ataques ao solo: eram posições de canhões incrustadas nos Apeninos que precisavam ser caladas, eram as pontes e ferrovias que precisavam ser cortadas, os depósitos de munição que precisavam ser destruídos, os comboios militares serem imobilizados, enfim fazer tudo para tornar menos fácil a posição do inimigo, sólida e estrategicamente postada ao longo da Linha Gótica. Muito cedo aprendemos que esse tipo de missão, ao contrário do clássico combate aéreo, apresentava um grau de perigo várias vezes maior. É que, para compensar a quase ausência de poder aéreo, o inimigo concentrava todo o seu esforço no estabelecimento de uma defesa antiaérea extremamente eficaz e numerosa. Era o famoso FLAK(1) alemão! Esse cenário durou todo o inverno de 44/45 até que chegou a primavera. O número de pilotos brasileiros já estava reduzido à metade do seu efetivo inicial: mortos alguns, prisioneiros outros, foragidos e escondidos por partisanos, estafados ou doentes, era o tributo até então pago pelo 1o Grupo de Caça. A essa altura, os pilotos brasileiros já eram olhados pelos seus companheiros americanos e ingleses com um misto de admiração e respeito. E o que foi muito importante, esse sentimento não era só extrínsico. Dentro do próprio Grupo havia se desenvolvido um sentimento de admiração mútuo. Não havia diferença entre Ativa e Reserva. Éramos todos homens irmanados por um só pensamento: a vitória final. Estava então implantada, de maneira imorredoura, o Espírito de Unidade do 1o Grupo de Aviação de Caça. Mas o pior ou melhor, dependendo do enfoque que se dê, ainda estava por vir. A Linha Gótica estava prestes a ser rompida e ao aproximar-se o mês de Abril de 45 foi montada uma grande ofensiva para quebrar, de maneira definitiva, a resistência alemã na Itália. Isso demandaria um emprego intensivo de toda a aviação tática do Mediterrâneo. Era preciso perseguir o inimigo a todo o custo, para impedi-lo que, em sua retirada pelo Vale do Pó, chegasse aos contrafortes dos Alpes em condições de implantar uma nova linha de resistência. Para que isso fosse alcançado, cada Unidade de Aviação deveria executar quase o dobro das sortidas que normalmente fazia. Isso poderia parecer uma missão impossível para o Grupo Brasileiro, já que o número se seus pilotos havia sido reduzido à metade em relação aos congeneres americanos. E os que ainda restavam, na sua maioria com bem mais do que 50 missões de combate, estavam à beira da estafa. Mas, o Comandante Nero Moura conhecia bem os seus homens, e comunicou ao seu superior hierárquico que o 1o Grupo de Caça Brasileiro estava pronto para receber qualquer demanda de missões. A 9 de abril de 1945 o 15o Grupo de Exércitos desencadeou a Grande Ofensiva da Primavera na Itália. Nos dias 21, 22, 23 e 24 de abril, os ataques da aviação aliada foram em número jamais visto no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Cada piloto brasileiro teve de fazer 2 missões de combate por dia. Alguns fizeram 3. O 1o Grupo de Caça Brasileiro, no dia 22 de Abril de 1945 cobriu-se de glórias e obteve o máximo dos resultados. Hoje essa data é comemorada em toda a FAB, com o Dia da Aviação de Caça. Para se ter uma idéia do que foi nossa atuação nesse episódio histórico, lerei apenas um trecho do relatório oficial do 350o Regimento ao qual estávamos subordinados: "Durante o período de 6 a 29 de abril de 1945, o Grupo de Caça Brasileiro voou 5% das saídas executadas pelo 22 Comando Aerotático e, no entanto, dos resultados obtidos por este Comando, foram oficialmente atribuídos aos brasileiros 15% dos veículos destruídos, 28% das pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustíveis danificados e 85% dos depósitos de munição danificados". Mas, esses resultados tiveram o seu preço: perdíamos mais 4 pilotos em combate, 2 mortos no auge do ataque ao inimigo(2), 1 abatido e feito prisioneiro após ferir-se gravemente na queda(3), e outro com mais sorte abatido e saltado de pára-quedas em território amigo(4). O 1o Grupo terminava assim a guerra com 22 pilotos somente. Mas até o último minuto o Cocar da FAB não deixou de estar presente. Eis, portanto, aqui a SAGA do 1o Grupo de Aviação de Caça! NOTAS:(1) Flak = "Flieger-Abwehr-Kanone" Artilharia Anti-Aérea (2) 1o Ten. Luiz Lopes Dornelles e Asp. Frederico Gustavo dos Santos (3) 2o Ten. Marcos Eduardo Coelho de Magalhães (4) 2o Ten. Renato Goulart Pereira Cmt. Fernando Corrêa da Rocha Veterano - 1o Grupo de Caça na Itália 75 missões de Guerra (Pronunciamento em solenidade comemorativa: São Paulo 20 jul 1999


AQUELE COMBATE


A cada 2 minutos checava se minhas unhas estavam roxas. Cheguei mais uma vez e estavam OK. Olhei para o altímetro - marcava 22.400 pés. Eram mais ou menos quatro e meia e o céu estava limpo e calmo como é comum acontecer nos finais de tarde. Estava rodando sobre Santa Cruz, esperando algum Gloster que fosse bloquear o NDB (1) para fazer a penetração. A intenção era atacá-lo, ou pelo menos lhe dar um bom susto. Começava a me impacientar, pois já fazia mais de 20 minutos que estava esperando e até então nada. Olhei mais uma vez as unhas. Era setembro de 1965 e meu avião era um T-6D da Fumaça. Me lembrei de como tinha tido aquela idéia maluca de atacar os F-8, a mais de 20.000 pés, com um T-6. O 1427 que eu conhecia bem, era o meu avião fixo na Esquadrilha, e já voava comigo há alguns uns dois anos, e foi com ele que consegui escapar de um grande arranca rabo em Santa Cruz na semana anterior. Era o último dia de uma manobra da FAB com o Exército, e os T6 da 3a ERA (Esquadrilha de Reconhecimento e Ataque) sediados em Macaé, estavam atacando a Base quando foram interceptados por uma esquadrilha de F-8 do 2o Esquadrão que voltava de uma missão. Muitos devem se lembrar desse entrevero cujos detalhes foram contados pelo Paulo Pinto, que liderava a esquadrilha, na Revista do Clube da Aeronáutica. Eu tinha ido ao Grupo de Caça para falar com o Pereira, e quando estava decolando de volta, me vi no meio da maior confusão. Quando me dei conta, estava no meio do pau, era F-8 de flape em baixo e T-6 para tudo que era lado, a baixa altura e além de tudo com pouca visibilidade, pois havia uma grande queimada perto da pista e o vento jogava a fumaça para cima da Base. Eu não era inimigo mas tinha Gloster querendo me encaudar. Mas aqueles eram os bons tempos em que se voava muito, e com cerca de 700 horas de T-6 apenas nos dois últimos anos, fora a bagagem anterior, eu não era alvo fácil de se pegar, mesmo para um F-8. Bem que tentaram, mas conseguimos, eu e o 1427, escapar ilesos. Foi quando me surgiu a brilhante (?) idéia, novinho metido que eu era, de fazer um ataque aos F-8 de Santa Cruz. Apesar de meu avião ser apenas um T-6D, não seria esse pequeno detalhe que iria me intimidar. A resposta só poderia ser uma; pegá-lo quando menos estivessem esperando, e a última coisa que poderiam esperar, era encontrar um T-6 a 20.000 pés. E aqui estava eu, a 22.400 pés de altitude, sem oxigênio e sem blusão, olhando para as unhas, preocupado com a anóxia. Mas o pior de tudo era o frio. A capota estava fechada e o aquecimento do pé aberto, mas com a temperatura externa de cerca de -10o C negativos, mais o vento que entrava ( e quem voou o T-6 se lembra de como entrava vento por todos os lados), o frio era pr'a valer. Meu plano era fazer uma única passagem, pois naquela altitude o pobre do T-6, mesmo com tudo para frente, estava batendo asas para manter 85 mph. Só poderia interceptá-los de frente, embalando o que desse de 22.400 até 20.000 e fazer uma única passagem, passar raspando, o mais perto possível para que me vissem, e meter o nariz para baixo para ir embora. Até se recobrarem do susto de verem um T-6 naquela altura, pensava comigo, já estaria longe. O altímetro continuava marcando 22.4000 pés e as unhas continuavam OK, mas sabia que minha autonomia estava acabando, afinal, além do tempo que levei subindo de 12.000 a 22.400 pés, já estava rodando naquela altitude há mais de 25 minutos. Continuava procurando para ver se via algum F-8, principalmente na direção de Resende, que era onde deveriam vir, e nada. Comecei a me preocupar, pois já me sentia um pouco mole e cansado. E foi de repente. Num momento olhei para as unhas e estavam OK, no instante seguinte elas se arroxearam. Era o aviso que esperava. Hora de ir embora. Não pensei um segundo, nariz para baixo, manete p'ra frente não precisava, pois já estava lá há muito tempo, pequena correção da mistura, redução do passo e lá fui eu, na vertical, para baixo. Não me preocupei com a velocidade, por que embora a máxima fosse 240 mph, na Fumaça estávamos acostumados a ultrapassá-la com frequência, já estava meio tonto, e o importante era chegar o mais rápido possível numa altitude com mais pressão de oxigênio. Em torno dos 15.000 pés já dava para respirar e comecei a me sentir melhor, puxei o avião para um ângulo mais confortável e continuei descendo. Dei uma respirada funda e procurei no céu uma última vez para ver se via alguma coisa, desta vez olhando para cima, mas não vi nada. Pena que não apareceu ninguém, pensei, mas não faz mal, volto outro dia. Olhei, então, para a frente e aproei para R.J. Mas não voltei, e até hoje sinto uma leve frustração por não ter encontrado um F-8 naquele dia e não ter realizado AQUELE COMBATE. O tempo de vôo, segundo minha caderneta, foi de 01:55h, e o dia era 15 de setembro de 1965. NOTA:(1) NDB = Radio Farol "Non Directional Beacon"

Sérgio Ribeiro - Cel.Av.R/R Cmt. do 1o Gp.Av.Ca. 1978/1980 - Esq. da fumaça 1962/66


O REBOQUE DE BIRUTA...

Corria o ano de 1952. Os Aspirantes de 1951, que tinham optado pela Caça, foram classificados no 3o/1o Gp.Av.Ca. para fazer o ESPC (Estágio de Seleção de Pilotos de Caça) em T-6, onde, depois, iriam "solar" o P-47 no 2o/1o Gp.Av.Ca.
No mês de Maio já estávamos no treinamento de Tiro Aéreo (TA), e com a seleção praticamente feita. No dia 27 uma Esquadrilha (Esqda), Pacau(1) d'Ouros(2), foi escalada para uma missão de Tiro Aéreo. Foi feito o brifim, juntamente com o piloto do avião-reboque (Asp. Kerber), e depois guarneceram, iniciando o táxi logo após o reboque-de-biruta.
Aqui vai uma rápida explicação: a biruta, biruta mesmo, media aproximadamente 20 pés(3) e era presa ao avião por meio de uma corda de 100 metros, mais ou menos. O reboque entrava na pista, após as verificações rotineiras, e lá era preso o cabo (corda), ficando a biruta e a parte do cabo em cima do jipe, segura por uma praça(4) que os soltava quando o T-6 ultrapassava o jipe (na corrida de decolagem).
Enquanto o reboque decolava, a Esqda fazia os cheques normais de cabeceira de pista. Mas aí ocorreu o imprevisto. Quando o reboque já estava no final da corrida, a corda prendeu na perna direita do trem-de-pouso, impedindo o seu recolhimento total. Kerber tentou abaixá-lo e recolhê-lo várias vezes, usando até mesmo a alavanca de emergência, a ponto de causar vazamento de óleo hidraúlico.
A essa altura a Esqda havia decolado e tomado conhecimento, via rádio, da ocorrência. Após algumas aproximações para averiguar "in loco" a situação, o líder da Esqda achou que só haveria uma maneira de evitar um mal maior - cortar a corda com a hélice. Isso evitaria, possivelmente, conseqüências catastróficas, pois não se sabe o que poderia acontecer em um pouso com a perna do trem semi-arriada, uma biruta pendurada e um jovem piloto, relativamente, pouco experiente.
Orientou o reboque para que fizesse, a 1000 pés, uma aproximação para a pista 04, como se fosse o procedimento normal para alijar a biruta. Manteve a Esqda escalonada para a direita e aproximou-se da biruta. Ao ultrapassá-la, quase na mesma velocidade do avião-reboque, chegou perto da corda, tocou-a com a asa e foi, lentamente, chegando para a esquerda. Quando a hélice atingiu a corda, o resultado foi o exatamente planejado: Esta rompeu-se instantaneamente, a biruta caiu no "deserto"(5), o trem-de-pouso do reboque baixou imediatamente (já não havia a resistência da biruta) e ele pôde pousar com segurança.
O líder da Esqda resolveu, então, completar 45 minutos de vôo numa missão T-FR-D(6), "arretada".
NOTAS:
(1) Pacau = este código rádio se originou no 3o/1o Gp.Av.Ca. (hoje é usado pelo 1o/4o G.Av.)
(2) d'Ouros= é o código da Esquadrilha (jamais pronunciado de Ouros...)
(3) 20 pés= 6,1 metros (a altura era de4 pés ou 1,2 metros )
(4) uma praça = "um" soldado
(5) deserto = parte descampada que antecede o início da pista (normalmente gramada)
(6) T-FR-D = Treinamento de Formatura Diurna

Ary Casaes Bezerra Cavalcanti
Cel. Av. Ref. - Turma 1947 - Caçador 1948 .



LEMBRANÇAS DO 1º GRANDE DESLOCAMENTO OPERACIONAL


Lá pelos idos de 50/51 (comandava a Base de Santa Cruz o Cel.Av. Walter Bastos e o 1o Gp.Av.Ca. o T.Cel.Av. Pessoa Ramos), resolveu-se coroar a instrução operacional com o deslocamento do Esquadrão (Esqd) e uma operação fora-de-sede, como numa situação tática.
Para isso foi escolhido o Destacamento da Base Aérea de Florianópolis (FL), pequenino, pobre, mas que ostentava, além da boa pista de concreto, uma área livre numa pequena pista transversal, longe de tudo e de todos, grande o bastante para receber as diversas barracas e o estacionamento dos P-47.
Operou-se nessa situação por 2 semanas consecutivas, mantendo-se aviões e pilotos, como numa situação tática real; só quem deixava o acampamento era o "rancheiro", que ia às compras, para a cozinha de campanha... Aqui vão algumas lembranças desse "feito", que exigiu muito das tripulações de vôo, da manutenção e do pessoal de apoio (rancho, banheiros, guarda, etc).
Ida no razante!
O tempo não estava lá muito bom, mas os 2 C-47 de apoio já tinham sido carregados e estavam decolando. Perdida essa chance, não se sabia se haveria outra; assim, resolveu-se decolar com o Esqd, 2 horas depois dos C-47, como previsto e ver como se poderia chegar a FL. O Esqd só esteve reunido logo após a decolagem, pois o mau tempo exigiu que se passasse a voar por Esqda e razante mesmo, para não entrar nas nuvens baixas que enchiam todo o céu.
E lá se foi o Chefe Aranha (o Bins) com a 1a Esqda baixinho sobre a praia, seguindo (mais pelo "remu"(1) que por outra coisa) pelas outras, numa grande cobrinha de Esqd... Um olho no líder, outro na praia, que passava veloz sob as asas, e outro (é assim mesmo: piloto de caça não pode ter apenas 2 olhos) na Ponta do Una: único obstáculo importante e muito conhecido dos que faziam Rio-Santos baixinho.
Depois de duas horas e tanto de um vôo tenso e estressante (tome de trocar tanque para "externos", "auxiliar", "principal") chegou-se a FL sem outras novidades - a não ser por uma sub-aeroneta Cessna, que subia de FL para Santos e que pousou na praia "pelo mau tempo e por ter passado por dentro de um bando de aviões em sentido contrário". Somente dois pilotos, dos 16 em vôo, viram essa aeronave!!!...

A "Balança de Informações do S2"
Os diversos S's(2) do Esqd funcionavam nas barracas de dormir do respectivo ocupante do cargo: decidiu-se que a do S-2(3) ficaria a 90o com as outras (que haviam sido todas montadas em fileiras com o mesmo eixo e de través para o vento dominante), como forma de chamar a atenção para os pilotos que regressavam de missão e iam ao debrifim e ao interrogatório. Os catres onde dormiam seus ocupantes serviam de bancos para interrogatórios e interrogados... o que fez a lona ceder, pelo uso intensivo, até quase tocar o chão... ficando seus titulares (o Menezes e o Ó de Almeida, o S-2 e seu Auxiliar) dormindo quase no chão, e tremendo de frio num verdadeiro túnel de vento!

"A Vingança" ou Coreixas versus Vahia
O Vahia, alto e esguio, gozava o Coreixas, baixo e "massa", chamando-o pelo apelido (Chita) tão indesejado quanto próprio! A certa altura o Coreixas esquentou-se e declarou que ia "disciplinar" o Vahia, no braço! Saiu a perseguí-lo... mas este, mui sabiamente, escafedeu-se! O Coreixas então passou a montar guarda à entrada da barraca do Vahia; a noite foi-se escoando e nada dele aparecer. Como não havia barracas (nem catres) sobrando, estavam todos curiosos em saber onde teria passado a noite o Vahia... que só foi encontrado na madrugada seguinte, pelo pessoal de pré-vôo, tiritando de frio dentro da nacele de um P-47, no estacionamento...

O "preto" Pinto vira alvo de tiro...
Haveria uma demonstração de Tiro Terrestre (TT) de alta velocidade, a ser realizada pela "d'Ouros", bem dentro da Baia de Florianópolis. Todos olhavam o único alvo quando apareceu a Esqda em Ataque no 1(4), na perna base para o tiro. Cai o 1o avião, embala, atira e recupera, com o 2o avião quase em distancia de tiro e assim vai a coisa até que, quando o no 3 (o "preto" Pinto) está fazendo sua pontaria, o 4 inicia a picada... e dispara uns 10 tiros, lá de cima. Foram alguns segundos de alta expectativa até que tocassem a água, bem abaixo do Pinto, muito "curtas" para o alvo!
Um alegado curto na "segurança geral" (botão vermelho) das metralhadoras fez com que elas "falassem"... pois o no 4 afirmava não "apertara o gatilho"...

BINGO! ou a noite de glória do "Chato Rei (Marques)"
O Marques ganhou esse apelido por causa de sua voz, sempre alta e estridente: era um jovem tenente, de princípios rígidos (casara virgem), bom Oficial e ótimo companheiro... "Mas a minha voz continua a mesma", como no célebre anúncio da TV.
O Esqd teve uma única saída do "acampamento" convidado pelo Clube mais grã-fino de FL, para um jantar e um BANGO (Bingo é pirú de garotinho...) Devidamente alertados para essa idiossincrasia local, lá fomos nós para um excelente jantar, num ambiente de luxo e o tão esperado "Bango". O 1o prêmio era uma máquina de escrever portátil, bastante rara para a época e intensamente desejada por todos.
Vai-se "cantando" o bango e chega-se ao prêmio principal quando, após um número muito pequeno de pedras, ouve-se um formidável, sonoro e estridente BINGO! O Marques, feliz e excitado, ergue-se vitorioso para ver metade dos sócios do Clube levantaram-se e abandonaram o recinto, acreditando ser tudo uma piada de mau gosto dos tenentes caçadores... Mas o "Chato Rei" voltou com a sua máquina de escrever portátil, deixando o Bins para apresentar as devidas desculpas.

O regresso... de canopy aberto
No P-47 não se abria o canopy em vôo, já por causa dos gases de escapamento que poderiam entrar na nacele (e entravam, mesmo) como porque, acima de 350 MPH(5) havia grande chance dele ser arrancado pelas correntes aerodinâmicas que gerava. Nosso canopy era dos antigos, que não tinham aquela entradinha de ar para permitir a ventilação (e isso deu ao P-47 o seu glorioso apelido de Tijolo Quente!).
O Esqd decolou de FL, entrou em forma, subiu para uns 9.000 pés e abriu em linha de frente. A bruma seca começou a tornar-se sempre densa até que o vôo era, literalmente, feito por instrumentos. O calor era intenso e suava-se à vontade. Lá pela altura de Santos alguns (se não todos) os pilotos já não estavam aguentando mais o calor e manter-se em LF por "instrumentos"...
Assim, como quem nada quer, foram se aproximando e formando uma formatura "pendurado", i.e. todos seguiam o Bins! Mas, 16 aviões sem uma formatura definida torna o céu meio congestionado: por isso era um olho no Bins e outro no "em torno"... quando vi, "humilhado pelos meus 4 dedos de canopy aberto (e oxigenio em 100%)", que a maioria estava aberto para mais da metade, inclusive o do Bins!!!... Mas estávamos abaixo de 350 MPH...

Peel-off(6) ou não peel-off, eis a questão!
A "formatura" que se desfizera, conduziu a manobras de pouso bem pouco convencionais.
O Bins entrou com seu ala para o peel-off (não se sabe onde estava o 2o elemento!), puxou o dito e pousou... mas seu ala arremeteu a 180o(?) e lá se foi entrar na fila para um novo circuito que a Primave(7) já desistira de organizar...
O Passos (seu Gildo) acusou a inicial... mas vinha não muito embalado, quando capou tudo, deu trem e flap... e pousou direto, obrigando o seu ala, inteligentemente, a puxar um peel-off meio lento, sem velocidade, e levou quase 2 minutos para fazer os 360o e pousar.
Um elemento seguinte reinventou o pouso na ala (que não era praticado pelos P-47)... correndo as duas máquinas paralelas e tranqüilas pela antiga 22.

Estacionamento e... festa!
O freio de estacionamento do P-47 exigia que o piloto se abaixasse bastante para alcançar a manopla e puxá-la aplicando o freio. O Menezes, que voava com umas três almofadas para poder atingir todos os comandos na nacele "banheirosa" do Thunderbolt, "sumia" lá dentro quando ia aplicar o freio de estacionamento. Acho, mesmo que as únicas pessoas que ficavam com a cabeça aparecendo eram o Keller, o Vahia e outros desse "comprimento"...
Chamado pelo Sargento de pista, o Menezes parou o avião no alinhamento previsto, abaixou-se para aplicar o freio de estacionamento e naturalmente sumiu de vista. Passavam-se já uns 30 segundos de espera pelas 1500 RPM e o corte do motor quando alguém subiu na asa para encontrar o Menezes bastante "grogue", desabado sobre o manche, com início de intermação!

Tedesco rima com refresco
O Comandante do Grupo (Gp) havia preparado uma festinha, com "biscoitinhos de emprego geral" e jarras de refresco, todos produzidos no Rancho, para receber o Esqd. Foram convidados, inclusive, as esposas que moravam na Vila dos Oficiais (naquele tempo bem pequena), cujos maridos estavam regressando da "Manobra".
A primeira figura a aproximar-se é grandiosa... O Tedesco, com o pára-quedas seguro sobre o ombro, vem-se aproximando. Mas parece haver algo errado com seu macacão de vôo, ele está escuro.. Mais perto nota-se que ele está e alagado de suor, pingando mesmo.
Ele entra na sala e, apesar do aspecto e das condições, inicia-se uma salva de palmas... a que ele não dá a mínima: continua para a mesa de doces, solta o pára-quedas no chão e... empunha um jarro de refresco que leva à boca e bebe todo, em uns poucos goles diretos! O Comandante do Gp, meio assustado, vai fazendo o pessoal se retirar da festa, que acabou por falta de refresco!

NOTAS:
(1) remu = forte turbulência do ar após a passagem de uma aeronave (vórtice de ponta de asa)
(2) S = Oficiais do Estado Maior do Grupo.
(3) S-2 = Oficial de Informações (S-1 Pessoal; S-3 Operações e S-4 Material)
(4) Ataque no1 = dispositivo de formatura usado para atacar o solo
(5) MPH = milhas terrestres por hora (350 MPH = 304 nós = 563 km/h)
(6) Peel-off = "pilofe", manobra de pouso usada pelos aviões da caça
(7) Primave = Código radio da Torre de Controle de Santa Cruz (PRIMeiro Grupo de AVIação)

Cel.Av.R.R. Nelson José A.Ó. de Almeida
Aspirante de 1948 - Piloto de Caça 1949


UMA NOITE DIFERENTE...

Numa manobra em Florianópolis... numa noite fria, acampados que estávamos na parte de grama do campo de pouso, aconteceu: - foram brincar com o Coreixas. Quem, onde? Disseram que foi o Rosa Filho quem escondeu sua cama de campanha, que era de lona e foi escondida debaixo da cama do dito.
Coreixas não gostou de ter de procurar e dormiu na cama do Rosa Filho. Final da estória. O Rosa acabou dormindo sentado na nacele do seu P-47(1), pois não quis "incomodar" o Coreixas que acabou pegando no sono... na espera do fim da gozação.

Francisco José G. Coreixas Cel.Av.R.R. - Piloto de Caça de 1948


P-38 DO ESQUADRÃO "CONDOR"



Ali estávamos nós, no palanque da pista sul de Santa Cruz, aguardando a demonstração aérea. Era 22 de Abril, Dia da Aviação de Caça.
Quero crer que em todos os locais onde exista, ou tenha existido, uma pista de pouso haja uma mística, um passado, enfim, uma história. Alguns locais mais, outros menos. Todos, entretanto, têm algo a contar, algo a reverenciar.

O Campo dos Afonsos, por exemplo. Todo aviador da FAB que já passou pelo "já lendário"(referência às palavras do Brig Fontenelle que estão perpetuadas no azulejo à entrada do antigo Corpo de Cadetes: "Não deixeis apagar de nossa lembrança a nossa Escola, o seu velho, tradicional e já lendário Campo dos Afonsos. Onde tanto sacrifício tem sido imolado em holocausto ao mais belo e empolgante de todos os ideais - a Aviação") não lhe fica imune.
Por isso, não há quem tenha sido forjado piloto ali que não se emocione ao chegar na varanda do velho Cassino dos Oficiais de frente para a imensidão daquelas pistas.
É nostálgico a gente se defrontar com aquele vazio imenso e recordar a agitação da instrução de vôo de dias passados, tempos que não voltam mais. Cada um, a seu modo, há de ser capaz de imaginar a presença de Nieuports, Spads, Wacos, BT-15, T-6, PT-19, T-21 e muitos outros.
Os mais conhecedores tentarão até imaginar os Bleriot da Escola Brasileira de Aviação e de Nicola Santo na segunda década do século.
As gerações mais novas todavia, talvez não mais vejam o "já lendário" sob essa ótica. Mas é fácil de entender. Ainda está para surgir quem venha se emocionar com saudades do Curso de Aperfeiçoamento ou do Curso de Estado-Maior que hoje funcionam nos Afonsos. Aí, certamente, a razão da indiferença de quem não foi cadete nos Afonsos.
Em Santa Cruz, no entanto, as recordações são restritas a um universo bem menor. A base é operacional.
Aviação de Caça e Patrulha. Resulta que nem todo Caçador e nem todo Patrulheiro tenha cumprido etapa de sua vida operacional ali.
Mas quem serviu em Santa Cruz não se esquece jamais. Cada árvore, cada pedra, cada recanto reavivam memórias. Pois nós estávamos no palanque e recordando.
Os acidentes ocorridos na cabeceira da 04. Quanta gente ficou no Mangue! Os amigos que se foram e até as coisas que não existem mais.
Lembramos do "stand" de tiro-aos-pratos, onde os Caçadores exercitavam sua capacidade de fazer tiro de deflexão(herança da 2a Guerra quando, no início, ainda não se usava o visor giro computador). Nós, por inércia, mesmo depois do Gloster e F-80, continuamos fazendo esse tipo de treinamento até os anos 70!
Recordamos que o "stand" tinha o nome do "guerreiro" Diomar Menezes, Caçador na Itália, falecido na instrução de caça logo depois do regresso ao Brasil.
Acabou-se o tiro aos pratos, desativou-se o "stand" e é possível que tenham esquecido do Diomar. Mas por certo, alguém que tenha o livro "Senta a Pua" do Brig Moreira Lima na cabeceira, algum dia, colocará o nome dele em destaque outra vez.
Ao longe visualiza-se majestoso, o Hangar. Que coisa extraordinária deve ter sido a operação do Graf Zepelin!
Alguém aponta para a grande bola metálica e comenta que era o tanque alemão de hidrogênio. Logo é corrigido. Não, a bola era o tanque de Helium usado pelos "blimps" americanos durante a guerra.
Esses aparelhos operaram no Brasil incorporados a dois esquadrões que estiveram desdobrados em Maceió, Fortaleza (Campo do Pici) e São Luiz e a existência do hangar alemão em Santa Cruz, com toda a infraestrutura pronta, levou a US Navy a sediar ali a sua base de manutenção.
O portão existente perto do Cassino ao lado da Central Telefônica era a entrada da base americana e uma boa parte dos alojamentos de hoje são herança dessa época.
O tanque de hidrogênio alemão era do tipo cilíndrico e de volume variável, igual aos existentes na Companhia Estadual de Gás no início da Avenida Brasil. Esse tanque ficava ao lado da piscina de refrigeração da Casa de Força e nós chegamos a vê-lo já em ruínas.
O tanque "bola" fora adaptado para uso como reservatório de água, se não me engano, em 1963 pelo Cel Moreira Lima, quando Comandante da Base.
Mas logo se mudou de assunto e passamos a conjecturar de quando iríamos ver o P-47 do Museu voando em um 22 de Abril.
Aí, não lembro bem, mas o Dagberto começou a contar que havia sido menino em Natal. Ou melhor, lembro sim. Eu havia comentado que a despeito de ter uma vontade enorme de voar o P-47, o avião dos meus sonhos sempre tinha sido o P-38 Lightning. O Diabo de Duas Caudas como o chamavam os pilotos da Luftwaffe. O avião inconfundível - não havia como não reconhecê-lo.
Foi o primeiro avião de caça a usar comandos hidráulicos de aileron. Foi projetado pelo mago Clarence "Kelly" Johnson. O mesmo que bolou o F-80, o F-104, o SR-71 e muitos outros excepcionais aviões que foram marcos na história da aviação. A asa do P-38 era tão eficiente que permitiu à Lockheed usá-la no Constelation e tomar a dianteira do transporte aéreo após a 2a Guerra.
Foi o P-38 que, em missão memorável, interceptou e abateu, sobre a Ilha de Bouganville, o avião do Almirante Yamamoto, o planejador e comandante do ataque japonês a Pearl Harbor. Foi o primeiro Caça a escoltar, ida e volta, os B-17 e B-24 nos ataques ao coração da Alemanha(o que o P-51 Mustang também faria mais tarde).
O P-38 era tão aerodinâmico que em mergulho entrava em compressibilidade sem que seus pilotos no início entendessem direito que aquelas coisas estranhas que ocorriam estavam relacionadas com a barreira do som! Era um avião que voava como um jato, sem tendências, uma vez que seus motores eram contra-rotativos. Foi o avião voado por Richard Bong, o grande ás americano que abateu 40 inimigos no Pacífico.
Mas havia detratores. Sempre os há. Diziam que o P-38 era muito grande e pouco manobrável em combate. Perdia para o Zero, Me 109 e FW 190. Esqueciam, no entanto, que com a performance que possuía, ele permitia ao seu piloto decidir quando e onde combater.
Manobrável por manobrável, o Fokker Triplano de 1917, por certo, era mais. Do mesmo modo que o Xavante o é em relação ao F-5 e Mirage hoje. Mas eu é que não queria estar de Fokker ou Xavante combatendo esses oponentes.
Sempre defendi o P-38 dos detratores. Apenas uma crítica me deixava vulnerável. Era quando alguém muito conhecedor e expert argumentava que "um avião de caça de pedigree não pode usar volante".
Pois é, o P-38 tinha volante! Acho que foi a única coisa errada que o Kelly Johnson fez em toda a vida de projetista. Mas ninguém é perfeito.
Foi aí que o Dagberto começou a falar de Natal. Justamente por ter visto inúmeros P-38 passarem por lá. É que durante a 2a guerra, a USAAF usou duas rotas de vôo para os Teatros de Operações.
A Northern Ferry Route que subia pelo Canadá, Groenlândia, Islândia e chegava ao arquipélago britânico pela Escócia(era a rota preferida mas só que a coisa engrossava no inverno e diversas tentativas de forçar a barra resultaram desastrosas - até hoje estão tentando tirar uma esquadrilha de P-38 que fez um pouso de emergência nas planícies geladas junto com o B-17 que os liderava e está enterrada sob mais de 50 m de gelo).
A outra rota era a Southern Ferry Route que passava por Natal e era a alternativa. Foi também, em certa época, quando o domínio japonês no pacífico era absoluto, a rota primária para o sudeste asiático.
E por Natal passarm 160 P-38 destinados ao Pacífico. Com certeza, foi um desses que o Dagberto viu. Mas ele tinha algo de mais espetacular a acrescentar. Por Natal também passavam aviões construídos no Canadá para a RAF(Royal Air Force).
Na planta da Base Americana emoldurada na entrada do Cassino em Natal, consta o prédio usado como escritório da RAF.
Contou o Dagberto que havia presenciado um extraordinário combate simulado entre um P-38 americano e um De Havilland Mosquito inglês. Provavelmente aviões em vôo local de experiência ou, quem sabe, chegando juntos no destino que se engajaram num sensacional pega sobre a Base. Que coisa deve ter sido.
O chato foi quando ele disse que o Mosquito havia tripudiado sobre o Lightning. Só pude concordar que o Mosquito fora, realmente, um avião notável. Possuía dois motores Rolls Royce Merlin (os mesmos do Spitfire e Mustang) e era muito leve, construído inteiramente de madeira. Eu poderia ter até ter apelado e dito que avião de madeira não era avião de guerra. Mas o Mosquito era. E dos bons, e eu não disse.
Mas o que eu falei foi que, com toda certeza, o P-38 deve ter sido mal voado. Por algum pé-de-chumbo.
Nisso os F-5, Xavantes, Mirages e AMX iniciaram a decolagem e nós abandonamos as reminiscências e começamos a sonhar. Que éramos nós que estávamos pilotando naquele momento.
Foi quando o meu amigo Tommy de Niterói nos lembrou que agora nós éramos do Esquadrão Condor: com dor na coluna, com dor no joelho, com dor no ombro, etc.
Aí fomos para o coquetel. Quem não estava com dor de cotovelo aproveitou para levantar copos e continuou-se jogando conversa fora por um bom tempo.
Eu, por coincidência, entrei para o Esquadrão Condor no dia seguinte quando desafiei um vento lateral forte e uma rajada traiçoeira me derrubou na decolagem de asa-delta.
Acho que foi uma admissão consagradora no Esquadrão porque doeu paca. E ainda dói!
Acho que só vai passar se eu nascer de novo.
Até que seria bom. Quem sabe não dava para reformular as coisas. Talvez até para voar de P -47. E de P-38. O Diabo de Duas Caudas como o chamava a Luftwaffe. O avião inconfundível - não havia como não reconhecê-lo...


PLACAS OUTRA VEZ


O dia era domingo, 21 de dezembro de 1969.
Fui acordado, às seis da manhã, pelo Comandante, que chegando em sua velha Kombi, me informava do ocorrido.
O C-130 2450 caíra pouco antes, ao retornar em emergência para o pouso em Recife de onde havia decolado.
Era uma viagem a Zurich que trazia transformadores para Urubupungá. Não havia sobreviventes.
Assim perdemos os amigos Zé da Silva e Ney Adriano. Estavam a bordo também o SO Fonseca, RTVO, o SO Pinto da Seção de Tráfego Aéreo Internacional, o 2S E. Silva, Mecânico de Vôo (que havia sobrevivido a um acidente muito grave em Santa Maria em 1965 no qual havia tido uma séria fratura de perna e só agora estava retornando ao vôo), O 2S Moia, Mecânico de Vôo, e 2S David do GSM.
O acidente foi algo contundente que nos marcou a todos. O avião voltava de uma viagem à Europa e estávamos a quatro dias do Natal. A tripulação ansiava pelo retorno ao lar depois de uma semana fora e os presentes para os entes queridos estavam dispersos entre os destroços do que sobrou do 2450.
Foi um Natal triste para o Esquadrão. Mas o acidente foi trágico também pela sua própria mecânica.
O fabricante imediatamente vaticinou sabotagem e não quis mais conversa.
Reconstituída a trajetória, verificou-se que o avião havia retornado após cinco minutos de vôo, declarando emergência e entrando na perna-do-vento da pista 18. Girou para a perna-base bem afastado, perdeu altura durante a manobra e, invertendo a curva para fora, caiu na margem esquerda do Rio Beberibe (ou Capiberibe sei lá, um dos dois que se juntam para formar o Oceano Atlântico).
Testemunhas afirmaram haver fogo sob o a fuselagem dianteira na perna-do-vento e fragmentos de peças do alojamento da bequilha e do radome foram encontrados no local, confirmando que algo de verdade existia nos depoimentos.
Logo surgiu a suspeita de que um acumulador do sistema de direção da bequilha ou coisa semelhante havia explodido atingindo uma linha do conversor de oxigênio líquido. E as peças encontradas sob a trajetória da perna-do-vento teriam-se desprendido nessa explosão.
Com a ruptura da linha de oxigênio, sobreviera o fogo sob a cabine que logo tornaria o avião incontrolável.
Aí residia a grande controvérsia. O fabricante taxativo sobre sabotagem e o OSV, isento, buscando a verdade.
O CTA entrou no esquema e parece que quase por acaso (posso estar errado e sendo injusto - lembro que foi o que ouvi na época) acabou decifrando o enigma.
Depois de aquecer o acumulador sem conseguir reproduzir a explosão, consta que o mesmo explodiu quando esfriava e ninguém mais achava que algo pudesse ocorrer.
A rosca da tampa do acumulador havia sido encontrada com fortes sinais de corrosão e se havia utilizado uma exatamente nas mesmas condições durante a experiência.
O acidente então, pode ser reconstituído.
O aquecimento do radome deu alguma pane, foi acionado e provocou um forte vazamento de ar muito quente na área do compartimento da bequilha, exatamente sob o acumulador cuja tampa estava com corrosão na rosca.
A tripulação, constatando o problema do aquecimento do radome, retornou para o pouso. Na perna-do-vento o trem foi baixado. O brusco resfriamento do acumulador que devia estar sob ação direta do vazamento de ar quente provocou a explosão e o conseqüente fogo no nariz pela ruptura da linha de oxigênio. O que começou como uma pane sem menor importância terminou em tragédia.
O CTA recomendou a utilização de nitrogênio no acumulador e não mais ar comprimido como até então era feito. Assim , seria evitada a corrosão da rosca da tampa. Nós adotamos a recomendação de imediato. O fabricante se manteve fiel à versão de sabotagem e não aceitou a conclusão do IAA.
Curiosamente, alguns meses mais tarde, recebemos um Boletim de Serviço da USAF recomendando usar nitrogênio e não mais ar-comprimido no acumulador. Não sei se a fábrica depois aderiu.
O Esquadrão, traumatizado, logo no início de Janeiro decidiu perpetuar a memória da tripulação com algum tipo de registro material. E o fez rapidamente como soe acontecer com os Caçadores. Rápido e bem feito. É assim que deve ser. Não se pode perder a oportunidade.
"Atreve-se o tempo até às estátuas de bronze, quanto mais ao coração dos homens" e à missa de Sétimo Dia já se vai à contragosto.
Como o nosso Comandante havia "importado" de Recife o Cabo Leite para pintar o painel da entrada do Esquadrão homenageando a primeira volta ao mundo feita por avião da FAB - havia sido exatamente o 2450 que a fizera - resolveu-se aproveitar o painel e colocar ao seu lado uma placa em honra aos que faleceram no acidente.
Um trecho bíblico extraído do livro "Asas ao Vento"do Brigadeiro Newton Braga encimava a placa:
"Em verdade Senhor, que importa a morte enquanto houver semente".
O que parece é que a semente não germinou.
Um dia, não lembro bem quando, ao comparecer à Seção de Tráfego Aéreo Internacional para revalidar o meu cartão, não encontrei mais a placa na parede.
Fiquei ainda mais surpreso quando a maioria dos militares do Esquadrào, quando indagados, me informou, ou que nunca tinham visto a placa, ou que se lembravam dela mas não sabiam do que se tratava.
Depois de muito buscar, encontrei alguém que explicou que em vista dos acidentes ocorridos em Santa Maria e Noronha, fora decidido fazer um memorial para homenagear os tripulantes falecidos nos três acidentes mas que o tempo passara e o memorial não havia sido feito.
Fiquei então a imaginar se a França, depois das vitórias da 1a e 2a Guerra Mundiais houvesse resolvido derrubar o Arco do Triunfo parar fazer um monumento novo.
Sei lá. Acho que eu devo ser diferente. Parece que a insólita iniciativa só mexeu comigo. O resto do pessoal antigo nem se tocou. Estava certo o Padre Vieira.
Mas o que mais choca é que os inventores que resolveram fazer o memorial fizeram a coisa diferente dessa vez. Rápido e mal feito. A intenção ficou na ação primeira.
Sumiram com a placa e ponto final.
Não cabe aqui questionar, apenas lembrar, que, talvez, a retirada da placa, mesmo que inconcebível para quem tem um pouco de amor à tradição, deveria ter sido a última ação e não a primeira. E que a placa, uma vez retirada, depois de feito o memorial, devesse ser incorporada ao Histórico da Unidade.
Pois é. Pode ser que escrevendo alguém se digne a consertar as coisas.
A placa original, duvido que apareça. Foi fundida em bronze e já deve ter retornado à condição de matéria prima.
Como breve teremos a promoção do primeiro Brigadeiro da turma do Zé e do Adriano, é bem capaz de alguém se mexer e fazer outra placa. É o que espero.
Como lembrança, gostaria de registrar que em Dezembro vai fazer vinte anos que o 2450 caiu em Recife. É uma boa hora para botar a placa de volta no lugar.
Sem ela eu não compareço mais ao aniversário do Esquadrão.
E é o que deviam fazer os tripulantes da época.



 

GATOS PARDOS E GRILOS LOBISOMENS


Devia ser perto de meia-noite e eu estava ferrado no sono.
Foi quando alguém me acordou, dizendo que o Oficial de Dia queria falar comigo.
Já me levantei com a consciência pesada e aquele sentimento de culpa que sempre acompanha a gente na juventude. Afinal, sempre se fez alguma coisa de errado.
Qual dos meus últimos pecados disciplinares teria sido descoberto agora? E por que me acordavam a essa hora? Não conseguia lembrar de nenhuma besteira tão grave que justificasse esse rigor.
Mas não tinha nada a ver. O Oficial de Dia era o meu Instrutor do Curso de Caça que, empolgado, me propunha, ainda naquela madrugada, fazer o meu cheque IFR (Instrument Flight Rules) em um vôo de T-33, de Fortaleza a Recife.
O T-33 era a versão biplace do F-80 Shooting Star no qual fazíamos o curso. Enquanto que este era um avião bem antigo, projetado ainda na II Guerra Mundial, cheio de soluções de engenharia improvisadas, desconfortável e de pilotagem bastante exigente, o T-33 havia sido desenvolvido tempos depois se beneficiando da tecnologia mais atual do após-guerra.
Era um avião agradável de voar, mais moderno, bem iluminado à noite e excelentemente equipado para vôo IFR. No entanto, embora nós o tenhamos improvisado como avião de combate anos mais tarde em substituição ao F-80, não podia ser levado muito a sério nesse rol. Ele era pobremente armado apenas com duas metralhadoras(o F-80 possuía seis), não possuia blindagem e sua autonomia de vôo era bem menor por ter menos capacidade de combustível. Isso tudo, o fazia mais leve e de pilotagem mais dócil. O F-80, ao contrário, pesadão, era uma jaca voadora. Na época em que fiz o curso, o T-33 era usado apenas na fase pré-solo e para instrução IFR. Todo o resto do curso era voado de F-80.
Mas voltando à nossa estória, o fato é que a manutenção acabara de terminar a inspeção do avião e o meu Instrutor estava ansioso para que um aluno seu fosse o primeiro estagiário do curso a terminá-lo. Como ele teria de fazer o vôo de experiência de qualquer modo, a sua idéia era aproveitar a ocasião. E é claro, surpreender todo mundo no início do expediente do dia seguinte com o anúncio da novidade.
Conquanto a maioria dos companheiros de curso ainda não houvesse terminado a parte de vôo tático, o cheque era a única coisa que me faltava e eu estaria dispensado logo a seguir, pois já estava de casamento marcado para alguns dias depois no Rio. Emendando férias e a dispensa, eu só teria de me apresentar no 1° Grupo de Caça, minha nova Unidade em Santa Cruz, dali a 45 dias.
A despeito do improviso, do despreparo e, sobretudo, dos inconvenientes do cansaço, principalmente dele, Instrutor, não havia como furar e lá fui eu sonolento preparar a navegação. A idéia era um bate e volta, parando em Recife só para reabastecer.
Decolamos, devia ser uma da matina. Eu, na nacele traseira teria de fazer tudo sozinho, menos o taxi, o gerenciamento dos sistemas básicos do avião e o pouso. O resto, decolagem, navegação e papo rádio, era comigo. Até a reta final do procedimento IFR em Recife. E vice-versa.
Menos mal que o vôo era noturno e não seria obrigatório o uso da maldita capota de VI(vôo por instrumentos). Só alguns Instrutores especialmente exigentes não a dispensavam à noite.
Decolei pelos instrumentos, mesmo porque, lá de trás, de pouco adiantaria olhar para fora. Nessa época, ainda se exigia a decolagem sob capota, a decolagem dita cega, e o piloto tinha de demonstrar proficiência na sua execução para obter o cartão IFR. Hoje, essa prática não existe mais, porquanto a experiência demonstrou que, por pior que seja a visibilidade, sempre haverá o suficiente para que a visão periférica do piloto o ajude a se manter no centro da pista durante a corrida, mesmo com toda a orientação e todo o controle sendo feito pelos instrumentos. Sob uma capota, esse controle milimétrico se tornava extremamente difícil, fazendo com que o avião eventualmente se aproximasse perigosamente das laterais da pista. Por isso, todo mundo torcia para fazer instrução de VI à noite onde a capota não era exigida. Indiretamente, já nos beneficiávamos da visão periférica para manter a reta de decolagem enquanto no solo.
Após decolar, iniciei a subida em L na direção do mar, pois as aerovias de jato ainda não existiam, estávamos em 1961, e todo vôo acima de 13 mil pés (3900m), mesmo seguindo o eixo da aerovia inferior, era não-controlado. Havia que subir fazendo 45° com a aerovia (até a metade do nível de cruzeiro mais 1000 pés e, então, curvar 90° para interceptá-la já nivelado. Assim se subia sem controle, mas com a segurança de não interferir com o vôo do pessoal de hélice que voava lá por baixo).
Pois foi no início da curva que começaram os problemas desse vôo. Estávamos passando 11 mil pés (3300m), subindo para o nosso nível de cruzeiro que era 20 mil(6000m) quando o motor começou a falhar e logo parou.
Enquanto os tubarões batiam palma lá embaixo, a Torre de Controle, ao ser informada da emergência, burocraticamente nos instruiu para acusar na vertical como se nós pudéssemos bater asa para chegar lá.
Decidimos que aos cinco mil pés (1500m) nos ejetaríamos se não resolvêssemos o problema. Felizmente, aos sete mil, o motor pegou. Durante o procedimento de partida no ar, ao serem ligados todos os interruptores de transferência de combustível, nos surpreendemos ao constatar que o tanque de fuselagem estava tão vazio que o ponteiro havia passado do E (de Empty - vazio) e estava quase sobre o F (de full - cheio). Quando o combustível começou a entrar no tanque e o ponteiro a se mexer, é que identificamos o porquê da parada. Pane seca. O Instrutor lá na frente não havia ligado a transferência de combustível dos TPA (tanques de ponta de asa) e o tanque de fuselagem, que alimentava o motor, simplesmente secou (ele era bem menor no T-33 do que no F-80, pois a nacele traseira roubara um bom espaço da fuselagem - só dava para uns 10 minutos de vôo em regime de subida).
Acho que nunca tive uma satisfação tão grande em aviação como aquela ao constatar que o motor havia acendido e começava a acelerar para marcha-lenta.
Corrigida a besteira e refeitos do susto, prosseguimos na subida e continuamos a nossa missão pousando em Recife uma hora depois.
Abastecemos, tomamos um balde de café cada um e decolamos de volta por volta das 3 da manhã. Até hoje não sei direito o que aconteceu nessa decolagem. Só lembro que antes de sair do chão o avião bateu em alguma coisa e ao recolher o trem, a luz vermelha ficou acesa indicando que ele não estava perfeitamente travado em cima (nessa ocasião, a pista menor de Recife, a 15, hoje 16, estava em reparos e tudo indica que batemos em alguma coisa dessa obra na interseção das duas pistas).
Foi assim que iniciei a descida em Fortaleza. Com a luz do trem acesa, indicação de que agora ele poderia não estar travado em baixo (embora as luzes individuais de cada perna estivessem verdes). Nós declaramos em emergência e prosseguimos para a vertical do radio-farol.
Havia uma camada de stratus cobrindo a pista abaixo do nosso nível, mas o lado da cidade estava aberto.
Pouco depois de iniciar a descida no afastamento do procedimento IFR, mais uma surpresa! O Instrutor lá na nacele dianteira, alarmado, me apontou umas luzes que apareceram lá na frente. Elas estavam em rota de colisão com a gente e ele imediatamente assumiu o comando desviando à direita para cima da cidade. A Torre de Controle indagada, informou que desconhecia qualquer outro tráfego aéreo sobre Fortaleza naquele momento.
Em cima da cidade, já por baixo da camada e em condições de fazer o pouso visual, tentamos entrar na final e novamente as luzes apareceram ameaçadoramente à nossa frente. Arremetemos.
Tentamos por diversas vezes e sempre acontecia o mesmo. A situação já estava preocupando, pois o combustível já estava na pior, quando, finalmente, conseguimos pousar fazendo uma aproximação bem baixa e fechada comigo olhando para trás para ver se elas nos seguiam. Quando vimos os bombeiros nos acompanhando, é que nos lembramos que estávamos em emergência de trem-de-pouso!
No dia seguinte, éramos a atração do Esquadrão. Eu havia concluído o curso, sim. Mas entramos para o folclore da Unidade. Todo mundo queria ouvir a nossa estória. Como havíamos voado em condições de extremo cansaço, inadmissíveis nos dias de hoje, passamos a ser tratados com aquela condescendência reservada ao pessoal de miolo mole.
Tínhamos tido um flame-out (parada de motor), arrebentado o trem de pouso em uma colisão com um objeto desconhecido na decolagem de Recife e enfrentado uma Esquadrilha de Discos Voadores nos céus de Fortaleza. A gozação foi geral e tudo atribuído à nossa imaginação.
Não sei se pegou algo para o meu Instrutor, nem soube no que foi que nós batemos na decolagem (sempre me ficou a suspeita de que fôra em alguma coisa deixada pelos operários na lateral da pista). Viajei logo em seguida para o Rio e esqueci o assunto.
Só fui me lembrar dos Discos Voadores (nos quais nunca cheguei a acreditar muito) quatro anos mais tarde quando, já Instrutor na mesma Fortaleza, voava uma missão noturna de T-33 com um estagiário.
Estávamos na perna do vento a 1500 pés quando, subitamente, apareceram as mesmas luzes na minha frente. A noite era clara, não havia qualquer nebulosidade e ninguém estava grilado, nem cansado.
Foi aí que, pesquisando, me dei conta que os discos voadores nada mais eram que as luzes de uma cidade praiana, Pecém ou Paracuru, não lembro qual, que fica no litoral ao norte de Fortaleza.
Ocorre que exatamente a 1500 pés na perna do vento, e também no afastamento da descida IFR que nós tínhamos iniciado naquele estranho vôo, a pequena serra que existe ao norte de Fortaleza fica no limite de bloquear a visão das luzes da cidade praiana.
Se a gente subia um pouquinho, elas apareciam. Se baixava , elas sumiam.
Foi um consolo saber que as luzes de fato existiam. Nós é que já estávamos tão adrenados e tão esgotados que não tivemos discernimento para interpretá-las corretamente naquele vôo de trapalhadas.
Continuo até hoje sem acreditar em disco voador. Principalmente à noite.
Porque à noite, todos os gatos são pardos.
E, especialmente em Aviação, todos os grilos são lobisomem.




O MILAGRE DE SÃO JERÔNIMO


O Torneio da Aviação de Caça, tal como o temos hoje, teve suas sementes lançadas em um 22 de Abril, Dia da Aviação de Caça, quando o dia ainda não era.
Foi em 1966 e eu era Instrutor em Fortaleza formando "no peito e na raça, Piloto de Caça em T-33 e F-80 glorioso" conforme está no nosso Cancioneiro. Esse foi um ano decisivo para a sobrevivência do sistema. Simplesmente, ou o 1/4° GAV era prestigiado recebendo os Instrutores necessários ou tudo desmoronava.
Acabou que fomos onze para lá. Todos de boa vontade. Seis de Canoas e cinco de Santa Cruz. Juntamo-nos aos cinco que lá já estavam e viemos a constituir os chamados "Instrutores de 66".
Às vezes me pergunto o que teria sido da Caça sem esse grupo. Mas se mérito houve, justiça se faça, ele não foi nosso. Foi de quem nos liderou então.
Mas era 66 e fomos para Santa Cruz para a solenidade do 22 de Abril (esse foi o dia em que o 1° Grupo de Aviação de Caça realizou o maior número de missões nos céus da Itália durante a II Guerra Mundial e é uma data reverenciada pelos pilotos da FAB). Na chegada, tomamos conhecimento de que haveria uma competição de Tiro e Bombardeio entre as Unidades. Foi o TAC 66. Incipiente e muito improvisado. Mas foi assim que começou.
Em 1967 não houve nada e em 1968 houve o primeiro torneio efetivamente organizado sob o patrocínio do 1/14° GAv de Canoas.
O gaúchal caprichou como soe acontecer por aqueles pagos. Foi um primor de organização. Só por isso eles já mereciam ganhar. Treinados nos macetes do estande de São Jerônimo com aqueles ventos doidos, levaram tudo.
Com o passar dos anos a competição, mais ou menos inspirada no Gunsmoke da USAF, foi-se aperfeiçoando e voltou-se essencialmente para o desempenho operacional.
Nada de missão no estande com tráfego retangular e condições conhecidas.
Cada esquadrilha passou a receber, duas horas antes da decolagem, uma Ordem Fragmentária com um objetivo a ser atacado. Nesse tempo, havendo que se fazer todo o planejamento da missão, respeitando-se o quadro tático existente e com o sobrevôo obrigatório de pontos de controle determinados pela direção da prova. Esse planejamento é então entregue à direção.
A missão é voada com um quinto avião "juiz" acompanhando a esquadrilha, não podendo o vôo subir acima de 150m de altura, a velocidade ser variada em mais de 10% e a proa em mais de 45° da rota planejada. Qualquer desrespeito a esses parâmetros resulta em penalização na pontuação final.
Ao chegar ao objetivo, que ninguém, em princípio, conhece, é efetuado o ataque. Contam pontos, obviamente, a precisão do armamento no alvo e a diferença de tempo entre o HSO (Hora Sobre o Objetivo) real e o planejado.
Na prática, considera-se HSO a hora em que o armamento do líder atinge o solo. Um erro superior a 30 segundos no HSO representa zero pontos em um total de 300 possíveis.
O impacto de cada avião no alvo valendo 250 pontos, permite a uma esquadrilha perfeita fazer um máximo de 1300 pontos (1000 do armamento e 300 da navegação). Mas para isso é preciso que os quatro aviões acertem o alvo, não haja nem um segundo de erro na navegação e não tenha havido penalidades no trajeto até o alvo. E alguns já fizeram.
Em uma ocasião eu liderei uma esquadrilha de Fortaleza que fez 1298 pontos e quando contava ter vencido, o Souza e Melo de Canoas me ganhou com 1299 !
Toda essa rigidez visa criar condições as mais parecidas com a realidade bélica. Mas cria também situações bem inusitadas. E é fácil de entender.
Os aviões vêm navegando rasante e somente no ponto de puxada do "balsing" (manobra em que se ganha altura rapidamente para avistar e poder atacar o alvo) é que se pode subir acima de 500 pés(150m). Há que, em poucos segundos, avistar e identificar o alvo, se posicionar e fazer o ataque e não permanecer em trajetória previsível por mais de 10 segundos (que é tempo mais do que suficiente para um radar de anti-aérea resolver o problema do tiro e abater o atacante - na verdade, 5 segundos já são suficientes - na competição há uma colher de chá de mais 5).
Já é possível imaginar o que ocorre vez por outra. O "balsing" é puxado, busca-se o alvo onde ele deveria aparecer e...nada !
Ele pode não aparecer porque simplesmente houve erro de navegação e ele está em outro lugar ou porque, mesmo com tudo certo, ele é difícil de visualizar. Assim é na pampa gaúcha.
Já entraram para o folclore da Caça as estórias de São Jerônimo.
Em certa ocasião, abateram até um cavalo! Acusações de parte à parte, acabaram imputando a culpa à turma do Mirage. "A solidariedade sendo muito grande na ALADA" (conforme outra peça do Cancioneiro), fez com que aflorasse de imediato uma enérgica reação dos Jaguares (código rádio dos Mirage) que exigiram se fizesse uma autópsia no eqüino para verificar o calibre da arma assassina (o Mirage é o único avião da FAB a usar canhão de 30mm, pelo menos até o AMX aparecer). Com isso ele conseguiram manter a dignidade, mas há quem diga que o GSB de Anápolis pagou o cavalo.
Houve um outro episódio com os Mirage que deu origem até a uma gravura que está no Histórico do Esquadrão de Fortaleza.
Parece que o líder, ao puxar o "balsing", identificou como alvo uma construção branca que em verdade era uma manjedoura de gado. A esquadrilha mandou bala. O alvo, cem metros ao lado, incólume.
Segundo se diz, o Barrica (controlador do estande) fantasiou um pouco a ocorrência na reunião à noite em volta da cerveja e a versão que ficou é de que o tiro foi na Torre do "barrica" e que o gaúcho guarda-campo não queria mais ouvir falar "naqueles aviãozinho prateado" (os Mirage nessa época ainda não eram camuflados).
Mas acho que o mais insólito dos acontecimentos passados em Torneio de Aviação de Caça foi aquele do "Milagre de São Jerônimo" ou "O dia em que o som não se propagou".
Era a última etapa do Torneio e o 1/14° GAV (me desculpem os Pampas se só conto estória de Canoas, mas há que ser fiel aos fatos) e o 3/10° GAV de Santa Maria disputavam palmo a palmo o título geral da competição. A prova final era de Tiro Terrestre e o cômputo feito pelo tradicional sistema acústico que registra a passagem do projetil no alvo.
Sai a primeira esquadrilha. Do 1/14°. Resultado normal. Saem os outros. No fim do dia, chegam os resultados. Todas as esquadrilhas fizeram zero. Só o 14 acertou!
Nem os Xavantes que, de .50, atiram mais de perto. Quatro de Fortaleza, quatro de Natal e quatro de Santa Maria. Todos zero. Bronca generalizada. Só não lembro se os F-5 de Santa Cruz zeraram também.
A Direção da prova homologou os resultados e o 14 levou o troféu.
As Unidades de Xavante, entretanto, inconformadas, fizeram um repto. Uma nova prova, extra-TAC, disputando o Troféu Tira-Teima com uma rigorosa vistoria no sistema de cômputo de acertos, antes.
No dia seguinte, todos os aviões acertaram o alvo e nós levamos o Tira-Teima para Fortaleza com o melhor resultado.
Quanto ao fenômeno da véspera, por mais que a física tentasse explicá-lo, acabou conhecido mesmo como o Milagre de São Jerônimo.



O SOL ESTEVE AQUI
(artigo sobre a morte de um Comandante do 1° Gp Av Ca)

 


- Alô, por obséquio, é da residência do General Rodolpho Prates?
- Sim - e após uma breve hesitação - bem, não exatamente. Eu sou a esposa do General. O que o senhor deseja?
Enquanto, mentalmente, colocávamos em ordem as indagações já preparadas de antemão e, até mesmo, recitadas intimamente, a ansiedade e a expectativa juntavam-se a aquele sem-jeito de quem tem consciência de poder estar sendo indiscreto, e o resultado final era estarmos realmente sem graça.
O assunto começara alguns anos antes, lá pelos idos de 1970, quando passamos quase um ano lendo e pesquisando tudo o que existia sobre a história da Aviação Militar brasileira na década de 20.
Ocorre que um companheiro do Esquadrão de Hércules havia encontrado, em um velho armário no antigo prédio do Correio Aéreo Nacional no Galeão, um enorme acervo fotográfico de tempos muito antigos. Eram revistas, recortes de jornal e, principalmente, coleções e inúmeros álbuns de pilotos do passado. Todos perfeitamente preservados, depois de permanecerem naquele armário, pelo menos, por uns 25 anos.
E um desses álbuns despertou, particularmente, a nossa atenção.
Caprichosamente organizado, nele se viam fotos de Nieuports, Caudrons, Spads, Avros, fotografias aéreas do Rio, grupos de aviadores e surpreendentes paisagens de Gibraltar, Las Palmas e Porto Praia, nas quais o tema, invariavelmente, era o hidroavião Jahu.
Em resumo, um verdadeiro achado arqueológico.
Passados os dias iniciais de euforia, o material acabou relegado na sala-de-estar e nós, antes que tudo sumisse ou se extraviasse, o levamos para casa.
Aquele álbum especial, que tanto nos impressionara, merecia uma apreciação mais acurada. Não bastasse o nosso interesse pela aviação antiga, ainda havia aquele soneto na abertura na contracapa:

MEU ÁLBUM

Sobre este álbum, que encerra
os eventos da minha mocidade,
minha alma se debruça comovida
nas horas doce-amargas da saudade.

(Arthur Cunha)

Quem teria sido esse Arthur Cunha que, com tanta sensibilidade, havia resumido, nessas poucas palavras tão bem relacionadas, sua trajetória pelos caminhos tão difíceis e antagônicos de uma existência ?
No suceder das páginas, apareciam fotografias de companheiros com dedicatórias as mais singulares - como são diferentes os tempos e os costumes !
E essas dedicatórias, quando mais efusivas, faziam uma constante referência à excepcional habilidade de pilotagem do agraciado e à sua lealdade de amigo e companheiro.
Fixei-me, já com a intenção de encontrar algum deles, nos nomes menos comuns: Idílio Aleixo, Armando Level, Lourival Campello, Luiz Martins de Araujo e Rodolpho Prates.
Existiam ainda fotos do hidroavião JAHU, nas quais apareciam, além do Arthur Cunha, Newton Braga (Navegador), Ribeiro de Barros (piloto e dono do avião) e Vasco Cinquini (Mecânico).
Essa identificação, entretanto, só seria feita tempos mais tarde, quando descobrimos que Arthur Cunha fora piloto do JAHU na sua viagem da Itália para o Brasil. Piloto, é bem verdade, apenas da primeira fase, da Itália a Porto Praia no arquipélago de Cabo Verde pois, na travessia do "grande lago", o piloto fora um aviador da Força Pública do Estado de São Paulo, o Tenente João Negrão, que substituíra o Cunha.
Com a disposição de pesquisar mais à fundo a vida do aviador dono do álbum, começamos a buscar a escassa bibliografia existente.
Logo de início, apuramos na História da Força Aérea Brasileira, de Nelson Lavanere Wanderley, que Arthur Fernandes da Cunha fizera parte, no Campo dos Afonsos em 1920, da segunda turma de aviadores do Exército, terminando o curso como Cabo e permanecendo como instrutor no ano seguinte, na graduação de Sargento.
Em 1926, o Tenente Cunha, formado pela Escola de Veterinária do Exército, partira como piloto, para a aventura do JAHU. No entanto, não a completara. Por que ?
Algo de muito grave se passara entre a tripulação. O Brigadeiro Newton Braga, no seu livro "Asas ao Vento", faz referências veladas a um grave desentendimento, sem no entanto, explicá-lo, limitando-se à transcrição de vagas acusações feitas pela imprensa da época ao aviador.
Arthur Cunha fora então substituído por João Negrão que colheu as glórias da missão, enquanto que ao Cunha restara a difamação decorrente da defecção no seu momento mais perigoso.
Fora buscando alguém que tivesse conhecido o Cunha que chegamos ao General Rodolpho Prates. Seria ele o companheiro de turma, Sargento em 1920, cuja foto, com expressiva dedicatória, existia no álbum ?
Essa foto, aliás, havia provocado entusiásticos comentários no Esquadrão, pois o piloto, em traje de vôo e tendo ao colo um pequeno cão, posou ao lado do seu biplano Nieuport, irradiando um ar de altivez e soberania dos ares comparável ao Barão Vermelho.
Após uma breve explicação do nosso propósito, a esposa do General nos explicaria que ele fora realmente o Sargento Aviador de 1920.
- Mas, infelizmente, ele já morreu.
Durante o diálogo, soubemos que o General, ao morrer, trabalhava em um livro sobre a sua participação nos primórdios da Aviação Militar brasileira e que esse livro estaria em fase de organização final, aos cuidados de um filho, Oficial do Exército, mas nós nunca chegamos a nos aprofundar por esse caminho.
Encontramos sim, mais tarde, na pessoa do Coronel Armando Level, uma fonte inesgotável de recordações e estórias sobre as fotos do álbum. Batemos grandes papos na varanda do Iate Clube aos quais acabou se juntando o Brigadeiro Melo (o Melo Maluco) que, embora não tivesse conhecido o Cunha, enriqueceu aquelas tardes com estórias extraordinárias.
Sobre a viagem do JAHU, todavia, eles pouco sabiam.
Mas Armando Level nos deu uma informação importante. A de que o Cunha, a partir da criação da Arma de Aviacão no Exército em 1927, foi se afastando do vôo militar, passando a fazê-lo, muito esporadicamente, mais no âmbito dos aeroclubes.
E que ele falecera em 1945, vitima de um enfarto quando tomando um chope no Bar do Hotel Avenida na Avenida Rio Branco no Rio (onde hoje está o Edifício Avenida Central).
Lourival Campello e Idílio Aleixo, também localizados, nada trouxeram à luz. O primeiro, General Reformado, estava radicado no Paraná e o segundo, Major Reformado, morava no bairro do Cachambí no Rio, mas não se lembrava de praticamente nada.
Luiz Martins de Araujo, soubemos, radicara-se em Bebedouro, onde viria a fundar o Aeroclube local.
O tempo passou e nós acabamos por entregar toda aquela documentação ao Museu de Aeronáutica sem nunca chegarmos a saber o que queríamos.
Aquele telefonema, no entanto, nos traria uma surpresa. A revelação que estava por se nos apresentar nos comoveria sobremaneira e nos deixaria de cabelo em pé, partícipes que fôramos de um acontecimento que privaria o vôo de caça de um de seus mais notáveis representantes no Brasil.
- No entanto, já que o senhor é Oficial da FAB, por certo deve ter conhecido o meu filho. Ele também foi aviador. Chamava-se Berthier.
Vieram-nos à mente, então, outras lembranças, outras estórias. Como aquela de quando o Berthier, nosso Comandante do 1° Grupo de Caça, tendo entrado no 2° Esquadrão e não encontrando ninguém, ter escrito no quadro negro "o Sol esteve aqui". Levamos um bom tempo para entender a mensagem e identificar o seu autor.
Ou como aquela do pilofe de Gloster aprendido na Inglaterra com um ás da 2ª Guerra. E a pose de artista na plataforma. As camisas incrivelmente vincadas. E as estórias de P-40 ?
Todas essa lembranças, reunidas, consolidavam uma imagem, cópia fiel, daquele vibrante aviador que posara para a foto ao lado do seu Nieuport em 1920 com o seu cachorrinho.
Foram muito parecidos, pai e filho!
Mas havia também uma outra recordação. Esta bem mais triste.
Era um final de tarde de agosto, em 1963, já com o expediente terminado em Santa Cruz, e a Esquadrilha de Espadas decolara para fazer um ataque simulado à pista de São José dos Campos. Com todo mundo de má-vontade, pois estava sendo realizada uma partida de futebol de salão decisiva no nosso torneio interno.
Já havíamos passado para o topo e estávamos subindo em Linha de Frente, após a concentração exigida para subir IFR com a esquadrilha formada, completamente esquecidos, daquele F-8 que decolara para um vôo de experiência um pouco antes da gente, pilotado pelo Berthier, e que, certamente, estaria à nossa espreita mal-intencionado.
Foi quando sofremos aquele ataque fulminante do "fantasma" que, mergulhando do sol com vantagem de altura e posição, nos aniquilara. Ninguém vira, ninguém percebera. Teríamos sido inapelavelmente abatidos. E nós sabíamos quem ele era.
Após o ataque inicial, o "inimigo" se reposicionou lá por cima no poleiro e ficou a nos observar. Foi quando decidimos: se ele vier de novo nós vamos revidar. Mesmo sabendo que estaríamos incorrendo em um erro doutrinário, pois essa não era a nossa missão.
Mas o F-8 também não estava lá muito certo. Afinal, vôo de experiência, mesmo que pilotado pelo Comandante do Grupo, não era para atacar esquadrilha liderada por Tenente.
Ele veio de novo e, desta vez, reagimos. Satisfeitos da vida por termos uma desculpa para não prosseguirmos na chatice da missão que seria o ataque a São José. O combate seria muito mais divertido e nós pousaríamos logo, ainda a tempo de ver o final do jogo. O combustível era a conta certa e bastava um rápido engajamento para não ter mais como prosseguir na missão.
E tínhamos o álibi perfeito.
Iniciamos um tremendo "pela coruja" enroscando entre as camadas de nuvens. Lembro que o 2 de Espadas, quando reverteu a nosso comando, simplesmente estolou e caiu de costas dentro das nuvens. Mas quando voltou, por sorte, o fez com uma tremenda vantagem de posição frente ao inimigo. Começamos a ganhar a partir daí. O pega estava sensacional, mas eram três contra um e, pouco a pouco, nós fomos dominando a situação até terminarmos os três atrás do atacante.
Foi quando ele, definitivamente encaudado, viu surgir à frente aquele Cumulus. Não houve hesitação e ele entrou para fugir.
Nós, ao mesmo tempo, fizemos um "break" de 180 graus e fugimos de motor a pleno. Era o encerramento honroso do combate. Cada um para o seu lado.
Foi já no final da partida que o Oficial de Operações apareceu para informar que o King 01 ainda não havia pousado e que sua autonomia já se havia esgotado.
Ele não voltaria. O combate que se iniciara a uns 10 mil pés, acabara baixo, com a fuga para a nuvem, justamente sobre o litoral de Mangaratiba onde o terreno é elevado.
No calor da refrega, o combate, que se havia iniciado sobre o Ribeirão das Lajes, evoluíra para o plano vertical, quase que de chão para chão, já sobre a praia.
Nós não entramos na nuvem, não porque tivéssemos consciência de que lá dentro havia um caroço. Não o fizemos porque não haveria sentido. Simplesmente desengajamos em posição vantajosa, com o "inimigo" encaudado e demos no pé como vencedores.
Para a vitória ser completa havia que fugir e não se deixar mais surpreender até o pouso.
Foi nesse dia que, a despeito de todas as tabelas astronômicas, o Sol deixou de brilhar mais cedo em Santa Cruz.




O PIF-PAF DA RIFA

 


Acho que nos fizemos amigos desde o primeiro dia de conhecimento. Julio Dário Correia de Azevedo, o Azevedinho, chegou à EPCAR em Barbacena, como pára-quedista, entrando direto na minha turma, no 2° ano, em 1956. Era irmão de outro Azevedo, o Aluísio, que fora nosso veterano em 1955 e não seguiu na carreira.
Era um guri - assim nós passamos a tratá-lo desde o início - fora de série. Inteligente, atrevido, gozador, crítico ferino e irreverente de tudo, era um dos mais queridos companheiros da turma. A despeito de fazer-se extremamente chato e desagradável quando queria incomodar alguém.
Nasceu em Araxá e, no Campo dos Afonsos, nós tivemos de agüentar, quase que diariamente, aquela chatice de ouví-lo, durante a revista do recolher, anunciar que já havia recebido o último número do Correio de Araxá e que os interessados deveriam aguardar a vez para o ler.
Aliás, o Azevedo não parava nunca de falar em Araxá e na RIFA - segundo ele, a REAL E INDISPENSÁVEL FORÇA AÉREA ARAXAENSE - que em verdade contava com um respeitável time de primeiríssima linha. O Wanderley Montandon, Instrutor de Caça falecido em Fortaleza, o Wander Montandon, irmão mais novo, também Caçador, o Marco Antonio Oliveira, notório desentortador de radiais da Proteção ao Vôo, o Comendador Ronaldo Borges, Zé Juca lá nas Minas de Araxá, e até, segundo nos parece, o Brigadeiro Pompeu Perez que era membro honorário por ser das proximidades(Caconde, em SP, se não me engano). Por sinal, já soubemos que desponta na Academia o mais novo membro da RIFA - o Cadete Montandon - que, certamente seguindo a tradição da família, há de ser Piloto de Caça.
Mas voltando ao Azevedo. Como Aspirantes, seguimos juntos para o Curso de Caça no 1/4° GAV em Fortaleza e alí, ele realmente encontrou o seu ambiente.
Era um excelente piloto e tirou o curso de letra. Inteligente e estudioso, se deu ao luxo de cometer algumas heresias dentro do sistema.
Como aquela quando o Wellington Carvalho criou as estrelas no macacão de vôo para cada 100 horas de Caça e inventou o bastão para quem completasse 500. O guri, ao completar 50 horas durante o curso, criou também o seu bastão. Uma vassoura, sem piaçava, que ele levava para a pista quando ia voar e deixava com o mecânico do avião. Teve Instrutor querendo arrancar o couro dele!
De Fortaleza, fomos ser Pif-Pafs no Esquadrão Rompe Mato em Santa Cruz. Ele na Esquadrilha de Ouros e eu em Espadas.
No Ceará, havíamos sido ferrenhos adversários, ele em Copas (com Antonio Henrique, Meira, Ajax, Starling, Belchior e Marcondes) e eu em Espadas (Baltar, depois Barrinhos, Russo, Tabalipa, Aldir, Glaser, Fleury e o nosso querido médico, Paulo Fernandes). Diga-se, a bem da verdade, que ferrenhos, só de nossa parte. Eles nem estavam aí para a gente e eram tão melhores que levaram o "caneco" brincando. O Azevedo só perdeu a artilharia do Catrapo para mim, por haver o Aldir me cedido a cobrança de um penalti contra Ouros que foi batido irreverentemente de letra contra o bolivianno Sueldo e que gerou alguma confusão, ou melhor seria dizer, bastante confusão, contra o time do Onça.
Mas no Rompe Mato em Santa Cruz seria diferente. A Taça Eficiência era disputada no âmbito do Grupo de Caça, entre as esquadrilhas dos dois esquadrões. E no Segundão, a integração era tal que o Catrapo era realmente um divertimento e não aquela guerra do sangue e areia de Fortaleza. As coisas só engrossavam quando o jogo era contra o "outro lado do hangar", os Jambocks do 1° Esquadrão.
Aliás, neste ano de 1962, nós chegamos a ter um time de futebol de salão memorável no Pif-Paf. Camelier, Bezerra, Macuco, Paulo e Azevedo permaneceram invictos durante um bom tempo. Até cruzarmos com os monstros do Esquadrão Pampa de Canoas na formatura do Curso em Fortaleza, quando fomos inapelavelmente batidos por Guima, Petersen e Pintão e a zaga de 2 m de altura, Binzinho, Aldir e Malafaia. Perdemos de 6 a 3. Mas isso é glória dos Pampas e não quero encher demais a bola deles. Reconheço-lhes, apenas, os méritos.
Em Santa Cruz o Azevedinho consolidou a sua habilidade de vôo e seu carisma. Sob a orientação do grande Comandante de Ouros, Carlos Mendonça da Rocha, que faleceria em acidente no fins de 62, até que ele não criou muito caso. Pelo menos, até a chegada do Berthier.
O guri era solteiro. Morava na Catedral - uma paródia da Capela dos pilotos gaúchos - com o Cúrcio e o Fleury e, esmerado no trajar, era metido a lançar moda.
No inverno de 63, ele deixou o bigode crescer até parecer um daqueles que se usavam no século passado e hoje são tão comuns. Mas que, naqueles tempos, causavam impacto. Principalmente quando ele ia para o expediente no trem da Base usando uma boina de pele estilo Gengis Khan. O Berthier, com quem o Azevedo muito se parecia, invocou com o bigode logo de saída. Acho que não só pelo bigode , mas também pelo capuz. O "Belo" não gostava de concorrência.
Eu me recordo que o guri recebeu ordem de aparar o bigode mas não o fez. E aí começou a guerra.
Um dia, ao entrar no rancho para o café da manhã, o Berthier e o Ruy Moreira Lima estavam na mesa do Comando. Quando vi o Berthier cutucar o Ruy, senti logo que vinha bronca. Só que ninguém esperava o troco.
O Berthier pediu ao Azevedo a carteira de identidade, obviamente, para mostrar ao Ruy o desacordo entre a foto e o bigode. E ele, com aquele seu jeito meio cínico e angelical, tirou duas identidades do bolso e perguntou, na maior cara de pau, qual a que o Berthier queria ver. A com bigode, ou a sem bigode?
Ele era assim. Havia-se dado ao trabalho de tirar outra identidade só para ter a chance de algum dia, dar uma sacaneada no Berthier.
O Azevedinho teve vida curta.
No dia 31 de julho de 1963, logo após o almoço, ele me levou de T-6 ao Santos Dumont. Eu ia registrar o meu filho que havia nascido no HCAER no dia 26 e de quem ele seria padrinho.
Lembro que na hora de fazer o registro, ainda tive uma última dúvida. Pretendia que ele se chamasse Júlio em homenagem à minha mãe, mas mudei de idéia pois ele ia ficar muito convencido.
Logo que cheguei em casa, recebi a ligação de Santa Cruz. O T-6 se acidentara na Restinga da Marambaia, provavelmente na hora exata em que eu registrava o Paulo Dário.
O Azevedo fora vítima de uma das mais fatais armadilhas da nossa época. Uma variação do estol assimétrico do Xavante, que não era absolutamente compreendido então, e que ocorria, principalmente com pilotos acostumados ao T-6D, quando voando o pesadão T-6G.
Até hoje, toda vez que vou ao Hospital Central e me sento no jardim, fico imaginando a confusão que não deve ter sido o rasante que ele tirou ali após me deixar no Santos Dumont quando chegamos de viagem. Ao chegar no Hospital para conhecer o Dário, levei a maior bronca. Minha esposa pensava que tinha sido eu.
E ele morreu sem nem saber que eu havia registrado meu filho com o segundo nome dele. E que, na verdade, é como nós o chamamos hoje, Dário.
Pois é, já se vão mais de 30 anos. Como o tempo passa!
Guri, olhe pelo teu afilhado.



AQUI JAZEM NOSSOS GUERREIROS...


"E quase certo que as idéias aqui expressas venham a gerar polêmica se publicadas. Alguns poderão, até, trocar de mal com o autor.
Devo dizer, entretanto, que pesadas as vantagens e desvantagens, foi resolvido, de caso pensado, assumir quaisquer imcompreensões que pudessem advir. Especialmente dos amigos Caçadores de P-47"
Eu começaria, usando, mais uma vez, o meu amigo Tommy, lá de Niterói para introduzir o assunto.
Em certa ocasião, servia eu em Natal e o Tommy em Brasília, quando recebi um telefonema dele de Fortaleza:
- Estou aqui em Fortaleza e, infelizmente, tenho uma notícia muito triste para lhe dar. Acaba de cair um avião aqui.
Quem é aviador, ou vive no meio, sabe o que se sente nessas horas. Por mais que se atreva a rotina ao coração dos homens, a sensação é ruim. É péssimo sentir aquele aperto no peito enquanto que a cabeça, friamente, tenta encarar o trágico com naturalidade. Ao mesmo tempo que, inconscientemente, se "torce" para que não seja alguém muito íntimo.
E para mim, nesse caso específico, foi pior ainda. Eu acabara de passar o comando da Sorbonne da Caça e ainda "vivia" com o pessoal de Fortaleza, tendo lá deixado pessoas muito queridas.
Mas, mantendo a pose, perguntei com angustiada naturalidade:
- O que houve?
E veio a resposta jamais imaginada, coisa típica do grande gozador que o Tommy é:
- O P-47 caiu do pedestal !
Para os leitores menos afeitos, o P-47 foi o avião voado pelo Grupo de Caça na Itália durante a II Guerra Mundial e, em Santa Cruz, até 1953. Esteve, também, em Natal de 1954 a 1956 e viveu, efemeramente, em Fortaleza uns poucos meses de 1957, quando foi desativado.
Em 1961, nós éramos estagiários no Curso de Caça, eu e o Tommy, e ainda havia um deles remanescente no Esquadrão. Estava completo e nós o olhávamos apenas com uma indiferente curiosidade fácil de entender. Nós fazíamos o curso em um jato de caça, o F-80, novidade para a época, e um avião à hélice, mesmo um sobrevivente da Guerra, ainda não tinha o "appeal" que possui hoje.
Foi nesse ano de 61 que se decidiu transformá-lo em monumento. Aliviou-se o peso tirando o motor, trem-de-pouso, etc e a carcaça foi colocada em um pedestal em frente ao prédio do Comando na entrada da Base.
Não resta a menor dúvida. Ficou lindo! E mais, criou, para as gerações subseqüentes, a impressão de que o P-47 havia sido algo muito importante na história da Base de Fortaleza.
Só que não foi. Há que ser fiel aos fatos. O P-47, sequer, formou uma turma de Pilotos de Caça em FZ. Ele foi desativado na primeira metade do curso em 1957, tendo a instrução sido concluída de T-6.
O P-47 em FZ é bonito. E não representa, no local, nada além disso. Não é nem uma homenagem aos "guerreiros" da Itália pois, até onde me lembro, ele estava pintado nas cores do Esquadrão de Fortaleza.
Mas reflitamos um pouco. Será que é válido transformar um avião desativado em monumento?
Quando se o faz, normalmente, o idealizador se considera triunfalmente um grande empreendedor e não se dá conta de que o tempo, servidão universal, mais cedo ou mais tarde, dependendo do zelo de seus sucessores, se encarregará de transformar o monumento em pó.
Mas é compreensível essa falta de sensibilidade. Quando se faz um avião-monumento, ele não é importante, nem raro e, muito menos, valioso.
Quando se fez o monumento em Fortaleza existia P-47 abandonado em tudo que é canto do Brasil.
Passado o tempo, é que se constata que ele ficou raro, muito valioso e... podre a ponto de cair do pedestal.
Parece, todavia, que o reconhecimento de que o tempo acabará destruindo o avião não é admitido nunca.
Em Belém, por exemplo, existe um Catalina que vai-se acabar. Cedo ou tarde, não tem volta.
O Museu já esgotou todos os argumentos para retirar o avião de lá e trocá-lo por um Breguet XIV que está voando na França.
Isso, equivale, praticamente, a dizer que nós temos um Breguet XIV, em condições de vôo, se estragando ao tempo. E é quase certo que quem se opõe à troca sequer saiba o que é um Breguet XIV. Mesmo do Catalina, o que a maioria sabe é que foi o avião desbravador da Amazonia. A sua atuação como avião de Patrulha na Guerra é quase que ignorada.
Pois do Breguet é bom saber que a primeira Unidade de Combate da Aviação Militar Brasileira devidamente organizada foi sediada em Santa Maria e equipada com aviões Breguet. Na década de 20. Isto sem falar no papel destacado do avião na Primeira Guerra Mundial e na implantação do Correio da Aeropostal Francesa na África, que acabou chegando à Natal .
A mesma possibilidade de troca ocorre com esse P-47 de Fortaleza. Existe quem, nos Estados Unidos, nos dê, por aquela carcaça velha e corroída, um Ventura.
Ou seja, o nosso Museu poderia incorporar ao seu acervo o avião no qual nós aprendemos a voar Patrulha! O avião que deixou um passado na FAB e que não foi preservado para as futuras gerações. Mas não, alguns companheiros que não dão muita pelota para esses assuntos - porque se dessem, seriam os primeiros a apoiar - não fazem outra coisa que não seja criticar a intenção do museu de efetuar essas trocas.
Gente, vamos parar para pensar. Breguets, Venturas e outras máquinas do nosso passado estão acabando. Temos de aproveitar toda e qualquer oportunidade para enriquecer o acervo do nosso Museu. Mesmo que sacrificando alguns monumentos. A ação do tempo vai acabar com eles de qualquer modo. Nós temos poder hoje para redimir a ação dos nossos antecessores que não nos legaram esses aviões. Não deixemos a oportunidade passar. Ainda está em tempo.
Catalina e P-47 já existem no Museu e maravilhosamente conservados.
Vamos prestigiar aqueles abnegados dos Afonsos. Eles fizeram o Museu quase sem ajuda da gente. Não usemos a nossa influência, agora, para os atrapalhar.
Para quem não sabe, na Inglaterra, todos os aviões-monumento estão sendo substituídos por réplicas de fibra. É o bom-senso prevalescendo.
Por falar em bom-senso, quanto tempo será que a ação química vai levar para transformar aquele lindo B-17 de Recife em óxido de alumínio? Não interessa saber se nós estaremos vivos para ver. Um dia, o avião acaba, mesmo reconhecendo que ele é mantido com esmero. Ainda mais com aquela maresia de lascar que tem por lá.
E o B-17 que o Museu tem foi retirado do antigo Aeroclube de Natal e está tão destruído que duas gerações serão pouco para recuperá-lo.
Gostaria de encerrar deixando uma sugestão para os renitentes. Poderíamos criar um diploma legal que estabelecesse, como prática obrigatória, se colocar no local onde haja existido um avião monumento destruído pela ação do tempo, uma placa.
E, nessa placa, constariam os nomes de todos aqueles que, tendo tido poder para salvar o avião da morte inglória, não o fizeram. Começando pelo idealizador do monumento.
Assim, não podendo preservar o avião, perpetuaríamos os nomes dos que por, timidez ou teimosia, aceitaram o seu acabar progressivo.

Rio de Janeiro, 1989



TEMPOS DE GLOSTER

 

O Gloster Meteor Mk 8 foi um marco não só na Aviação de Caça da FAB. Foi também o primeiro avião a jato brasileiro.
Adquirido em 1953, ele equipou no Rio o 1° Grupo de Caça em Santa Cruz, substituindo o P- 47 Thunderbolt, e o 1/14° Grupo de Aviação, de Canoas no Rio Grande do Sul, substituindo o P-40.
O avião em si, era simples. O nosso modelo chegou a combater na Guerra da Coréia não sendo lá muito bem-sucedido e o MK 4 mais antigo, que equipava a Força Aérea Argentina, chegou a voar missões no apagar das luzes da II Guerra, especialmente, abatendo bombas V1.
Na Coréia ele foi voado por um esquadrão australiano que andou passando por maus momentos em uma arena onde os astros eram o MIG 21 e o F-86 Sabre. Mas mesmo assim, para nós, ele ainda era o máximo quando o voei em 1962. Imagine-se em 1953 !
O Gloster tinha como motorização dois Rolls Royce Modelo Derwent V com 3500 lb de empuxo cada (alguém em certa ocasião me disse que por tradição os motores RR recebiam o nome de rios - nunca cheguei a saber se era verdade). Não era muita potência nem para a época, mas era o suficiente para torná-lo superior ao F-80 que viria a equipar o 1/4° Grupo de Aviação em Fortaleza em 1957.
Como conseqüência dessa superioridade de motor, o F-8, como o Gloster ficou conhecido na FAB, possuía um desempenho em altitude muito superior ao do avião americano. Daí o cancioneiro da Caça falar que "de 30 a 40 mil, pó, pó, pó...pó, pó, quem manobra é o Meteor ".
E mesmo à baixa altura, ele também continuava superior, pois podia desengajar de um combate com o F-80 e ir embora na hora em que quisesse. Só não podia era querer entrar na sua cauda e lá ficar. Aí não dava. A tática era ficar fazendo ataque seqüencial, sempre retornado à vantagem de altura, até o piloto do F-80 quebrar o pescoço.
O Gloster era um avião com características muito próprias. A principal, talvez fosse o freio. Era a ar. No motor esquerdo havia um compressor que alimentava o sistema pneumático usado para os freios e para a alimentação inicial dos canhões.
O freio era atuado por um gatilho existente no manche. Com os pedais, se selecionava que roda freiar. Centralizados, as duas rodas eram freiadas por igual. Com um pedal a fundo, só aquele lado era freiado. Em qualquer posição intermediária, a atuação era proporcional. Como o avião não possuía comando de direção da bequilha, o taxi era feito com freio diferencial. Acho que era a única coisa que enrolava um pouco a adaptação de quem vinha do F-80. No resto, tudo era mais fácil, mais simples e melhor.
O F-80 era monomotor e preocupava. Seus sistemas eram uma preciosidade em matéria de complicação. Com pneus de altíssima pressão(150 lb/pol2 ), operava em pista de 1500m no limite de segurança. Qualquer bobeada do piloto, dava zebra !
Com o F-8, não. Não havia instrumentos de motor para controlar, a transferência de combustível era automática, os motores eram confiáveis, pousava curto, o combustível era o JP1 e não o melindroso JP4 e a nacele e a amarração do piloto eram extremamente confortáveis. Sobrava até lugar para levar alguma bagagem nos cofres de munição quando em deslocamento, o que no F-80 era um problema. Enfim, não há quem tenha voado o Gloster e não tenha gostado.
Os méritos, entretanto, eram do F-8 monoplace. No biplace, TF-7, tudo era terrível. Este era uma versão do antigo Gloster MK-4 apenas atualizado com o motor Derwent V. Não era pressurizado, não tinha assento de ejeção e seus limites de velocidade eram bem inferiores aos do F-8 em razão do formato e da fragilidade da estrutura da cauda. Ninguém gostava do TF-7. Ele era usado apenas para adaptar os novos pilotos e para instrução IFR (vôo por instrumentos sob capota).
Mas falemos um pouco da época em que eu voei o Gloster. A aviação comercial brasileira ainda operava Constelations, DC-7, DC-6, Convair e outras máquinas mais antigas, de modo que o vôo em altitude era uma prerrogativa da Caça. Os níveis de vôo eram em metros e lembro que o limite vertical do espaço aéreo controlado era 3900m. Acima disso, era não-controlado. Era o nosso reinado.
Em Santa Cruz, por exemplo, existiam duas áreas de instrução limitadas pela pista. A Oeste operavam os Jambocks do 1° Esquadrão e a Leste, nós, os Pif-Pafes do 2° Esquadrão. Era comum os vôos de instrução evoluírem em altitude sobre o Rio de Janeiro, Niterói e adjacências. Às vezes, especialmente quando voando instrução sob capota, chegávamos até Cabo Frio.
Mas já que tocamos em Niterói, por dever de fidelidade histórica, cabe o registro de um vôo feito, lá para os lados de São Gonçalo, por um piloto morador do outro lado da baía, o Tommy, que resultou em machete do jornal local. Por sorte dele, esse jornal nunca foi lido pelas autoridades aeronáuticas do lado de cá e ninguém ficou sabendo do caos que a passagem rasante dele por lá gerou.
Os Jambocks, por sua vez, iam até quase a Ilha Bela nos seus vôos. E, é claro, de vez em quando, trocávamos de lado e íamos conhecer novos ares.
E é por ter conhecido tão bem toda essa nossa área, que me sinto um pouco melancólico quando vejo o progresso levado à Baía da Ilha Grande pela Rio-Santos. No íntimo, tinha a pretensão de que aquela paisagem deslumbrante fosse preservada para nós aviadores (acredito que o pessoal de patrulha do Grupo de Aviação Embarcada, que também voava por lá mais baixo, e apreciava melhor ainda o visual, deva sentir o mesmo hoje).
Recordo de um lugar especialmente bonito perto da Ponta Negra em Parati, onde existia um campo de pouso interditado - Laranjeiras - que deve ter feito parte dos campos de emergência da Aero Postal francesa.
Por volta de 1977, passando por lá de helicóptero, não encontrei mais a pista. Haviam feito um condomínio no local e a pista se transformou em um canal de marina.
A Restinga da Marambaia também merece menção. Ali o Grupo de Caça tem o seu campo de treinamento de tiro e bombardeio. É um lugar de uma beleza natural incrível que continua razoavelmente preservado. Na década de 70, ainda se podia encontrar vestígio de um outro campo de emergência da Aero Postal próximo à encosta leste do Morro da Marambaia. Toda vez que passo por ali fico imaginado quantas vezes Mermoz e St. Exupery não sobrevoaram o local.
Nós, os Tenentes, íamos para a Marambaia controlar os exercícios de avião (normalmente de Fairchild PT-19, Fokker T-21 ou Paulistinha L-6) e, do campo para o estande de tiro, em uma carroça puxada por um burro, o Sabino (muito teimoso, por sinal - consta que, em uma atitude que entrou para o anedotário do Grupo, o Ariel, que detestava ir para lá controlar o tiro, teria comunicado, em parte ao Comandante do Grupo, que o muar de nome Sabino, havia-se recusado a transportá-lo para estande daí o porquê da esquadrilha, ao chegar para o treinamento, não haver encontrado o controlador à postos).
Mas a Marambaia era um paraíso para quem gostava de natureza. No inverno, a paisagem ficava toda avermelhada próximo da praia . É que ali viceja uma bromélia, o Gravatá, que floresce nessa época. Passávamos o dia na companhia dos Sabiás da Praia e, entre uma esquadrilha e outra, enquanto computávamos os acertos no alvo, dava tempo até para jogar uma linha no mar e, quem sabe, dali a duas horas voltar e recolher um pampo.
Retornávamos à tardinha com o L-6 carregado de gravatás e camarão pistola comprado diretamente dos pescadores que aportavam no campo de pouso para se abastecerem de água. Será que ainda é assim? Provavelmente não. Agora o controlador deve ir de helicóptero direto para o estande e nem passa mais pelo campo. E a área está tão poluída que camarão, não deve ter mais.
Mas voltemos ao Gloster. Ele chegou ao Brasil sem rádio-compasso e assim operou durante algum tempo. Há que explicar que ele era um interceptador e a filosofia inglesa remanescente da II Guerra ainda era de que o recolhimento do avião se baseava no radar de terra. Daí ele não ter equipamento nenhum.
Quando instalaram o rádio-compasso no Brasil, por falta de espaço, a caixa de controle ficou na lateral direita da nacele inclinada para dentro. Isso obrigava o piloto a se inclinar para a frente para fazer a sintonia. IFR e à noite, isso era estar a um passo da desorientação espacial.
Em 1963 perdemos um companheiro novato, o Regis, que se precipitou no mar quando fazendo um circuito noturno escoltado por um piloto experiente, o Camelier, que mergulhou atrás dele chamando-o pelo rádio sem qualquer resultado. A suposição é que ele, ou entrou em atitude anormal, ou não ligou o oxigênio antes da decolagem (o que dificilmente causaria maiores problemas, uma vez que eles estavam somente a 20 mil pés e, nessa altura, a nacele ainda estaria apenas a 13 mil).
O fato do Regis estar sendo escoltado tem uma explicação. Como os pilotos novatos tinham Cartão IFR Restrito e portanto não poderem assinar o plano de vôo, nós usávamos o artifício de um piloto antigo assinar o plano e voar na ala do novato.
Na minha época em Santa Cruz, tínhamos uma Penetração-Jato muito particular. Era o Cruz Jato que usávamos, tanto para subir IFR, quanto para descer. Era um procedimento triangular extremamente seguro que nos permitia entrar e sair com qualquer tempo. Se não me engano, a gente bloqueava o NDB SC e afastava 3 minutos na proa 325, depois curvava à direita para 145 até interceptar a marcação 210 e nela prosseguir para o bloqueio baixando para 2 mil pés.
Subia-se fazendo o inverso e lá embaixo, contávamos ainda com o PAR(Precision Approach Radar) do ECA(Esquadrão de Controle e Alarme) que garantia qualquer zebra meteorológica. A chuva, a seu turno, não atrapalhava muito o pouso pois tínhamos o conforto do canopy poder ser aberto abaixo de 200 kt.
O acidente do Regis ocorrera quando ele, após fazer o Cruz Jato inverso, se afastava do bloqueio para interceptar a aerovia que sai de Ilha Rasa. O seu avião mergulhou no mar em frente ao Polígono de Tiro na Barra de Guaratiba (ficou uma mancha no mar durante todo o dia seguinte) mas nada jamais foi encontrado.
Uns dois anos mais tarde, um pescador recolheu na rede, dentro da Baía de Sepetiba, a carcaça de um capacete de vôo toda moída pintado nas cores do 2° Esquadrão. É quase certo que fosse o do Regis pois não se tinha registro de outro, com aquela pintura, que houvesse sido perdido. Nunca entendemos como ele chegou dentro da baía. Talvez por um capricho das marés.
O que atrapalhava bastante o vôo IFR, para variar, era o rádio-compasso que simplesmente não funcionava no automático dentro de chuva. Em certa ocasião, voando de Marte para Santa Cruz, quando nivelei dentro de uma camada de Alto Stratus a 20650 pés (era isso mesmo, esse número esquisito era o resultado da conversão do nível que era em metros para pés) as marcações automáticas pifaram. Tive de prosseguir no auditivo e recordo que na TMA do Rio me posicionei com Ilha Rasa à esquerda, Santa Cruz à direita, passei pelo meio, voei cinco minutos e desci no mar. Não foi nada de mais pois furei tranqüilo a camada cujo teto eu sabia estar a 5 mil pés. No exato instante em que saí visual, a indicação automática voltou a funcionar. O radio-compasso do F-8 simplesmente não gostava de água.
Mas Cruz Jato não foi o único procedimento de jato de nome exótico dessa época. Um pouco antes, existira no Monumento Rodoviário na Estrada Rio-São Paulo, um rádio-farol e se executavam procedimentos IFR de nome Rodo Jato para Santa Cruz e Rodo Gal para o Galeão. Não cheguei a voá-los, entretanto.
Mas já que falamos de vôo de Marte para Santa Cruz, houve um outro que vale relembrar.
Estava quase todo mundo de férias e eu decolei para entregar o 4429 ao Parque de Marte e trazer outro F-8 que lá estava fazendo um serviço de chapa. O 29 estava com um vazamento de óleo na caixa de engrenagem de acessórios do motor direito que só garantia uns trinta minutos de vôo. Depois disso havia que cortar o motor.
Constava na época que o recorde SC-MT era de dezessete minutos e pertencia ao Márcio Moreira.
E eu estava com o álibi perfeito para sair rasante com os motores no batente para tentar fazer melhor.
Mantive as 14500 RPM do máximo contínuo obtendo uma Vi de 450/470 kt mas não consegui. Quando travei o cronômetro ao tocar em Marte, estava com 19 minutos. Esse era um dos pontos fortes do Gloster. Ele quase chegava na Vne de 515 kt (never exceed speed) rasante.
Mas a ida foi tranqüila. O rolo foi na volta. Eu havia decolado com um lenço e um maço de cigarros no bolso (não me consigo imaginar fumado hoje). A idéia era pegar o outro avião que deveria estar pronto por lá e voltar de imediato.
Deu tudo errado. O tempo foi passando, chegou a tarde e os Cb fechando em cima de São Paulo.
Quando o avião ficou pronto as coisas já não estavam boas. Havia craca por todos os lados mas uma nesga de céu azul me permitiu decolar e buscar o topo da camada. Eu pensava em subir, driblar o mau tempo lá por cima e chegar no Rio que estava aberto.
Mifu. A 45 mil pés, concluí não ia conseguir passar sem fazer um imenso desvio. Os topos deviam estar acima de 50 mil. Era uma célula do lado da outra. Uma parede compacta.
Eu já estava por perto de Guaratinguetá quando decidi voltar pois o combustível estava crítico.
O F-8 para decolar de Marte, cuja pista ainda deve ter uns 1300m, precisava abrir mão do combustível do tanque ventral. Esse era um tanque alijável de 175 gl imp (galões imperiais, coisa de inglês, valem um pouco mais que o galão americano) que se conformava aerodinamicamente com a fuselagem não lhe impondo qualquer penalidade e arrasto.
Não tenho memória de ninguém alijar esse tanque salvo no estacionamento. É que existiam dois punhos, um de cada lado do painel dianteiro. Um alijava o tanque e o outro abria os trilhos do canopy permitindo que a força do ar o separasse do avião.
Acontece que existia um selo inflável que vedava toda a periferia do canopy para não haver fuga de pressurização. E esse selo, que deveria desinflar ao se acionar o botão de abertura, às vezes não desinflava e o piloto ficava preso sem conseguir abrir o canopy. O recurso era então comandar a ejeção. Isso fazia os trilhos abrirem e se podia fazer a abertura manual.
Era uma pane relativamente freqüente e eu vi alguns pilotos, em vez de puxarem o punho do canopy, puxar o do tanque ventral.
Era a maior vergonha. O tanque ao ser alijado, soltava a garra dianteira e, preso atrás, fazia um movimento angular até ficar na vertical, quando soltava a garra traseira por ação do ar de deslocamento. No estacionamento, o que ocorria é que, solta a garra dianteira, a frente caia e batia no solo com a garra traseira ainda presa. Não chegava nem a causar dano porque o tanque, no regresso do vôo, sempre estava vazio(era o primeiro a ser consumido). Mas que era um vexame, era.
Com o ventral vazio, a capacidade de combustível era reduzida de 595 gl para 420 e o peso aliviado em uns 800 kg. Isso não me deixava muita margem de manobra.
Para voltar, tive de dar uma volta enorme pelo interior tentando entrar visual porque IFR é que não daria mesmo. O pau já estava comendo.
Voando baixo, consumi mais. São Paulo fechou e conseqüentemente, Marte, que só opera VFR (Visual Flight Rules). Cumbica me salvou. Cheguei no estacionamento com 80 gl !
Mas já que estamos em São Paulo vamos relembrar uma outra estória.
Foi na Semana da Asa de 1964. A 4a Zona Aérea solicitou um Gloster para uma exposição em Congonhas e a missão coube ao 1° Esquadrão que escalou um "novinho", o paulista Manoel Carlos, para cumprí-la. Ele já estava se equipando quando começou o maior burburinho no Esquadrão (pode ser exagero - não vi, me contaram). O Dias, cuja filha casaria com o Carlos, e mais uma porção de gente veio fazer mil recomendações. Ele, sem entender muito bem, ouvia e aceitava os conselhos de todo mundo. Teriam até cogitado de substituí-lo por outro piloto.
Mas finalmente ele decolou, chegou em Congonhas, pousou, estacionou e foi reabastecer.
Surpresa! O homem da Shell, ou Esso, sei lá, não sabia abastecer o Gloster. Que, diga-se de passagem, era uma operação nada simples. Havia que abastecer o tanque de fuselagem por cima e o ventral diretamente no tanque embaixo, fazendo uso de um bico de mangueira especial que o piloto levava consigo junto com uma trapizonga para aliviar a pressão que parecia um espremedor de batata desses de fazer pirê. E ainda havia um outro tipo de bico para abastecer os tanques sub-alares mas não era esse o caso no momento. Mas resumindo, o cara não sabia abastecer o F-8.
O Carlos, com aquele seu jeito característico de endoutrinador, passou uma educada reprimenda no abastecedor, ressaltando que o avião já estava no Brasil há mais de 10 anos e que não havia razão para que um profissional do setor de combustíveis não soubesse abastecê-lo.
Quando o sermão terminou, o homem, muito humildemente, perguntou ao Carlos se ele podia explicar. O Carlos aquiesceu.
- Seu Tenente, o problema é que nos últimos 10 anos, apenas três desses aviões pousaram em Congonhas. E essa é a primeira vez que um chega ao estacionamento para abastecer.
O que o Carlos não sabia, e essa era a razão do alvoroço antes dele decolar, é que ele realizara o primeiro pouso bem sucedido de Gloster em Congonhas. As tentativas anteriores, todas deram Zebra. A primeira foi o Melinho e o Branco de TF-7, cujos detalhes desconheço por serem eles do 1/14° de Canoas. A segunda foi a do "Velho Ferreira" que, no mesmo dia em que o Regis desapareceu à noite, se perdeu em um circuito de navegação rasante e foi parar em São Paulo. Ele varou a pista no pouso, caiu do barranco e sofreu uma séria lesão da coluna que o reformou. O terceiro foi o Ivan Frota que pousou na pista menor e, para não varar, se jogou na vala na lateral da pista. Ele estava indo para Marte quando o tempo fechou. A única saída era Congonhas. Com a visibilidade muito reduzida, o radar colocou ele na curta final da pista 16 da esquerda, a menor. Quando ele viu, já estava tocando e não dava mais para arremeter (provavelmente por estar também curto de combustível). Congonhas tem uma pista de 1800m e outra bem menor, de uns 1000. Nesta, o pouso, se não impraticável, teria de ser muito bem planejado.
Mas o vôo de caça sempre se caracterizou pela pouca autonomia. Em uma ocasião, passei por maus momentos. Era final de ano, 1962, e o Grupo se deslocou quase todo para o término do Curso de Caça em Fortaleza. Sobramos eu e meu amigo Tommy. Na última hora, a manutenção aprontou dois F-8 sem tanque sub-alar e lá fomos nós, liderados pelo Mourinha, em direção a Vitória.
Ele, com os tanques no lugar, poderia fazer direto a Salvador, mas teve de pousar em Vitória por nossa causa. Nós estávamos tão restritos que, de Vitória para Salvador, teríamos de subir e descer em rota para chegar.
Por não haver QAM (o que hoje se chama METAR, Meteorological Aviation Report, acho que é isso), decolamos, sem saber, na direção do maior pau do mundo.
Eu só olhava para frente e via lá no horizonte aquele Cb gigante. Não pode estar em Salvador! Deve estar antes ou depois. Mas ele, infelizmente, estava antes e depois. Ilhéus fechado, Salvador nos mínimos, pauleira e chuva forte.
O Mourinha resolveu então não descer em rota e seguir para a vertical no nível de cruzeiro (que devia estar acima de 30 mil) e de lá fazer a Penetração de Jato.
Para nós, sem sub-alar, na ponta do lápis, já ia faltar carvão. Mas não havia o que fazer.
Chegamos na vertical e já iniciamos o afastamento e a descida. Não esqueço que mantive a posição na ala com os motores totalmente reduzidos e acionando, dando e tirando o tempo todo, o flape de mergulho. Do outro lado, o Tommy fazia o mesmo. Isso, instrumento e numa turbulência dos diabos.
A penetraçao em esquadrilha é feita com o líder reduzindo o motor (não todo, se não o ala não tem recurso para manter-se em posição) e acionando o flape de mergulho. O ala, também de flape de mergulho, mantém a posição usando o motor.
Ao fazermos toda a penetração com motor reduzido, conseguimos economizar uns poucos galões que foram a nossa salvação. Quando regressamos para o bloqueio e começamos o afastamento para a descida final entramos em chuva (uma penetração, normalmente implica em uma descida a partir de 20 mil pés se afastando do bloqueio e retornando após haver descido pelo menos a metade dessa altura; ao se rebloquear o rádio-farol, se inicia o afastamento para o procedimento final, já a 2 mil pés).
O rádio-compasso do Mourinha, para variar, pifou. O meu também e o do Tommy, idem. Quando ele mandou que um de nós assumisse a liderança, eu vi a roubada em que estávamos. Eu já estava com 60 gl de combustível. Foi nessa hora que vi a pista do Aeroclube de Salvador, que ficava na beira da praia, através de um buraco que apareceu à esquerda(eu estava na ala direita e o Tommy na esquerda). Contrariando toda a doutrina, abandonei a ala e me despejei pelo buraco. O Tommy incontinente, me seguiu. Foi a conta de jogar o trem em baixo, dar todo o flape, apertar a curva até quase estolar e entrar na final do aeroporto. Cortamos os motores com 30 galões. Não dava nem para um circuito de pouso.
O Mourinha, como tinha mais 200 gl dos sub-alares, aguardou a chuva passar e pousou depois sem qualquer problema.
Hoje em dia é bastante comum a gente encontrar monumentos de Gloster pelo Brasil a fora. De um modo geral, quase todos pintados com o nariz azul ou vermelho. Isso é do meu tempo.
Fazia-se combate individual, combate de elemento (dois aviões) e combate de esquadrilha. Combatia-se em formatura Ataque 2, que no F-8 era três aviões para o lado e quatro para trás. Em verdade, o ala era nada mais que um escudo físico para o líder, não lhe sendo permitida nenhuma iniciativa.
Eu sempre questionei essa doutrina por achar que o ala teria de ter mais liberdade de ação, até mesmo para poder atirar, e para isso seria necessário voar mais longe.
Em certa ocasião, em um combate sobre o campo, resolvi acompanhar melhor o que o líder estava fazendo e passei a voar um pouco mais afastado. Não deu outra. Quando pousamos, a galera só queria saber quem era o ala que estava afastado e não sabia voar Ataque 2.
Evoluímos e hoje as coisas são complemente diferentes. Devemos essa mudança ao pessoal do F-5 que trouxe novas idéias depois dos cursos na USAF (o pessoal do F-5 usufruiu das mudanças doutrinárias americanas, produto dos erros e acertos da Guerra no Vietnam).
Mas voltando aos combates, os de esquadrilha eram voados entre os Esquadrões. Normalmente, uma esquadrilha defendendo uma área em PAC (Patrulha Aérea de Combate) e outra entrando para atacar. Depois, se invertiam os papéis. E invariavelmente o líder de esquadrilha perdia o controle da situação do combate. Nada de mais natural. Hoje se tem perfeita consciência de que o número máximo de aviões capazes de serem controlados por um líder em combate são dois. Ele e um ala. Quatro aviões operam como se fossem dois elementos quase que totalmente independentes, interagindo, na medida do possível, em termos de coordenação e apoio mútuo.
Mas naqueles tempos nós éramos instados a acreditar na pequena mentira de que era possível controlar até um Esquadrão em combate.
Era uma loucura, principalmente porque os aviões eram iguais e pouco distinguia o de um Esquadrão do outro. Acabava ninguém sabendo quem era amigo ou inimigo.
Foi nessa época que se teve a idéia de fazer algum tipo de pintura que diferenciasse os aviões de cada Esquadrão. Surgiu assim o nariz vermelho dos aviões do 2° Esquadrão. O 1° Esquadrão, que poderia ter ficado com os aviões sem qualquer pintura, não quis ficar atrás e logo inventou a sua também. A primeira tentativa não foi muito bem aceita. Era um losango azul no nariz com outro menor amarelo no interior do azul. A turma do 2° logo apelidou a pintura de "cú de pinto" e o resultado é que eles acabaram adotando o mesmo padrão nosso, só que azul.
E o 1/14° lá no Sul também logo aderiu criando seu próprio esquema, combinando o nariz amarelo com uma faixa branca e uns toques de vermelho. Ficou parecendo pintura de Lotação, uns microônibus que circulavam pelo Rio na época. Essa mesma pintura, o 1/14° adaptou aos TF-33 que substituíram o Gloster.
Mas avião de caça é avião de guerra. E como era o F-8 como plataforma de armas? Para ser absolutamente honesto, bem ruim. O avião havia sido concebido como interceptador. O que ele tinha de bom era o armamento de cano. Os quatro canhões Hispano Suiza de 20 mm realmente lhe conferiam um poder de fogo respeitável. No mais, tudo o que fizemos com ele em termos de bombas e foguetes foi improviso e funcionou mal.
O visor, por exemplo, era um Mk 4 Giro da Ferranti que não rebatia para bombardeio (no bombardeio picado, dependendo do ângulo, da velocidade e da altura de lançamento, o avião tem de apontar um tanto à frente do alvo para que a bomba o atinja; no F-80, o visor americano K-14, possuía um comando giratório que permitia variar o ângulo do espelho refletor e reposicionar a cruz luminosa de pontaria na deflexão angular pré-calculada para se poder atingir alvo apontando direto para ele). No Gloster, o máximo que se conseguia era uma deflexão de 17 mils (cerca de um grau) para uso com uns foguetes ingleses muito esquisitos, fazendo-se a pontaria com um dos diamantes luminosos do escantilhão do visor giro.
Quando a minha turma chegou de Fortaleza, começamos a buscar soluções diferentes. O bombardeio picado era feito com 60 graus de ângulo, provavelmente porque foi assim que se fez na guerra (daí para mais). O MK-8 usado no F-47 não era giroscópico e também não rebatia, de modo que, quanto maior o ângulo, menos deflexão e maior precisão. Não era assim que o Stuka funcionava?
Mas num jato como o Gloster, esse ângulo era excessivo dando margem a altas acelerações durante a recuperação e, principalmente porque o avião não possuía provisão para uso de traje anti-g (em uma ocasião, eu cheguei a puxar 8 g querendo ver a minha bomba bater no chão; consegui mas fiquei espantado quando meu braço esquerdo começou a ter uns espasmos descontrolados durante a recuperação).
E isso sem poder apontar direto para o alvo e tendo que fazer enormes correções apontando 80/100 m à frente. Tanto reclamamos que o nosso Oficial de Armamento, o Véio Feitosa, acabou nos ensinando um jeito de se fazer um rebatimento rudimentar através de um comando de harmonização que existia atrás do visor . Era uma regulagem de manutenção. Mas, com ela, éramos capazes de dar uma deflexão à cruzeta luminosa do visor fixo de modo a apontar exatamente no alvo. Depois de feito o bombardeio, era só posicionar a cruzeta de volta no seu lugar original ao lado do piper do visor giro. Caso necessário, se aplicava um novo rebatimento para lançar foguetes e no final, se voltava à posiçao para tiro de canhão. Um piloto maceteado fazia isso com rapidez e eficiência.
Aplicamos experimentalmente o artifício no ano de 63 e demos uma surra memorável no 1° Esquadrão, só lhes ensinado o macete depois da fase de treinamento se haver encerrado.
Mas mesmo tendo um bom poder de fogo com seus canhões, o avião ainda tinha alguns cacoetes horríveis. As turbinas afastadas na asa contribuíam para uma instabilidade no eixo vertical, justamente quando se passava por 350 kt que era a velocidade de tiro. Era o que nós chamávamos de snaking.
Havia que fincar os pés nos pedais e ter um yaw damper na cuca de modo a não deixar o nariz correr de um lado para o outro na hora de apertar o gatilho.
Quem atirou bem de F-8, atirou bem com qualquer avião. Mas, ainda assim, os resultados não eram de todo ruins. Fui recordista de missão com 93 acertos em 100 e o Renato Tinoco tinha o recorde de média 85% em cinco missões. Isso em Santa Cruz. Lá no Sul, a marca era do Binzinho com um pouco menos.
Mas como mudaram os tempos nesse mister. Antigamente o quadro de recordes de uma unidade era o pódio venerado do Esquadrão. Era o altar sagrado onde todo piloto queria colocar seu nome.
Quando cheguei em Santa Cruz, já existia um recorde de TAP (Tiro de Armas Portáteis) do Piva há mais de 10 anos. E quando saí, ele continuou lá. O Ary Bezerra, que era comandante de esquadrão quando eu cheguei, também tinha recordes dos tempos de Tenente.
Hoje é diferente. Tanto se mudam os parâmetros que não existe mais quadro e não se preserva nenhum registro do que foi feito ou, quando existe o quadro, os recordes não tem tradição.
E mesmo nesse caso, o quadro fica escondido a fim de preservar uma doutrina de contra-inteligência que nesse aspecto é desnecessariamente rígida.
Em visita que fizemos com a turma Caçadores de 83 a alguns esquadrões da USAF verificamos que em todas elas os quadros ficam na entrada da Unidade e com a foto de cada recordista! Quem é bom não tem o que esconder.
O nosso descaso e desinteresse faz que com o tempo, as marcas antigas acabem desaparecendo. Há alguns anos procurei o quadro de F-8 e alguém me disse que a última vez que o haviam visto ele estava no poço do elevador do hangar ! Uma pena (depois de muito trabalho, consegui recompor esse quadro e ele hoje esta na sala dos Pilotos do Grupo, preservado, espero, para a posteridade).
Em Fortaleza o quadro de F-80 está na Sala de Troféus. Aliás, o 1/4° é um exemplo de reverência ao passado. Lá está tudo preservado. Triste é não termos herdado as marcas de P-40 e F-47, o que é sinal de que a omissão não é nova.
Durante nosso tempo em Santa Cruz, além do Regis, perdemos alguns outros companheiros. O Azevedinho, de quem meu filho herdou o nome, sobre o qual escrevi uma crônica especial. O Carlos Mendonça da Rocha, grande companheiro e gentleman que, escondendo um sério problema de labirinto que poderia afastá-lo da Caça, acabou caindo em uma missão de tiro na AMAN e o João Jorge Gaio, o refinado e querido Comandante do 1° Esquadrão que colidiu com aqueles fios altíssimos existentes no canal do porto de Santos, depois de alertar à esquadrilha no brifim sobre a sua existência. O Celso que era o n° 2 viu o Gaio indo na direção dos fios sem desviar e ficou estupefato quando o viu colidir. Ele estava voando alto e tranqüilo, provavelmente certo de que em segurança, e se esqueceu de quão altos são aqueles fios.
Um outro caso que merece ser contado é o da manobra conjunta de dupla ação com o EB na região de Campos e Macaé, com o Burnier comandando as duas FATO (Força Aérea do Teatro de Operações).
Ataques de parte à parte com cada Esquadrão voando por um lado.
Mas não é que o Duncan, mexendo no receptor EPVL do Gorila (estação tática do 2° Esquadrão) conseguiu interceptar a transmissão das Ordens Fragmentárias que o Burnier enviava de Macaé para o ECA em Santa Cruz? Aí nós passamos a saber de antemão as missões que íamos voar e, mais importante, a saber as missões que o 1° Esquadrão ia voar contra a gente. Não deu outra. Pau neles.
Mas teve uma missão que nos surpreendeu. O Burnier mandou os dois esquadrões atacarem com armamento real, alvos em Macaé, era o fim da manobra, e mandou os T-6 que estavam baseados lá atacarem Santa Cruz enquanto estávamos fora.
Eu estava numa esquadrilha liderada pelo Mourinha e com o Drumond na outra ala (éramos três, alguém havia dado pane) que lançou napalm (disse o Ariel, que estava de Controlador Aéreo Avançado, que a minha bomba quase acertou a Estrada Amaral Peixoto (os alvos ficavam na beira da praia e a estrada passava uns 100 m antes - no momento do ataque, ela foi interditada por 15 min).
Quando chegamos de volta, encontramos a Base sob ataque dos T-6 que já haviam marcado todo o pátio lançando saquinhos de talco. Só que eles se emocionaram demais e continuaram fazendo passes antes de pousarem. Essa esquadrilha era liderada pelo Pedro Batista e tinha como membros o Cleber, o Cavuca e o Cordeiro. O Batista e o Cleber, ambos Caçadores, fizeram o ataque e se mandaram para o pouso encerrando a guerra. O Cavuca e o Cleber, angelicalmente continuaram em vôo. Foram eles que pagaram o pato quando nós chegamos.
Caímos em cima deles. Foi uma covardia. Estava havendo incêndio em todo o pasto a noroeste da base e o vento era norte, de modo que havia uma fumaceira incrível parecendo um cenário de trincheira da I Guerra.
Cheguei a dar uma volta em torno do Hangar de flape em baixo atrás do Cordeiro que, em estado de choque, não estava entendendo nada.
Nisso decolou um T-6 da Fumaça que eu sabia ser o Sérgio Ribeiro. Resolvi atacar ele também. Só que ali o negócio era mais em baixo. Ele esperou eu chegar bem perto e chutou um rápido na minha cara. Levei um susto do cão e resolvemos assinar a paz ali mesmo.
E o Dias, que era o S3 do Grupo, vendo aquela confa toda, também já estava determinando que nós pousássemos (o que já estávamos para fazer, pois o combustível estava nos finalmente e o Drumond, inclusive, já estava no chão).
Houve também os inventores em Santa Cruz. Na Feira de Farnborough de 51, Jan Zurakowsky, um piloto de caça polonês que havia voado com a RAF na Batalha da Inglaterra, assombrara o mundo da aviação ao fazer uma acrobacia complemente louca de Gloster.
Há 50 anos que ninguém fazia nada de novo e de repente surgiu aquele negócio estranho. Voando um avião especial com foguete na ponta de uma asa e uma turbina Saphire de 10 mil libras, ele passava rasante, botava o nariz para cima uns 60 graus e quando chegava a uma altura de uns 5 mil pés, já à baixa velocidade estolando, acelerava o motor e acionava o foguete do mesmo lado com o motor de dentro reduzido. O resultado era o que nós denominamos de tunô gilete (tunô é um galicismo de tounneaux, barril em francês, uma manobra acrobática em que o avião gira em torno do longitudinal; no caso do gilete, ele gira em torno do eixo vertical). Ele conseguia dar umas três voltas até estabilizar em um parafuso normal do qual saía imediatamente.
Quando cheguei em Santa Cruz, contavam que o Lothar e o Soares haviam tentado de todas as formas fazer a manobra sem conseguir (jamais conseguiriam sem os foguetes e o motor especial).
Bem, é isso aí. Acho que contei o que de mais marcante ocorreu nos meus tempos. É claro que estórias existem aos montes. As nossas, felizmente, são de tempos de paz. Mas mesmo essas merecem registro. Se não, a gente se vai e nada fica. Selecionei algumas das que vivi e ou ouvi contar e resolvi colocar no papel. Espero que outros façam o mesmo. O Gloster foi o pretexto.
Mas realmente ele foi um avião feito para o piloto. Até o taxi dava prazer. De capota aberta, apitando a cada acionamento do o freio a ar, como nos sentíamos bem! A nacele confortável e bem refrigerada, os motores confiáveis e a ausência de nariz, tudo era motivo de satisfação.
E o que dizer do vozerio do quatro canhões atirando juntos. Para os padrões modernos, até que não era muito - 3200 tiros por minuto (880 x 4) - mas os tiros espaçados, quase que podendo ser contados - que sensação de poder!
E o apito à alta velocidade? Acho que o Gloster nos marcou a todos que lhe fomos contemporâneos. Afinal, treze turmas tiveram as alvoradas de seus aspirantados anunciadas por aquele som mágico. Quem o ouviu jamais se esquecerá.
Não chegarei ao extremo de dizer que existem dois tipos de piloto. Os que voaram Gloster e os outros. Já disseram isso do T-6, do Zepelin e, recentemente em um artigo nesta revista, até do Cafona (antigo Viscount presidencial).
Na realidade todo mundo sabe quais são os dois tipos de piloto que existem.
Em uma dessas categorias, os de Caça, alguns tiveram o privilégio de voar o Gloster. No entanto, todos, sem exceção se teriam amarrado nele.

A la chasse!

 


TEMPOS DE F-80

 


O F-80 Shooting Star foi um avião que marcou uma época na história da aviação e em especial, na Força Aérea Brasileira. Por certo, todos sabemos que ele não foi nenhuma maravilha - tinha muitos defeitos e umas poucas virtudes - mas, ainda assim, deixou cheios de orgulho aqueles que tiveram a oportunidade de voá-lo.
Em 1957, no Esquadrão de Fortaleza, a Instrução de Caça seguia com muita dificuldade fazendo uso do velho F-47(Thunderbolt), o "tijolo quente", quando começaram a chegar os jatos.
Até hoje, a estória é meio nebulosa. Fala-se que ocorriam acidentes diários por estar o avião já "cansado". Diz-se também que não era nada disso. Que a questão seria deficiência no fluxo de suprimento, que o avião ainda estava novo e outras fofocas mais. Consta até que o suprimento encontrado nos Parques de Material depois da desativação teria dado para manter o avião em vôo por alguns anos ainda.
Uma coisa, no entanto, é certa: a onda para desativá-lo e pela introdução de equipamento mais moderno, a jato, existia e deve ter sido bem significativa.
De qualquer modo, ainda que essas especulações tenham sido verdadeiras, elas não tiveram nenhuma influência, porquanto para que os quatro primeiros T-33 chegassem naquele mesmo ano, as providencias haviam que ter sido tomadas muito antes.
Alguns meses depois, começaram a chegar os F-80.
É difícil falar só em F-80 ignorando o T-33. E também, sem entrar em considerações sobre o Curso de Caça.
Há quem diga que o Piloto de Caça da FAB é passível de classificação em três categorias. Os de F-47, os de F-80 e os de T-33/ Xavante.
Os de F-47 seriam sido arrojados e destemidos - como o foram também os antigos Pilotos de Ataque e Reconhecimento do A-20.
O avião era monoplace e não havia vôo-duplo de instrução. Muito estudo, muita hora de nacele e pronto...lá se ia o caçador-ginete conduzindo sua portentosa máquina. Ao menor estalo do chicote, o Pratt Whitney R-2800 respondia de imediato com 2000HP de potência (o mesmo motor do Ventura, do B-26, do C-82, etc).
O aprendizado do vôo de caça era na base da tentativa e erro. Dependendo da gravidade do erro, e dele ter sido observado pelo líder, o resultado era o desligamento. Era um curso impiedoso e seletivo. Talvez uma autodefesa do Instrutor. Nenhum Piloto de Caça aceita voar ao lado de alguém a quem não confie sua vida. Na guerra já basta o inimigo.
Mas deve ter ocorrido, muitas vezes, o inverso. Erros gravíssimos não eram observados e o piloto prosseguia no curso sem que suas deficiências fossem avaliadas.
Daí alguns gozadores das novas gerações afirmarem que o Caçador formado no "tijolo" era arrojado, destemido e, muitas vezes, descoordenado como ele só.
Dizia-se até que, se em uma esquadrilha de jatos, o líder estivesse lá na frente e os três alas atrasados, a probabilidade era o líder ser dos antigos, formado no F-47. No caso contrário, se a Esquadrilha estivesse em forma, só com o quatro atrasado, então este é que seria o oriundo do "tijolo".
Brincadeiras à parte - e são brincadeiras carinhosas - a verdade é que o piloto formado no F-47 tinha de aprender sozinho. Não havia o Instrutor a bordo para lhe soprar macetes no ouvido. Daí a incorporação de vícios - se o avião era tosco e bruto, havia que ser mais e dominá-lo.Esse o perfil do Caçador das antigas.
Convém, no entanto, esclarecer que pilotos desse grupo existiram que se celebrizaram e marcaram época pela precisão e finesse de pilotagem. Não os conheci a todos, mas lembro bem dos dois Ary, o Bezerra e o Granja, que eram notáveis.
Naturalmente terão existido muitos outros com os quais não tive oportunidade de voar. Principalmente entre os veteranos da Itália que tiveram de mostrar habilidade e destreza em situação real de combate. Diferente de nós que o fizemos de forma cômoda, em tempo de paz e treinando.
O segundo grupo de Caçadores é o dos que fizeram o curso de F-80. Aqui já vamos encontrar uma pequena evolução. A existência do T-33 permitia a instrução duplo-comando na fase pré-solo e no vôo IFR sob capota. Com isso, o estagiário tinha oportunidade de assimilar alguma experiência diretamente do Instrutor em vôo. Era pouco, mas já era alguma coisa.
Talvez por inércia, todavia, se manteve a filosofia antiga e não havia instrução de duplo-comando no correr do curso. Depois de solar o F-80 o estagiário ainda entrava direto nas diversas fases, exatamente como no F-47.
O perfil do Caçador de F-80 ? Um pouco menos arrojado e destemido, mas ainda cheio de vícios e metido a fino de pilotagem. Não por causa do avião, mas talvez por uma reação dialética de tanto ouvir falar na grossura do "tijolo quente".
O terceiro grupo é o daqueles formados após a desativação do F-80, quando passaram a ser usados apenas os TF-33 e, depois, o Xavante (o TF-33 era um eufemismo brasileiro - ele era o mesmo T-33 - o F era para definí-lo como treinador de Caça).
Essa fase adquiriu suas características após uma breve transição.
A forte influência de uma nova mentalidade de segurança de vôo introduzida a partir de 1966/67 e o adensamento do tráfego aéreo criaram o cenário para que o Curso de Caça se voltasse, progressivamente, agora que o avião permitia, para o vôo duplo-comando com o Instrutor.
E o resultado, passado o tempo, é o novo Caçador. Muito profissional, adestrado pelo Instrutor que lhe terá transmitido toda a sua experiência, sem vícios, padronizado, grosso e agressivo nas horas certas e normalmente fino de pilotagem.
Falemos dos aviões, começando pelo T-33. Ele foi um projeto desenvolvido a partir do F-80 no pós-guerra. Sua missão básica era treinamento. A fuselagem do F-80 foi alongada e o tanque significativamente reduzido(de 216 gl para 95 gl) permitindo a criação da nacele traseira.
Por ser um avião de treinamento, não tinha blindagem e, em princípio, não era armado, existindo, apenas, a previsão para duas metralhadoras no nariz.
Os aviões da década de 40 eram bastante rudimentares e semelhantes ao F-80, enquanto que os fabricados nos anos 50, eram bem mais refinados e melhor equipados de sistemas de navegação. Isto porque, mesmo depois da desativação do F-80 na USAF, o T-33 foi, durante anos, o seu treinador de jato.
A nacele do T-33 diferia substancialmente da do F-80, não só pela preocupacão com uma melhor disposição dos instrumentos, como também pelo conforto que propiciava ao piloto.
Curiosamente, a FAB recebeu em 1957 os mais modernos e anos mais tarde, os mais antigos, quando a USAF os desativou em favor do T-38.
Inicialmente, mesmo com metralhadoras, os T-33 não foram usados para a Instrução de Caça propriamente dita. Somente para instrução pré-solo e para Vôo por Instrumentos.
Nos anos 60, chegaram os "novos" T-33, agora denominados TF-33, inicialmente para substituir o Gloster em Santa Cruz e Canoas e depois, com a parada do F-80, para uso na Instrução de Caça em Fortaleza.
Esses "novos" aviões, embora muito bem revitalizados e muito bem equipados com VOR/ILS e Transponder, eram, na verdade mais antigos que os primeiros. Alguns chegaram até a serem denominados TF-80 antes de assumirem a sigla T-33 na USAF.
O TF-33 assumiu definitivamente a Instrução de Caça a partir de 1968. Em 1966, ante a baixa disponibilidade de F-80, as esquadrilhas de instrução passaram a ser mistas com os líderes (Ás e 3) de T-33 e os alas estagiários (2 e 4) de F-80.
Em 1967 já existiam mais TF-33 do que F-80 e estes, com a desativação já programada, não andavam lá muito bem das pernas. Por questões de segurança, os F-80 então passaram a ser voados apenas pelos Instrutores.
E a medida que iam vencendo as inspeções IRAN, eles foram virando panela. Era uma tristeza passar pela Rua Dom Manuel e ver os velhos guerreiros, fuselagens de pé, nos saudando em um depósito de ferro-velho aguardando a fundição.
E o F-80 ? Era um avião horroroso para quem tinha voado Gloster e possuía o TF-33 ao lado. O F-80, realmente, só passou a ser um avião atraente quando em fim de vida. Enquanto existiram muitos e havia opção, a preferência era sempre pelo T-33 e ninguém fazia questão de voá-lo. Quando ele começou a rarear, não. Aí foi uma corrida danada e todo mundo queria. Especialmente os mais novos que, antevendo o fim próximo, queriam preencher a marca de ter voado o único monoplace que ainda existia na FAB, porquanto o Gloster já estava parado, o Mirage ainda por vir e F-5, ainda era sonho.
O F-80 era ruim de desempenho se comparado com o T-33. Era muito mais pesado em razão da blindagem e talvez também, pelas técnicas de fabricação de sua época. Sustentava menos curva e subia menos. Em resumo, perdia feio em combate com o T-33.
É verdade que ganhava longe em poder de fogo. Eram seis metralhadoras .50 com 300 cartuchos cada. Era tanta munição que a decolagem, totalmente municiado, exigia um esforço enorme para levantar a bequilha. E é claro que esse peso todo, afastando o CG do centro de sustentação, não melhorava em nada o desempenho de curva.
Mas o avião era uma plataforma de tiro bem estável. As seis metralhadoras atirando juntas quase chegavam perto do potencial que o "tijolo quente" levava com suas oito.
Entretanto, todo esse armamento de cano não possuía uma boa contrapartida na hora de levar bombas. Eram apenas dois "pontos duros" em cada asa com capacidade de 1000 lb cada (ou seria 500?). De qualquer modo, pouco.
Mas onde o F-80 era ruim mesmo era do lado de dentro. A nacele era um desastre.
O assento era fixo, de forma que o piloto ajustava sua altura com o uso de banquinhos de madeira de diversos tamanhos. Os baixinhos usavam o maior, os compridos o menor e o banco era colocado sob o bote.
Mas havia os super-longos. Mestre Trompowsky, por exemplo. Quem tinha coxa muito longa - havia um limite previsto - perderia o joelho na ejeção. Pelo menos a rótula, que ficaria no pára-brisa. A estes era vedado o uso do pára-quedas de encosto. Tinham de usar o velho "switlick" de assento (será que a grafia era essa ?) e sentar diretamente sobre ele no assento, sem bote e sem banquinho. Era o mesmo pára-quedas que a gente usava no T-6. Naturalmente, nesse caso, se perdia o automatismo da ejeção. Que já não era grande coisa. E sendo alto, é claro, que ao usar o pára-quedas de assento, mais alto ficava o piloto. A cabeça, se não era pressionada contra o canopy, devia, pelo menos, encostar. Com a palavra o Tromps e o Petersen.
Quanto à ejeção, o F-80, mais antigo, era bem mais complicado que o T-33.
Nesse, ao se levantar o braço direito do assento, se ejetava a capota. O esquerdo travava o suspensório (ou vice-versa, não lembro). Com os dois braços levantados, o gatilho da ejeção ficava então livre para ser acionado no punho do braço direito. Era só pressioná-lo e pronto. A seqüência de ejeção abriria o pára-quedas automaticamente. Com alguns óbices a serem vencidos, principalmente à baixa altura, onde havia uma inquietante estatística da USAF sobre o envolvimento assento/pára-quedas.
No F-80 era tudo pior. Havia, primeiro, que ejetar a capota por um punho em T na lateral direita do painel. Depois, levantar os braços do assento e aí, então, comandar o gatilho. A quebra de seqüência poderia resultar em uma temerária ejeção através da capota. Foi o que fez o Normando Medeiros próximo de Aquiraz quando, já pousado em pane na praia, viu o avião incendiar-se sem conseguir ejetar a capota.
Mas o ar-condicionado e a pressurização eram também dignos de nota negativa. A pressurização só funcionava quente e o comando de temperatura era mecânico, através de uma haste que congelava e não se movia mais de jeito nenhum à grande altitude. Na melhor das hipóteses, entortava. Aliás, retornando ao assunto do curso e desempenho do avião, há que mencionar que existia uma missão no curso, a 5F2c, que era realizada a 40 mil pés. Altitude a que alguns aviões e alguns estagiários se recusavam a atingir.
Enquanto o T-33 com sua leveza chegava tranqüilo a 40 mil pés, o F-80, se chegava, o fazia caindo pelas tabelas. Muito estagiário foi eliminado do curso nessa missão. Havia que tratar o avião com uma delicadeza muito especial. Qualquer grossura e pronto; vinha o pré-estol, o atraso, o afundamento e o ala jamais reagrupava. Só no cafezinho.
Mas o interessante mesmo a 40 mil pés era a linha-de-frente, fazendo trilha de condensação. Era preciso ser um gato para fazer aquelas malditas curvas de antigamente. O motor reagia lento e parecia que a gente estava correndo em cima de sabão. A aceleração do motor era lenta, ou melhor dizendo, retardada - ele demorava a reagir mas quando atendia, o avião saia que nem uma bala. E não parava de avançar mais quando a gente queria, mesmo com o motor reduzido. Era um suplício.
E havia líderes que eventualmente se empolgavam com o desempenho da esquadrilha (coisa rara) e chegavam a puxar breaks (manobra violenta para se desviar de um ataque). Era o caos. Havia esquadrilha que só reunia na Seção de Equipamento de Vôo.
Mas o mais emocionante era a descida de 40 mil pés com o desembaçador sem funcionar (o que era absolutamente normal no F-80). Chegava-se no tráfego sem se enxergar nada. E isso depois de descer fazendo acrobacia na ala que nessa missão tinha de ser feita com absoluta proficiência.
A 5F2c era a missão mais difícil do curso, pois qualquer erro envolvia risco para os outros aviões e para isso não havia perdão. E tudo com o enorme visor K-14 permanentemente instalado e bloqueando 50% da visão frontal do piloto !
Mas há que falar ainda da iluminação interna do F-80. Mas talvez seja melhor abrir um parêntesis e explicar a origem do avião para que se entenda melhor o porquê de tanto problema.
Durante a II Guerra, a Alemanha, em 1942, já havia testado o Caça a jato He-280 e havia tornado operacional, em 1944, o ME-262. A Inglaterra também já havia colocado o Gloster MK-4 em serviço em 1945.
Os EEUU, que já haviam produzido um modelo experimental não muito bem sucedido, o Bell P-59, partiram com tudo para cima do P-80 da Lockheed. Seu projetista? O lendário Clarence "Kelly" Johnson que já projetara o Hudson e o Lightning e que consolidaria futuramente o seu gênio com o Constelation e os fenomenais F-104 e SR-71 Blackbird.
O P-80 e o F-80 eram quase idênticos e traziam consigo todos os improvisos impostos pela servidão do tempo (enquanto a Força Aérea Americana era do Exército, os aviões de caça usavam a sigla P de pursuit; depois, com a criação da USAF em 1946, a sigla passou a F de fighter).
O avião teria, com certeza, dominado os céus da Europa se tivesse ficado pronto a tempo.
Mas não ficou e foi aperfeiçoado no que era possível e colocado em serviço no após-guerra. Logo depois surgiria a Guerra da Coreia. Mas aí "o buraco já era mais embaixo". O enflexamento de asa introduzido pelo Professor Busseman na Alemanha já era de domínio geral e o Mig-15 e o Sabre F-86 já eram senhores dos ares. Ao F-80 coube a missão menor de ataque ao solo. Coube-lhe, no entanto, o mérito da primeira vitória da guerra contra um antiquado IL-15 norte-coreano.
Retornemos agora à iluminação interna. Simplificando, os instrumentos ainda eram fabricados com material fosforescente e as luzes eram daquele tipo ultravioleta antigo presas nas laterais da nacele e voltadas para o painel. E não funcionavam bem. Era terrível. No meu primeiro noturno eu não enxergava nada. Optei então por focalizar a luz da esquerda no velocímetro. Assim, pelo menos eu nem estolava na final, nem varava a pista no pouso. Some-se a isso uma pista de 1800m, o pára-brisa embaçado e um visor bloqueando a visibilidade e se tem uma dimensão do pepino a ser descascado.
Lembro de um episódio pitoresco. Existia naquela época no Rio uma Comissão Militar Mista Brasil-Estados Unidos. Um Oficial americano da Comissão, que havia voado F-80 no passado, não sei como, obtivera autorização para fazer um vôo no Esquadrão. Provavelmente para nos inspecionar, uma vez que os aviões eram cedidos pelo PAM (Programa de Assistência Militar).
Ele apareceu para voar no mesmo dia em que eu fiz o meu primeiro noturno. A instrução estava atrasada, a disponibilidade não estava boa e mandaram deixar o cara voar. Está na cara que a receptividade não foi boa e resolveram sacaneá-lo.
Escalaram ele para voar noturno. Era uma noite sem lua, um breu danado. Recordo de ouví-lo comentar no vestiário que não voava o avião há muito tempo. Não lembro quanto, mas era tempo demais. Negócio de mais de cinco anos.
Justiça se faça, o Maj Powell (acho que era esse o seu nome) não perdeu a classe, nem pediu arrêgo. Pegou o avião escalado, decolou e voou o tempo da missão. Depois, nunca mais voltou. Pelo menos enquanto eu era estagiário.
Uma coisa que marcou o F-80 (e também o T-33) foi o uso de JP-4. Era um combustível complicado com ponto de fulgor muito baixo e extremamente sensível a acumular eletricidade estática. Pegava fogo com uma facilidade incrível, tanto que nunca foi aprovado para uso comercial. Mesmo sendo muito mais eficiente que o JP-1 comum de aviação.
Uma das grandes preocupações era o fogo em vôo. No ano anterior ao meu curso havia ocorrido um acidente sério por causa disso. A área do flape de mergulho sob a fuselagem central era por onde passavam as tubulações de combustível e, portanto, o ponto onde se concentravam as atenções da inspeção pre-vôo e onde residia o perigo.
Ocorreu que um avião teve fogo em vôo exatamente na área do flape de mergulho. O piloto, contrariando todos os procedimentos previstos, resolveu não se ejetar (havia um tabu com relação à ejeção no início, especialmente no F-80) e correu o risco de trazer o avião para o pouso. No final da corrida ele já não tinha mais controle nenhum do avião que acabou lambendo todo, mal lhe dando tempo de escapar.
Passemos à operação fora de sede. Já se voava, na minha époc a(1961), o Viscount da VASP, existindo, portanto, JP-1 em diversos locais do país. Mas eram poucos os lugares e havia conseqüências por usá-lo em lugar do JP-4.
Tanto o F-80, quanto o T-33, possuíam Tanques de Ponta de Asa, dois tanques internos em cada asa e o tanque de fuselagem que alimentava o motor e para onde era transferido o combustível dos demais. O uso continuado de JP-1 dava algum tipo de problema no sistema das bóias e válvulas que resultava em eventuais panes de não-transferência. O que era uma grande roubada quando acontecia com um único TPA(eram 230 gl - quase uma tonelada na ponta da asa). A recomendação nesse caso era alijar o tanque , mas sempre havia a vaidade querendo preservar o equipamento e havia quem tentasse. A despeito de alguns pousos aterradores, não há registro de que alguém se haja acidentado por isso.
O problema de assimetria de peso era tão complicado que existia um sistema chamado Auto Drop que permanecia ligado durante a decolagem. Se por algum motivo um TPA caísse, o outro, automaticamente seria alijado. Houve muita gente que esqueceu o Auto Drop ligado e, tendo de alijar um tanque, voltou sem os dois.
Mas acho que me enrolei. O Auto Drop só existia no T-33. No F-80 decolava-se com o interruptor de bombas ligado e selecionado para Tip (se não era isso, era algo parecido - não existe mais um único manual de F-80 para consulta). Em caso de emergência, era só apertar o botão e os dois tanques iam embora. Para alijar um ou outro havia um comando manual no chão ao lado esquerdo do assento.
Aliás, esse sistema elétrico de alijamento dos tanques no F-80 tem uma explicação. Os primeiros modelos do F-80 tinham usado, até a Guerra da Coréia, tanques de ponta de asa bem menores(com somente 160gl) e pendurados na extremidade da asa, por baixo, em dois "pontos duros", que originalmente se destinavam a levar bombas. Quando o novo tanque TPA foi introduzido (este sim, efetivamante, na ponta da asa e bem maior, com 230 gl) adaptou-se esse circuito elétrico para o alijamento deles.
Cabe mencionar que esse interruptor tinha duas posições. Uma normal para as bombas e essa Tip para os tanques. Obviamente, muita gente nas missões de treinamento de bombardeio, volta e meia ligava o interruptor para a posição errada e pimba, alijava os dois tanques sobre o alvo, em vez das bombas.Tivemos até dois pilotos que "competiram" entre si durante toda a carreira para ver quem alijava mais tanques. Ganhou um gaúcho de Canoas com um lifetime-record de 8 TPAs. Mas que fim levaram os F-80 ? Todos viraram panela ?Creio que tivemos 33 aviões. O número mais alto que recordo é o do 4232.
O 4200 foi mantido voando durante muito tempo ainda. Era o avião do Comandante do Esquadrão, tendo sido preservado porque no seu histórico constava que ele havia voado na Coréia. Foi pintado todo de branco e se destacava pelo capricho com que era mantido, só voando em ocasiões especiais.
Depois de recolhido ao Parque, o 4200 se acidentou em rota quando voava de Recife para o Campo dos Afonsos para ser entregue ao Museu. Caiu no interior da Bahia, supondo-se que seu piloto tenha tido alguma complicação de saúde que o inabilitou.
Perdemos um companheiro e um avião precioso. Hoje o Museu possui um F-80 incompleto no qual falta muita coisa original.
Bem, falta falar um pouco do motor do F-80 / T-33. Era o Allison J-33. Robusto e frágil ao mesmo tempo. Robusto por ser oriundo de uma época em que a metalurgia ainda não havia encontrado a solução para as altas temperaturas internas do motor e super-dimensionava tudo que podia. Frágil porque existiam partes críticas que quebravam com muita freqüência. As paletas da turbina, por exemplo.
O J-33 tinha um sistema de combustível ainda bastante elementar, mas já capaz de absorver as acelerações rápidas sem que houvesse superaquecimento na JPT (Jet Pipe Temperature), o que fazia com que ele levasse 14 seg para acelerar da marcha lenta a 100%. Havia portanto, ter de ter muito cuidado na aproximação para não se ficar curto e precisar de potência muito rapidamente.
Existiam dois Controladores de Combustível. O Principal e o de Emergência. O de Emergência servia de back-up para o Principal e não se tinha nenhum dos dispositivos normais de proteção de superaquecimento, sendo, portanto, muito mais delicado de operar (o Gloster tinha um sistema desse tipo - qualquer motorzada, queimava a turbina). No F-80, existia um sistema automático que transferia o controle de combustível do Principal para o de Emergência quando a pressão caía abaixo de um determinado valor. Esse automatismo foi desativado e não existia no T-33.
Do sistema elétrico, pode-se afirmar que era a grande preocupação do piloto. Quase tudo era elétrico. Desde a transferência de combustível dos tanques de asa para o tanque de fuselagem (exceto o TPA cuja transferência era por ar-comprimido) ao flape de pouso, passando até, no caso do T-33, pelo ajuste vertical do assento.
Mas o grande problema era o flape. Sem ele o avião era um foguete para pousar e nós tivemos acidentes muito graves, mesmo depois da pista já ter sido aumentada para 2600m, quando estagiários tiveram pane elétrica total por falha de gerador.
Na maioria dos casos, o gerador entrava em pane e o piloto continuava voando sem perceber. Durante vinte minutos, tudo continuava bem, alimentado pela bateria. Quando esta descarregava, advinha a pane elétrica total. Ficava-se sem rádio, sem indicação de qualquer coisa (inclusive da quantidade de combustível), sem transferência de combustível (reduzindo, portanto a autonomia drasticamente, pois só restava o combustível do tanque de fuselagem - 216 gl no F-80 e uns poucos 95 gl no T-33) e sem o flape. Era uma situação muito grave que exigia pouso imediato.O piloto inexperiente, sem ouvir as instruções do líder, acabava entrando em pânico e aproximando para pouso sem levar em consideração a ausência do flape. O resultado, em algumas ocasiões, por mais endoutrinados que os mais novos estivessem, foi catastrófico.
Mas já que falamos de pouso vamos encerrar essa rememoração falando sobre a manobra.
O F-80 tinha o nariz muito pesado (especialmente quando municiado) e a qualquer bobeada se entrava de bequilha. Nesse caso, segundo o Manual do Piloto, a única solução era colocar o manche em neutro, acelerar o motor a 100% e ter fé. Qualquer tentativa de conserto resultava invariavelmente na quebra do avião na terceira bequilhada. Era o que a TO americana chamava de porpoising.
O T-33 não tinha esse problema por ser melhor balanceado (não tinha as seis metralhadoras no nariz) e pousava bem mais tranqüilo.
Bem, é isso. As idéias foram sendo colocadas no papel sem muita preocupação de ordem. O mais difícil foi falar do avião tendo de limitar as infindáveis estórias que foram vividas por seus pilotos no Brasil.
De qualquer modo, deu para ter uma noção e fica algum registro para o futuro do que foi voar de F-80.
Como já dissemos, o F-80 fez história como o primeiro jato de combate da USAF e cada um de nós que o voou no Brasil, mesmo quando ele já era obsoleto, sente um enorme orgulho de haver participado um pouquinho dessa história.
Afinal, pouca gente teve o privilégio de voar um avião projetado pelo mago Kelly Johnson. Nós, honrados, fizemos parte desse time.

Paulo J. Pinto, março de 1997


TIRO AÉREO
A ÚLTIMA MISSÃO


A utilização da aeronave de caça contra um alvo aéreo representa para o piloto, em tempo de paz, a culminância de um longo aprendizado. Normalmente em uma Unidade de instrução é o coroamento de um programa onde muito suor e muito fosfato foram consumidos.
Nas Unidades operacionais, representa a auto-afirmação do Piloto de Caça. É a hora de demonstrar ao escalão superior a capacidade da Unidade. É o momento da verdade. Afinal, historicamente, esse é o objetivo do Caçador. Destruir o oponente no ar.
Em países mais bem dotados de recursos, esse treinamento é realizado contra pequenos aviões-alvo de pilotagem remota e até, eventualmente, contra aviões obsoletos já em desuso.
Em certa ocasião, visitando na USAF a Base de Eglin no litoral do Golfo do México, tivemos oportunidade de visitar uma Unidade equipada com velhos F-100 Super Sabre adaptados para pilotagem remota. A USAF treina lançamento de mísseis ar-ar contra esses aviões.
Como os mísseis lançados não levam carga explosiva, o avião-alvo normalmente não é abatido. Sensores de rastreamento permitem ao controle da missão saber, em tempo real, se o míssil passou suficientemente perto do alvo para ser letal caso estivesse ativado.
É claro que às vezes há um impacto direto e nesse caso, perde-se o F-100. Mas isso ocorre muito raramente. No entanto, quando estivemos em Eglin, nos foi contado o caso de um entristecido Coronel que dias antes havia abatido com um impacto direto, o exato F-100 que ele muito havia voado e que ostentara o seu nome na fuselagem quando de tenente.
No nosso caso, as coisas são mais modestas. Com os aviões de maior performance, é usado um alvo-acústico que transmite para uma estação de terra quantos projéteis passaram suficientemente perto para serem considerados acertos. É o sistema usado no Mirage e eventualmente no F-5.
Ainda assim, mesmo sendo esse alvo de dimensões bem reduzidas, vez por outra há um impacto direto e se perde o artefato.
Quando se utiliza armamento de menor calibre - metralhadora .50 - e o tiro tem de ser realizado a menor alcance como no Xavante, o treinamento é feito contra uma biruta de nylon rebocada.
É um alvo difícil de acertar. Mede mais ou menos 10m de comprimento por 2 de largura. Isso no chão, porque em vôo, a velocidade o torna mais estreito e mais comprido.
O treinamento é feito com os quatro aviões da esquadrilha fazendo um circuito contínuo em volta do alvo, tendo cada um algumas oportunidades de atirar.
O avião rebocador pode também ser um avião de caça, sendo que no passado a FAB teve um Esquadrão, o 1/10° GAv, especializado nessa atividade. Voava-se o B-25 que nos dava a vantagem de levar uma grande quantidade de alvos a bordo que eram alijados sobre a pista após cada missão, sendo logo em seguida desfraldado outro para a seguinte. A grande autonomia do B-25 permitia se fazer até quatro missões de esquadrilhas diferentes antes de ser necessário pousar.
A contagem de acertos de cada piloto é feita em função da cor de cada furo na biruta, pois a ponta da munição é pintada de cor diferente para cada avião. Normalmente cada missão é feita com 100 tiros.
Interessante é que esse sistema de pintar a munição para cômputo de acertos individuais está comentado no livro "A Verdadeira História sobre a Aeronáutica Brasileira" editado em 1944 e de autoria do jornalista José Garcia de Souza, no qual é feita referência a um dos pioneiros da Aviação Militar Brasileira, o Cel Antonio Alves Cabral:
"Vivendo com a atenção sempre voltada para a concretização de seu ideal isto é, para a Aviação, ocorreu-lhe pintar com cores peculiares a cada piloto a ponta das ogivas dos projéteis destinados ao exercício de tiro aéreo sobre biruta rebocada, de forma a se poder usar simultaneamente o mesmo alvo para treinamento de vários aviões, determinando facilmente a sua performance individual. Tendo assistido na Escola de Aviação a aplicação desse engenhoso artifício, o piloto americano John Carr o levou para os Estados Unidos onde mais tarde ele foi mostrado ao próprio Cel Alves como sendo uma grande novidade. O nosso eminente patrício fez então saber aos colegas americanos que a idéia pertencia há muito ao Brasil, calando modestamente o seu nome, num gesto de patriotismo que nos encheu de orgulho e satisfação".
É claro que esse treinamento contra a biruta, de per si, já envolve um potencial de risco - o alvo está apenas a 300m do reboque. Os atacantes não podem, portanto, atirar com ângulo inferior a 15° e o tiro tem de ser feito também com um ângulo de picada de pelo menos 5°. Isso garante a segurança do reboque que vê a trajetória das traçantes passando ao largo e abaixo de sua linha de vôo.
Mas às vezes, dá zebra. Em tempos idos, dois incidentes ficaram famosos.
Em um deles, um F-80 colidiu com a biruta e a barra de ferro onde ela fica amarrada ficou enganchada no bordo-de-ataque da asa. O cabo não arrebentou logo e o F-80 saiu de nariz para cima carregando a biruta que ainda estava presa ao B-25 rebocador. O cabo esticado foi levado para cima pelo F-80 de encontro ao leme de profundidade do B-25, cabrando-o todo e levando o velho bombardeio a uma posição quase vertical até o cabo partir. Ocorreu então um tenebroso estol de badalo.
O F-80 pilotado pelo Carvalho "Capelão", ao que se sabe, pousou sem maiores problemas.
Em outra ocasião, lá em Canoas, um Gloster também agrediu a biruta. Esse caso terminou com maiores estragos pois as linhas de hidráulica passavam pelo bordo-de-ataque da asa direita e foram rompidas, tendo o Gloster pousado de trem recolhido (o motor direito acionava a bomba hidráulica e o esquerdo, o compressor de ar para o freio - coisa de inglês).
Houve também um caso menos grave em que um tiro de Mirage ricocheteou no peso da barra de ferro e foi atingir o reboque (que era outro Mirage) sem maiores conseqüências.
Mas de Xavante, nada. Pelo menos até no ano em que eu andei por Natal.
Ao contrário do F-80 - superdimensionado estruturalmente - e do Gloster, o Xavante é um avião de outra geração.
Não que seja frágil. Nós é que o usamos de uma forma diferente daquela para a qual ele foi concebido. Eu nunca duvidei que em um entrevero entre ele e o ferro da biruta, ele saíria perdendo.
E assim ocorreu com o Alfredo Moura que após bater no alvo, teve de se ejetar (será que é sina de família? O Alfredo é irmão do Hugo que também já teve de "tirar o time de campo" uma vez na represa de Três Marias).
Tivemos no mesmo ano do Alfredo (1985), o caso do reboque que levou um tiro no tanque de ponta de asa. Provavelmente um tiro com pouco ângulo e sem atentar para os 5° picados pois não foi possível comprovar qualquer ricochete. Tão logo ocorreu esse impacto, o reboque alijou a biruta e tomou o rumo de casa (o tiro é feito na área "Tubarão Contente" a umas 30 milhas do litoral).
Aliás, eu liderava essa esquadrilha e quando recuperava do segundo passe, tive a impressão de ver na visão periférica, uma nebulosidade próximo do reboque. Quando nivelei no poleiro afrouxando um pouco o G é que vi realmente o rastro de combustível que saía dele.
Pensei que talvez a válvula de alijamento houvesse sido comandada e avisei pelo rádio.
O "novinho" Schmidt que era o piloto retrucou: "Chefe, acho que levei um tiro". Dizem que ele que fala pouco, vai ter assunto para os próximos 10 anos.
Essa deveria ter sido a minha última missão de tiro aéreo. O número dois ficou com pena de mim e acertando o reboque resolveu transformá-la em penúltima.
De qualquer modo, está chegando mesmo a hora de parar. Principalmente depois de ter perdido a coca-cola na missão anterior - é uma praxe na Caça a aposta em qualquer missão em que haja competição - normalmente, o primeiro elemento contra o segundo.
É verdade que às vezes, principalmente no final do curso quando os estagiários já estão botando banca, o desafio seja Instrutores contra Estagiários e esse era o caso da missão em que tentaram abater o reboque.
Mas na missão em que eu perdi, não. Era uma aposta especial. Eu, Instrutor contra um estagiário em particular. E perdi. Acertei 11 e ele 21.
Um resultado muito bom para ele que fazia sua segunda missão e regular para o Instrutor velha águia.
No tiro aéreo contra biruta, qualquer resultado de Xavante acima de 20 % pode ser considerado excelente - as metralhadoras são na asa e o tiro tem de ser feito na exata distância de convergência. O melhor que já vi foi 47% do Ferraz em Fortaleza embora o Cortes tenha feito 18 em 20 em missão de um só passe. O Cima também, segundo me lembro.
No velho F-80 era mais fácil. O armamento ficava no nariz e a dispersão era bem menor. O Ivan Frota em 61, e o Bellon em 70, foram os grandes recordistas com 70%.
Em 68, uma vez em Santa Cruz, cheguei a fazer 63 mas levei zero na missão por haver um rasgo de 30cm na cor da minha munição no finalzinho da biruta - indício de tiro com ângulo inferior a 15° - embora eu não o tenha feito.
Hoje se reconhece que a parte traseira da biruta fica panejando em vôo, não sendo mais confiável essa interpretação.
Mas naquele ano, representou um zero para mim em uma missão na qual me bastaria fazer 12% para ganhar a Taça Eficiência do 1° Gp Av Ca. Por ironia, perdi por causa de um acerto e não de um erro.
Mas voltando à aposta nenhum Piloto de Caça gosta de perder. Mas nessa ocasiào, eu até que não me incomodei muito. Fiquei, sim, até emocionado.
Afinal, não há Instrutor que, mesmo perdendo, não sinta satisfação ao ver um aluno seu se sair bem.
E em especial quando o aluno é o filho da gente.
Em último caso, posso até aderir à versão dos colegas dele que andaram espalhando que o meu avião devia estar com uma metralhadora com munição da minha cor e a outra, na dele. Assim ele teria concorrido não só com os 100 tiros dele, mas também com 50 dos meus.
Acho que agora já posso parar. Ficarei menos triste.
A última missão não está longe.


NA PENSÃO DA ZEZÉ


VALDECANS-BELÉM 19:15 - O Tenente Aurélio, reuniu a turma e avisou que o embarque seria no dia seguinte, 10 de março, as 05:00 e que não seria permitida nenhuma saída da base. Após uma reunião no alojamento, o Micheloni convocou a garotada para um pequeno passeio na cidade de BELÉM e o primeiro problema era driblar o Tenente Aurélio. O segundo era arranjar uma condução, uma vez que a Base ficava distante da cidade.
Reunido o grupo, caminhamos ate o portão da guarda, onde o sentinela americano foi logo pedindo os passes, em um inglês com sotaque do Texas. A uma voz de comando do Micheloni, começamos todos a falar rapidamente em português e gesticulando mais que italiano. O gringo ficou doidão e não entendeu nada. Depois de soltar vários palavrões abriu a cancela e mandou todos nós para o inferno.
Aguardamos fora do portão algum tempo até que surgiu um caminhão basculante, que nos levou até o centro de Belém. Resolvemos visitar o Canal Zone, onde percorremos algumas pensões e boates e apesar da hora, 20:30, o movimento era intenso.
Entramos na Pensão da ZEZÉ, onde havia uma mistura de marinheiros, fuzileiros e soldados, brasileiros e norte-americanos, bem como muitos civis, todos na maior zorra. Junto com o Teixeira, Cardoso e Borges, conseguimos uma mesa junto à pista, enquanto o Micheloni ensaiava dançar um tango com uma mulata vestida de vermelho.
Nesta altura dos acontecimentos, o Ten. Aurélio, acompanhado de um capitão americano entrou na Pensão, à nossa procura. A um aviso de debandar, saímos pela porta dos fundos e fomos direto para a Praça da República onde pegamos um táxi, retornando à base, esperando a bronca que iria vir.


ACIDENTE DO LARA (1)


Base Aérea de Santa Cruz, um lindo final de tarde de outono de 1946, dois P-47D se aproximaram com missão cumprida, e se preparavam para pouso. O Lara na condição de líder e eu como seu ala, voltando de um vôo de treinamento, sobrevoamos a Base.
A torre libera nosso pouso e preparamos para o "peel-off"(1). Lara toma posição, mergulha e inicia a manobra para a pista 22 (2). Eu na sua cauda conto 1, 2, 3 e o acompanho. Entrando na reta final, percebo um rastro que a mim pareceu ser poeira, conseqüência do Lara ter pousado um pouco antes do início da pista.
Nada disso porém. Aquilo que me pareceu poeira, já era fumaça de seu avião pegando fogo. Pude observar uma das rodas saindo de lado e o avião deslizando na pista. A minha providência foi arremeter e aguardar a liberação da pista interditada, com os agravantes de uma noite sem lua se aproximando e o inesperado "solo" (3) em pouso noturno.
DEUS, sempre presente nestas horas, me ajudou no pouso, e muito mais ainda na grata notícia que recebi ao pousar. Aquilo que do alto me pareceu ser a roda do P-47 projetada, era a figura do Lara, que, muito safo, conseguiu se livrar da bruxa (4), com leves queimaduras no rosto e na perna.
Assistindo ao pouso, da porta do 2o Esquadrão estavam o Keller e o Magalhães Motta, que em um de seus livros narra a estória, que remeto anexo.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) "peel-off" ou "pilofe"= consulte as outras estórias, tá tudo explicado lá.
(2) Pista 22 = o número da pista indica a sua orientação magnética. O avião que for decolar, ou estiver pousando, estará com sua bússola indicando 220 graus magnéticos.
(3) "solo" = na realidade, além de significar "sozinho", também significa pela primeira vez. No caso seria o "primeiro pouso noturno".
(4) Bruxa = é a "entidade do mal" responsável por todas as desgraças que acontecem em aviação.

Lucas Antônio Monteiro de Barros


ACIDENTE DO LARA (2)


Como visto pelo KELLER H. L. e eu que estávamos na porta do 2o Esquadrão observando. O LARA (L. R.......de A) veio quente, puxou um "peel-off" bem apertado, entrou na perna base com trem e "flap" em baixo, ia espirrar(1) da pista e fechou mais ainda sua curva.
Estolou (2) e veio para o chão nivelado, descendo vertical e sem movimento aparente para frente; saiam "streams"(3) para cima nas pontas das asas. O choque com o solo, bem no través do hangar provocou incêndio imediato; só se via chamas e fumaça que cobriu tudo. Uma roda saiu rolando e o motor foi lançado uns 20 ou 30 m a frente.
Agora é o Meira que fala; estávamos jogando voleibol, na quadra que ficava atrás do cassino dos Oficiais; todo mundo parou para ver o "peel-off" . O TARTARUGA (J. H. T. de ARAÚJO) pôs a mão atrás da orelha, inclinou a cabeça e disse "OUÇAMOS O BARULHO".
Segundos depois todo mundo estava correndo em direção ao " estrondo" . A sirene tocou forte; o carro contra-incêndio apareceu em desabalada carreira; o carro deslocou-se para a cabeceira onde o avião batera; uma ambulância surgiu em alta velocidade de detrás do hangar, continuou pela grama e desapareceu por trás da fumaça.
Após poucos instantes, reapareceu por onde viera e sumiu de novo por trás do hangar. Dez minutos depois as chamas haviam desaparecido e a fumaça se desfizera. O avião era um monte de ferragens queimadas e retorcidas.
Para nós o LARA ainda estava lá dentro.
Mais uns minutos, chega um praça(4) correndo e se dirige ao KELLER - Tenente, o piloto do avião quer falar com o senhor na enfermaria. O KELLER, que já estava com os olhos vermelhos e a cara fechada, deu um "esculacha" no praça - você não vê que o Tenente está morto no avião!!! Isto não é hora de brincadeiras.
O praça não entendeu nada
- "mas tenente, ele está na enfermaria!" .
O que ocorreu - Quando o avião parou, o LARA se desamarrou, saltou da nacele e correu para longe do fogo e da fumaça - para o lado oeste. A ambulância entrou por trás da fumaça - apanhou o LARA, fez 180o(5) e voltou por onde tinha vindo.
Como estávamos do lado leste, com o avião, o fogo e a fumaça entre nós e a ambulância, nada vimos do resgate do LARA e pensamos que ele não tivesse conseguido sair. Teve apenas as sobrancelhas chamuscadas porque, contrariando a NPA (Normas Padrão de Ação) vigente, estava com os óculos levantados na testa.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) "Espirrar" = aumentar muito o raio da curva ou se afastar, sem querer, do outro avião.
(2) "Estolar" = perder a sustenção aerodinâmica, ou seja, simplesmente deixar de voar...
(3) "streams" = esteiras de condensação do ar que se formam atrás das pontas das asas como de fossem riscos de nuvens. Para a sua formação é necessário haver condições atmosféricas especiais e que o avião esteja em alta velocidade.
(4) Praça = é o nome que se dá ao soldado.
(5) 180 graus = fazer uma curva de 180 graus, ou seja, fazer meia volta e retornar.

João Eduardo Magalhães Motta
Brig.Ref. "Piloto de Caça"


ANO 1951. COISAS DE GENTE MOÇA


Almejava ser piloto de caça. Servia no Grupo de Caça e já terminava o Curso de Seleção de Pilotos de Caça (SPC) estava baseado na Base Aérea de Santa Cruz onde desempenhava a chefia de Serviços Gerais.
À minha disposição para o serviço; uma moto, era uma Indian, de dois cilindros, quatro marchas para frente mais marcha-ré. Devia pesar mais de duzentos quilos e era muito confortável e fácil de se dirigir. Houve até um fato muito curioso comigo essa moto e um colega, o aspirante Seixas, fato que só fui saber trinta e tantos anos depois.
Ele mais moço do que eu, disse-me que me pedira uma carona e montaria na garupa que naquele modelo era completamente separada do motorista, inclusive o dispositivo do carona se segurar, não se encostava no motociclista.
Os dois na reserva e têmporas cãs(1), ele Tenente Brigadeiro, nos encontramos na agência de Ipanema da Caixa Econômica. Disse-me ele": "Sabe, não me esqueço daquela moto que você usava. Pocha! Quando você arrancou com ela eu fiquei estatelado no chão. Lembra?
Foi uma surpresa para mim e disse-lhe que nem fazia idéia que ele tivesse falado comigo e muito menos montado na garupa. Como não se feriu, foi um fato hilário, que tomei conhecimento depois desses anos todos, quando pude, ou melhor, pudemos rir dessas coisas de gente moça. Ele me afirmou que eu ainda estava aprendendo a manejá-la, não é que devia estar muito atarefado no domínio dessa possante máquina.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) Cãs = com cabelos brancos, grisalhas.

Cel.Av.R.R Francisco José Guimarães Coreixas - Piloto de Caça


REMINISCÊNCIAS DE ASPIRANTE


No ano de 1957, o curso de caça foi transferido de Natal para Fortaleza, obedecendo a uma Orientação Ministerial de reagrupar as Unidades Aéreas responsáveis pela especialização dos novos aviadores.
Os estagiários daquele ano tiveram muito o que conversar durante a longa viagem de C-47 do Rio até o destino. Entre amenidades e lembranças saudosas, o papo reinante girou em torno das expectativas sobre o rigoroso curso que os aguardava, das características da decantada aeronave a ser enfrentada e, principalmente, do novo Comandante da Unidade Aérea que nenhum conhecia pessoalmente mas sobre o qual já haviam ouvido tanto falar.
Em Fortaleza, uma vez instalados, após as apresentações normais aos diversos escalões da Base Aérea, voltaram às origens de estudantes, no 1o/o G.Av.
Durante um mês, foram submetidos a uma intensa rotina de aulas, doutrina e provas, após as quais, finalmente, puderam entrar em contato direto com a "garça", mas só para longas horas de adaptação com a nacele. O F-47 não possuía versão de duplo posto, por isso a necessidade de uma boa familiarização com o seu interior.
Algum tempo depois, veio o anúncio da data do grande dia - o do vôo solo. Na véspera, ainda, foi feito um último treinamento, que compreendia a partida do motor, a rolagem, os cheques e o ensaio da corrida de decolagem. Todos esses procedimentos eram acompanhados por um instrutor que, empoleirado sobre a asa, se segurava como podia nas bordas da nacele.
Na madrugada do dia seguinte, no cassino (1) da base, onde todos os aspirantes estavam alojados, foi realizada uma alvorada em grande estilo. O café da manhã, servido em horário especial, teve um clima de grande ansiedade.
Na sala dos pilotos, foram dadas as últimas recomendações. Durante todo o dia, a medida em que a disponibilidade das aeronaves fosse afixada no quadro de controle, os neófitos (2) seriam escalados para o seu turno de vôo solo. Antes porém, foi anunciada uma surpresa. O ritual do apronto (3) continuaria conforme treinado na véspera. A novidade estava na presença de um instrutor voando na ala (4) do estagiário para acompanhar o desenvolvimento da missão.
Todos reconheceram que fora uma boa idéia. O solo de toda a turma transcorreu sem contratempos.
O mentor da inovação tinha sido o Comandante do Esquadrão, calcado na premissa de que a primeira impressão é a que perdura. Pessoalmente, considerei a idéia uma prova de sensibilidade e respeito às limitações dos mais inexperientes, certamente, baseada na sua própria experiência vivenciada durante sua carreira de caçador e mestre.
O primeiro mês de atividades aéreas transcorreu razoavelmente bem, sendo ultrapassado o período dos vôos solo, o que permitiu a passagem para a fase dos vôos de elemento (5).
Ao mesmo tempo, dificuldades começaram a despontar na área logística, com a disponibilidade dos aviões a cada dia mais problemática. Em conseqüência, o espaçamento entre um vôo e outro passou a ultrapassar uma semana ou mais. Inexoravelmente, surgiram os primeiros incidentes de vôo, aos quais se seguiram acidentes cada vez mais graves.
Nesse clima, certa tarde, ao passar pela sala de pilotos, constatei que o meu nome constava, no quadro de escalas, para um vôo de elemento na manhã seguinte, tendo como líder o Comandante do Esquadrão. Mentalmente, recapitulei todos os procedimentos e procurei identificar os aspectos mais importantes da missão que iria realizar. Para maior garantia, naquela noite, dediquei-me a uma revisão completa das NPA (6).
Cedo, no dia seguinte, pronto e ansioso, aguardei o Comandante para a tão esperada missão. Parecia um sonho, voar novamente e com aquela personalidade - apenas um major, porém, com um conceito que já ultrapassava em muito o âmbito da caça.
Após o brifim (7), muito pormenorizado, dirigimo-nos para a pista, cada qual guarnecendo o seu avião. Um mecânico me aguardava ao lado do possante "Thunderbolt" F-47 4194. O ritual seguir obedeceu ao figurino. Partida, taxi, teste na cabeceira da pista, decolagem e reunião, tudo normal.
O dia naquela manhã parecia ainda mais lindo. Com um cenário tão apropriado para um bom vôo, os dois F-47 ascenderam rapidamente ultrapassando a camada esparsa de "stratus cumulus" (8) até atingirem 15.000 pés.
A partir daí, teve início a seqüência estabelecida na programação, com escalonamentos (9), aberturas em linha de frente(10) e treinamento de curvas com cruzamentos. A cobrinha (11) foi um espetáculo a parte. Precisei puxar forte para me manter dentro da trilha de condensação que desprendia das pontas das asas do líder. Aquilo era demais - que beleza! Eu desfrutava realmente de um momento mágico!
A sensação de euforia terminou com o balançar das asas do avião à minha frente. Caprichei na reunião. Plenamente aquecido, pensei: - estou pronto para trabalhar com maior intensidade. Como se tivesse recebido a transmissão do meu pensamento, o chefe levantou o nariz do seu avião e o deixou deslizar lateralmente para entrar numa coordenada seqüência de oito bem preguiçosos (12), lentos no início, aumentando gradativamente a puxada até passar pelo dorso.
- Aqueles que tiveram a oportunidade de voar o F-47 sabem o esforço que essas manobras demandavam para o ala, principalmente, para a sua mão esquerda que tinha um trabalho redobrado, indo e vindo da manete de potência ao estabilizador direcional, para tentar manter a bolinha (13) no centro.
Eu me encontrava no meio dessa gangorra, tentando manter da melhor forma a posição, quando o inesperado aconteceu: - um estouro e o susto! O motor do F-47 começou a pipocar e a cada rateada parecia que todo aquele enorme grupo propulsor iria saltar do seu berço. Instintivamente, reduzi a manete dos gases e olhei para o painel de instrumentos. Todos os ponteiros estavam na horizontal (14). Menos mal, refleti aliviado!
Pelo manual de macetes do Ten. Carvalho essa era uma indicação de que tudo estava bem. Epa! No canto direito, um pequeno instrumento apresentava um ponteiro vibrando intensamente, impedindo a sua correta leitura. Era a pressão do combustível. Para corrigir essa discrepância, tínhamos sido instruídos a usar um reostato (15) que fazia com que ela aumentasse. Foi p'ra já. O ponteiro bateu no limite, ainda que permanecesse oscilando.
Tudo isso transcorreu em segundos. Quando olhei para fora, eu já tinha "espirrado" há muito.
Seguro de que o problema estava resolvido, empurrei a manete para a frente a fim de retornar à posição. Novo susto, tudo recomeçou. O motor voltou a tossir e a cada rateada parecia se retorcer, ameaçando se desprender do avião. Reduzi novamente a manete até a parada da trepidação. Ajustei, também, as RPM(16) para o regime correto. A manete do combustível continuava na posição prevista: AUTO RICH (17). Por aí, tudo de acordo.
Nesse Ínterim, os meus ouvidos foram despertados pela voz calma do líder:
- Dois, algum problema?
- Sim senhor. O motor está falhando...
Ele prosseguiu:
- Dois, aumenta o reostato do combustível.
- Já acionei, mas não adiantou. Não consigo acompanhá-lo e estou perdendo altura.
- OK Dois, procure manter 170 milhas (18).
Só então despertei para a realidade. Estava com uma poderosa máquina de 7 toneladas nas mãos, mas praticamente inoperante.
Na minha momentânea distração, enquanto tentava estabilizar o avião numa atitude a mais compensada possível, esquecera totalmente do líder do qual havia me distanciado. Mas eis que, inopinadamente, pressenti uma sombra deslizando e se aproximando pela frente. Ao olhar para fora, vi que ali estava ele, o meu líder, voando na sua posição.
Achei que estava delirando, o meu avião passava a voar novamente, eu voltara para minha posição, eu estava salvo! Qual nada, o velocímetro continuava indicando 170 e a manete permanecia próxima do "ralanti" (19).
O líder voltou a falar pausadamente:
- Pacau (20) 2, você está perfeito na posição, mantenha essa atitude e a velocidade, OK?
- Sim senhor...
Voltei a divagar:
- incrível ele está voando em relação a mim, ali à frente a 45°, observando-me e perscrutando o horizonte. Como pode? Se ele esta querendo me tranqüilizar, acertou na mosca.
Autoconfiante, olhei em volta para me orientar. Em baixo, observei um colchão de "stratus cúmulos", longe à direita, o mar resplandendo na sua imensidão, à esquerda, despontavam os cimos da Serra do Baturité e, à frente, estava ele, o meu líder!
Eu me sentia sereno. Eu tinha um guia e ele deveria saber o que estava fazendo. Aquele avião na minha frente era a minha segurança. Será que estaria me faltando oxigênio? Voltava a me sentir extasiado pelo espetáculo que presenciava, apesar de sentado numa aeronave moribunda, enquanto que aquela, à minha frente, resplandecia em vida. Era robusta e linda, como um gigan- tesco peixe, cortando silenciosamente o espaço qual uma afiada navalha, habilmente conduzida por um ser humano, um fabuloso piloto, meu líder!
Suavemente deslizávamos num planeio circular e amplo. Em determinado momento, nivelamos as asas e mantivemos uma proa constante para atravessar a camada de cúmulos, agora mais esparsos. Arrisquei um olhar para a frente e, para a minha alegria, vislumbrei ao longe a pista de Fortaleza.
A voz do líder, a partir daí, passou a se fazer ouvir com maior freqüência, dando-me orientações, com a mesma calma e serenidade de sempre:
- Pacau 2: preparar para o pouso.
Achei que estávamos altos!
- Pacau 2, mantenha a velocidade.
A seu comando, baixamos juntos os trens de pouso e a seguir os flapes. A razão de descida aumentou e a pista aproximou-se rapidamente.
Na curta final, ele emparelhou seu avião ao lado do meu e ordenou:
- Pacau 2, prossiga no pouso normal.
Na aproximação para o primeiro terço da pista, quando começava a arredondar, com o canopi aberto, ouvi o tonitruante som da sua aeronave, impulsionada pela extraordinária potência dos 2.000 HP do seu motor, numa arremetida muito baixa, mas sem deixar de balançar as asas, como num até breve.
Controlada a aeronave, executei os procedimentos previstos e "taxiei" lentamente para o estacionamento aonde o mecânico me aguardava. Saltei para o solo com sofreguidão. Como ansiava por esse contato! Registrei a pane no relatório de vôo, tendo antes descrito minuciosamente o ocorrido para o mecânico.
Ao chegar na sala dos pilotos tomei um copo d'água com uma pastilha de sal, a fim de repor os sais minerais eliminados pelo suor, conforme orientação médica para todos os pilotos envolvidos com aqueles extenuantes vôos.
Sentei-me ainda tenso, aguardando o Comandante para o debrifim da missão. Tão logo ele chegou, veio em minha direção, sentou-se na minha frente, fixou seus olhos nos meus com um largo sorriso e comentou:
- Aspirante Jaeckel porque tanta tensão? Relaxa, mesmo porque, acredito termos feito um bom trabalho...
Este era o Major Berthier de Figueiredo Prates que eu conheci. Foi meu comandante, exímio piloto meu líder, lenda viva, dotado de sensibilidade e profundo apreço por aqueles alas que eram de sua responsabilidade.
A partir daquele dia, ele granjeou a admiração de mais um amigo fiel e devotado. Creio que a nossa amizade se tornou mútua, tendo eu, naquele ano de estagiário, merecido da sua parte demonstrações de camaradagem que ultrapassaram os limites da caserna.
Três dias depois deste episódio, após os reparos necessários, o F-47 4194 decolou novamente para aquele que seria o seu último vôo. Não voltou mais.
Essa tragédia fatal foi a derradeira gota no processo de desativação de toda a frota dessa agonizante aeronave que havia sido um marco no cenário da Segunda Guerra Mundial, instrumento de glória para o Primeiro Grupo de Caça, nos céus da Itália, durante aquele conflito e, posteriormente, responsável pela manutenção operacional e pela formação de numerosos pilotos de caça da nossa Força Aérea.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) Cassino = Era a antiga denominação do Clube/hotel dos Oficiais dentro de uma Base Aérea.
(2) Neófito = indivíduo admitido há pouco em uma corporação.
(3) Apronto = Reunião dos componentes do vôo, para "combinar" e planejar a missão. Esta reunião também pode ser denominada de "brifim".
(4) Voar na ala = Voar em formatura (próximo do outro avião).
(5) Vôo de elemento = É o vôo composto de dois aviões de caça.
(6) N.P.A. = Norma Padrão de Ação, as vezes se refere ao que hoje é chamado de "Manual de Vôo".
(7) "brifim" = O mesmo que "apronto".
(8) "Stratus Cumulus" = Tipo de nuvens altas e ralas, mais encontradas pela manhã.
(9) Escalonamento = É quando um dos aviões da formatura, troca de lado em relação ao avião líder.
(10) Linha de Frente = Formatura na qual os aviões ficam lado a lado, asa alinhada com asa.
(11) Cobrinha = formatura na qual os aviões ficam um atrás dos outros e repetem todas as manobras que o "seu mestre fizer"...
(12) Oito Preguiçoso = Manobra na qual o avião faz um trajeto similar a um oito, porém sobe nos extremos das curvas e desce no cruzamento.
(13) "Bolinha" = Nome comumente usado para denominar o instrumento que indica a razão de curva e a derrapagem (turn & bank) do avião. A derrapagem é tida como uma "barbeiragem" e é indicada pelo deslocamento para os lados de uma "bolinha" preta.
(14) Ponteiros na horizontal = Era comum os instrumentos indicadores serem projetados para que, em condições normais de funcionamento dos equipamentos, os seus ponteiros estivessem exatamente na posição horizontal.
(15) Reostato = Resistência variável, normalmente se refere ao dispositivo de controle de um equipamento elétrico.
(16) R.P.M. = Rotações por minuto. Os pilotos usam a palavra "RPM" também para designar a manete que controla as rotações do motor.
(17) "Auto-rich" = posição da manete que regula a razão de combustível que é misturada com o ar da admissão, para ser queimada pelo motor. A mistura "auto-rica" é usada nas baixas altitudes onde a pressão do ar é maior e numa tentativa de se mandar mais combustível para o motor.
(18) 170 milhas = no caso se refere a manter a velocidade de 170 milhas terrestres por hora, ou aproximadamente 273 km/h (147 nós).
(19) "ralanti" = termo aeronáutico derivado do verbo francês "ralentir" que significa reduzir a velocidade ou entrar em "marcha lenta".
(20) Pacau = Código de chamada rádio do 1o Esquadrão do 4o Grupo de Aviação (1o/4o G.Av.).

Ten.-Brig.-do-Ar R/R Ronald Eduardo Jaeckel
Aspirante de 1956 - Piloto de Caça em 1957


A VERDADEIRA ARMA É O HOMEM!


Ao perguntarmos à graciosa garçonete sobre a procedência daquela garrafa de "Casillero Del Diablo", um fantástico merlot que sabe a frutas silvestres, somente encontradas nas encostas orientais da Cordilheira dos Andes, deparamo-nos com quatro homens sorridentes, em mesa contígua à nossa, que logo identificamos como sendo os pilotos chilenos que atendiam a um curso de simulador de MIRAGE, no 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis.
O local era a mais moderna e única pizzaria da cidade. Corria célere, a década de oitenta...
Nossa Unidade, o 1º Grupo de Aviação de Caça, encontrava-se deslocado de sua Base original, Santa Cruz, para um exercício de combate aéreo dissimilar entre aeronaves TIGRE e MIRAGE.
Como determinava a praxis(1), ao término das sortidas(2) diárias, seguíamos quase todos para o "Amore Mio", onde nos esperavam pizzas de todos os tipos e boa parte da fauna local.
Ato contínuo, convidamos nossos amigos do país irmão a juntar as mesas e fazer o que caçadores, pescadores e outros mentirosos fazem, sempre que se encontram: contar vantagem.
Embalado pela segunda garrafa de vinho, o time brasileiro reunia, ainda: o "Turco", expressão máxima da obsessão pelo cumprimento dos objetivos; "Anjinho", "enfant gaté" das moçoilas em geral e, por isso mesmo, sempre utilizado como "boi-de-piranha"; e o saudoso "Mãozinha", meu braço direito no comando do Esquadrão Jambock.
Do lado chileno, não menos motivado, o grupo de pilotos de MIRAGE era liderado por "Lolo", também comandante de esquadrão de caça e habilidoso piloto, com experiência de combate real, no canal de Beagle, compondo-se ainda por:
"Tommy", um sorridente ex-piloto de demonstração, que já havia convivido conosco num recente intercâmbio;
"Xanxo", um atarracado e roliço capitão, que havia se graduado como o melhor piloto de sua classe;
e "Truta", um novato com apenas 15 horas de vôo em aeronaves supersônicas e, por isso mesmo, tratado por todos como "un macaco con navajas"(3).
Lembro-me que a primeira garrafa de Pisco(4), produzida pelos chilenos, foi degustada ainda na pizzaria, para gáudio do português, que nos taxou na íntegra o direito de rolha, algo equivalente praticamente ao preço da garrafa inteira.
O tema da conversa, bastante genérico, era de que a verdadeira arma não era o avião, e sim o piloto de caça que o tripulava.
E sob essa lógica, qualquer tipo de competição entre caçadores, por mais absurda que fosse, servia para que se pudesse comparar a eficácia das forças aéreas a que pertenciam.
A partir dessa absurda tese, o desafio para um combate rodoviário no trajeto de retorno à Base, pareceu bastante razoável e rapidamente aceito por todos, com entusiasmo.
Os chilenos guarneciam um Ford Landau preto que pertencia à Base, para utilização pelas tripulações em trânsito, e que todos chamavam Jaguar Maru, uma associação do código de chamada dos pilotos de MIRAGE com os enormes e luzidios navios negros do Loyd Brasileiro (5).
Nós, visivelmente prejudicados em equipamento, tripulávamos uma caminhonete DKW-Vemag, há muito uma relíquia, que era o xodó do "Véio", meu amigo e compadre, que servia como piloto de caça em Anápolis.
As regras eram bastante simples: valia tudo e os caçadores do carro que estivesse atrás, no momento do cruzamento do portão da guarda, seriam os vencedores.
As recomendações do "Véio" haviam sido muitíssimo claras quanto ao alto valor estimativo do bólido, que havia recebido como presente de seu falecido avô, no dia de sua formação no Tiro de Guerra de Itapira, no interior de S. Paulo.
No entanto, conhecendo o "Véio", acreditei que ele seria o primeiro a exceder os limites, por uma questão de honra, como aquela...
Após a primeira curva, num brusco ziguezague, os chilenos já nos haviam encaudado. Isso era no entanto parte de nossa estratégia, de seguir por uma estrada de terra, paralela a um imenso canavial, situado à margem da rodovia federal, que levava, no sentido contrário, à Base Aérea de Anápolis.
Os chilenos ainda comemoravam sua momentânea vantagem de posição, quando colamos atrás de um caminhão carregado de cana de açúcar...
Na noite escura de agosto no planalto central, o cheiro doce da garapa, fermentando nos tachos da usina, enchia o ar, completamente saturado pela densa nuvem de poeira dos caminhões. A idéia era aguardar atrás do caminhão, até que viesse outro no sentido contrário, quando, no último momento possível, faríamos uma brusca ultrapassagem, iniciando logo após uma fechada curva de 90 graus à direita, embrenhando-nos numa das aléias do canavial.
Embora de simples concepção, a manobra envolvia uma série de riscos consideráveis, fato que a tenha tornado talvez inevitável, já que, conforme o "Turco": "assombração sabe para quem aparece!".
Ao sinal de "top"(6), jogamos o carro para a esquerda, de frente ao enorme caminhão que se aproximava, e, segurando o grito de pavor até o último momento possível, guinamos novamente para a direita, cruzando espremidos, entre ambos os paquidermes, sempre encobertos por um impenetrável manto de poeira.
Menos de 5 segundos após a temerária manobra, luzes apagadas, apertamos um "break"(7) pela direita, enveredando por dentro do canavial, numa trilha apenas "carroçável", de onde pudemos observar nossos infelizes oponentes seguirem adiante, esperando a poeira baixar para ultrapassar o caminhão.
Imaginávamos sua surpresa ao constatar nosso sumiço, motivo pelo qual gritamos três "Adelfis"(8), pelas almas dos infelizes.
No entanto, como o que buscávamos era uma vitória esmagadora e incontestável, cruzamos o canavial e tocamos direto para o portão da Base...
Lá chegando, explicamos nossa estória ao comandante da guarda, que sugeriu que ficássemos escondidos a poucos metros da entrada, encobertos por uma grossa lona, que servia para cobrir o jipe da ronda.
Assim permanecemos, por quase meia hora, quando finalmente apareceu o carro dos chilenos. Cobertos de poeira, em baixíssima velocidade e com um dos pára-choques pendurado, vinham todos, à exceção do motorista, com os corpos para fora das janelas, "checando as seis horas"(9).
Ao atingirem o portão, no momento exato em que julgando-se a salvo relaxaram, levantando a lona e acendendo todas as luzes do velho e a essa altura maltratado DKW, demos o bote na cauda dos chilenos, passando sob aplauso dos sentinelas. Era o clássico tiro míssil: "FOX TWO!!!"(10).
De absoluto "fairplay"(11), foi a reação de nossas vítimas que, magicamente materializando nova garrafa de pisco, juntaram-se a nós na celebração da vitória, já então na sala de estar do Cassino dos Oficiais.
No "debriefing"(12) do combate, "Lolo" já sugeriu uma revanche, prontamente aceita por todos. Havia apenas que escolher a natureza da próxima prova...
"Usted saiba, mi querido amigo, que contamos nosotros sin embargo em nuestra Fuerza Aerea, con uno de los mayores bebedores de todo el mundo."(13)- dizia-me "Lolo", apontando para "Truta", o novato, que não parecia de modo algum, fazer jus a toda aquela fama.
Atitude de perfeita resignação, "Truta" ouviu seu comandante lançar um titânico desafio alcoólico, onde ninguém menos que ele próprio, na interpretação de "Lolo", seria agraciado com a honra de representar o bravo povo chileno em combate.
Nessa hora, apareceram vários candidatos brasileiros ao posto de desafiante, mas, ainda por uma questão de honra, resolvi que, considerando a inexperiência de "Truta", somente indicaríamos um candidato com mesmo número de horas voadas em supersônicos. De outro modo, não seria justo de nossa parte...
Dirigi-me portanto aos alojamentos, buscando nosso candidato em meio aos pilotos em formação, a essa hora recolhidos, para enfrentar o duro dia de instrução, que já se avizinhava. Eram duas horas da madrugada!
Concentrados em um único alojamento, todos os novos pilotos dormiam a sono solto, à exceção de um, cuja cama estava vazia.
Ao voltar ao corredor, pude perceber, usando a maravilhosa visão periférica, com que Deus dotou apenas os bons pilotos de caça e algumas outras aves de rapina, um vulto esgueirando-se furtivamente de volta ao alojamento dos novatos.
Ato contínuo, adentrei o alojamento a tempo de flagrar o ocupante da cama vazia, em meio ao sorrateiro ato de retorno ao leito. Mário Bola!!!
Excelente piloto de caça, bom de copo e de papo, Mário recém chegara ao 1o Grupo, vindo de Natal, onde fizera fama como "bon vivant".
Balbuciando, Mário encetou um atabalhoado discurso de justificativa, em que alegava obscuros motivos religiosos para permanecer acordado até tarde, estando escalado no primeiro tempo de vôo do dia seguinte.
O bafo de uísque e um impertinente rei de ouros, que teimava em sobressair do bolso de seu macacão, protagonizavam no entanto uma outra versão da história...
Sentindo imediatamente seu potencial, cortei rispidamente a conversa, oferecendo-lhe a única saída honrosa para aquele imperdoável delito: representar nossa Força Aérea, na competição etílica contra o Chile. O que foi prontamente aceito!
Alinhados frente à frente, os competidores ouviram os hinos, na verdade o "Carnaval em Veneza"(14) e uma versão chilena de "Lili Marlene"(15), em clima de profunda reverência.
Rodeados por um coro que já havia engrossado para mais de trinta desocupados, os competidores abriram a primeira fase tomando uma garrafa de uísque em doses simultâneas, sempre precedidas de um cavalheiresco brinde.
Como é coisa sabida que os pilotos de caça russos nunca bebem mais de uma dose no mesmo copo, adotamos a conservadora postura de substituirmos os copos, a cada garrafa bebida.
É claro que o ritual de substituição exigia que os copos velhos fossem quebrados com a maior violência possível, ato quase sempre acompanhado pela ação reflexa da ruidosa assistência.
Com isso, a quarta garrafa, de um intragável Bourbon boliviano, foi esvaziada em meio a um inacreditável mar de cacos de vidro...
No momento em que a comissão organizadora abria a quinta garrafa, um "Velho Barreiro",
"Truta" deu seu primeiro sinal de fraqueza.
"Mi comandante, ja no puedo más!"(13).
Visivelmente embaraçado, "Truta" havia dito essas palavras num meio-tom, praticamente inaudível aos presentes, a exceção de seu comandante, que abrindo um enigmático sorriso, sentenciou:
"Entonces, é llegada la hora del supremo sacrificio por la Patria!!!"(13).
Assim dizendo, passou ao coitado do "Truta" um copo longo, cheio até a boca de Cinzano Doce.
A peleja prosseguiu, com "Truta" defendendo-se nas cordas e "Mário Bola" exuberante, bebendo inclusive doses não computadas oficialmente, "só como aperitivo".
O primeiro contato de "Truta" com o solo, foi feito com a testa... Inabalável e completamente alheio ao alarido produzido pela malta, que carregava "Mário Bola" para a volta olímpica, o comandante "Lolo" perfilou-se e prestou a todos uma demorada e respeitosa continência.
Em seguida, retiraram-se os chilenos, cuidando de suas baixas, no caso apenas o pobre diabo do "Truta", que, dez minutos depois foi recolhido desacordado, ao pronto socorro da Base.
O saldo da aventura, fora o esculacho do "Véio", pelo estado do DKW, foi um jogo de copos de cristal húngaro, oferecido no dia seguinte pelo 1o Grupo de Caça à Base Aérea de Anápolis, atendendo à sugestão do próprio Comandante da Base.
Os chilenos, retornaram a seu país com toda a dignidade, e absolutamente conscientes de terem sido derrotados por adversários de altíssimo gabarito.
O difícil foi controlar o "Mário Bola", que passou a partir de então a cobrar sua cota de sexo e "rock-and-roll"...

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) - práxis = como determina o costume, a prática
(2) - "sortida" = usa-se para designar uma missão de caça.
(3) - "macaco con navajas" = "macaco com navalhas", significa uma pessoa inexperiente com uma perigosa arma na mão.
(4) - "Pisco" = cachaça chilena
(5) - "Jaguar Maru" = na realidade "Maru" deve se referir aos navios petroleiros japonêses. Quase todos eles têm "Maru" como "sobrenome".
(6) - "top"= palavra inglesa que se fala para iniciar uma marcação de tempo. Equivale à palavra "já".
(7) - "break" = do inglês "quebrar", na realidade significa fazer uma curva acentuada e rápida para evitar o inimigo.
(8) - "Adelphi" = tradicional saudação do "Caçadores" para reverenciar pessoas ou fatos.
(9) - "checar 6 horas" = olhar para atrás para ver se tem inimigo (usa-se as posições dos números do mostrador do relógio como referência - 12 horas é na frente...)
(10) - "fox two" = nome código usado para informar que se está em posição de ataque com mísseis.
(11) - "fairplay" = portar-se com elegância diante da adversidade, educadamente.
(12) - "Debrieffing" = "debrifim" = reunião feita, logo após o vôo, para se fazer os comentários sobre a missão.
(13) - a frase está em espanhol, mas dá para entender...
(14) - "Carnaval em Veneza" = Música popular cuja paródia se tornou uma "marca registrada" dos Veteranos do 1o Grupo de Caça na Itália.
(15) - "Lili Marlene" = Música popular que era muito cantada pelos militares alemães durante 2a Grande Guerra.

Ten.-Cel.-Av. Flavio C. Kauffmann
Piloto de Caça - Turma 1978


ORAÇÃO DO VELHO CAÇADOR

 

Senhor! Dá-me companheiros que sejam bastante fortes
para saber quanto são fracos, e corajosos bastante
para se enfrentar a si mesmo, quando tiverem medo.
Companheiros que sejam altivos e inflexíveis, na derrota inevitável,
mas humildes e mansos na vitória.
Dá-me companheiros, cujo esterno não esteja
onde deve está a espinha dorsal.
Companheiros que se conheçam e saibam
que conhecer a si mesmo, é a pedra angular do saber.
Guia-os, eu te suplico, não pelo caminho fácil do conforto,
mas sob a pressão e o aguilhão das dificuldades e dos obstáculos.
Que aprendam a manterem-se eretos na tempestade;
e a ter compaixão dos malogrados.
Companheiros que saibam dominar-se,
antes de procurar dominar aos outros.
Companheiros que aprendam a rir,
mas que não desaprendam a chorar.
Companheiros que tenham olhos para o futuro, mas
que nunca esqueçam o passado...
E depois que lhes tiveres concedido todas estas coisas,
dá-lhes compreensão bastante para que sejam sempre
homens sérios, sem contudo se levarem demasiado a sério.
Dá-lhes humildade, Senhor, para que possam ter, sempre em mente,
a simplicidade da verdadeira grandeza,
a tolerância da verdadeira sabedoria,
a humildade da verdadeira força.
Então, eu, VELHO CAÇADOR ousarei murmurar:
NÃO DOUTRINEI EM VÃO!

 


O PASSEIO NO CAP 3

 


Sábado de manhã, sem nada para fazer convidei o 72-349 Caminha (vaca-brava) para uma visita até o aeroporto de Barbacena. As provas do terceiro bimestre em 72 se aproximavam e o licenciamento estava suspenso. Nada melhor do que voar no famoso Paulistinha (é isso mesmo?). Fomos até a praça e nos informamos. Não haveria ônibus para lá antes do almoço. Decidimos ir a pé mesmo e caminhamos todo o percurso falando sobre os rasantes que iríamos tirar, os touneaux (será assim?), as glissadas, as passadas em faca, o estol de badalo ... Nós sonhávamos em voar num T-33, num Phamtom, num Tigershark ...
Chegamos lá e demos de cara com um CAP-3, amarelinho, daqueles que o Décio Pignatari contruíra em São Paulo e que o Chateubriand distribuíra por todo o Brasil. Acertado o preço do passeio, me encaminhei para aquele descendente do Demoiselle e comecei a me dar conta do que era aquilo. Uma lona impregnada de resina dope envolvia uma estrutura de tubos soldados, tracionados por um motorzinho menor do que o do fusca, onde fora acoplada uma hélice de madeira toda manchada pelo tempo. Nós haviamos estudado motores a jato, estatojato, pulsojato, motor Wankel, Motor Stirling, duralumínio, titânio e muitas outras coisas. Mas a vontade de voar era maior. Recebi uma série de recomendações, chamadas de brieffing pelos peritos e adentrei aquela portinhola desdobrável, com a janelinha de celulóide (acredito eu!). Motor ligado, tudo checado rolamos para a cabeceira da pista, paramos e ... motor a toda, freios soltos e iniciamos a corrida para a decolagem! Foram os mais longos e os mais rápidos "trinta minutos" da minha vida. Enquanto ganhávamos velocidade meu estômago parecia querer se deslocar para a espinha e, logo em seguida, ele queria ir para os intestinos e, logo depois, ele voltava ao normal com uma pequena inclinação. Havíamos decolado e nos dirigíamos para um sobrevôo à EPCAr.
O motor rugia, a lona batia e durante uma curva lá estava a escola, passamos por ela, retornamos e nivelamos, não sei em qual direção. O piloto me tocou o ombro e fez sinal para que eu assumisse o controle do manche, eu havia implorado para sentir os controles do avião. Naquele instante uma descarga elétrica passou por todo o meu corpo e me senti como se fosse o dono do céu... aquele que tudo podia ... o sapato se transforma em bota de montaria, a calça vira culote, ajeito o blusão de couro, acerto a echarpe, olho a carlinga vermelha, me sinto o Barão von Ritchoffen! Então apertei o pedal da direita e empurrei o manche para a direita e pra frente e ... tomei uma porrada nas costas ...
- Solta essa porra!! E escutei um monte palavrões daqueles bem cabeludos e mais um monte xingamentos e resmungos. Larguei o manche, encolhi as pernas o mais que pude, ouvi o ronco do motor aumentar, senti uma balançada boa, vi aquela bolinha voltar pro lugar e a bússola parar de girar. O Senhor dos Ares tinha se transformado no Rei da Cagada, eu quase derrubei a gente. Voltamos imediatamente pro aeroporto, pousamos, fizemos o taxi, paramos, o motor parou e eu sai numa carreira louca para o mais longe possível dali. Cruzei com o Caminha que se dirigia para o avião e falava alguma coisa que até hoje eu não sei o que era.
De longe eu o via conversando com o piloto, gesticulando muito, isto por um bom tempo e depois os dois entraram no avião e decolaram.
Se eu não engano, após este lance houve uma proibição de vôos com alunos em Barbacena.


O EPISÓDIO DO FOGUETE


No ano de 1972 eu fazia parte da turma L, no primeiro ano da EPCAr, e meu número era 72-339. Todos os meus colegas de turma tinham suas características, e personalidades das mais diversas, mas entre eles, um se destacava:
José Wenceslau Caminha Junior, 72-349 Caminha, conhecido também por Vaca-Brava, graças a uma corrida maluca no Campo dos Afonsos, na época dos exames de seleção para BQ.
O Caminha era um sujeito bem estranho, e quem não seria naquelas circunstâncias, longe da família, com uma disciplina muito rígida, pessoas e lugares totalmente desconhecidos. Adorava aviões, conhecia-os todos, tinha montado muito Revell! Mas seu preferido era o B-52, acredito que por sua capacidade de carregar bombas nucleares. E estes artefatos nucleares eram outra paixão. Projeto Manhatan, Fat Boy, bombas atômicas ou de hidrogênio, kilotons, megatons, destruição generalizada, cogumelos atômicos, mísseis ICBM, Minuteman, Titan II e Saturno 5. Fico espantado comigo mesmo por conseguir lembrar desses detalhes. Mas como ele era fascinado por aqueles engenhos, ele só falava nisso e talvez por esse motivo é que não esqueci de nada até hoje.
Passaram-se quase 30 anos e eu me lembro, quando o Caminha falou comigo:
- Tavares, vamos fazer um foguete?
- Como é que é???!!!
- Vamos fazer um foguete e lançar lá no Stand-de-Tiro, já tenho tudo planejado, vamos construir uma câmara de combustão de argila, fazer um rastilho para o segundo estágio, como propelente vamos usar nitrato de potássio e açúcar, para disparar a gente quebra uma lâmpada de lanterna, junta um bom-bril, liga as pilhas e tá feito ...
E veio aquela torrente de planos jorrando direto da cabeça daquele maluco-beleza. E eu que também era meio (ou será inteiro) maluco topei. Foi uma trabalheira insana. Arranja bambu daqui, taboca dali, argila para modelagem artística, barbante, bom-bril, lâmpada de lanterna, pilhas e outras coisinhas. E como não conseguíamos o nitrato de potássio, nem a receita para fabricar o explosivo, uma passada numa loja de macumba para comprar cartuchos de pólvora resolveu o problema. Uma visita a uma oficina para pegar um pedaço de tubo e enfim terminamos. Juro que não parecia com foguete, mas teoricamente tinha tudo pra subir, ou seja mais de duzentos gramas de pólvora de macumba. Tiramos algumas dúvidas com o professor de física (aquele italiano Luigi). E chegando o final de semana determinado lá fomos nós ...
Prepara a rampa de lançamento, assenta o anteparo para o jato, ajeita os fios, quebra o vidro da lâmpada junto com o bom-bril, coloca um pouco de pólvora para garantir a ignição, liga os fios nas pilhas e preparamo-nos para o lançamento.
- Tavares prepara ....
- .... 10, 9, 8, ..... 2, 1 .... ZERO - FOGO!
- SHSHSHSHSHSHSH.......
O foguete subiu uns 10 centímetros ... caiu ... ficou girando um tempo e parou... tinha dado chabú!!!
Lá fomos nós, eu e o Caminha de volta para o alojamento iniciar os planos do Vaca-Brava 2. Que acabou não acontecendo ...


A FEIRA AEROESPACIAL DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS


Aquilo que irei relatar aconteceu quando houve em São José dos Campos a 1ª Feira Aeroespacial da América Latina no ano de 1973. Para todos nós, vibradores, os dias demoravam muito a passar e nada de chegar o tão esperado evento.
Todos os que iam, já tinham se organizado e preparado seus roteiros de forma a chegar até o CTA, ir para o Hotel de Trânsito, colocar o 5º A e ver aquelas maravilhosas máquinas de nossos sonhos. Eu (Tavares) e o Barata (Genilton) tínhamos combinado de ir juntos, várias outras duplas e grupos estavam prontos. Era chegada a hora, sexta-feira, fim da Instrução Militar voltamos correndo para o alojamento, tomamos banho, vestimos nosso uniforme para a viagem, pegamos as mochilas e fomos para a formatura pegar as nossas licenças. Terminada a formatura saímos em desabalada carreira para a BR em busca de uma carona em direção a SJC.
Lá estávamos nós, perto da Cabana da Mantiqueira, esperando aquela carona e conseguimos que uma boa alma nos levasse até Juiz de Fora. Chegando lá, começou uma garoazinha enjoada e então decidimos ir para a rodoviária e pegar um ônibus até Três Rios, descer no entroncamento para Volta Redonda e lá conseguir outra carona. Feito isto, embarcamos e perto do anoitecer já estávamos à beira da pista com o dedão prá cima ... passou um tempão e nada! Até que apareceu um caminhão F-600 lotado de abacaxis (ficamos sabendo depois) que parou e o motorista disse que ia para São Paulo pela Dutra. Ótimo, abri a porta da cabine e vi no assoalho um virabrequim (as aulas do Falzoni, leia-se Pagazoni, do Pavitec também serviam para isto) imundo de graxa e eu muito do safo, empurrei o Barata prá dentro e fomos. "Há-há-há o Genilton se deu mal, vai ter que ir todo espremido até o final da viagem...", pensei eu. Lamentável engano, começou a chover e a máquina do vidro não funcionava. Amaldiçoei a minha esperteza durante toda a noite, pois a chuva não parou e decidimos continuar viagem até SJC, corríamos o risco de descer e não conseguir outra carona.
A viagem foi uma "maravilha", andávamos a 50 por hora, com o rádio ligado numa estação de música caipira cheia de interferências causadas pelo sistema de ignição, aquela chuva me molhando todo, o valoroso piloto tomando uns "rebites pra aguentá" e ainda por cima o Genilton dormindo no meu ombro! "É muito prá mim" ... mas a vibração falava mais alto e lá fui eu me imaginando na Feira.
Eram 10 horas da manhã quando chegamos em SJC, continuava chovendo, nos despedimos de nossa carona, pegamos um ônibus e fomos para o CTA, nos dirigimos para o Hotel de Trânsito e constatamos que muita gente da EPCAr e de outros lugares tinha tido a mesma idéia. Só havia um quarto disponível para nós alunos, tinha 8 camas, mas nós éramos mais de 30. Tomamos um banho e já estávamos prontos prá outra.
A entrada na Feira custava caro e nós não tínhamos dinheiro. Como iríamos dar o golpe para entrar se até oficial general estava pagando. Para sorte nossa, meu primo que era cabo da PA em SJC estava de serviço e nos apresentou os taifeiros que iriam levar o lanche para o palanque oficial e lá fomos nós escondidos na kombi e conseguimos entrar sem pagar.
Que visão maravilhosa, aquelas máquinas tão sonhadas estavam pertinho da gente. O Vulcan passando num rasante ensurdecedor. Os Thunderbirds com seus Phantom F-4 ou eram Blue Angels com outras máquinas, ajudem-me a recuperar os estragos provocados por alguns vários litros de destilados não tão nobres. A enormidade do C-5 A Galaxy, as asas caídas do B-52, os helicópteros, os T-6 da Fumaça, os F-5 Tigershark, a conversa com os pilotos e mecânicos (brasileiros e estrangeiros - agradecimentos especiais ao Gilbert pelas traduções), o Concorde (estava lá mesmo?), os Bandeirantes, os Xavantes, os Mirages, os Ipanemas e outros menos lembrados. E o "Grand Finale", o Sea Harrier da marinha inglesa (ou era americano? ... malditas vodkas) fazendo evoluções rápidas, passadas em faca, e por fim a passada vagarosa pelo palanque, com uma paradinha seguida de uma rézinha, a viradinha de 90° para o palanque, o cumprimento para as autoridades, o retorno para a esquerda, a inclinação para cima e a partida para cima à todo gás. Como diria o Requeijão: cheguei ao cume, ao ápice, ao orgasmo supremo. Estava realizado!
Mas o melhor desta viagem ainda está para ser contado. Terminada a visita à Feira, fomos para a cidade, nos divertimos, dormimos (como e onde, eu não lembro!) e preparamos a volta, tomamos um café reforçado, pegamos uma carona até Volta Redonda, um ônibus até depois da entrada de Barra do Piraí e lá estávamos nós novamente com o dedão prá cima quando vimos aquele Opala vindo em nossa direção.
Gelamos! O Barata parecia uma folha de papel de tão branco, eu devia estar pior. O Opala passa por nós, vemos o Brigadeiro Osvaldo Terra de Farias e sua esposa D. Zilá no banco traseiro, imediatamente fizemos continência e ficamos alí parados igual a estátuas, durante todo o século que demorou a saída do motorista e a sua fala conosco:
- Ainda bem que o Brigadeiro não viu que vocês estavam pedindo carona! ... me dá as mochilas que eu vou colocar no porta malas. Entrem lá na frente e olhem bem o que vocês vão fazer!
Novamente, muito esperto, empurrei o Genilton para dentro do carro e fiquei na janela. Só que me esqueci de tirar o quepe e o crachá rasgou o forro do teto. O motorista me fulminou com o olhar. Pra sorte minha D. Zilá interveio e disse pra mim:
- Não se preocupe, meu filho, acidentes acontecem ...
Fiquei aliviado, mas o coração quase saiu pela boca quando ela me pediu para fechar o vidro da janela e todo sem jeito consegui arrancar a maçaneta da porta. Ninguém viu ... eu enfiei a maçaneta no bolso da túnica e só fui entregar para o motorista quando paramos em Santos Dumont. Fomos ao banheiro e quando voltamos o motorista nos entregou 2 pacotes de biscoito e 2 refrigerantes dizendo:
- D. Zilá mandou entregar para vocês!
Comemos tudo com a maior vontade pois estávamos morrendo de fome. Entramos no carro e continuamos o caminho de volta para BQ. Estávamos com menos medo. Conversamos sobre vários assuntos e nos perguntaram se nós também éramos de Barra do Piraí, como D. Zilá e o Brigadeiro Terra de Farias, contamos sobre nossa viagem (exceto é claro as caronas, os golpes, os apliques e outras façanhas) e a emoção que sentimos por ter estado em SJC.
Enfim chegamos a BQ, fomos para a Vila dos Oficiais, ajudamos a descarregar o carro e depois fomos para o alojamento contar aos amigos nossa viagem maluca que parecia saída da imaginação de Lewis Carrol (Alice no País das Maravilhas).
Estas lembranças estão até hoje muito claras na minha mente e posso senti-las, ainda agora, como se houvessem acontecido há minutos atrás. Todos nós temos passagens e lembranças que ficaram decalcadas em nossas almas. Quero crer que todos aqueles que já partiram levaram consigo estas lembranças e que um dia quando nos reencontrarmos poderemos compartilhar aqueles momentos inesquecíveis.


OS CAÇADORES DE SANTA CRUZ

Voando com o Primeiro Grupo de Aviação de Caça

Os corredores recém-pintados ecoam ao som dos passos de pilotos e pessoal de apoio no seu rápido caminhar de uma sala à outra ou para fora do prédio, suas vozes momentaneamente suprimidas pelo distante troar de algum F-5E ou A-1 decolando da pista 05 para realizar a primeira surtida do dia. Vários pilotos se aglomeram na pequena Sala de Operações Aéreas, cujas paredes e estreito balcão ostentam um quadro relacionando os vôos diurnos e noturnos para aquele dia, tabelas de performance, boletins meteorológicos, procedimentos de emergência e um relógio que acusa os poucos minutos que já se passaram desde o início do expediente. É mais um dia no 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e a rotina frenética já domina suas instalações em um "organizado" caos que desafia a compreensão do não-iniciado. Na passagem asfaltada que divide o prédio principal do 1º GAvCa, alguns pilotos se juntaram numa animada conversa regularmente pontuada por mãos que descrevem arcos no ar, uma forma de gesticulação que caracteriza bem o piloto de caça e que possivelmente dá fundamento à crença de que se as mãos de um caçador forem amarradas, ele será incapaz de manter um diálogo por mais de um minuto. Na linha de vôo, vários sargentos voltam sua atenção para os longilíneos aviões sob sua guarda, destilando suor sob o sol intenso que começa a transformar o pátio de estacionamento num braseiro, mas em nada impedindo a febril atividade de deixar as aeronaves prontas para as missões do dia. Subitamente, uma estridente sirene reverbera dentro das salas, corredores e casa de pista do 1º GAvCa. Em resposta, a porta de uma sala no prédio principal se abre com violência e dela sai esbaforido um jovem capitão vestindo macacão de vôo e traje anti-g, seu ritmo cardíaco já acelerando para 160 batidas por minutos. Guinando à direita ao sair do prédio, ele corre para o jipe estacionado a poucos metros dali e cuja única finalidade é levá-lo até a linha de vôo que dista algumas centenas de metros do prédio do comando. É o piloto de alerta daquele turno, que momentos antes estava absolutamente concentrado em dar os últimos retoques em seu relatório. Dois minutos após a sirene soar, ele chega à linha de vôo de F-5E e pára o jipe ao lado de um Tiger II, já totalmente cercado por uma equipe de sargentos. Aqui, cada segundo conta, enquanto eles dão o golpe nos canhões, ligam a fonte externa e executam uma série de providências que em muito se assemelham ao bem orquestrado balé visto no pit-stop de um carro de Fórmula 1. Minutos depois, o capitão e seu F-5E não são mais que um distante ronco e um indistinto ponto no céu que curvou à direita após uma tonitruante decolagem da Base Aérea de Santa Cruz, iniciando comunicação com Thor ¾ o DACTA-1 que fará o controle de toda a interceptação.
Levando precedência sobre todo e qualquer tráfego aéreo que está no seu caminho, o piloto não sabe se o alvo a ser interceptado é hostil, desconhecido ou apenas um inócuo treinamento como outros tantos lançados com freqüência pelo CINDACTA-1 a intervalos totalmente imprevisíveis. Como braço armado do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo naquele momento, o piloto é essencialmente mais um elemento daquele sistema, agindo conforme as instruções emanadas pelo Thor, que tanto podem ser um lançamento de um míssil ou tiros de canhão para destruir uma aeronave inimiga, como uma simples ou lacônica ordem para regressar à base.A atual situação geopolítica no continente fará com que a esmagadora maioria dos alertas acionados, dia ou noite, sejam inofensivos adestramentos do sistema de defesa aérea ¾ imprescindíveis para manter a sua eficiência ¾ mas ocasionalmente prestando auxílio a aeronaves em apuros. Nesta última categoria encaixa-se a interceptação e escolta de um Avro Vulcan B Mk 2 da RAF que regressava das Ilhas Malvinas, em junho de 1982, após um ataque ao sistema de radares de defesa aérea argentinos. Durante um dos reabastecimentos em vôo na volta à Ilha de Ascensão, sofreu problemas, vindo aterrisar na Base Aérea do Galeão. Ou, mais recentemente, a interceptação de uma parelha de Tornados F Mk 3 do 29 Squadron da RAF, que enfrentou dificuldades de reabastecimento em vôo quando a caminho das Ilhas Malvinas em abril deste ano, tendo sido escoltado até o Galeão por um par de F-5E do 1º GAvCa.Mas a missão de interceptação é uma entre muitas atribuídas ao 1º GAvCa, uma unidade que em seus 52 anos de existência sempre primou pela excelência dos homens que tripulam suas aeronaves e daqueles que lhes dão suporte. Recebendo a cada ano novos pilotos na forma de líderes de esquadrilha oriundos do 1º/4º Grupo de Aviação em Fortaleza ou do 3º/10º Grupo de Aviação com sede na Base Aérea de Santa Maria, esses chegam à Base Aérea de Santa Cruz munidos de uma considerável experiência de vôo e maturidade operacional, vivendo o 1º GAvCa um eterno ciclo de renovação. Para os recém-chegados, isso significa um período de instrução, de pouco mais de oito meses, em que se aprende a pilotar os Northrop F-5E, e, mais importante, a empregá-los com eficiência e habilidade como instrumentos de poderio aéreo.
Essa etapa de instrução se assemelha ao Curso de Caça ministrado em Natal pelo Comando Aéreo de Treinamento mas diferem em face das particularidades que distinguem o Northrop F-5E dos outros caças da FAB e da variedade de tarefas atribuídas ao 1º GAvCa, que cumpre todas as missões da Aviação de Caça. Uma vez completada essa fase, o piloto novato passará os próximos 24 meses adquirindo maturidade operacional no F-5E, ao voar nas mais diversas missões, aprimorando assim sua proficiência e "afiando" suas "garras" como caçador.Muitos anos atrás, um piloto da USAF afirmou, com muita propriedade, que um piloto militar luta tão bem quanto treina. Essa asseveração vem sendo repetidamente confirmada desde o momento em que o avião foi empregado como arma no início do século. Mesmo quando enfrenta equipamento qualitativamente superior, o piloto que passou mais horas treinando o seu ofício e aperfeiçoando suas habilidades invariavelmente supera seu oponente. A tarefa de manter operacionalmente bem preparados os pilotos de um esquadrão de caça nunca foi fácil, e o 1º GAvCa vem sentindo crescente dificuldade nessa área devido às reduções orçamentárias impostas ao Ministério da Aeronáutica como conseqüência da atual situação do país. Na década passada, a OTAN elaborou um estudo que indicava que o número mínimo de horas/ano voadas por um caçador não deveria ser inferior à marca de 245 horas, e os pilotos do 1º GAvCa estão voando menos do que a metade daquele mínimo. Isso vem exigindo um cuidadoso planejamento para cada hora de vôo executado a fim de maximizar seu rendimento e minimizar os efeitos prejudiciais das reduções.Não muito distante do prédio principal do 1º GAvCa existe um local que é alvo de assídua peregrinação por parte dos pilotos daquela unidade ¾ o CBT. A crescente acessibilidade da informática proporcionou à FAB, e especialmente ao 1º GAvCa, uma valiosa ferramenta para auxiliar o treinamento de seus pilotos de forma padronizada, extremamente rápida e eficiente, e por um custo baixíssimo. Em vez de passar horas estudando ordens técnicas e manuais, além de permanecer longos períodos em sala de aula a fim de incorporar as complexidades do Northrop F-5E e F-5B, o aluno reduz drasticamente o tempo de aprendizagem utilizando o Computer-Based Training (Treinamento Baseado em Computador), ou CBT. Com ele, as conhecidas deficiências de rendimento dos métodos tradicionais de instrução são superadas, vindo o aluno a absorver as distintas facetas técnicas de sua aeronave, bem como as eventuais modificações em seus diversos sistemas, no mínimo de tempo e com o máximo de aproveitamento.Se o CBT é um instrumento fascinante, no mesmo prédio encontra-se uma maravilha tecnológica que deixaria "babando" qualquer aficionado de Chuck Yeager's Advanced Flight Simulator, Falcon 3.0 e outros jogos de computador. Ocupando uma enorme sela negra cujo pé direito exagerado lhe disfarça as dimensões, o simulador do F-5E, principal ocupante daquela sala e toda a sua parafernália realmente impressionam. Mas, que ninguém se equivoque em pensar que o simulador é um mero jogo ¾ ele é um quase imprescindível instrumento no treinamento e manutenção operacional do piloto. Valendo-se de imagens virtuais projetadas sobre uma imensa tela semi-esférica, o aluno vai "pilotando" seu avião ¾ que é uma réplica perfeita da nacele do F-5E, executando uma vasta gama de missões sob a atenta supervisão de um instrutor. Conforme a necessidade, uma sessão no simulador pode constar desde um prosaico procedimento de toque e arremetida na pista 05 de Santa Cruz até uma missão de superioridade aérea em espaço aéreo hostil. Os efeitos especiais podem ser verdadeiramente impressionantes, repetindo os efeitos de uma bomba Mk 82 LDGP de 227 kg sobre um depósito de combustível ou um campo arado. É perfeitamente possível simular uma missão de interdição contra uma ponte ferroviária em Madagáscar, a geração de imagens repetindo com espantosa fidelidade o relevo topográfico que o piloto encontraria durante todo o trajeto. Entretanto, todos esses efeitos especiais proporcionados pelo simulador não têm como objetivo exacerbar os sentidos visuais e auditivos do aluno, mas sim aprimorar a formação do piloto. No simulador, o instrutor é capaz de detectar e corrigir imediatamente erros de procedimento, deficiências de operação da aeronave e aplicação de táticas incorretas ¾ isso sem consumir uma gota de combustível ou desgastar material. Além disso, o valor educativo do simulador é realçado pelas inúmeras aplicações possíveis que estão sendo estudadas pelos membros do 1º GAvCa. Um exemplo a simulação de interceptações com a presença de um controlador ¾ o Thor, o que possibilita uma melhor interação piloto controlador, como também a apreciação de suas respectivas capacidades e dificuldades, com a conseqüente agilização dos procedimentos de interceptação. Entretanto, o simulador, por melhor e mais sofisticado que seja, não substitui o treinamento executado em vôo. As sensações físicas percebidas pelo piloto durante o vôo, como o efeito sobre o labirinto do ouvido ou a carga "g", que reduz a irrigação sangüínea do cérebro, não podem ser reproduzidas no simulador.Constituído de dois esquadrões, o 1º/1º GAvCa Jambocks e 2º/1º GAvCa Pif-Paf, o 1º GAvCa está encarregado de tarefas diversas que vão desde a interceptação e a superioridade aérea até a interdição e o apoio aéreo aproximado. Englobando ataques e alvos em terra, essas duas últimas missões, e suas variações, são consideradas as mais complexas e difíceis de realizar devido à diversidade de fatores que incidem sobre elas, exigindo um minucioso planejamento para cada minuto de vôo e quilômetro percorrido. Não se trata simplesmente de quatro F-5E transportarem quatro bombas incendiárias BLU-1B/B cada e lançá-las contra uma coluna de caminhões conduzindo material bélico e soldados para o front, como seria um cenário hipotético. Navegando rasante, "ciscando" de acordo com o relevo do terreno, a ida até o alvo já apresenta toda uma série de dificuldades. Um erro de navegação, como uma mudança de proa no momento impróprio e a esquadrilha pode não chegar ao alvo por falta de combustível, ou deparara com uma posição de mísseis antiaéreos que já fora plotada anteriormente. Voar baixo demais, e um erro de pilotagem cobrará uma severa penalidade, o avião se chocando com o solo. Alto demais, e a esquadrilha será exposta à artilharia antiaérea inimiga, além de denunciar sua presença para o sistema de defesa aérea. Sobre o alvo, o lançamento das bombas impõe exigências que devem ser cumpridas rigorosamente para garantir o sucesso da missão. Lançar as bombas cedo ou tarde demais fará com que elas errem o alvo. Lançar baixo demais coloca a aeronave em risco de ser envolvida pela explosão ou atingida por estilhaços de suas próprias bombas. Atrasar a recuperação após o lançamento resultará em colisão com o terreno. Esses fatores e dezenas de outros são considerados em qualquer briefing podendo, uma missão dessa natureza consumir até quatro horas ou mais de planejamento. Missões como essa e muitas outras são treinadas regularmente como uma equipe de futebol cujos jogadores são adestrados na cobrança de faltas, pênaltis, escanteios, over-lappings, e outros fundamentos e táticas do jogo.Mas, como em qualquer unidade de caça, as missões que envolvem combate aéreo são consideradas o "filé mignon" entre as diversas regularmente exercitadas. Exigindo do piloto toda sua habilidade de vôo aliada à agressividade e inteligência para superar e derrotar o seu adversário, o combate aéreo é um evento que raramente ultrapassa os 90 segundos de duração. O caçador participa de um jogo de xadrez tridimensional, cuja velocidade poderá oscilar entre 180 e 1.300 km/h, buscando uma solução de tiro para os dois canhões Pontiac M-39A2 de 20mm ou uma janela de lançamento dos mísseis AIM-9B Sidewinder, geralmente carregados pelo Northrop F-5E. Os treinamentos se iniciam com uma aeronave combatendo contra outra, progredindo para 1 x 2, 2 x 2 e 1 x 1 x 1. Evidentemente, os treinamentos de combate aéreo não incluem o tiro real ou o lançamento de mísseis ¾ para avaliar os resultados, cada aeronave possui uma câmera cinematográfica que filma o alvo quando acionado, em vez de disparar os canhões ou lançar os mísseis. Ao regressar, o cartucho contendo o filme é removido e imediatamente revelado, sendo os resultados exaustivamente analisados e os ensinamentos deligentemente absorvidos.O objeto de uma renhida competição, as campanhas de tiro aéreo possibilitam ao caçador adestrar suas habilidades contra um alvo rebocado conhecido como biruta, uma tela reticulada medindo aproximadamente 7 x 1,5 m. Voando um avião com munição cujos projéteis são inertes e pintados com uma determinada cor, os pilotos verão na biruta sua precisão no tiro aéreo ¾ uma técnica difícil de dominar e que deve ser constantemente praticada. Enquanto o F-5E reboca a biruta ao realizar um circuito oval, dois ou mais F-5E realizam sucessivos passes individuais, aproximando-se obliquamente da biruta para então disparar uma rajada curta. Os projéteis que acertam o alvo registram sua passagem pela biruta ao manchá-la de tinta. No chão, a tela será meticulosamente estudada e seus resultados computados, fornecendo à unidade e a seus pilotos uma avaliação tangível de suas habilidades no tocante a essa modalidade de tiro.Periodicamente, o 1º GAvCa desloca suas aeronaves para outras regiões do país para participar de operações das mais diversas que visam exercitar as habilidades de seus pilotos. Contendo missões de combate aéreo contra aeronaves com características e performance diferentes das do F-5E, ou missões de ataque ao solo sobre áreas não muito familiares, essas operações são excelentes oportunidades para colocar em prática todas as tarefas que o 1º GAvCa está encarregado de executar. Muitas vezes, essas operações são realizadas em conjunto com o Exército ou a Marinha ¾ ou, ocasionalmente contra forças armadas de países amigos, como no caso da Operação Unitas, realizada anualmente com a United States Navy, ou aquela realizada em Porto Rico, em outubro de 1994, com o 198th Fighter Squadron da Guarda Aérea Nacional.Bem adestrado e consciente de sua responsabilidade, o 1º GAvCa defende hoje os céus brasileiros com o mesmo afinco e profissionalismo que caracterizaram sua entrada em combate no longínquo ano de 1944.

Jackson Flores Jr.

 


ALX UM NOVO GUERREIRO NOS CÉUS

 


Navegando a 210 nós da direção geral do sol nascente, um Cessna 402 está a aproximadamente 90 minutos de vôo do seu destino após vencer quase 400 km desde o aeródromo de origem. Periodicamente monitorando o painel de instrumentos em busca de algum sinal de anormalidade enquanto conversam sobre o jogo de futebol a que ambos assistiram na véspera, os dois pilotos mantém sua atenção voltada para fora da aeronave. Esta cena, que ocorre diariamente em céus brasileiros, é bastante corriqueira não fossem alguns detalhes. Em vez de estar mantendo uma altitude de cruzeiro de 10.000 pés, o bimotor está a pouco mais de 100 m acima da copa das árvores da densa floresta. Contrariando as normas, o vôo daquele Cessna Utiliner partiu de um pequeno campo de pouso fora do território nacional, decolou sem plano de vôo preenchido, ingressou no Brasil sem autorização de sobrevôo e agora está rumando para uma desconhecida pista de terra no meio da Amazônia brasileira que semanas atrás sequer existia. No lugar de três ou quatro executivos debatendo animadamente os pontos importantes de um contrato, a cabine de passageiros está ocupada com pequenos volumes que se assemelham a tijolos envoltos em papel laminado e que acondicionam um total de 550 kg de cocaína. O vôo desse Cessna 402 terminará em território nacional, onde desembarcará sua carga, encerrando um tipo de operação aérea cuja freqüência cresceu assustadoramente nos últimos anos. Estima-se que entre 2.000 e 3.000 operações aéreas são realizadas ilicitamente todos os dias sobre a Amazônia brasileira, e cuja natureza vai desde o contrabando de bens de consumo até o transporte ilegal de minérios e drogas. Além dessas atividades irregulares, as fronteiras brasileiras vêm sistematicamente sofrendo violações por grupos guerrilheiros como o Sendero Luminoso e a FARC, que, fugindo das tropas dos seus países, buscam santuário dentro do Brasil. A crescente freqüência de tais eventos na última década gerou a elaboração de diversos estudos que resultaram na formulação do SIPAM Sistema de Proteção da Amazônia e de seu elemento sensor, o SIVAM Sistema de Vigilância da Amazônia. Este último consistirá em uma rede de radares e outras formas de sensoreamento com o propósito de coletar, processar a analisar os mais diversos dados sobre as diferentes atividades executadas na Bacia Amazônica. Além de detectar queimadas, assinalar garimpos clandestinos, executar levantamentos precisos dos recursos naturais, prever alterações climáticas na região e muitas outras tarefas, o SIVAM controlará o tráfego aéreo através de radares fixos e aerotransportados sanando assim uma deficiência que há muito existia. Uma vez ativado, uma torrente de informações relativas às operações aéreas clandestinas chegará às mãos das autoridades brasileiras, exigindo o uso de vetores aéreos para coibir ou suprimir essas atividades onde e quando forem detectadas.No início da década de 90, a FAB formulou um requerimento operacional em que indicava a necessidade de se adquirir ou desenvolver uma aeronave capaz de realizar as missões de reconhecimento, armado ou não, e patrulhamento de fronteira. A criação e o subseqüente desenvolvimento do projeto SIVAM, além de outros fatores locais e externos, fizeram com que aquele requerimento operacional sofresse pequenos ajustes que nortearam o prosseguimento do programa ALX Aeronave Leve de Ataque.Durante os primeiros anos desta década, a FAB executou algumas manobras com aviões AT-26 Xavante, Northrop F-5E, Mirage IIIEBR e EMBRAER T-27 Tucano contra aeronaves de baixa performance. Descobriu-se que empregar aviões tradicionalmente usados nas missões de caça contra aeronaves utilizadas em atividades ilícitas é uma proposta bastante difícil. Aviões da classe Piper Navajo ou Cessna 310 são alvos excessivamente ágeis diante da manobrabilidade que a baixa performance lhes outorga, tornando a solução de tiro ou o enquadramento dentro da janela de lançamento de um míssil uma tarefa difícil de lograr , obstáculo que não foi encontrado quando o T-27 Tucano era o vetor de interceptação. Validando essas conclusões, um país vizinho cuja força aérea opera o Tucano nas missões de treinamento avançado, decidiu empregá-lo na interceptação de aviões do narcotráfico. Inicialmente realizando os procedimentos de praxe para uma interceptação convencional, a relutância dos alvos em pousar em aeródromos controlados fez com que alguns fossem abatidos com as metralhadoras 7, 62mm que o Tucano pode carregar em casulos subalares. A primeira reação dos adversários foi aumentar os salários dos seus pilotos para 5 ou 6 mil dólares por vôo mas o constante sucesso do Tucano determinou sucessivas mudanças de tática por parte dos narcotraficantes. As atividades aéreas ilícitas de transporte de drogas passou a ser feita exclusivamente à noite, o que não impediu o uso do Tucano, originalmente projetado para executar missões de treinamento de navegação sob condições noturnas, foram simplesmente modificados para receber equipamento FLIR (Forward Looking Infra-Red) e NVG (Night Vision Goggles). Contudo, ao adotar a tática de despachar simultaneamente grandes quantidades de aviões de diversos campos de pouso, os narcotraficantes lograram sobrecarregar o sistema de defesa aérea e controle de tráfego aéreo, que em nada se assemelhava ao SIVAM.Todos esses fatores serviram para definir as características da aeronave que preencherá os requisitos operacionais previstos no Programa ALX. A experiência da EMBRAER no desenvolvimento do EMB-312 Tucano e suas distintas versões, como o Shorts S312 Tucano T Mk 1 da Royal Air Force, conferiu àquela empresa uma sólida base para moldar, a partir do EMB-312H Super Tucano, uma aeronave capaz de satisfazer todos os parâmetros estabelecidos pelo Programa ALX. Os estudos de viabilidade desse programa foram iniciados em 1993, seu desenvolvimento seguindo em paralelo ao do Super Tucano. Entretanto, as exigências determinadas pelo Programa ALX resultaram em uma aeronave que só guarda as semelhanças externas gerais encontradas na família do EMB-312 Tucano.
Equipado com motor Pratt & Whitney Canada PT6A-68, que desenvolve 1.600 shp contra os 1.300 shp do motor turboélice que dota o EMB-312H, o avião do Programa ALX recebeu um conjunto de sistemas avançados de navegação e ataque que lhe permitirão desempenhar as tarefas atribuíveis a um avião de ataque leve, e algo mais. O sistema de navegação e ataque incluirá displays multifunção, visor HUD (Head-Up Display), computador central de missão, GPS (Global Positioning System), sistema de referência inercial, além de contar com equipamento FLIR e uma nacele capaz de receber e operar com NVG. Para garantir a segurança da aeronave do Programa ALX quando estiver operando em ambiente hostil, a nacele dos pilotos recebeu blindagem, proteção estendida também à alguns dos seus principais sistemas. Além disso, o avião do Programa ALX será equipado com RWR (Radar Warning Receiver) e lançador de chaff.Além de receber reforços estruturais na célula e na asa, o avião do Programa ALX possuirá nacele pressurizada com assentos ejetáveis do tipo zero-zero e um sistema interno de geração de oxigênio. A EMBRAER dedicou considerável esforço para eliminar a dependência de equipamentos de apoio, como a fonte externa e unidade de abastecimento de oxigênio, geralmente encontrados na operação de outras aeronaves como o F-5E ou AT-26. Assim, o avião do Programa ALX poderá operar a partir de pistas não pavimentadas com o mínimo de material de apoio. Contudo, essa bateria de equipamentos avançados de nada servirá se a aeronave não for adequadamente armada para as missões previstas. A EMBRAER se preocupou em dotar sua aeronave com "garras" e "dentes", nela colocando quatro pontos duros subalares e outro na fuselagem que lhe conferem uma carga ofensiva de aproximadamente 1.200 kg. Assim, para as tarefas ar/solo, a aeronave poderá carregar até cinco bombas Mk 82 LDGP de 227 kg ou quatro casulos de foguetes não-guiados do tipo SBAT-70/19. Outras combinações para a mesma tarefa incluem dois casulos de metralhadoras, que podem ser de 7,62 mm ou 12,7 mm, conforme o perfil da missão, além de outras armas ar/solo disponíveis no arsenal da FAB. Para as missões ar/ar, essa aeronave poderá ser configurada com dois casulos de metralhadora de 12,7 mm ou canhão de 20 mm - esta última opção ainda em fase de estudos, além de dois mísseis ar/ar MAA-1 Piranha. O Ministério da Aeronáutica assinou com a EMBRAER o contrato de desenvolvimento do Programa ALX, que prevê a aquisição inicial de 100 aeronaves em duas versões: 50 unidades do ALX monoplace e 50 aviões ALX biplace. Desse total, entre 30 e 40 serão distribuídos ao Comando Aéreo de Treinamento, com sede em Natal, onde substituirão os atuais T-27 Tucano, hoje empregados pelo 1º/5º GAv. Em Natal, os ALX desenvolverão as mesmas tarefas atualmente realizadas de forma substancialmente mais eficiente, seguindo uma tendência mundial identificada pela EMBRAER. Entretanto, não é em Natal que os aviões do Programa ALX desenvolverão a maior parte das possivelmente mais importantes missões de sua futura carreira na FAB. As cerca de 70 aeronaves remanescentes da encomenda inicial passarão a ser o braço armado do SIVAM, dotando unidades aéreas que irão operá-las em uma região que cobre pouco mais de 5,2 milhões de Km² - uma área igual à metade da Europa. Os ALX estarão permanentemente integrados à rede de sensores terrestres e aerotransportados do SIVAM, este último uma versão AEW do EMBRAER EMB -120 Brasília. Apesar de as aeronaves do Programa ALX incluírem no seu leque de tarefas missões como patrulhamento de fronteira, reconhecimento e vigilância, suas principais atribuições serão o ataque leve e a interceptação. Esta última missão geralmente evoca imagens de aviões supersônicos, mas segundo as características e performance das aeronaves que hoje apresentam uma ameaça na Amazônia brasileira, o ALX é o vetor de interceptação ideal para combatê-la. Operando em condições diurnas e noturnas, os ALX poderão interceptar, identificar e acompanhar aviões cujo vôo seja de natureza desconhecida ou visivelmente irregular, executando as determinações emanadas pelos Centros Regionais de Vigilância do SIVAM ou o Centro de Coordenação Geral daquele sistema. Nas tarefas de ataque leve, os ALX poderão ser rapidamente deslocados em situações como aquela ocorrida em fevereiro de 1991 às margens do rio Traíra, quando guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias Comunistas (FARC) atacaram um destacamento do Exército Brasileiro. Fornecendo cobertura aérea quase imediata aos diversos destacamentos de fronteira, o ALX será um importante agente contra o ingresso ilícito de elementos indesejáveis.Os primeiros aviões de produção deverão ser entregues à FAB em 1998, mas a EMBRAER vislumbra horizontes mais amplos para sua aeronave. De fato, a EMBRAER introduzirá no mercado de exportação um avião capaz de rivalizar o enorme sucesso alcançado pelo Tucano. Como ocorreu com o EMB-312, o Programa ALX oferece ao mercado externo uma inovadora aeronave turboélice que proporciona alta performance aliada a modernos sistemas de navegação e ataque, sendo capaz de realizar com alto índice de custo/benefício as missões de treinamento avançado, adestramento de tiro e bombardeio e ataque leve. Preparado para treinar e atuar na região amazônica, o ALX é uma aeronave única no mundo e que, promete repetir o sucesso de seus antecessores da EMBRAER.

O ALX entrará em serviço com a camuflagem em cinza dois tons de superioridade aérea

Jackson Flores Jr.


VOANDO O ALX

 


Fui convidado recentemente pela EMBRAER para voar o seu mais novo avião de combate, o ALX. Eu já escutara muitos comentários à respeito do avião o que só aguçou minha curiosidade a respeito do projeto. No passado recente eu já havia voado o EMBRAER EMB-312 Tucano - uma aeronave excepcionalmente bem motorizada e altamente manobrável e da qual foram geradas inúmeras novas versões inclusive essa do Programa ALX. Portanto, esse vôo ofereceria a possibilidade de, mesmo que de forma superficial, comparar as duas aeronaves.Cheguei às instalações da EMBRAER em São José dos Campos num dia em que a meteorologia não era das mais favoráveis - a nebulosidade reinante na região reduzia a visibilidade mas nada que comprometesse o vôo VFR. Após um lanche rápido, fui levado à Divisão de Operações Aéreas da empresa onde recebi um briefing realizado pelo Comandante Almeida, piloto de provas que vem realizando os ensaios do Programa ALX e que me acompanharia no vôo. Encerrado o briefing, nos deslocamos para o hangar onde realizaríamos o check de nacele sob a orientação dos Comandantes Almeida, e Bragança além do Engenheiro Mauro Mezzacappa. Ao chegar ao hangar onde se encontrava o avião, não pude conter uma imediata associação de imagens. Com sua camuflagem em dois tons de cinza e uma enorme boca de tubarão pintada no nariz, o avião imediatamente me lembrou dos elegantes caças da Segunda Guerra Mundial - um Spitfire, ou talvez um Mustang com fuselagem mais longilínea e dotada de trem triciclo. Mas essa impressão desapareceu no minuto em que tomei meu lugar no assento da nacele dianteira. Todos os instrumentos são de última geração desde o CRT que domina o centro do painel de instrumentos até o acento ejetável do tipo zero-zero. Durante os 60 minutos seguintes meus anfitriões se ocuparam em dar um rápido curso na "switchologia" do ALX e da operação dos seus diversos sistemas, indicando a localização de diversos itens.Entretanto, em pouco tempo verifiquei que se o T-27 Tucano já possuía uma nacele "bem bolada", o ALX agora dava um silencioso testemunho de que a EMBRAER deu especial atenção à ergonometria da nacele. Os instrumentos de vôo e de gerenciamento do grupo motopropulsor e os diversos sistemas da aeronave são de fácil leitura e muito bem localizados. Apesar do ALX ser uma aeronave monomotor e biplace em tandem, o que em outros aviões tende a determinar naceles estreitas e geralmente incômodas, o cockpit do ALX impressiona pelo seu conforto.Dar a partida no motor é a essência da simplicidade, exigindo unicamente o acionamento de três interruptores para fazê-lo. Em poucos instantes, a hélice pentapá do avião já se transformou num disco indistinto girando quase dois metros à minha frente. Estamos prontos para iniciar o táxi, certificando-nos que a instrumentação de gravação de vôo está ligada - afinal de contas este avião é um protótipo e cada vôo gera informações úteis ao desenvolvimento da aeronave. Desligando o sistema de steering do ALX o táxi é uma tarefa fácil de realizar. E é já na rolagem em direção à pista que começo a notar a incrível visibilidade que esta aeronave oferece. Com a altura do assento ajustada para meio curso, meus cotovelos ficam quase a altura da soleira do canopi, oferecendo-me uma excepcional visibilidade externa.Ingressando na Pista 15, alinhei-me com o centerline. Ao dar potência para a decolagem, qualquer impressão que pudesse haver tido sobre o ALX possuir alguma semelhança com um caça da II Guerra Mundial termina de imediato - a aceleração é fenomenal e me faz afundar contra o espaldar do assento ejetável. Está claro que este avião está mais para um jato de categoria Xavante do que para um turboélice da classe do Tucano. Escorando com o pé o desvio que o torque de um motor de 1.600 shp girando uma hélice pentapá provoca na decolagem dei início a corrida. Rapidamente partimos pela pista 15, a corrida até alcançar a velocidade de rotação foi breve. Entretanto, ao atingirmos 50 nós, entrou em funcionamento o auto rudder que corrige automaticamente o desvio que a aeronave adota em função do torque. Com a velocidade de rotação registrando 90 nós e com o peso de decolagem de 3.200 quilos, a rotação foi executada na casa de 80 nós percorrendo uma distância de pouco menos que 800 metros.Apesar da experiência acumulada em 11.000 horas de vôo distribuídas ao longo de 40 anos de atividade aérea, não sou piloto de provas e tampouco o vôo que agora realizava com o ALX seria uma avaliação profunda de todas as facetas do desempenho e características de vôo da aeronave. Sob a supervisão do Comandante Almeida, eu iria explorar durante uma hora somente algumas áreas do envelope de vôo do avião. Após retirar a aeronave do solo abandonando a área pela direita, iniciei uma breve série de curvas de pequena inclinação para a direita e para a esquerda a fim de "sentir" o ALX antes de executar três passagens baixas junto a TWR SJ (Torre - São José) a uma altura que variava entre 100 e 150 pés. Recuperando pela esquerda, pelo centro e finalmente de novo pela esquerda, o ALX demostrou claramente a excelente controlabilidade e resposta das superfícies de comando nos três eixos quando em velocidades muito baixas. Notei que o avião é ligeiramente "durinho" no eixo longitudinal - exatamente como em jatos como o Fouga Magister e o Xavante.Abandonando São José dos Campos rumamos para a região da Caçapava a fim de explorar um pouco mais as características de acrobacia aérea do avião. Ao chegarmos à área de Ipoã onde se encontra um clube de vôo à vela, iniciamos nossas manobras. A seqüência de acrobacias foi aberta com um looping, seguido de um tounneau, um tounneau por tempo, um oito cubano e variações das mesmas. O primeiro looping foi realizado sem grandes dificuldades, senti somente a atuação do shaker e a leve vibração dos pedais ao chegar no topo da manobra quando nos aproximamos da velocidade de estol. Apesar do avião contar com trim switch no manche, o que facilitaria a execução das manobras exigindo comando dos profundores, preferi realizar todas as manobras "no braço". Os comandos de aileron são, como nos jatos em que voei, excepcionalmente leves e de pronta resposta. Isso ficou comprovado na execução de uma Immelman, na qual o giro foi feito com o mínimo de esforço, e posteriormente durante a realização de algumas pernas de oito preguiçoso. Nesta última manobra, onde é aplicado o input de comando nos três eixos, o conjunto de comandos revelou ser extremamente harmonioso. Após a realização de mais algumas manobras, decidi realizar um estol com motor com aproximadamente 70% de potência, levantando o nariz para executá-lo. Quando a velocidade caiu abaixo da marca dos 95 nós, os comandos lenta e progressivamente começaram a ficar mais moles e com menos efeito. Ao chegar na região dos 90 nós, o ALX manifestou uma ligeira tremida, baixando o nariz sem nenhuma tendência para ambos os lados e descrevendo um estol "honesto" ao rapidamente recuperar a velocidade quando o nariz caiu abaixo da linha do horizonte. Antes que eu pudesse me dar conta, já havíamos passado um bom tempo sobre Ipoã e já era hora de regressar à São José dos Campos. Antes de iniciar o procedimento para a aproximação e pouso na pista 15, realizei uma série de passagens baixas no sentido da pista 33. Apesar de haver sido liberado pelo Comandante Almeida a realizar essas passagens com velocidades de até 300 nós, preferi executá-las com aproximadamente 240 nós e alturas que começaram na faixa dos 30 pés acima da pista descendo progressivamente até 15 pés. E durante essas passagens feitas em coordenação com a TWR SJ, o ALX novamente demostrou suas excelentes qualidades de controle e estabilidade. Porém chegara a hora de colocar a aeronave no solo. Executando o tráfego padrão para a pista 15, baixando flap e trem e enquadrando a pista, o ALX apresentou uma faceta com a qual não havia contado. Aproximando-me da pista dentro da rampa de descida, estava próximo ao ponto de executar o flare passando a reduzir a manete com o conseqüente efeito da ação de frenagem que a hélice pentapá oferece quando altera o passo em função da redução de potência. A redução é suficientemente brusca para sentir o corpo ser lançado levemente a frente e contra os cintos da cadeira. Característica interessante, mas que exige a redução do motor a uma altura mais próxima do solo para evitar um pouso brusco - que o avião agüentaria perfeitamente, mas que este piloto acharia desconfortável.Abandonando a pista 15 após haver realizado dois toques e arremetidas, senti-me extremamente satisfeito de haver conhecido, mesmo que brevemente o ALX. Se eu sentira no Tucano um T-6 "aperfeiçoado", o ALX me mostrou naquele curto vôo que é muito mais do que um T-27 com motor de maior potência. Se o T-27 é um carro esporte, certamente o ALX é um Fórmula 1. E após voar aquela aeronave tenho certeza de que sentirei uma pequena ponta de inveja daqueles Aspirantes a Oficiais Aviadores que ingressarão no CATRE a partir de 1998 e os oficiais que operarão aquela aeronave sobre a Bacia Amazônica naquele mesmo ano. Eles terão nas mãos uma aeronave verdadeiramente excepcional!

Antônio Artur Braga Cel-Av. (Res)

 


INTERCEPTAÇÃO COM OS MIRAGE DO 1º GDA


Numa noite de 9 de Abril de 1982, uma aeronave Ilyushin 62 de bandeira cubana havia entrado em território brasileiro sem plano de vôo, e quando o piloto era informado que deveria pousar em Brasília para explicações, negava-se, provavelmente confiando na tempestade que o rodeava, pouco aconselhável para aeronaves interceptadoras.
Eram pouco mais de oito horas da noite quando o Major-Aviador Paulo César Pereira foi acionado pelo seu bip de alerta, que havia se oferecido para tirar o alerta durante o feriado prolongado da Semana Santa, logo depois confirmando que se tratava de um alerta real, o mesmo acontecendo com o Primeiro-Tenente-Aviador Eduardo José Pastorelo de Miranda. Sendo o OPO (Oficial de Permanência Operacional) Tenente-Aviador Roberto de Medeiros Dantas também estava de alerta, e logo foi buscar os pilotos para levá-los à base. Os três se dirigiam para a base em um Fiat Uno do OPO, apenas achando que seria mais uma interceptação à UFOs (o mesmo que OVNIs - Objetos Voadores Não-Identificados) mas perceberam o mau tempo que se aproximava.
Ao chegarem na base, as aeronaves de alerta já estavam prontas, o OPO indo para a sala de controle pra contatar Brasília e receber a missão do Centro de Operações de Defesa Aérea - CODA -, enquanto os pilotos se equipavam com os traje anti-g, capacete e restritoras. Logo os pilotos estavam aguardando nas naceles dos Mirage enquanto já chovia e trovoava fortemente, acabando por provocar um blackout em toda a base, logo a energia sendo restabelecida pelo sistema de no-brake, com exceção dos hangares de alerta, sistema de balizas, pista de acesso e as luzes do hangar, que eram novos e não estavam protegidos pelo no-break mas logo o problema foi contornado utilizando lanternas e os faroletes das próprias aeronaves. Logo Brasília autorizava a decolagem, os códigos de chamada dos Mirage sendo Jaguar Negro e do controlador do radar de Defesa Aérea sendo Thor, com as aeronaves dando partida nos motores e seguindo pela pista de táxi até a cabeceira da pista. Quando o Tenete Eduardo (Jaguar Negro Dois) deu a partida o sistema de navegação falhou, atrasando um pouco a decolagem na tentativa de solucionar o problema, enquanto o Major Paulo César (Jaguar Negro Um) decolava rumo proa norte. O Mirage do Major Paulo César atravessava as camadas de Cumulus Nimbus (que estavam tão densas que o radar do Mirage captava as nuvens e acabando por "sujar" a tela do radar), sendo informado pelo controle que deveria subir a 31.000 pés, enquanto que o Tenente Eduardo, que já havia decolado e estava um pouco atrás do Jaguar Negro Um, subiria até 29.000 pés para a interceptação. Logo depois, o controle informava que o Um deveria subir até 31.000 pés e ia orientando o Dois para as distâncias e a proa de interceptação. Logo estavam em contato-radar mas as espessas camadas de nuvens atrapalhavam o radar. Foi quando o Tenente-Coronel Anthony Blower, que acompanhava a missão no NuCOMDABRA (Núcleo do Comando de Defesa Aérea Brasileira) entrou em contato com o Negro Um, instruindo-o à pegá-lo de qualquer jeito.
Logo o Jaguar Negro Um se lançava na interceptação e com o alvo já acoplado no radar, quando foi informado pelo controle que o alvo estava curvando à esquerda. Com o PC (pós-combustão) do Mirage ligado, o Um passou de Mach .98 para Mach 1.15 e logo estava a 33.000, acima do topo das nuvens e com tempo limpo, conseguindo contato visual e aproximando-se do alvo com o visor guns/ar-ar do Mirage. O Dois também acabara de sair das nuvens, e logo confirmava a identificação do alvo como sendo o Ilyushin 62 da empresa estatal Cubana. Até esse ponto, não era de conhecimento do Ilyushin a presença do Mirage detrás deste. Novo contato do controle com o Cuban 1225 para o pouso em Brasília, e novamente a negativa de pouso e confirmação do destino que era Ezeiza, Argentina. Quando isso foi dito pelo piloto cubano, foi reportado aos oficiais superiores até o Presidente da República. Até agora, o avião cubano era acompanhado pelo controle de tráfego aéreo normal, sem que a Defesa Aérea tivesse entrado em contato com a aeronave, até a hora da insistência em não pousar em Brasília. Agora era a hora da demonstração ostensiva de que o Ilyushin tinha sido interceptado. Os Mirage foram instruídos a aproximarem do alvo e se mostrassem para que soubesse que havia sido interceptado. Estando a duas milhas do alvo, os dois mirage se aproximaram do alvo, o Um se aproximando pela ala direita enquanto o Dois se aproximava pela ala esquerda. Novamente os Mirage foram instruídos, dessa vez para se aproximarem até o lado da cabine do piloto. Por mais que o piloto do Ilyushin fosse avisado de que ele havia sido interceptado, o piloto recusava-se a creditar que alguém o havia interceptado naquelas condições de tempo tão desfavoráveis. Foi nesse momento que o Major José Orlando Bellon falou com o piloto: "Cuban 1255, you have been intercepted! There are two fighters alongside your plane. You are ordered to land in Brasília immediately!" (Cuban 1255, você foi interceptado! Você tem dois caças ao lado de seu avião. É ordem do Governo Brasileiro que pouse em Brasília imediatamente!) Até aquele momento, o comandante do Ilyushin falava muito ao rádio, mas logo houve um longo silêncio nas comunicações. De repente, o comandante do Ilyushin falou no rádio: "Roger, Roger, Brasília! Give me instructions." Os cubanos viram os Jaguares! Logo lhes foram dadas as instruções necessárias para o pouso em Brasília, os Miragem acompanhando o Ilyushin até o pouso, mas o combustível dos Jaguares já chegava à um nível crítico. Apesar do céu limpo em Brasília, a base de Anápolis continuava sob forte chuva, e logo os Mirage tocavam na pista, apesar da baixa visibilidade e de estarem no limite do combustível. Hoje Paulo César Pereira é Coronel-Aviador da Reserva e mora no Rio de Janeiro. Eduardo José Pastorelo de Miranda é Coronel-Aviador e José Orlando Bellon é Brigadeiro-do-Ar. Numa noite de tempestade no Planalto Central, há quase 18 anos atrás, os três foram protagonsitas de um vôo que ficou na história...


O TIGRE DA NORTHROP NO BRASIL


A reformulação da FAB no início da década 70 já havia trazido o Mirage IIIE para a missão de defesa aérea e era necessário adquirir uma aeronave para as missões de interdição e superioridade aérea. Em 1973 o F-5 foi escolhido. Foram encomendados 36 F-5E e 6 F-5B. As primeiras unidades chegaram ao Brasil em março de 1975. Dos 36 F-5E, 12 ficaram com os 1º e 2º esquadrões do 1º GAVCA na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), Rio de Janeiro, bem como os seis F-5B. O restante, 12 F-5E, foram entregues à Base Aérea de Canoas, Rio Grande do Sul, para equipar o 1º/14º Grupo de Aviação.
A entrada em serviço do F-5 na FAB, assim como o do Mirage, revolucionou a força. O vôo supersônico era uma realidade. Finalmente a FAB possuía aeronaves de caça de alto desempenho. O F-5 não é só rápido e veloz, possui uma manobrabilidade digna de menção, excelente no combate a curta distância. Além disso, o F-5 inaugurou o reabastecimento em vôo na FAB. Ele é feito pelos aviões tanques Lockheed Hércules KC-130H e Boeing 707 KC-137.
Com o passar dos anos o F-5B foi sendo retirado de operação e substituído pelo F-5F. Atualmente os F-5E/F estão com os seus sistemas desatualizados e são pouco eficazes no cenário do combate aéreo típico do início deste século. Os recursos disponibilizados recentemente pelo presidente Fernando Henrique certamente serão utilizados numa extensa revisão das células dos F-5 e upgrade dos sistemas de navegação, comunicação, defesa e lançamentos de armamentos. Os conceitos de glass cockpit e hotas deverão ser aplicados à cabine nos moldes do que está sendo feito nos novos Tucanos ALX pela Elbit Systems de Israel. Com a chegada do vetor a ser escolhido pelo Programa FX, o F-5 deverá ser retirado gradativamente de serviço na FAB.

Ficha Técnica - Northrop F-5E Tiger II

País de origem e fabricação: Estados Unidos
Fabricante: Northrop
Tipo: Caça tático
Motores: 2 General Electric J85-GE-21 a 5.000 lb de empuxo
Performance: velocidade máxima a 10.975 m - 2.112km/h; teto - 15.790m; raio de combate com tanque cheio, 2 mísseis AIM9E Sidewinder e 5 minutos de combate a 5.000 m (15.000 ft) - 1.056 km; raio de combate com tanque cheio, 2.359 kg de armamentos, 2 AIM9B Sidewinder e 5 minutos de combate ao nível do mar - 222 km
Peso: vazio - 4.346 kg; máximo para decolagem - 11.192 kg
Dimensões: envergadura - 8,13 m; comprimento - 14,68 m; altura - 4,06m; área de asa: 17,28 m²
Armamento: 2 canhões Pontiac M39A2 de 20mm com 280 tiros cada, 2 mísseis AIM9B Sidewinder além de até 3.175 kg de armamentos em 5 pontos duros incluindo bombas, foguetes e mísseis ar-terra
Tripulação: 1/2
Operadores: Brasil, Bahrain, Chile, Etiópia, Indonésia, Irã, Jordânia, Quênia, Coréia do Sul, Malásia, México, Marrocos, Filipinas, Arábia Saudita, Singapura, Sudão, Suíça, Taiwan, Tailândia, Tunísia, Iêmen do Norte, Estados Unidos


K.I.S.S.( KEEP IT SIMPLE STUPID ) ( 1)


Saudades de um tempo que se foi, mas que sempre volta nos meus sonhos...
Estive lendo o texto do Delano (2) a propósito do reequipamento da caça e percebi que, de fato, todo ele foi uma preparação para o seu último parágrafo:
"Talvez os militares tenham falhado nesse diálogo com o Poder Político. Talvez tenha-lhe faltado o poder de convencimento para dizer que é mais caro para a Nação a manutenção de uma sucata ineficiente, do que a compra de poucos mas modernos equipamentos.
Talvez tenham caído na tentação de condicionar a existência da Força Armada aos equipamentos que deva possuir e não a uma consistente concepção estratégica de defesa."
Nesse parágrafo, destacaria o poder de convencimento e o que significa "caro" para uma Força Armada.
Em combate, caro não se refere exclusivamente ao montante de dinheiro gasto. É necessário juntar-se o resultado da missão de combate ao dinheiro aplicado. O que conta é a necessidade desse resultado! Se for necessário, a Nação precisa pagar o seu preço.
O avião a ser comprado?... Bem, ai é outra história.
Lembro-me de dois episódios, nos quais conversava com instrutores do 425o na "Williams Air Force Base"(3). O primeiro foi logo quando cheguei, antes de começar o vôo. Estava tendo uma aula, não me lembro bem de que, quando surgiu uma comparação entre os pilotos judeus e os árabes.
No meio da história, sabendo que o oficial tinha estado no Vietnam, perguntei como ele comparava os aviões russos e os americanos. Depois de pensar um pouco, respondeu que eram semelhantes, mas que ele, como os judeus, voava o dobro em missões de treinamento. Ai estava a diferença!
O segundo foi durante o translado dos primeiros F-5E. Quando pousamos em Williams, durante o pernoite, levei meu ex-instrutor, Bob Dolling (falecido mais tarde em um acidente com um F-15), para conhecer o nosso F-5. Ele sentou-se na nacele, observou os instrumentos e balançou a cabeça.
Perguntei o que estava achando e recebi a seguinte resposta: "Tem muita coisa para dar pane". Insisti para que completasse o comentário, e ele disse que, na seqüência dos combates no Vietnam, a USAF acabava usando os aviões eletronicamente mais simples, já que estavam sempre prontos na pista. Enquanto isso, os "sofisticados" estavam no Hangar "esquentando" a cabeça dos técnicos.
Bem, o ano era 1975 e, portanto, é preciso guardar as devidas proporções. No entanto, o raciocínio hora voada (mais simulador) em treinamento por piloto e prontidão dos aviões para o combate continua válido. Esse é parte do preço que se precisa pagar de "seguro", para não ser surpreendido pelo "acidente", que derrotou os árabes.
Hoje, a questão não se trata mais de "simplicidade eletrônica", mas de capacidade para se manter em combate aviões eletronicamente "chipados"(4). Como o negócio são "placas" a serem trocadas, haja suprimento!...
Nesse ponto, precisamos pensar nas famigeradas probabilidades, que derrotam os argumentos apressados.
Lembro-me do relato de um piloto inglês de "Harrier" durante as Malvinas, no qual descrevia o fenômeno "visão de túnel"(5) (nosso velho conhecido) experimentado nos ataques, que realizava. Argumentava que precisava manter a velocidade acima da capacidade da defesa argentina conseguir fazer a correção de seus disparos antiaéreos.
Embora o radar da antiaérea tentasse acoplar, o sistema mecânico, que movia os canhões, ou que "pilotava" os mísseis, não acompanhava uma velocidade de penetração para o ataque acima dos 500 kt(6) indicados em vôo rasante ao nível do mar.
Nessa fase específica do ataque, o problema maior é de motor e de "pé e mão", de libras de empuxo e de treinamento, não de sofisticação eletrônica.
Se voasse em velocidades menores, dizia, a probabilidade de ser abatido aumentava significativamente. Além disso, precisava encontrar o alvo e acertar o "tiro". Ainda bem que a "eletrônica" chegou para a fase final do ataque...
A conclusão que se pode chegar não é nem um pouco complicada. O melhor avião é aquele que tem a maior probabilidade de repetir as sortidas no menor tempo entre elas, que tem a maior probabilidade de sobreviver em combate e que não "erra muito em seus disparos".
Quanto ao piloto, é a hora de vôo, é a experiência, que conta!
Se o caça não consegue voar acima da velocidade de segurança por que tem muito arrasto sob suas asas, é melhor esquecer este avião; se o caça não se posiciona corretamente, para abater o inimigo por falta de potência, esqueça este avião; se o sistema de navegação não compensa a "visão de túnel" e "acha o alvo" para você, esqueça este avião; se a pontaria depende muito do piloto, esqueça este avião.
Nesse último caso, como o inglês do "Harrier" comentava, não dá para se fazer 30 graus de mergulho e lançar o armamento acima do nível de segurança(7) sob o martelar de antiaéreas controladas por radar e computador. O negócio é chegar rápido e sair mais depressa ainda...
Se estivesse voando caça hoje em dia, se pudesse dizer alguma coisa a respeito do reequipamento, diria que não estava interessado se a "máquina" era nacional, ou de alhures. Se me mantivesse vivo e acertasse o alvo, seria um bom avião!... De qualquer forma, mesmo que o casco fosse nacional, ainda tem o motor, o sistema de navegação, o radar, o "escatilhão"(8), o armamento, o etc, etc e etc ...
Para finalizar, gostaria de contar mais uma história. Acho que era 1972, não me lembro bem, quando recebemos a visita do Adolf Galland (9) no Grupo de Caça. Ele estava representando uma empresa alemã de armamento e seduzia os compradores com suas histórias da guerra.
Durante sua palestra, alguém perguntou que manobras seriam as suas preferidas em combate, para abater o inimigo. O "cara" não entendeu direito, mas respondeu mais ou menos o seguinte: "Eu atacava de trás, de cima e do sol; se ele reagisse, eu abortava... Explicando, completou: "Se insistisse no ataque, não veria quem vinha por detrás".
Claro que tinha razão, já que "o inimigo que você não vê é aquele que o abaterá!" Quanto ao ala, com o raio de curva daqueles aviões, devia sofrer o "diabo" para manter o líder visual e cobrir sua retaguarda durante um passe...
Não precisa dizer que foi a maior decepção. Afinal, a fantasia do piloto de caça herói dos combates aéreos estava sendo destruída naquela sala, naquele dia.
Acho que o "Barrinhos" insistiu e o Galland respondeu que o Marseille (norte da África) era o recordista em aviões abatidos, mas ele, Galland, fora comandante da Caça e estava ali fazendo a palestra, enquanto o Marseille era reverenciado no cemitério, tendo feito muita falta à Luftwaffe, quando a coisa apertou no fim da guerra.
No Segundo Esquadrão, nos idos de 1970, havia a seguinte frase escrita pelo Carvalho Jr.:
"A vontade de vencer não supera a frieza do raciocínio".
É mais ou menos o que o Galland quis dizer: "A tática (experiência) é tão importante quanto o avião!..."
Na escolha do novo avião, é melhor pensar como se você estivesse com a "bunda" dentro dele durante um ataque! É melhor esquecer o "papo" teórico e escutar quem está lá com a "dita cuja"! É melhor ler várias vezes o último parágrafo do texto do Delano!
Finalizando, devo dizer aos caçadores que gostei muito de voltar a falar sobre a caça. Como estou longe há muito tempo, mais próximo da filosofia do que da estratégia, devo ter "misturado estação" nos argumentos.
Contudo, valeu poder retornar e marcar "uma saída e um pouso".

Cel.Av. R/R Tacariju Thomé de Paula Filho
Piloto de Caça - Turma 1967

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:
(1) KISS = sigla muito usada, pelos americanos, para dizer: " deixe de ser bôbo...mantenha as coisas simples! "
(2) Brig.-do-Ar R/R Delano Teixeira Menezes
(3) WAFB = 425o Esquadrão da Força Aérea Americana (Viuva Negra), sediado na Base Aérea de Williams no Estado do Arizona. Local onde os brasileiros aprenderam a voar os F-5B & F-5E.
(4) "chipado" = equipamentos eletrônicos de aviação (aviônicos), cheios de "circuitos integrados" (chips).
(5) Visão de túnel = fenômeno em que, durante altas velociades, à baixa altura, o piloto não distingue bem as imagens laterais. Este nome também se dá a uma deficiência em que realmente, a pessoa não tem visão periférica.
(6) Kt = abreviatura de "nó" em inglês (Knot). Medida de velocidade mundialmente adotada em aviação. Equivale a 1,852 km/h.
(7) Nível de Segurança = altitude, sobre o terreno, em que os estilhaços da bomba, ao explodir o alvo, podem atingir o próprio avião atacante.
(8) escantilhão = nesta frase está significando a "visor de tiro" do avião.
(9) Adolf Galland = um dos mais famosos pilotos de caça alemães da 2a Guerra Mundial. Foi General Comandante da Caça da Luftwaffe, com 36 anos de idade. Faleceu em 1998.


O RETORNO DO INVADER

 


Existiu uma aeronave de caráter medieval, um veterano inveterado que prestou serviços valoroso na época de sua segunda ressurreição. Esse velho guerreiro, modificado e remendado desempenhou importante função como arma de contra-insurgência, trata-se do "INVADER" Douglas B-26.

O nascimento

O B-26 começou a sua carreira como um bombardeio de ataque, o A-26. A Douglas Aircraft Company projetou esse avião para a Força Aérea do Exército ( AAF ), em janeiro de 1941, com a intenção de incorporar as melhores características do A-20, que, então equipava os esquadrões de bombardeio leve da AAF. Dedicou-se especial atenção ao desenvolvimento de maior alcance e capacidade de maior carga de bombas, características essas em que o A-20 demonstrara ser eficiente no curso das operações iniciais no sudoeste do Pacífico. Disso resultou o A-26 devidamente alcunhado " o dinamizado e valentão irmão mais velho" do A-20, que provou ser o bombardeiro médio mais rápido, o mais fatal e o mais versátil que se desenvolveu durante a Segunda Guerra Mundial.

O Invader na FAB

7 de setembro de 1957 - Chegam à Base Aérea de Natal os primeiros B-26 da Força Aérea Brasileira.
Inicia-se a era do Invader no Brasil.
Os aviões foram retirados da estocagem nos Estados Unidos e após completa revisão, entregues ao 5º GAv.
Inicialmente empregados com grande empenho no Estágio de Instrução aos Aspirantes a Oficial Aviadores, cumpriu com êxito essa missão até o final de 1960. No ano seguinte, não pode ser realizada em B-26, pois o recolhimento da maioria das aeronaves ao Parque de Aeronáutica do Recife para revisão geral reduziu consideravelmente a quantidade desses no 5º GAv. Entretanto, as Turmas que estagiaram em 1962 e 1963 ainda voaram o Invade, cumprindo um programa reduzido.
A partir de 1964 o B-26 foi retirado da Instrução, passando a equipar exclusivamente o 1º/5º GAv, que se tornou operacional em Bombardeio Médio e Ataque.
Reviveu, então, nos anos seguintes, alguns momentos da sua antiga glória: Missão Catrapo I e II, na Base Aérea de Santa Cruz, com a participação do 605th Air Command Esquadron, da USAF; Operação POTI, manobra que envolveu grande número de aviões da FAB, operações em cooperação com o Exército, etc. e o Invader voltou a demonstrar seu excelente rendimento nos treinamentos de guerra contra insurgência.
Operando taticamente, diurno e noturno, realizou missões de ataques com foguetes, bombardeio picado, bombardeio rasante, viagens rasantes e de grande altitude, ao mesmo tempo que formava novas equipagens. O veterano herói retornava ao combate.

2 de agosto de 1966

Durante essa fase de longo emprego operacional, os Invader, devido a falta de um reforço na estrutura de suas asas, foram obrigados a interromper sua missão. Quando maior era o entusiasmo do 5º GAv, o 1º Esquadrão parou. Por quanto tempo ninguém poderia prever.
Os estudos realizados pelo 5º GAv, com a colaboração do Centro Técnico Aeroespacial, apresentaram como solução , a modificação das aeronaves em B-26K.
Enquanto essa solução era encaminhada ao Estado Maior da Aeronáutica, diariamente as equipagens do 1º/5º GAv giravam os motores dos B-26, taxiavam, faziam a corrida de decolagem e retornavam ao estacionamento.
Eles não sabiam, mas com essa demonstração de entusiasmo, amor a profissão e sobretudo de patriotismo estavam escrevendo uma das mais belas páginas da história de nossa Força Aérea. Um exemplo de dedicação para todas as gerações que os sucederam. Não deve ser esquecido esse nobre e gesto de heroísmo.
Somente em 1967, apos longos estudos, o Ministério da Aeronáutica decidiu executar o reforço das asa e modernizar vários equipamentos, nos Estados Unidos, sem contudo transforma-los em B-26K.
Em 10 de novembro de 1967, partem os cinco primeiros para os Estados Unidos e em 15 de março de 1968, pousa em Tucson, no Arizona o último dos quinze aviões.
No dia 7 de Setembro de 1968 a primeira Esquadrilha de B-26, procedente de Tucson, regressou à Natal. A esquadrilha, antes do pouso, ainda participou do desfile do Dia da Pátria que se realizava na cidade de Natal. A última esquadrilha chegou no dia 1º de julho de 1969.
A volta do Invader à Força Aérea Brasileira marcou uma nova fase no histórico do 1º/5º GAv. O Esquadrão retornou à operacionalidade e sua doutrina fez com que as equipagens se identificassem com a máquina que tantas provas dera de ser uma arma sólida e eficaz.

Transferência para Recife

A Portaria 018/GM7 de 24 de Fevereiro de 1970 determinou a transferência do 1º/5º GAv do município de Parnamirim , no Rio Grande do Norte para o município de Guararapes, no estado de Pernambuco.

Março de 1973

Brasília, março de 1973. Um dia lindo de sol claro e céu azul. Uma esquadrilha de B-26 decola para mais uma missão de tiro e bombardeio onde seria realizado tiro terrestre, ataque com foguetes, bombardeio rasante e bombardeio picado.
Na última missão, a de bombardeio picado, na recuperação do segundo passe, o piloto líder do segundo elemento ouviu um "estalo" no avião. Alguma coisa teria caído na cabina sob o efeito da carga de "G" que era próxima do limite máximo permitida pela estrutura do avião.
Foi determinado a parada imediata dos aviões para análise do fato. O veredicto foi cruel e desanimador: Os B-26 estavam suspensos de vôo até segunda ordem.

Início do fim

Depois de analisado o problema veio a conclusão: O B-26 estava, a partir dali, limitado à 250MPH, 2 G e vôo sem turbulência, até que se tomasse uma decisão definitiva com relação ao procedimento a ser adotado.
Com essas restrições o "Boi de Asa" ficou bastante limitado na sua operacionalidade... Era o in;icio do fim do Invader

CEL. AV. MANOEL J. C. DE ALBUQUERQUE FILHO


UMA FAMOSA PASTA DE NAVEGAÇÃO


O Cel Av Eudo Candiota, era um excelente Oficial, mas tinha a fama de ser muito durão. Era exigente mesmo, porém, bom companheiro. Era admirado por muitos e respeitado por todos.
Lá pelos idos de 1963 estava escalado para comandar uma aeronave C-47 em uma missão de transporte de pessoal e material que sairia de Brasília com destino a Boa Vista no Acre.
Ao chegar na aeronave pela manhã bem cedo, depois de realizar uma inspeção externa sentou-se na cadeira destinada ao 1P ( primeiro piloto ) e solicitou ao seu 2P ( segundo piloto ) , um Tenente novo na idade e na experiência, pois quase tremia só em pensar na fama de durão do velho Coronel.
Os procedimentos iniciais foram realizados com perfeição, não fora o nervosismo do Tenente. Cheques antes, durante e depois da partida. Perfeito, a aeronave estava em ordem. Iniciaram o táxi e fizeram os cheques antes da decolagem. Falaram com a Torre de Controle e informaram que estavam prontos para a decolagem. Céu azul, tudo dentro do previsto. Seria uma ótima viagem.
Antes de obter permissão para decolar, porém, o 1P solicitou ao seu 2P que informasse o rumo que deveria tomar após a decolagem, como se faz rotineiramente.
Foi nesse momento que o comandante da aeronave viu o pálido Tenente informar que havia se esquecido da pasta de navegação. Teria que ir busca-la na Seção de Navegação do Esquadrão..
O Cel Eudo, nesse momento, desligou os motores da aeronave e, pacientemente, se dirigiu ao Tenente dizendo:
- OK meu filho. Vá até a Seção de Navegação e traga uma pasta de navegação completa e, por favor, traga também um outro Tenente para ir no seu lugar...

Fernando Antônio da Veiga Jordão


FREIO DE ESTACIONAMENTO


O Ten. Hankock, instrutor de vôo do Estagio Primário Escola de Aeronáutica, era um gozador de marca maior. Os alunos passavam maus bocados em suas mãos.
Um dia durante um vôo de instrução ele, sem que o aluno percebesse, baixou todo o flap do PT-19, que era o avião usado na instrução. Em seguida aplicou o freio de estacionamento. O PT-19 era um avião primário com o trem de pouso fixo.
O avião, cuja velocidade de cruzeiro era de 80 MPH, passou a voar a 60 MPH por causa dos flaps baixados.
O Hankock pegou o aviofone, um tubo plástico que servia para comunicação com o piloto na nacele traseira, e deu logo uma bronca no aluno:
Oh animal! Para de apertar os freios. O aluno ponderou que não estava freiando.
O Hankock começou a olhar para dentro da nacele e plantou outra bronca:
Olha ai seu manicaca, quem te mandou aplicar o freio de estacionamento? Por isso que essa geringonça não passa de 60 MPH. Solta o freio de estacionamento! O aluno, sem entender nada, soltou o freio de estacionamento e o Hankock, simultaneamente, recolheu suavemente os flaps sem que o aluno percebesse. De imediato a velocidade aumentou para as 80 MPH.
Tá vendo seu brasa? Nunca mais me aplica o freio de estacionamento em vôo. Essa droga de avião só anda a 80 MPH. Se você aplica o freio ele não passa de 60.
O coitado do aluno ficou sem entender nada pois, na sua ingenuidade de aluno novinho e sem a menor experiência, não conseguia imaginar que as rodas freiadas em vôo pudesse "segurar" a velocidade do avião e mesmo assim jurava que não tinha aplicado o freio de estacionamento. Ao comentar o ocorrido com os colegas, depois do fatídico vôo quase ficou louco com a gozação dos colegas e P da vida com o instrutor.

Cel. Av. R/R Gonçalves


ADEUS P-47


Corria o ano de 1957 e o 1o/4o G.Av., a partir de abril, adestrava Aspirantes da última turma no vôo da caça. Entre aqueles, alguns oficiais completavam o efetivo e eu e mais alguns e suas famílias ocupávamos os "restos" de casas deixadas pelos americanos após a Segunda Guerra. Os Aspirantes dispunham de acomodações no Cassino da Base.
O Comandante era o saudoso e sempre lembrado Maj. Berthier de Figueiredo Prates, ex-operações do 1o/4o em Porto Alegre, no ano de 1954, quando seu Comandante era o Maj. João Eduardo Magalhães Motta que, logo após o início da instrução de vôo teve que suspendê-la por motivos por ele mesmo comentados em seu livro "Força Aérea Brasileira (1941-1961) Como eu a vi", por não mais dispor de aviões P-40, desativados na ocasião. O Oficial de Operações era o então Cap. João Luiz Moreira da Fonseca.
Ocorre, como bem comentou o Ten. Brig. R/R Ronald Eduardo Jaeckel, meu colega na ocasião, que os P-47 vinham apresentando progressivo mau rendimento, provocando mesmo até acidentes diversos e um caráter fatal.
Naquele tempo era comum ouvir-se a sirene de alarme anunciando algum problema, ocasião em que as famílias de diversos instrutores e de Oficiais que faziam o curso se reuniam, apreensivas, no pátio interno do Cocorote(1) e, solidariamente, rezavam em silêncio pedindo ao bom Deus que nada de pior viesse acontecer.
E assim as coisas corriam até que, num belo dia de julho, Berthier reune toda a turma para transmitir ordem emanada pelo Comandante da Zona Aérea(2), Brig. Loyola Daher. Num ambiente de apreensão e expectativa os estagiários ouviram: "De ordem do Sr. Comandante da Zona, a partir deste momento, o efetivo dos estagiários será dividido em dois. Metade seguirá para o 1o/4o e metade para o 1o G.Av. de Caça em Santa Cruz. Esta transferência deverá estar concluída em quarenta e oito horas."
Até então haviam sidos voadas 18h e 20min, sendo que no fatídico P-47 no 9194 eu voara duas. Não é difícil imaginar o clima de "Deus nos acuda" que se instalou a partir de então.
A situação dos Aspirantes não apresentava maiores dificuldades para o cumprimento da ordem, ao contrário dos que, com suas famílias tinham suas casas para desfazer em tempo tão limitado. De minha parte, distribui todos os alimentos e bebidas, recentemente comprados, entre os vizinhos mais chegados e também, forçado pelas circunstâncias, abri mão de muitos objetos de uso obrigatório, tais como filtro, talha, fogão, etc... etc...
Rapidamente providenciei o material necessário para a embalagem dos móveis e de tudo o mais que me permitisse encaixotar louças, panelas, enfim, o que seria despachado posteriormente. Em menos de 24 horas este serviço estava executado. Quanto a família, a esposa, dois filhos e mais um sendo esperado, foi providenciado seu regresso imediato ao Rio.
Quando o quadro assim se afigurava, 24 horas após a comunicação feita, Berthier convoca mais uma vez os estagiários e, constrangido por saber das dificuldades enfrentadas para seu cumprimento, transmite a todos que o Comandante da Zona voltava atrás de sua decisão e determina a permanência de todos no 1o/4o onde teriam a instrução reiniciada logo após a chegada de um número suficiente de aviões North American T-6.
Isto veio a acontecer e o curso teve seu término no mês de dezembro, sendo voadas na instrução, reiniciada no mês de setembro, mais setenta horas, aproximadamente, perfazendo um total de oitenta e oito horas voadas.
Neste meio tempo, minha mulher, saudosa e preocupada, pede para passar um mês comigo antes de voltar para dar a luz ao nosso terceiro filho. Desengradei o necessário para montar o quarto e organizar uma sala de estar e de visitas. Nossa refeições eram feitas no refeitório dos Oficiais e muito nos valemos do que era servido no bar do Cassino. Depois de seu regresso ao Rio, tive licença, em novembro, para acompanhar o parto que se deu a 26 daquele mês.
O curso chegou ao seu final com toda a programação cumprida. Nossa classificação foi em Santa Cruz, onde tivemos o prazer de operar por quase dois anos o TF-7 e F-8, Gloster Meteor, o primeiro avião a reação a operar no Brasil.
Esta história mostra momentos difíceis e conturbados que a vontade incontida e sempre perseguida de vir a ser piloto de Caça soube contorná-los, assim como outros o foram anteriormente e reforçaram em nós as condições necessárias para ultrapassar futuras dificuldades que vieram a ocorrer.
A la chasse!

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) - Cocorote = Área ao sul da Base Aérea de Fortaleza onde estava instalado o Esquadrão e a Vila com as casas dos oficiais. Hoje é um bairro, seu nome deriva do inglês "cockroach" que significa o inseto comumente chamado de barata (ortóptero onívoro)...
(2) - Zona Aérea = Naquela época as áreas "administrativas" da FAB eram denominadas de Zonas Aéreas, hoje são os Comandos Aéreos Regionais (COMAR).

José Alexandre Moreira Penna
Piloto de Caça em 1957



SINAL DE CHAMADA "PACAU"


Eram 6 meses de muita vibração, de muito esforço e muita vontade de sair vencedor: estou relembrando o Estágio de Seleção para Piloto de Caça - ESPC - que a cada 1o semestre, nos anos de 1946 a 1953, na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), preparava Aspirantes-aviadores para solarem o P-47 e prosseguirem no Curso de Caça.
Os pilotos recém chegados do 1o Grupo de Caça que combateu na Itália foram os fundadores daquela Unidade Aérea pioneira, quase experimental, que se propunha a fazer do North Ameriacn T-6 o "caça" de transição para o P-47, na falta de outro avião mais adeqüado. Os Aspirantes da Turma de 1945 foram os primeiros estagiários; os da Turma de 1952 fizeram o último ESPC, já então estruturado como 3o Esquadrão do Grupo de Caça.
No dia-a-dia do treinamento aéreo ficou logo comprovado que o T-6 suportava mergulhos de mais de 200 milhas, com recuperação de mais de 5 "G"(1), e que aceitava reversões partindo de curvas de grande inclinação mantidas à custa do compensador(2) de profundidade todo "cabrado"(3). Mas, comprovou-se também, já agora por um preço muito alto, que no vôo de grupo a capota do T-6 deveria ser mantida aberta, que na cobrinha(4) de acrobacias a curva de Immelman(5) poderia causar um engavetamento fatal, e que no "peel off"(6) puxado contra o sol o piloto, ofuscado, não veria o avião que estava a sua frente.
Em março de 1948, quando fui matriculado no ESPC, a doutrina da instrução de vôo já estava sedimentada. Tudo tinha a sua razão de ser. A disciplina era tão rígida que parecia que a guerra não tinha acabado. O regime de internato impunha dedicação integral. E em terra cada estagiário era responsável por uma determina atividade: uma espécie de "on-the-job"(7).
Quanto a mim, nunca havia usado a indumentária que me fizeram vestir para voar. Nem eu, nem ninguém aqui no Brasil estava habituado a pilotar avião usando um macacão cheio de bolsos com "zipper", luvas de couro, capacete de lona com os fones do rádio embutidos, óculos de vôo com lentes coloridas intercambiáveis, e coletes salva-vidas infláveis, amarelos, apelidados de "Mae West", uma loura de Hollywood que tinha o busto bem avantajado...
Quem quizesse podia, ainda, passar pelo almoxarifado e retirar, sob cautela, um blusão americano modelo B-10, forrado até a gola com pelos de "nylon", dos que tinham sido usados pelos oficiais do Grupo, no inverno da Itália.
No primeiro fim de semana que se seguiu juntei numa sacola os óculos e o capacete, com fones e tudo, e levei para mostrar em casa. Quando dei o capacete e os óculos de aviador para minha mãe segurar, ela mal tocou neles, devolvendo-me assustada o que lhe parecia um símbolo da morte. Já meu velho pai fez a minha vontade: pôs os óculos, levou-os à testa e tornou a baixá-los, mirando-se no espelho do quarto com um ar de aprovação; o capacete, infelizmente, não coube na sua cabeça maranhense cheia de inteligência.
Aquela parafernália de equipamentos me atrapalhou muito nos primeiros vôos em Santa Cruz. A manga do macacão agarrava em tudo; as luvas tiravam a sensibilidade das minhas mãos; o colete salva-vidas apertava o peito e a doutrina de vôo do Grupo me obrigava a travar os suspensórios da cadeira do T-6, na decolagem e no pouso, dando uma sensação de falta de ar justamente nessa hora, quando eu precisava respirar fundo...
Para complicar mais as coisas, havia que obedecer a um código para as comunicações pelo rádio. A Torre de Controle era - e ainda é hoje - a PRIMAV, sigla do antigo 1o Regimento de Aviação; a perna base do circuito de tráfego do aeródromo era a "INICIAL"; e o Sinal de Chamada dos pilotos dos T-6 do ESPC era "PACAU". O nosso Comandante era o PACAU 01; eu era o PACAU 36.
O treinamento de vôo, rigorosamente padronizado, buscava nivelar a proficiência dos estagiários de forma a assegurar um eficiente emprego operacional do P-47, que viria em seguida. Por isso, a seleção no ESPC começava no primeiro vôo de cheque de acrobacias e só terminava no dia da entrega do diploma, após o solo no P-47. Nem todos conseguiam chegar até lá. Meu primeiro vôo foi com o Maurício Seidl, para verificação das acrobacias que eu não teria conseguido aprender na Escola dos Afonsos.
Numa manhã de céu azul, as 7 mil pés(8) sobre a restinga da Marambaia procurei fazer todas as manobras e acrobacias que o Márcio Paes Barreto me ensinara quando eu era cadete; tentei até o difícil "stick-back stall"(9), que os companheiros "lifebuoy"(10) tinham aprendido nos Estados Unidos: manche colado à barriga, o T-6 estolava, mantendo-se as asas niveladas usando apenas os pedais do leme de direção.
Mas, o exigente Seidl deve ter achado que ainda faltava alguma coisa: -"Faz agora um "loop" com um "tounneau" rápido no topo", gritou ele pelo interfone, com determinação. Rapidamente mentalizei que o T-6 teria que percorrer um círculo no céu, vertical como uma roda de bicicleta (loop), e lá em cima, bem no topo dar um giro rápido e completo com as asas(tounneau), antes de prosseguir na metade descendente daquela roda imaginária.
E, na hora me veio à cabeça o colega de ESPC, que no dia anterior, também sendo checado em acrobacias, deixara o motor do T-6 parar ao passar pelo dorso, fazendo um Immelman(5), o que provocou uma explosão no escapamento, gerando uma enorme labareda que lambeu a nacele, chamuscando-lhe os lábios e tostando seus vastos bigodes que cultivava com vaidade desde que saira da Escola de Aeronáutica. Cena tragicômica...
Escolhi como pontos de referência o Morrro da Marambaia, na prôa, a Pedra da Gávea, na cauda. No mergullho necessário para atingir 190 milhas(11) de velocidade segui a linha da Restinga da Marambaia; na puxada do manche para iniciar a parte ascendente da acrobacia ela desapareceu debaixo do avião, e no párabrisas, então, começaram a desfilar novas imagens, correndo rápidas de cima para baixo: o Morro da Marambaia, a Ilha Grande ao longe, o azul do céu, nuvens, agora o Sol, mais céu, e enfim a esperada silhueta da Pedra da Gávea, "pendurada" no horizonte, de cabeça para baixo.
Com 90 milhas no velocímetro, chegou a hora do tudo ou nada... Pedal esquerdo a fundo - quase um coice - e manche na virilha esquerda - com raiva! O T-6 girou violento, como eu esperava: numa fração de segundo vi o horizonte rodar, na certeza de que logo a Pedra da Gávea ia reaparecer no mesmo lugar; nesse instante, então, outro "coice", agora no pedal oposto, e manche no joelho direito!
Lá estava a Pedra, de novo, imóvel na posição invertida, bem no meio do parabrisas. Daí foi só deixar o T-6 iniciar suavemente a saída do "loop", com a ajuda da força da gravidade, até ressurgir na prôa a figura familiar do Morro da Marambaia.
Tudo deu certo. Eu nunca tinha feito um "tounneau rápido" no topo do "loop"... A voz do Seidl voltou ao interfone para ordenar nosso regresso à Base, sem qualquer outro comentário; era uma lição que vinha da guerra: não estimular o individualismo nos novos pilotos.
O regime de internato do ESPC transformava a BASC em um "campus" onde se estudava e praticava Aviação de Caça. Numa rotina pouco comum, as atividades começavam antes do nascer do Sol e não tinham hora para terminar. À noite, eram programadas aulas teóricas e provas dos diversos sistemas do P-47, no C.I.T. (Centro de Instrução Técnica) para a formação de mecânicos de P-47).
Quando isso não acontecia, tinha sempre um instrutor no Casino de Oficiais estimulando um "papo" de endoutrinamento para piloto de caça; o estagiário saía dali direto para a cama, morto de sono. Era outra lição da guerra: ao futuro combatente não se pode dar tempo para pensar... Por isso, os Aspirantes daqueles anos tiveram o privilégio de ouvir histórias memoráveis, contadas pelos personagens que as viveram nos céus da Itália.
Eram relatos impressionantes de bombardeios de depósitos de gasolina, de ataques a pontes, locomotivas e viaturas, e até do metralhamento de simples carroça, que aparentavam inocência, mas voavam pelos ares sob o fogo dos "ponto 50"(12) dos P-47, com a explosão da munição que disfarçadamente transportavam. E, também, histórias tristes, dos companheiros abatidos pela anti-aérea, dos quais souberam notícias quando a guerra acabou. Alguns tinham sobrevivido, outros não. Foi quando eu vi, pela primeira vez em minha vida, homens de verdade chorarem.
Naquela Base Aérea, a 50 km a oeste do Rio, respirava-se um ar diferente; o clima parecia outro; o estagiário pegava o trem na cidade, debaixo de chuva, e chegava em Santa Cruz com céu claro, para a frustração daquele que embarcou falando alto: "Pessoal!... Hoje não tem perigo de vôo!" De fato, o dia parecia mais azul e a noite parecia mais escura. Diziam até que o hangar do Zeppelin(13) era mal-assombrado na escuridão, onde as corujas assustavam os recrutas de plantão.
O estagiário Magalhães C.B.M., destemido aspirante da minha turma, dispôs-se a enfrentar os fantasmas do hangar na calada da noite, incumbido pelos colegas de vasculhar os arquivos do ESPC para saber os graus que vinham recebendo nas Fichas de Vôo. Voltou em clima de festa com uma notícia boa e outra ruim: "O hangar não é mal-assombrado, tanto que o sentinela estava dormindo... Mas as Fichas, nem pensar: trancadas a sete chaves". Mentiroso!...
Todos os dias, depois do exaustivo expediente, atenuava-se a pressão sobre os estagiários; o corneteiro era dispensado, mas uma rede de alto-falantes propagava pela Base o som de um toca discos que reproduzia os toques de arriamento da Bandeira, de Revista de recolher, de Silêncio às 22 horas, e de Alvorada, gravados num disco. Desgastado pelo uso, aquele velho disco já punha a Base acordada aos primeiros chiados da agulha, antes da corneta começar.
Em compensação havia, também, música ambiental... Punham para tocar os "Vi-disc" que o Grupo de Caça trouxera da Itália. Eram discos inquebráveis de 78 rotações por minuto, 12 polegadas de diâmetro, que o governo norte-americano distribuiu para todas as Força Aliadas que operavam no além-mar. Eram os chamados Discos da Vitória, cujos exemplares que ainda existem são altamente valorizados por colecionadores.
À tardinha, ouvia-se em toda Base a orquestra dos irmãos Dorsey(14) tocando "I'm getting sentimental over you", alternando-se com Claude Tornhill, que parecia expressar o sentimento do combate, longe da sua amada, no refrão romântico: "While you're away, while you are waiting for..."
Para que tudo aquilo funcionasse, o Oficial-de-Dia tinha que dar uma de "disc-jockey"; e o padre Capelão, também. Às 18 horas ele rodava o disco da Ave-Maria e aproveitava para dirigir palavras de fé à guarnição de serviço. Suas palavras criavam um dilema na cabeça de estagiários empenhados em partidas de volei contra os instrutores, jogadas sempre no final do dia: concentrar-se no jogo ou nas palavras do Pastor? De que lado estava o pecado?
Aquelas partidas de volei faziam parte de algumas atividades programadas para aliviar as tensões acumuladas durante o dia do estagiário. Numa delas, já no por do sol, a atenção dos jogadores voltou-se para um P-47 que iniciou o "peel-off" para pouso soltando densos "streams"(15) nas pontas das asas, numa velocidade tão excessiva para aquela manobra que fez pararem o jogo.
O hangar do Zeppelin, porém, cobriu a visão daquela reduzida platéia, que por isso não pode acompanhar a trajetória do P-47 naquela "puxada" extremamente "hot" e no seu desenlace. O jogo já poderia prosseguir.
Mas a experiência do instrutor que ia dar o "saque" prevaleceu. Ele "sentiu" que aquilo não ia acabar bem; ao invés de "sacar" o Tenente José Henrique Teixeira de Araújo, com a bola numa das mãos e a outra fazendo uma concha na orelha, falou pausadamente: "ou-ça-mos!" E todos os jogadores ouviram: "Bum!"
Era o P-47 chocando-se com o solo no final do "peel-off". Foi mais uma lição para os estagiários do ESPC. Aquele não teria sido nem o primeiro nem o último avião de caça a cair no "peel-off"; a baixa altura, quem tentasse fechar demais a curva no P-47 com trem e flaps baixados, no mínimo quebraria o avião. Ou como dizia o Capitão Keller: - "No "peel-off" não se coloque numa posição difícil, para não ter que brigar para sair dela vivo!" No lusco-fusco daquela tarde, foi o que aconteceu com o Tenente Lara L. R. A .; felizmente ele saiu daquela, incólume.
Aos poucos vieram outras lições. Fiquei sabendo que o estande para tiro ar-solo, o Limatão, hoje já desativado, recebera esse nome como homenagem ao Tenente Pedro de Lima Mendes, instrutor vitimado no primeiro ESPC, em 1946. O mesmo aconteceu com o Tenente Diomar Menezes, também instrutor naquele ano: seu nome foi escolhido para o estande de tiro de armas portáteis.
Um grupo de instrutores, tendo à mão um simples manual do U.S. Army de "Air-Ground Gunner"(16) e muita determinação, escolheu o local dos estandes, fez as medições no terreno, demarcou o traçado das linhas e das posições e supervisionou a implantação daquelas praças de tiro, indispensáveis para o treinamento dos estagiários.
Também fiquei sabendo, e aprendi participando, que nós, estagiários e instrutores, deveríamos estender o balizamento luminoso de emergência ao longo dos 1500 metros da pista, quando chegasse a fase do vôo noturno. Enfim, havia muito trabalho para todos, veteranos ou novatos, instrutores ou estagiários.
Mas, quem eram essas pessoas? Quem eram uns, quem eram os outros? Como juntavam-se gerações distantes e conseguiam fazer com que elas se entendessem? Em Santa Cruz, pilotos de guerra que faziam pouco tempo duelavam seus P-47 com posições de artilharia anti-aérea - a Flak de 40(17) alemã - alguns deles libertados de campos de prisioneiros há menos de um ano, passaram a conviver, dia e noite, com jovens e inexperientes pilotos.
Era o início da formação das novas gerações de pilotos de caça brasileiros, que iriam aprender as técnicas do combate ao inimigo, desde o comportamento em terra até a manobra mais eficaz no vôo, ensinadas por aqueles cujo idealismo nos levou à vitória nos céus da Itália. Outros mais, herdeiros da responsabilidade de mater viva a corrente de profissionalismo e idealismo iniciada em Santa Cruz, 1946, estão presentes em todos os setores da FAB dos dias de hoje, onde agora ninguém mais voa sem macacão, sem "papo-amarelo", sem luvas..., enfim, sem doutrina de vôo.
Guerreiros de verdade e guerreiros em potencial trabalharam juntos e se entenderam, cultivando seu instinto belicoso, inerente à condição humana, que passa de geração para geração. Cada geração com seu destino de ir ou não ir para a guerra. O que os pilotos de caça brasileiros praticaram na Itália já ensinaram a outros; esses já ensinaram a outros; esses já ensinaram a outros mais.
Daqui a pouco o veterano da IIa Guerra Mundial será um monumento à História do Brasil; nós outros uma simples lápide; mas, o espírito, a mística e até mesmo o imponderável que caracterizam o Caçador que descende do "brasiliano aviatore" ficarão para sempre na história da Aeronáutica Brasileira.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) - "G" = Símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave.
(2) - compensador(es) = Dispositivo(s) que auxilia(m) os comandos de vôo, suavizando (compensando) a força que os pilotos devem exercer no manche e/ou nos pedais.
(3) - compensador cabrado = Acionado de maneira diminuir a força que o piloto deve fazer para comandar o levantamento da parte dianteira (nariz) do avião.
(4) - cobrinha = Formação em que os aviões ficam um atrás do outro e repetem as monobras do avião que está na frente (líder).
(5) - "Immelmann = Manobra em que o avião executa uma "meia" cambalhota para trás e no ponto mais alto, quando está de cabeça para baixo, desvira e retorna ao vôo normal. Seu nome deriva do piloto alemão que durante a 1a Guerra Mundial "inventou" esta manobra (Ten. Franz Max Immelmann).
(6) - "peel-off" = Manobra efetuada antes do pouso, visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo. Hoje a palavra foi aportuguesada para "pilofe".
(7) - "on-the-job"= "Treinar" aproveitando para já executar algum serviço (on the job trainning).
(8) - pés = Medida de altura em aviação (comprimento). 1000 pés equivalem aproximadamente a 300 metros.
(9) - "stick-back stall" = Estolar (deixar o avião perder a sustentação aerondinâmica), mantendo o comando do manche totalmente atrás.
(10) - "lifebuoy" = Apelido dos pilotos que fizeram curso de oficiais da reserva nos Estados Unidos. O nome inglês significa bóia salva-vidas e batizou um sabonete que era distribuido às tropas e tinha alto poder anti-séptico.
(11) - 190 milhas = "milhas terrestres por hora", aproximadamente 306 Km/h ou 165 nós.
(12) - ponto 50 = metralhadoras cujo diâmentro dos projéteis são de 0,5 polegadas ("0.50 inches" ou aproximadamente 13 milímetros).
(13) - Hangar do Zeppelin = Hangar com 250 metros de comprimento, 50 de largura e 80 de altura, construído para abrigar os dirigíveis tipo zepelim.
(14) - "Dorsey" = Grande orquestra dos anos 40, dirigida pelo trumpetista Tommy Dorsey.
(15) - "Streams" = esteiras de condensação do ar que se formam atrás das pontas das asas como de fossem riscos de nuvens. Para a sua formação é necessário haver condições atmosféricas especiais e que o avião esteja em alta velocidade.
(16) - "Air-ground gunner" = Manual de tiro aéreo e de armas portáteis do Exército Americano.
(17) - "Flak de 40" = Se refere aos estilhaços das explosões, no ar, dos projéteis de 40 milímetros, ou aos próprios canhões da artilharia anti-aérea alemã "Flieger-Abwehr-Kanonen".

Ten.-Brig. Ref. João Soares Nunes
Piloto de Caça - Turma 1948 - Ex-Cmt. 1a Gp.Av.Ca.


TRÊS ESTÓRIAS DE AVIÕES


O primeiro vôo de caça. Com o Comandante. BERTHIER.
Na madrugada, Alvorada 04:30h. Café da manhã. Rancho.
Luz mortiça, Ida para o Esquadrão. BRIFIM(1).
Meu Deus, que brifim.
Caminhamos, ao nascer do sol, para a linha dos aviões.
BERTHIER, esquivando-se das poças d'água (havia chovido na madrugada), pára por um instante, e apontando para a linha das aeronaves, diz:
"São lindas, não são? "
Eram. E pela primeira vez, alguém se referia, chamando-as pelos nomes femininos.
-"As máquinas."
-"As garças."
-"As aeronaves."
Foi a minha primeira lição.

A segunda estória, é a mais bonita. É a estória de um avião.
Não está sendo fácil contá-la. Já fiz uns três rascunhos, e não ficaram bons. O melhor, é ser simples, direto.
Os aviões são como nós. Eles nascem, eles se tornam jovens poderosos, eles têm a meia idade e eles ficam velhos.
Lembra-se da primeira vez que você chegou perto de um?
O cheiro acre, a imobilidade, a frieza, puro engano!
-"Que jovem bonito."
-"Coitado, está tão apreensivo."
Você desconfiava, não é?
Lembra da madrugada fria, ao nascer do sol, quando o motor girava, e o calor gostoso chegava até você?
É difícil descrever esse momento. Era um abraço, não era?
Entende agora, o que eu estou falando?
Eles têm vida. O avião gosta de quem gosta dele.
O avião sabe quem tem medo dele.
Eu estou contando tudo isso, porque eu conheci um, e foi um senhor avião. Seu nome, é o HURRICANE 2798, LK-A. Ele/ela, está majestosamente repousando, em uma ala de um belo museu da RAF(2), e segundo as plaquetas de identificação, "em caráter experimental". Querem que eu descreva?
Linda. Feminina. A fuselagem (seu corpo esguio) revestida por uma camada de pano. O seu vestido. Se fosse atingida nos combates aéreos, era facilmente recuperada. Voltava ao combate, com poucas horas de manutenção.
Aproximei-me, lentamente. Eu sabia que estava diante de um mito.
Uma plaqueta, contava a sua vida.
Nasceu em 19 de janeiro de 1940.
Em 27 de abril, se deslocava para a FRANÇA. ABBEVILLE.
Só essa cidade, daria um livro. Closterman atacou-a em 1944.
A derrocada da França, a fez retroceder.
20 de Março - Boulogne.
21 de Março - Dover (Inglaterrra)
29 de Maio - Foi atingida.
Recuperou-se.
11 de Setembro de 1940 - Batalha da Inglaterra.
Esse marco da História moderna, todos conhecem.
Talvez, alguns desconheçam, que 80 por cento das vitórias da RAF, foram conseguidas pelas unidades de Hurricane. No "pico" da batalha, o Comando de Caça, tinha 30 unidades de Hurricane, complementadas por 18 de Spitfire e 10 de "outros esquadrões". A minha aeronave estava ali.
Olhei a cabine. O instrumental. O mesmo manche "Caneca de Chopp"(3) do nosso GLOSTER METEOR (TF-7). E do "SOPWITH CAMEL" de 1917.
O alto-falante avisa, em 15 minutos seriam encerradas as visitas.
Aproveito esses minutos finais. Observo-lhe o trem de pouso, suas metralhadoras. E as suas asas.
30 milhas mais lentas que o SPITFIRE, 33 milhas mais lentas que o MESSERSCHMITT BF 109E-3.
Abaixo de 20.000 pés, incrivelmente superior ao SPITFIRE e MESSERCHMIT.
Eu as acaricio.
Leitor, você já deslizou sua mão pelo dorso de um cavalo? Lembra dos nervos, os músculos, que se retesam quando a sua mão se desloca? Eu juro a você, que eu tive essa sensação. "O Trompowsky endoidou de vez!" Tudo bem. Mas que eu tive essa sensação, eu tive.

A terceira estória é curta.

Vou fazer um vôo, 20 anos após, no Mirage. A inspeção externa (antes do vôo), no Mirage, é realizada por um mecânico do avião, e o piloto. Nos acompanhava um velho mecânico, pioneiro dos primeiros tempos de Anápolis. Estávamos, sob as asas, inspecionando os alojamentos das rodas, a aeronave (MIRAGE) estremece.
O jovem mecânico, recua, receoso. As janelas do trem de pouso, se acionadas anadvertidamente por alguém, um comando elétrico na cabine, são guilhotinas, decepando braços, mãos dos injetores. Tranqüilizo o jovem mecânico. (Haviam mil motivos para aquela balançada. Rajada de vento, viatura passando ao largo, etc.)
Disse-lhe:
-Fique tranqüilo. Ele está me reconhecendo. Está abanando o rabo! O velho mecânico, ao meu lado, concordou com um sorriso doce.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - Brifim =
(2) - RAF = "Royal Air Force", Força Aérea Inglesa
(3) - Caneca de Chopp = O "manche" do avião Gloster TF-7, possuia uma espécie de alça (ver ilustração) parecida com alça de caneca de chopp. Pode-se notar à esquerda a capa que protege os interruptores de armamento (guns), o interruptor de transmissão de rádio, logo acima, e a alavanca do freio (vista através da alça).

Ivan Trompowski Douat Taulois
Piloto de Caça aposentado


RECEPÇÃO A UMA RAINHA


O ano de 1963 decorria num clima tenso, resultante da instabilidade política reinante, quando um fato novo despertou a atenção pública.
A imprensa, interrompendo a rotineira torrente de manchetes alarmistas, brindou o país com uma alvissareira notícia que tornava superado o trauma das famosas e penalizantes, no passado, "duas polegadas a mais"(1): "Ieda Maria Vargas é eleita Miss Universo.
O Brasil conquista o título máximo da beleza feminina". A letargia reinante deu lugar a uma explosão de ufanismo. Afinal, a nova soberana era uma gauchinha e, portanto, deveria ser recebida com todas as honras pelos seus súditos.
O sentimento festivo atingiu, também, o ambiente do 1o/14o G.Av.
Um rastilho de sugestões se espalhava quando, não sei de onde, surgiu uma ordem para que preparássemos uma recepção aérea em grande estilo.
Nosso comandante, o saudoso Maj. Mellinho, passou a incentivar a criatividade dos tenentes do Esquadrão. O Trompowski, um dos mais animados, providenciou uma biruta(2) novinha em folha com o pessoal do material e tratou de redigir uma mensagem adequada naquela improvisada faixa.
Uma esquadrilha seria empregada para interceptar e acompanhar o avião que traria a ilustre personalidade até o Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.
Quando o grande dia chegou, uma Quinta-feira, 22 de agosto, tive a grata surpresa de ver a minha placa no quadro de pilotos, indicando ter sido escalado pelo Oficial de Operações, Cap. Binsinho, para liderar a esquadrilha de F-8, completada pelos Tenentes Branco, como no 2, Luyet, como no3 e o Montandon, o no4.
Meu primeiro impulso foi olhar pela janela e observar o tempo embora já tivesse certeza das condições que iria encontrar. Há mais de uma semana, a atividade aérea estava paralisada devido à intensa névoa seca que envolvia toda a região sul, ocorrência normal para a época do ano, mas, agravada por um imenso incêndio que grassava nas matas dos estados vizinhos.
Era já conhecida a notícia de que o Electra II da VARIG, que toda manhã chegava do Rio, naquele dia, fora obrigado a alternar seu pouso em Pelotas por conta da deficiente visibilidade na capital.
Eu sabia que a realização daquela missão dependeria somente da minha decisão. Sabia, também, e isso era muito importante, que não poderia decepcionar o pessoal da unidade já condicionado para essa grande expectativa.
Na hora prevista, decolamos.
A reunião da esquadrilha foi mais rápida do que o normal. Ninguém queria ficar para trás.
Ao iniciar a curva da decolagem para interceptar o rumo do procedimento inverso do GRAVAJATO(3) fomos, totalmente, envolvidos pela espessa névoa e o vôo passou a ser por instrumentos.
Por instantes, contrito, questionei se a minha decisão teria sido a mais acertada.
Completamos a subida e alcançamos o topo a 29.000 pés(4). A visibilidade era tênue, obscurecida e limitada por uma camada de nuvens logo acima.
Voando, espremido entre as duas camadas, único espaço disponível para o cumprimento da missão, solicitei ao controle Porto Alegre, conforme entendimento prévio com aquele órgão, que orientasse a aeronave a ser interceptada para o bloqueio do fixo(5) de entrada da terminal, TAQUARA, no nosso nível de vôo.
Pouco depois, voando em uma órbita de espera, divisei um ponto fumegante que surgia do setor norte.
Era ele. O Coronado 990 da VARIG!
Comandei a formatura ataque no2(6) e com uma curva de 270 graus entramos rapidamente em forma. Meu elemento(7) alinhou-se à sua direita e o 2o elemento à esquerda.
Ainda na freqüência do controle, fiz contato com o Comandante do quadrireator, solicitando transmitir a famosa passageira a mensagem de boas vindas dos centauros dos pampas.
A nossa recompensa não tardou.
Acenos e um lindo sorriso da nossa Miss despontaram em uma das janelas em sinal de agradecimento.
Interrompendo o nosso deleite, o Comandante do Coronado informou estar no ponto de descida.
Rapidamente, perguntei se poderíamos continuar na sua ala e ele, ainda que parecesse surpreendido, concordou!
Para mim, a sensação foi de alívio já que ele possuía ILS(8), enquanto eu só contava com o ADF(9), nem sempre confiável no Gloster quando se tratava de vôo por instrumentos.
Com avidez, logo nos aferramos na sua ala.
A matrícula PP-VJG, pintada na parte traseira da sua fuselagem, se apresentava como um bom referencial.
Durante todo o procedimento de descida, o comandante facilitou o nosso vôo, acusando as mudanças de velocidade e de configurações, bem como os acionamentos dos trens e flapes.
A grande massa popular, que se encontrava no aeroporto para recepcionar a mais bela conterrânea, deve ter tido uma visão surpreendente ao ver, surgindo da espessa nebulosidade, na curta final e a baixa altura, aquelas cinco máquinas voadoras tão próximas e tão irmanadas num mesmo propósito.
Para nós da esquadrilha chegara a hora da despedida!
Pelo rádio, avisei que iríamos arremeter, permanecendo abaixo da camada e abandonando em curva pela esquerda para o pouso direto em Gravataí.
Nesse momento, aconteceu a apoteose.
Até aquele instante, o contínuo estado de tensão com que transcorrera aquele vôo tinha feito com que eu esquecesse um importante detalhe, parte do nosso brifim.
Havia outro personagem envolvido naquela inesquecível missão!
Em plena arremetida, me deparei com ele garborosamente desfilando à nossa frente.
Era o Trompowski com o TF-7 puxando a tal biruta e, ainda que por fração de segundo, pude ler a sua mensagem em verdadeira grandeza:
É ...., só quem estava lá pode testemunhar que o teto estava, realmente, muito baixo para o vôo simultâneo de tantos aviões!
Uma hora após o pouso, fui chamado ao telefone. Era o Comandante do Coronado que desejava cumprimentar os caçadores pelo sucesso da missão, bem como externar a sua admiração pelo incrível evento com o qual foi envolvido, que nunca vira igual e do qual não se esqueceria jamais.
Uma semana mais tarde, o 1o/14o G.Av. foi gratificado com a visita da bela Miss, a simpática Senhorita Ieda, o que resultou em uma confraternização inesquecível, perpetuada em uma foto do grupo, certamente, destaque nos álbuns de todos que viveram as gratas emoções daquele dia.
Trinta anos passados, em 1993, na mesma data e local, a visita se repetiu com a, então, Senhora Ieda, ainda, a eterna Miss dos gaúchos e em particular do Esquadrão PAMPA.
O novo encontro, cenário onde foram revividas as lembranças de outrora, foi, novamente, registrado em uma foto com os ex-componentes do Esquadrão, cada qual mantendo-se na mesma posição original. Eu, por motivo alheio à minha vontade, não estive presente e, portanto, dela não pude participar.
Meu álbum ficou sem essa foto!
Mas a difícil decisão ante o desafio, vivida naquele dia do passado foi plenamente recompensada pela generosidade do destino que permitiu tornar real esta história que tive a felicidade de viver e, hoje, tenho a oportunidade de contar".

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - 2 polegadas a mais = referência ao concurso em que a brasileira Marta Rocha, alguns anos antes, perdeu o 1o lugar no concurso de Miss Universo, por ter 2 polegadas a mais, de quadris, do que era considerado ideal pelos juízes.
(2) - biruta = alvo rebocado por aeronave, normalmente feito de tecido de malha muito grossa, usado para prática de tiro aéreo (ar-ar). No caso, em lugar da pintura tradicional, foi escrita uma mensagem.
(3) - GRAVAJATO = procedimento especial para aproximação por instrumentos de aviões à jato para o Campo de Gravataí. O Campo de Santa Cruz no Rio de Janeiro, tinha o CRUZJATO. Nas subidas por instrumentos, o procedimento era feito de modo inverso.
(4) - topo a 29.000 pés = fim da camada de nuvens a quase 9 quilômetros de altitude.
(5) - bloqueio do fixo = passar sobre (na vertical) um determinado ponto solo. Estes pontos são determindados em relação a estações radio-aeronáuticas e podem ser "bloqueados", com bastante precisão, mesmo sem visibilidade com o solo.
(6) - ataque no2 = quando a esquadrilha se divide em dois "elementos" de dois aviões, para efetuar um "combate aéreo".
(7) - elemento = menor conjunto de aviões de caça, formado por duas aeronaves, uma "líder" e uma "ala".
(8) - ILS = do inglês "Instrument Landing System", equipamento eletrônico especial para facilitar a aproximação para pouso sem visibilidade (por instrumentos). Na época era uma grande novidade!
(9) - ADF = do inglês "Automatic Direction Finder", equipamento eletrônico que indica a direção de uma estação transmissora de rádio. Embora antiquado, ainda hoje é usado para auxiliar a navegação aérea. As"velhas águias" o chamam de "radio goniômetro"

Ten.-Brig. R.R. Ronald Eduardo Jaeckel
Aspirante de 1956, Piloto de Caça - Turma 1957


HISTÓRIAS DO 1º/14º GRUPO DE AVIAÇÃO


Existem dois ângulos pelos quais se pode observar um acontecimento: do ângulo do ator principal e do ângulo do espectador.
Se fossemos pedir para o Machado (hoje Coronel Comandante da Base Aérea de Fortaleza, na época Tenente) nos contar o vôo rasante que ele deu sobre o prédio do Comando da Base Aérea de Canoas no aniversário da Base em 21 de agosto de 1984, ele não teria mais o que contar a não ser a velocidade que estava voando, as condições atmosféricas e outros detalhes do vôo que eram absolutamente normais.
Portanto, eu, como um observador privilegiado que fui do acontecimento, me sinto mais a vontade para relatar esse "acidente" com maior riqueza de detalhes. Mas, antes de falar dele é muito importante que se conheça os antecedentes e as relações da Base com o Esquadrão na época.
O Comandante do Esquadrão era o Quintino e eu era o Oficial de Operações e vivíamos num saudável ambiente de Esquadrão de Caça. O Quintino era muito alegre e comunicativo e incentivava e participava de todas as atividades que congregassem os componentes da Unidade e "puxava" sempre pelos fatos tradicionais da caça, quase em todas as ocasiões alguma estrofe do Cancioneiro da Caça era citada.
As nossas reuniões eram alegres e espontâneas, com a participação ativa, inclusive das esposas. Voávamos, praticávamos esporte, qualquer motivo era suficiente para de imediato ser organizado um churrasco pelo Garate e pelo Fraga que eram os Sargentos churrasqueiros do Esquadrão.
Cumpríamos todas as nossas atividades com eficiência e pontualidade. O ambiente no Esquadrão era ótimo, todos eram muito unidos e alegres, as coisas fluíam com naturalidade e de uma maneira leve. Ali havia realmente um espírito de corpo.
Mas o Comandante da Base interpretava essas atitudes como irresponsáveis e infantis porque já tinha um pensamento pré-concebido sobre a caça. Ele nunca entrou no Esquadrão enquanto era Comandante.
Em última análise: não gostava da Caça de longa data e, naturalmente, ninguém sabia porque. Não era fruto da convivência com o pessoal do 1o/14o. Ele já chegou para comandar a Base com essa postura.
Para nós não havia uma razão lógica pois todos o tratavam com a maior cordialidade e carinho, acima até do que os regulamentos obrigam. Quando havia alguma festa promovida pela Base ele chamava o Quintino e dizia claramente que não queria saber de "Pó, Pó, Pó"(1) ou outras manifestações por parte dos pilotos do Esquadrão, que essas atitudes não eram compatíveis com o ambiente da festa, etc., etc., etc.
Mas o Quintino não deixava por menos, esperava passar um pouco, a festa ia se desenvolvendo com tranqüilidade e quando começava a ficar monótona, não tinha dúvidas: convocava os "cantores" do Esquadrão e "sapecava" um "Pó, Pó, Pó" bem na frente da "Santa Ceia".
O comandante da Base ficava "possesso", mas a alegria recomeçava e a festa ganhava outro ânimo, menos para ele. Essa cena que se repetia a cada festa ou reunião promovida pela Base, já estava se tornando cômica, até que em uma delas ele não agüentou e deu uma bronca geral, aos berros.
Não é preciso dizer que o clima da festa foi para o "brejo" e daí mais um pouco ele se retirou. Por esses motivos e por outros mais leves o Comandante da Base vivia em constante sobressalto com os pilotos do Esquadrão.
Já com o Comandante do 5o COMAR(2) havia um relacionamento cordial e quase afetivo, pois o Maj-Brig Cruz já havia voado no Esquadrão o P-40, no passado, e no presente, já havia feito vôo de F-5. Além do mais ele não dava "chance" e não se deixava levar por qualquer "provocação" dos caçadores. Mantinha, com elegância, uma respeitosa "distância regulamentar".
No dia 21 de julho seria comemorado o aniversário da Base e na reunião de preparativos o Comandante da Base detalhou as atividades que, entre outras festividades, teria a tradicional solenidade militar. Nesse ponto ele pediu que e Esquadrão participasse com uma Esquadrilha para enriquecer o desfile militar e foi bem específico: "Eu não quero nada de vôos rasantes...trata-se de um desfile aéreo e não de uma demonstração"... que o Comandante do COMAR estaria presente e ele não queria nenhum tipo de aborrecimento.
Portanto o Quintino deveria esclarecer bem aos pilotos que iriam realizar o vôo. O Quintino ainda contra-argumentou, mas ele foi irredutível.
Bem, assim foi feito!
No dia, todos estavam na pérgola do comando da Base, inclusive o Comandante do COMAR, e a solenidade aconteceu conforme estava previsto: o desfile militar, o desfile dos aviões sincronizado com a tropa, etc. Quando estava terminando, o Comandante do COMAR virou para o Comandante da Base e para o Quintino e comentou em tom de desafio que a Caça não era mais a mesma, que o vôo estava muito "xoxó", que não se fazem mais pilotos como antigamente, etc.
Enquanto o Comandante da Base tentava argumentar o Quintino disse que poderiam ser liberadas algumas passagens baixas, ao que o Comandante do COMAR assentiu. De imediato, o Quintino se dirigiu ao Donato que era o "joca"(3) e que estava em contato com os aviões de dentro do prédio do comando da Base e disse que estavam autorizadas passagens baixas, a critério do líder da esquadrilha.
Era um dia cinzento e muito frio, daqueles característicos do mês de agosto em Canoas. O líder da esquadrilha era o Pedro Humberto, o número dois era o Noro, o número três era o Whiteff e o número quatro o Machado. Eles fizeram diversas passagens nos mais variados eixos e, a cada passagem, o Comandante do COMAR vibrava e dizia: "Isso é que é aviação!" E a cada passagem fazia um comentário entusiasmado.
O Quintino vibrava de satisfação...e o Donato botava "lenha na fogueira". Até que o Pedro Humberto dispersou a esquadrilha e comandou "cobrinha"(4) para passagens individuais.
Os aviões "despencavam" do setor norte e passavam sobre o prédio do comando da Base onde estavam as autoridades, voando com aproximadamente 400 kt(5). O número quatro, meio que deu uma "atrasada" e teve que dar um "motorzinho"(6) para não se afastar muito dos outros aviões. Quando ele estava a mais ou menos uns quatrocentos metros do prédio, já nivelando, começou a se formar condensação em suas asas devido à maior velocidade em que vinha e as condições atmosféricas do momento.
Todos pensamos: "Esse vem quente". E buuuummmm....!(7) passou exatamente sobre o prédio do comando. Sorte que todos estavam no meio do pátio para assistir as passagens porque todos os vidros, literalmente todos os vidros do prédio explodiram. Algumas janelas se descolaram inteiras da parede, telhas voaram, gritos se ouviram.
Enfim, foi a maior "zuada". O Comandante da Base estava lívido, a cada passagem ia ficando mais vermelho, e com aquele clímax se sacudia todo e olhava fuzilando para o Quintino.
Nós pensávamos: xiiiii!...vai sobrar para o Quintino. Mas, de imediato, todos olharam para o Comandante do COMAR com ar de expectativa e ele exclamava: "Sensacional...Isso é que é aviação", e o Comandante da Base perguntava exaltado: "É Brigadeiro...mas quem é que vai pagar esse prejuízo?"
O Brigadeiro ria e dizia: "pode mandar para mim que eu terei o maior prazer em pagar". E assim terminou mais um "combate' com o irado Coronel Comandante da Base Aérea de Canoas e os "terríveis" caçadores dos Pampas.

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - "Pó, pó, pó" = Nome pelo qual é conhecida a mais famosa e tradicional música da Aviação de Caça Brasileira
(2) - 5o COMAR = Quinto Comando Aéreo Reginal, engloba: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
(3) - "Joca" = É o nome de código tradicionalmente usado para o oficial que, no solo, se comunica, via rádio, com a esquadrilha.
(3) - cobrinha = Formação em que os aviões voam afastados, porém, um atrás do outro.
(3) - 400 kt = velocidade de 400 nós ou seja: aproximadamente 740 km/h.
(3) - dar um "motorzinho" = acelerar o motor e conseqüentemente aumentar a velocidade.
(3) - Bummmm...! = No caso, significa que o avião ultrapassou a velocidade do som.

Brig.-do-Ar R/R Delano Teixeira Menezes
Piloto de Caça

AVIAÇÃO NAVAL DA MARINHA DO BRASIL

O início da história da aviação militar no Brasil e da história da aviação naval se confundem, essa história se iniciando em 14 de outubro de 1911, quando o oficial da Marinha Jorge Möller foi o primeiro militar do país a ter brevê de piloto. Pouco tempo depois, em 1914 foi criada a Escola Brasileira de Aviação e o Tenente Antônio Augusto Schorcht tornando-se o primeiro brasileiro instrutor militar de vôo. Em 23 de agosto de 1916 a Marinha fundava a Escola de Aviação da Marinha sediada na Ilha das Enxadas, na Baía de Guanabara, e no mesmo mês de agosto, faria o primeiro vôo de um avião militar brasileiro, um Hidroavião Curtiss F.
Durante o período entre-guerras, a Marinha procurou fortalecer sua aviação, contando inclusive com a fabricação sob licença de biplanos de treinamento Focke-Wulf Fw-44J Stieglitz e bombardeiros navais Focke-Wulf Fw-58 Weihe. Essas aeronaves foram produzidas na Fábrica do Galeão, em acordo com a Alemanha. Mas logo chegou a Segunda Grande Guerra, e todas as aeronaves e pessoal da Aviação do Exército e da Aviação Naval foram transferidos para a recém-criada Força Aérea Brasileira.
Após a guerra, ficou clara a necessidade de qualquer força naval dispor de seus próprios meios aéreos, tanto de defesa quanto de ataque, e logo a Marinha iniciava a reorganização de aviação. A partir de 1950, a Marinha fez intercâmbios com a US Navy (Marinha dos EUA) e treinamentos com a FAB, em missões com navios e submarinos. Em 1952 foi criada a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), e em 1956 o Centro de Instrução e Adestramento Aero-Naval (CIAAN) sediado na Avenida Brasil, Rio de Janeiro. No final de 1956, a Marinha comprou o porta-aviões britânico HMS Vengeance (lançado em 1945) e logo rebatizado de Navio-Aeródromo Ligeiro (NAel) Minas Gerais. O navio seguiu para o estaleiro holandês Verolme United Shipyards, onde foi completamente reformado. A Inglaterra também vendeu outros porta-aviões, o Arromanches para a França e o porta-aviões Virkant para a Índia. É importante ressaltar que os navios foram modernizados e aperfeiçoados, sendo o Minas Gerais o últimos deles, incorporando os melhores sistemas. O Minas Gerais, após a finalização da reforma, tinha a chegada prevista no Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1960, mas como o presidente recém-eleito Jânio Quadros não queria que o navio entrasse no Rio de Janeiro antes de sua posse em 31 de janeiro, o Minas Gerais teve que fazer várias escalas até chegar no Rio de Janeiro em 2 de fevereiro. Já a partir da aquisição do NAeL, iniciava-se uma disputa com a FAB, o que após a chegada do Minas Gerais fez com que iniciasse o rompimento da boa relação que existia entre a Marinha e a Força Aérea. Alguns fatos foram as principais causas desse início: a igual qualificação de militares das duas forças, capazes de ocupar os mesmos cargos e funções; e antes mesmo do término da reforma do Minas Gerais ficar concluída, a FAB criou o 1o Grupo de Aviação Embarcada - 1o GAE -, cuja missão era missões anti-submarino a partir do NAeL Minas Gerais, e recebendo aeronaves as para uso embarcado Grumman S-2A/E Tracker em 1961.

"Guerra" com a FAB

O já empossado presidente Jânio Quadros queira assistir a uma demonstração dos Tracker da FAB, realizando pousos no Minas Gerais, sem nunca a FAB ter pousado alguma de suas aeronaves no porta-aviões. Uma lancha levou na véspera da data marcada todo o pessoal da FAB para o navio, mas no dia seguinte, de surpresa, foi recebida a notícia da renúncia de Jânio Quadros, o que provocou o cancelamento da demonstração e a retirada de todo o pessoal da FAB no navio. Em 1966 foi transferido o Centro de Instrução e Adestramento Aero-Naval (CIAAN) da Avenida Brasil para a recém-criada Base Aero-Naval de São Pedro d'Aldeia (BAeNSPA), curiosamente o trabalho de transferência de material e de pessoal sendo realizado à noite, tudo para evitar o reconhecimento aéreo que vinha sendo feito diariamente pela FAB.
Na verdade a Marinha estava em processo de ampliação de instalações e de seus meios aéreos, à revelia da FAB. As primeiras aeronaves próprias da Aviação Naval desde sua desativação em 20 de janeiro de 1941 foram dois helicópteros de fabricação britânica Westland WS-51 Widgeon Mk.2 e em 1962 foi colocado em operação o primeiro esquadrão próprio, o 1o Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-1), composto de três helicópteros Westland WS-55 Whirlwind que vieram junto com o Minas Gerais. Também outras aeronaves vieram a fazer parte, nessa época, da Aviação Naval, entre eles três bombardeiros navais General Motors TBM-3 Avenger (também vieram junto com o Minas Gerais, mas apenas para treinamento de tripulação e de manobra no convés, hangaragem e acomodação, foram colocados em condições de vôo por um grupo da US Navy e pessoal da Marinha durante a viagem de vinda para o Brasil, acabando por operar a partir do solo) e seis aviões de treinamento de fabricação suíça Pilatus PC-3-04, que vieram no início de 1963 desmontados em contâiners no navio-transporte G-16 Barroso Pereira. Aliás, os Pilatus foram protagonistas de vários episódios.
Os Pilatus foram levados até o CIAAN, na Avenida Brasil e lá montados em completo segredo, mas a lá não havia pista de decolagem, o que levou a Marinha a iniciar a construção de uma pista, mas disfarçando as taxiways como ruas e a pista como uma avenida, conseguindo com que a FAB não soubesse nem identificasse que lá havia uma pista! Após os aviões estarem montados e aptos para o vôo, foram transladados em vôo para a BAeNSPA antes do nascer do sol, conseguindo que o pessoal da aeronáutica também não tivesse conhecimento do translado. A FAB só conseguiu descobrir os Pilatus em meados de 1963, quando um T-6 Texan em missão de reconhecimento foi interceptado quando passava pela base por um Pilatus, que simulando um dogfight não teve dificuldade em se colocar nas "seis horas" do antigo T-6.
Logo após esse acontecimento, um piloto da FAB tirou fotografias da BAeNSPA que logo foram distribuídas ao público, a FAB afirmando que a Marinha estaria realizando "atividades clandestinas". O que se segui foi quase o início de um confronto geral armado, com aeronaves da FAB que sobrevoavam a BAeNSPA sendo recebidas à bala pela artilharia anti-aéreas, o que fez com que o presidente João Goulart paralisasse todas as atividades da Marinha e da FAB por 60 dias. Apesar dos problemas, a Marinha continuou seu processo de aumento de seu poderio aéreo, agora seria a escolha de qual aeronave iria operar a bordo do Minas Gerais, sendo o North American T-28 R1 Trojan o escolhido, em um lote de seis aeronaves. Apesar da pressão exercida pela FAB pela não-liberação, a Marinha conseguiu a liberação das aeronaves. Os Trojan foram montados dentro do Minas Gerais e a Marinha criou o 1o Esquadrão de Aviões Anti-Submarino (depois renomeado 1o Esquadrão Misto de Aviões Anti-Submarino e de Ataque) para operá-los, e foram os Trojans os primeiros aviões a pousarem no Minas Gerais.
O episódio que desencadeou a proibição da operação de aeronaves de asas fixas pela Marinha foi quando o Minas Gerais entrou na Baía de Guanabara com seu pessoal e aeronaves perfilados no convés de vôo, traduzindo o orgulho da Aviação Naval, o que foi recebido como provocação explícita pela Força Aérea. O que se seguiu foi a FAB impedindo qualquer aeronave da Marinha de utilizar pistas de pouso ou qualquer instalação aeroportuária controlada pela Aeronáutica, vetando até mesmo o reabastecimento. Isso fez com que a Marinha procurasse outros meios de apoio para suas aeronaves.
A situação era realmente tensa, atingindo seu limite quando um helicóptero da Marinha pousou numa estação de navegação ( que era controlado pela companhia aérea Cruzeiro do Sul, que era bastante ligada à Marinha, dando constante apoio as aeronaves da mesma) para reabastecimento e seus tripulantes foram surpreendidos por uma tropa da FAB que acabara de dar ordem de prisão. Os aviadores negaram-se a acatar a ordem de prisão e decolaram a aeronave, que recebeu uma rajada de metralhadora na cauda, obrigando o piloto a fazer um pouso de emergência. Com a gravidade do episódio e o movimento militar que há pouco tinha deposto o presidente João Goulart, o então presidente Castello Branco tomou uma decisão que acabasse com a disputa entre as duas corporações. Em 26 de janeiro de 1965, Castello Branco assinou o Decreto 55.627, que definia que a exclusivamente a FAB operaria com todas as aeronaves de asas fixas, dando liberdade à Marinha do Brasil de operar com aeronaves de asas rotativas. No mesmo ano, os Tracker finalmente iniciaram suas operações no Minas Gerais, só sendo retirado de serviço em 1996 - 31 anos -, assim como a unidade.
Apesar de impossibilitada de operar aeronaves de asas fixas, a Marinha sempre buscou operar aeronaves eficientes e modernas. Contando hoje com cerca de 103 aeronaves (incluindo os Skyhwaks), a Marinha do Brasil possui uma frota de helicópteros modernas, bem equipadas e armadas, sempre demonstrando suas qualidades em exercícios com outras marinhas. Um dos maiores exemplos é o Westland Super Lynx, um dos mais modernos e eficientes helicóptero para ataque anti-superfície do mundo.

A Marinha volta a operar asas fixas

Em 8 de abril de 1998, o Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o Decreto 2.538, que revoga o Decreto 55.627 e determinando que a Marinha do Brasil passaria a dispor de aviões e helicópteros destinados ao guarnecimento dos navios de superfície, além de aeronaves asas rotativas em geral. No mesmo ano, a Marinha fechava a compra dos McDonnell Douglas A-4KU Skyhawk, pertecentes ao Kuwait, aqui designados AF-1 na versão monoplace e AF-1A na versão biplace, a nomenclatura seguindo a já adotada pela marinha. A chegada dos Skyhawks abre novas possibilidades para a Aviação Naval, sendo que a principal é a de dispor de seus próprios meios de defesa da frota, notadamente nas interceptações à aeronaves inimigas e também ao retorno das operações com
aeronaves de asas fixas embarcadas. Já se comenta na Marinha a necessidade de aviões de alerta aéreo antecipado (AWACS) para o incrementar a capacidade de interceptação dos próprios Skyhawks na detecção de aeronaves inimigas. Com o início de operação do NAe São Paulo, ex-Foch comprado à Marinha francesa, de maiores dimensões quando comparado ao Minas, o São Paulo pode operar com aeronaves de até 20.000kg e com engate na bequilha, já que o navio serviu para os testes de pouso e de catapultagem do Rafale-M, possibilitando a Marinha do Brasil adquirir, no futuro, aeronaves mais modernas que os Skyhawk.


MAIS HISTÓRIAS DO 1º/14º GRUPO DE AVIAÇÃO


Hoje eu estou seriamente convencido de que os aviadores são as pessoas que vivem as experiências mais marcantes que a vida pode oferecer a um ser humano. À medida que o tempo vai nos consumindo na senda da vida a lembrança dos fatos mais remotos aos poucos se desvanece, exceto aqueles que foram suficientemente fortes para mudar a nossa visão sobre nós mesmos ou sobre o mundo, por isso ainda somos capazes de lembrar alguns acontecimentos da nossa infância e muitas vezes não lembramos o nome e nem de onde conhecemos certas pessoas.
Mais do que conhecermos a nós mesmos, expomos aos outros aspectos do nosso caráter que em situação normal eles não seriam notados e descobrimos facetas dos companheiros, com os quais compartilhamos momentos de extremo risco, que, normalmente, servem para aprofundar a amizade e o espírito de corpo que já nos unia.
Por isso o acontecimento que vou relatar, vivido pelo Villaça (Comandante do 1o/14o Grupo de Aviação), Potengy (Comandante do 1o Grupo de Aviação Caça - Gp.Av.Ca.), Peixe Lima, Aymone, Louzada e eu pode ser lembrado depois de já terem se passado mais de 20 anos.
Uma pista de mais de 2.000 metros de asfalto e construída nas remotas entranhas da selva amazônica representava uma façanha arrojada e inédita naquela época e significava também um marco estratégico, tanto sob o aspecto de defesa, como de integração nacional. O governo federal estava implantando o Projeto Calha Norte com tamanho empenho que a inauguração da pista de Uaupés (hoje São Gabriel da Cachoeira) seria realizada com a presença do Presidente da República e uma grande comitiva de ministros.
A Força Aérea Brasileira tivera uma participação marcante naquele empreendimento, pois a pista fora construída pela Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (COMARA) além de ter contado com intensa participação de diversos outros segmentos, como o PARA-SAR(1) e a Aviação de Transporte. Por isso, o Ministro da Aeronáutica determinou ao Comando Geral do Ar (COMGAR) que a Aviação de Caça deveria escoltar o avião do Presidente na chegada para a inauguração e deveria realizar uma missão de cunho operacional a partir de São Gabriel para demonstrar a importância militar daquela pista.
No acolhimento da determinação superior o Comando Aerotático (COMAT) estabeleceu que uma Esquadrilha de F-5E (na época os caças mais modernos da FAB) realizaria a missão e ordenou ao Gp.Av.Ca. participar com três aeronaves e o 1o/14o G.Av. com três. Assim o Villaça e o Potengy passaram a trocar idéias para o planejamento da missão e estabeleceram que todos se reuniriam em Santa Cruz na véspera do deslocamento para que se realizasse um apronto final para acerto de todos os detalhes.
No dia 2 de setembro pela manhã decolamos de Canoas, o Villaça no F-5E no 4830(2) , o Louzada no F-5E no 4834 e eu no F-5E no 4828 e uma hora e vinte depois estávamos pousando em Santa Cruz. À tarde nos reunimos para acertar detalhes sobre a missão e ficou combinado de ser realizada da seguinte maneira: decolaríamos no dia seguinte, 3 de setembro de 1981, para Manaus, onde pernoitaríamos para realizar a interceptação do avião presidencial que vinha de Brasília no dia 4, e o escoltaríamos até Uaupés.
Após o pouso os aviões seriam reabastecidos e realizaríamos uma missão de reconhecimento armado a baixa altura, ao longo do Rio Negro, até Cucuí, retornaríamos à Uapés para, no dia seguinte decolarmos de volta para casa. O Villaça, o Louzada e eu para Canoas e o Potengy, o Peixe Lima e o Aymone para Santa Cruz. Sendo que o Aymone e o Louzada viriam de Manaus onde deveriam permanecer como reserva o tempo todo, para se reunir a nós no primeiro POCRE(3) do regresso que seria a 100 milhas náuticas(4) antes de Cachimbo.
Conforme combinado no dia três de setembro decolamos de Santa Cruz com os seis aviões. Essa primeira etapa do deslocamento de ida transcorreu sem nenhuma alteração, com um REVO(5) um pouco ao norte de Anápolis. Depois de quatro horas de vôo e de "bailarmos" com os urubus no tráfego pousamos sem maiores sobressaltos na aeródromo de Ponta Pelada em Manaus.
Tivemos momentos de relaxamento e um bom descanso para, no dia seguinte acordarmos bem cedo e prepararmos as aeronaves para a interceptação do "Boeing" Presidencial.
No dia 4 de setembro decolamos com o Potengy como líder (Ás), o Villaça como número dois, eu como número três e o Peixe Lima como número quatro. Nos posicionamos em linha de frente a cem milhas ao sul de Manaus, num ponto sobre a rota prevista do avião do Presidente e iniciamos a busca visual e radar para avistarmos a aeronave.
Não demorou muito e já a tínhamos no campo visual e a interceptação foi realizada com sucesso. Realizamos a escolta com duas aeronaves de cada lado e a acompanhamos até próximo o aeródromo de Uaupés. Não pudemos realizar uma passagem baixa sobre a pista na "ala" do "Boeing" por causa das formações de nuvens que se encontravam na área. Mas, após o avião do Presidente acusar no solo e nos informar sobre as condições favoráveis da meteorologia, "furamos" a camada de nuvens e realizamos diversas passagens baixas sobre a pista e a pequena localidade e pousamos individualmente depois de duas horas de vôo.
Após o pouso entramos em forma para o Villaça fazer a apresentação dos componetes da esquadrilha às autoridades presentes.
Depois das formalidades previstas para a chegada, os aviões foram reabastecidos com combustível bombeado diretamente da aeronave C-130 no solo. Esta operação também inédita, pois nunca antes havia sido testada no Brasil.
Na parte da tarde decolamos para realizar o reconhecimento. Adotamos a formatura de procura(6) e prosseguimos em vôo rasante, ao longo do Rio Negro até Cacuí. De lá seguimos até as proximidades do Pico da Neblina e tivemos a oportunidade de ter uma visão deslumbrante daquele importante ponto geográfico do Brasil. A cachoeira que se precipitava do alto daquela cordilheira com mais de 3.000 metros de altura dava a impressão que caia do céu. Demos algumas voltas sobre o local magnetizados por aquela beleza e retornamos a Uaupés impressionados com a grandiosidade daquela região. Na chegada fizemos algumas evoluções sobre o aeródromo e pousamos.
O resto daquele dia foi para descanso e preparação para a viagem de regresso que era, de fato, o maior desafio de todos aqueles eventos, pois enquanto o Potengy, o Peixe Lima e o Aymone que havia ficado como reserva em Manaus, iriam direto para Santa Cruz, nós, o Villaça, o Louzada e eu, iríamos direto para Canoas. Mas seguiríamos juntos até a vertical de Anápolis, onde realizaríamos o último REVO(5).
No dia 5 de setembro de 1981 acordamos ouvindo o forte ruído da selva e com um certo grau de apreensão, pois iríamos realizar um deslocamento inédito sobre praticamente toda a extensão do território brasileiro no sentido norte/sul.
E, o que é mais importante, com REVO sobre a selva amazônica, sem alternativa e sem reabastecedor reserva. Realmente não poderíamos falhar! Tudo tinha que dar certo! - Mas esse foi um pensamento que passou rapidamente por nossas cabeças, pois em seguida estávamos envolvidos com os afazeres do vôo, e começamos logo a pensar, seqüencialmente, em cada passo das nossas atividades.
A esquadrilha decolou cedo tendo como líder o Peixe Lima, como número dois o Potengy, eu, Delano, como número três, e o Villaça como número quatro. Foi uma decolagem longa e individual, pois estávamos com combustível até nos "bolsos". Não houve nenhuma "firula"(7) sobre o aeródromo para não gastarmos combustível. Fomos subindo em linha de frente(8) até o nível de cruzeiro e assim prosseguimos até o primeiro REVO(5) que ocorreria mais ou menos a cem milhas ao norte de Cachimbo.
O Aymone e o Louzada decolaram de Manaus de forma a chegarem ao POCRE(3) cinco minutos depois da nossa esquadrilha que estava indo de Uaupés. Até as proximidades do POCRE foi um vôo tranqüilo sobre o manto verde da selva amazônica que mais parecia o mar. Aí começaram as emoções!
Estávamos em formatura de linha de frente e à proporção que nos aproximávamos do POCRE os nossos olhos foram ficando bem "arregalados", como se aquilo fosse um recurso para aumentar a nossa percepção e conseguirmos ver o mais remoto ponto, naquele imenso céu azul e que não fosse uma mancha no "canopy"(9). Já havíamos feito contato rádio com o "Barão" (código do C-130 reabastecedor), mas ainda não tínhamos nem no radar e nem no nosso campo visual.
Quanto mais passava o tempo sem que nada conseguíssemos ver, mais ia aumentando a nossa ansiedade e a freqüência dos cheques de "contacorrente"(10) do Líder da Esquadrilha, o Peixe Lima, e cada vez mais angustiada era a resposta do número quatro, o Villaça que estava com o nível mais baixo de combustível. Estávamos em contato rádio também com o Aymone que vinha de Manaus e ele disse que já "estava" com o "Barão" no radar.
Em seguida o "Barão" acusou que havia nos plotado no radar e passou a dar diretivas VHF-DF(11) para nos facilitar a visualização e dizia que estava bem próximo e nós já deveríamos tê-lo no campo visual. Essa afirmação aumentava a nossa angustia e não entendíamos como é que não estávamos conseguindo visualizá-lo, pois mantinhamo-nos em formatura bem aberta e haviam oito olhos "desesperados" se esforçando para encontrá-lo!
O primeiro a acusar que estava com a "luz da bruxa" acesa foi o Villaça, em seguida, eu, que o número três e depois o Potengy. Daí em diante fez-se um silêncio que produziu uma "dilatação" angustiante do tempo e cada um fazia os seus planos para o pior.
A melhor opção que ocorreu a todos foi de prosseguir voando na direção de Cachimbo e esperar que o combustível acabasse o mais próximo possível de lá para facilitar as buscas no caso de ser necessário uma ejeção. Até que chegou um momento em que o "Barão" disse que nós já deveríamos tê-lo ultrapassado. Quase que imediatamente o Peixe Lima gritou "visual!" e comandou uma curva de 90o à esquerda para o Barão. Aí foi um salve-se quem puder! De repente o C-130 estava passando quase sobre nós. Cada um manobrou como pode, fazendo a acrobacia necessária para se posicionar imediatamente atrás do reabastecedor.
Foi como se um bando de beija-flores voasse em busca do néctar de uma mesma flor! O "Ás" e eu chegamos primeiro e fomos direto para o "pré-contato"(12) . Deu para ouvir o suspiro de alívio quando engatamos e o "Barão" informou "transferência iniciada".
Enquanto isso, o Villaça e o Potengy estavam "vesgos" na posição de observação, com um olho na asa do C-130 e outro no liquidômetro esperando a hora dele zerar, pois a "luz da bruxa"(13) já estava acesa havia muito tempo. O Peixe então solicitou 1000 lb. apenas, o suficiente para nos tirar do sufoco e darmos logo a vez para o Villaça e Potengy, estes já quase sem combustível.
Desconectamos mesmo sem ter completado os tanques, e fomos para a posição de observação, dando lugar para os dois. O Villaça foi para o pré-contato... e aí começou a "briga". A ansiedade e a forte emoção de um iminente apagamento perturbaram o Villaça, pois ele não conseguia conectar, e começou a "brigar" com a mangueira.
Sobe... desce... passa... bate... volta... bangorna... pára... começa de novo... ufa... ufa!
A emoção tomava conta de todos, pois cada minuto que passava significava menos chance de errar.
Foi quando o Peixe falou: "Villaça, calma! Faz no padrão! Pára, volta para o pré-contato e, devagar, começa de novo sem pressa".
E foi isso que ele fez, enquanto todos pensavam, mas não falavam: "Calma...Calma". Quando ele conectou e o "Barão" informou "iniciando a transferência" foi um "ufa" geral. Aí ele gostou e não queria sair mais. Teve que outro gritar: "sai...sai, que eu vou apagar".
Quando todos completaram o abastecimento fez-se um silêncio "ensurdercedor" novamente. Nos sentíamos revigorados, mas as pernas começaram a querer tremer.
O Aymone e o Louzada que assistiram tudo de "camarote" estavam agora reabastecendo tranqüilamente enquanto aguardávamos para prosseguirmos, aí com os seis aviões, até a vertical de Anápolis para o último reabastecimento antes de voltarmos para casa.
O segundo reabastecimento foi tranqüilo com o céu claro e com Anápolis "no visual".
O Potengy, o Peixe Lima e o Aymone prosseguiram para Santa Cruz e a Esquadrilha Pampa se reorganizou, comigo na liderança, e voamos em "céu de brigadeiro" até Canoas, onde pousamos depois de termos voado 4.278 Km em cinco horas e dez minutos ininterruptamente.
Quando saímos do avião a única coisa que nos fazia lembrar que o vôo tinha sido tão longo era a pequena dificuldade que tivemos para esticar as pernas, no mais parecia que havíamos feito um vôo local.
Até a garrafa vazia que havíamos levado para o "xixi" não foi lembrada... não deu tempo! Assim foi realizado o vôo de F-5E de maior duração até aquela data. A recepção foi com banda de música e até ganhamos um "monumento" que era uma pedra com uma placa de bronze registrando o feito que foi "plantada" no jardim do prédio do Comando da Base.
Deve estar lá até hoje, ainda que, certamente, essa marca já tenha sido ultrapassada.
Depois discutimos o que poderia ter acontecido e que fez com que tivesse ocorrido naquele desencontro no primeiro POCRE que tinha nos causado tanta emoção. Imaginamos que como a rota da esquadrilha era convergente com a dos aviões do Aymone e do Louzada que vinham de Manaus, defasados somente cinco minutos, tivessem levado o "Barão" a interpretar o plote radar desses aviões como sendo o da esquadrilha e manobrado para que nós pudéssemos visualizá-lo melhor, afastando-se, assim, do POCRE. Mas isso não era relevante diante da certeza que tínhamos de que ninguém poderia imaginar a emoção que havíamos vivido.
O tempo foi passando e aos poucos fomos nos dando conta da magnitude da façanha que tivemos a oportunidade de realizar e do tamanho do nosso país. Até onde poderíamos conduzir aquela máquina se fosse numa missão de combate real...
Coincidentemente, um mês depois fui escalado para fazer uma viagem à Inglaterra e tivemos a oportunidade de visitar um Esquadrão de Reconhecimento da "Royal Air Force"(14) que recém estava recebendo os aviões Tornado. No brifim que recebemos do Comandante do Esquadrão sobre a Unidade ele se jactava de uma missão que eles tinham realizado há pouco tempo, que foi um vôo sem escalas para a Grécia com cinco horas de duração e que haviam sobrevoado, ao todo, coisa em torno de treze países.
No "coffe break"(15) ele continuou a falar na tal missão e acabou por perguntar se nós tínhamos essa capacidade, ao que respondemos que infelizmente não tínhamos um avião como o Tornado, mas que realizávamos vôo semelhante só que, felizmente, sobrevoando um único país em linha reta.


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - PARA-SAR = Esquadrão de Busca e Salvamento (Search And Rescue) que é especializado no uso de PARAquedas para chegar ao local de salvamento.
(2) - F-5E no 4030 = Os aviões da FAB são identificados da seguinte maneira: pela missão principal ("F"= avião de Caça); pelo numeral correspondente à sua "ordem" de entrada em serviço ("5"= quinto Caça); pelo modelo ("E"= quinto modelo do mesmo do Caça, "A" é o primeiro modelo...)e; pelo número de registro que é sempre de quatro algarismos (no "4030").
(3) - POCRE = POnto de Controle do REabastecimento (ponto de encontro entre os caças e o avião reabastecedor).
(4) - "milhas náuticas" = ou "milhas marítimas", usa-se também a sigla "mima" equivale a 1.852 metros (100 mima = 185 km).
(5) - REVO = REabastecimento em VÔo
(6) - "formatura de procura" = formação em que os aviões ficam bem afastadas uns dos outros de maneira que os pilotos possam observar todo o espaço aéreo sem ter a preocupação de manter uma posição rígida dentro da esquadrilha (que está diferenciada em altura e mais ou menos em forma de "<").
(7) - "firula" = gíria antiga que significa: "se exibir desnecessariamente..."
(8) - "linha de frente" = formação dos aviões, onde um fica ao lado do outro (em linha).
(9) - "Canopy" = ou "canopi", capota da cabine dos aviões de caça.
(10) - "conta corrente" = significa a quantidade de combustível ainda existe no avião (saldo).
(11) - VHF-DF = equipamento que contém um ponteiro indicador, que dá a "direção" de uma transmissão de rádio em ondas de "muito alta frequência" ("Vey High Frequency - Direction Finder").
(12) - "pré-contato" = posiçao do avião próxima à cesta da ponta da mangueira de combustível do avião reabastecedor.
(13) - "luz da bruxa" = luz, normalmente vermelha, que acende quando o combutível está próximo da acabar.
(14) - RAF = "Royal Air Force", Força Aérea Inglesa
(15) - "coffee break" = intervalo para o café (inglês)

Brig. Ar R.R. Delano Teixeira Menezes
Piloto de Caça

POUSO DE UM F-103, MIRAGE, COM O MOTOR APAGADO


Esta história começou a ser redigida em 1984, um pouco antes da ocorrência do incidente, a pedido de um companheiro, que desejava vê-la publicada em uma revista aeronáutica, como um meio de dar divulgação à comunidade aeronáutica, desse feito raro na história da aviação.
Começou, porque pensando melhor sobre o assunto, conclui que não seria oportuna a publicação naquela época, tão próxima do fato, que, se agradou a grande maioria, também causou reação adversa por parte de alguns poucos.
Passados quatorze anos, qualquer pudor em relatar o fato torna-se de todo dispensável, servindo, agora sim, para entretenimento e, quem sabe, de algum proveito para algum companheiro.
Transcreve-se o texto, como iniciado naqueles idos, com pequenas correções, mais de ortografia, ressaltando que a história é narrada pelo próprio avião, o Mirage no 4924.
Nunca consegui compreender porque fui batizado assim! Está certo, e até compreendo que certas pessoas tenham manias, costumes, desejos, que procuram atender, sem dimensionar os danos que podem causar a seus semelhantes. Assim surgem aqueles nomes estranhos, que tanto vemos, ouvimos dizer, e nos causam espécie, quando não risos.
No meu caso, aqueles que me batizaram tinham por costume dar prenomes idênticos, diferenciando um do outro pelo segundo nome. Como se fosse assim: José Maria, José João, José...
Adotado esse critério, no país do jogo do bicho, tínhamos o Mirage Avestruz, o Mirage Burro, etc, tocando-me, lamentavelmente, o Mirage Viado.
Desde novo fora vítima das maiores gozações. Mas avião não tem como recorrer à justiça pleiteando a mudança de nome, mais apelido que nome, a bem da verdade. Assim, suportava com o maior estoicismo a minha situação.
Mas agora, na minha idade? Quando me sinto velho, cansado, mal suprido durante anos, situação a que eu e meus irmãos sobrevivemos por amor próprio e pelo impagável privilégio de voar.
Cansara-me da gozação e de tão pouca atenção para comigo. Cansara-me. Não via mais futuro. Não tinha mais horizonte. Estava acabado. Eu não suportava mais viver!
Sendo inteligente, pelo menos razoavelmente em termos atuais, à época, arquitetei meu pensamento. Eu sabia que não me deixariam ir simplesmente. Eu era, e sou, voado por pilotos que sabem o que fazem. Mais que isso, eu os amo e me sinto amado por eles. Não poderia causar-lhes dano. Teria que me satisfazer sem feri-los. E eu pensava ter encontrado a fórmula: - criar uma situação tal, que suas próprias normas me façam abandonado à minha sorte.
Por várias vezes ensaiei o procedimento. Cheguei curto de combustível(1) por mais de uma vez, e os pilotos chegavam sempre curto, especialmente nas missões de combate! Mas como nem todos se aperceberam da deficiência que eu vinha criando, a possibilidade de feri-los era tamanha que eu abortava a conclusão. Queria a contribuição dos pilotos para o meu suicídio, mas não matá-los.
Chegou o dia. Eu cansado, minhas mazelas aparentes, e não as viam. Resolvi que chegara a hora. Saí para o vôo com um piloto de razoável experiência, que me queria muito, e, no fundo do meu ser também lhe queria muito bem. Ele por certo não se deixaria machucar pelo meu ato. A missão era das mais propícias. Era uma missão de combate dissimilar, com um AT-26, Xavante.
Como todos sabemos, é fundamental que os pilotos, nesse tipo de missão, tenham o olho pregado em seu opositor e que varram o céu à sua volta para não serem surpreendidos.
Atentos à sua aeronave, sentem-na, muito mais que ficar observando ponteiros e luzes, para os quais, dirigem sua atenção em cheques breves e precisos.

Em decorrência, tudo se tornava mais simples. Bastaria repetir o que eu já havia testado, chegando desta vez até o final. Providenciei para que o detotalizador(2) não deduzisse todo o combustível consumido e não permiti que se acendesse a luz de baixo nível, que convenhamos, é escandalosa. Meu piloto portou-se como era de se esperar. Engajou três combates, ficando sempre próximo a Anápolis, tão próximo que foi alertado pelo controle radar de que saíra da área, adentrando na terminal(3) por mais de uma vez.
Tão próximo estava, que quando visualizou o detotalizador com 200 galões(4) entendeu ser viável fazer mais um engajamento, por mais rapidinho que fosse. Afinal estava cerca de 30 milhas(5) da base. Verdade é que o piloto estranhou o baixo consumo que eu lhe estava apresentando, mas como era a sua primeira missão contra uma aeronave de baixa performance, quis, para minha satisfação, entender que esse baixo consumo era devido à diminuição da arena de combate.
Quando encerrou o combate, fazendo o cheque de praxe, observou que o detotalizador indicava 100 galões, a distância da base de aproximadamente 28 milhas , e , estranhamente, o liquidômetro indicava 16 galões por tanque, ou seja, 32 galões, em tese, o bastante para voar 30 milhas. Imaginou que o liquidômetro estivesse baixo por efeito do último "G" que puxara(6) mas deixa estar que era, de fato, o combustível restante.
Observou a luz de baixo nível, não estava acesa. Acionou o botão que fazia movimentar as agulhas do liquidômetro. Elas não se movimentaram. Surgiu a dúvida quando ao funcionamento do inversor(7) que, logo a seguir, foi desfeita, estava operando.
Concluiu que aquele era o combustível restante e começou a fazer os cálculos de possibilidades. O combustível era, como já dissera, em tese, suficiente para atingir a base, ainda com o motor em funcionamento.
A altitude de 14.000 pés(8) para a distância, não contribuía muito para que o combustível fosse suficiente, apesar de ter entrado em regime econômico, logo no primeiro momento, e de estar, sob o controle do radar, dirigindo-se para a cabeceira mais próxima. Tomou a decisão de preparar-se para um pouso sem motor, mesmo que este ainda estivesse girando, por considerar essa a medida mais segura.
O céu apresentava uma pequena cobertura entre 8.000 e 14.000 pés, e eu não podia contar que ele, o piloto, proficiente em controle radar, fosse tão confiante a ponto de tentar o pouso sob controle cerrado do APP AN(9). Descuidara-me de um detalhe importante, mas estava feito, não havia como voltar atrás.
Penso que o piloto se considerava em vantagem sobre os outros pilotos, por confiar que a sua pequena estatura e pouco peso em muito lhe beneficiavam em caso de ejeção. Confiou-me que se sentia em condições de sair ileso, ainda que se ejetando no palier(10), naquele exato momento em que o afundamento para.
Não permitiu que se acionasse emergência enquanto o motor estava funcionando. Sabia que outros pilotos, na melhor das intenções de ajudar, colocar-se-iam em contato, dando opiniões, quando não fora, uma ordem, para que se ejetara. Somente serviria para tumultuar. Melhor não!
O motor apagou-se a 14 milhas, a 14.000 pés, quando já se encontrava dentro da camada de nuvens.
O Controle lhe pergunta se vai se ejetar, recebendo como resposta, o pedido de orientação e distância para a pista.
Como se perde a "boule", horizonte artificial(11) em forma de um globo, contendo os meridianos que informam os rumos, à época ainda considerado um instrumento preciso e moderno, e que todos os aviões comerciais atualmente, e desde há muito, possuem muito mais modernos e precisos, o piloto fica compulsado a voar pelos instrumentos de emergência.
Não sendo estes agrupados, cria-se uma dificuldade adicional para o piloto, que tem de verificar seu rumo na esquerda superior do painel, sua atitude na direita inferior, velocidade um pouco acima etc.
Confesso que hesitei nesse momento. Voando dentro de nuvens, ainda que leves, o piloto poderia desorientar-se, entrar em atitude anormal, vindo a falecer, o que eu absolutamente não desejava.
Aguardei para verificar como se portava. Se não correspondesse ao conceito que tinha dele, prosseguiria no meu plano, mesmo tendo que admitir essa ocorrência imprevista e indesejada. O piloto correspondeu às minhas expectativas, embora, como era de se prever, tenha um pouco a acostumar-se ao cheque cruzado dos equipamentos, que convenhamos, estão pessimamente distribuídos. Essa, é mais uma das minhas deficiências que espero ver solucionada.
Nesse sentido, pareceu-me até divertido que, quando perguntado por sua altitude, respondeu, com uma franqueza invejável: - "deixa ver, nem sei que altitude estou cruzando".
Resolvi, uma vez mais, desistir de meu suicídio, não queria mais meu pensamento, enfrentaria tudo: é uma boa causa. Tornei-me, pois, o mais cooperativo possível. Nós iríamos pousar. Ele sabia como fazê-lo, havia treinado, apesar das condições não muito favoráveis, para não dizermos desfavoráveis, o seu conhecimento de mim e de controle radar iria nos possibilitar essa façanha.
O Controle Anápolis, TABA(12), não se ofendeu em ser chamado, durante toda a nossa descida, de THOR(13), isto era de menos. Tampouco tinha, de início, consciência da situação inusitada por que todos os três iríamos passar.
Ao primeiro contato, a primeira instrução de TABA foi para que iniciássemos a descida para 5.200 pés, no que não foi atendido, recebendo em resposta o pedido de confirmação de distância.

Transcreve-se:

-"Anápolis, estabilize pela esquerda 150° , descida econômica para 5.200 pés"
-"O THOR, eu tenho quantas milhas?"
-"20 milhas"
-"É muito para iniciar a descida no momento. Okapa?(14)"
-"OK. Informe sua altitude"
-"Eu estou agora na proa 150o , nível 130(15), minha conta corrente(16) deve ser ... ínfima"
-"OK..."
-"Eu estou 00(17), confirme"
-"OK. Mantenha a proa, está na proa da inicial pista 24(18), para pouso direto, confirme?"
-"Afirmativo, do jeito que der eu entro."
-"OK"
-"Confirme se deseja acionamento de emergência?"
-"Ainda não apagou"

Lapso de tempo, em que entra o "Branco Dois"(19) e recebe instruções para manter-se afastado, voando em segurança.

-"O Branco Uno, agora 13 milhas"
-"OK. Vou manter este nível só um pouquinho mais, OK?"
-"OK. Informaremos quando cruzar a décima (milha)"
-"Ciente"
-"Tá livre a pista prá mim né THOR"
-"OK. TABA está com pista livre, temos um vento de 9º com meia dúzia, faça curva à direita, estabilize 170° "
-"Direita 170°"
-"Será vetorado para uma final para a pista 24"
-"OK companheiro, o motor acaba de apagar, eu estou 00"
-"OK, acionado emergência, plotado, informe para a ejeção?"
-"Negativo. Qual a minha distância?"
-"OK. 8 milhas"
-"8 milhas. (com interferência) tenta o alinhamento pra mim"
-"Afirmativo, mantenha a presente proa"
-"Mantendo"
-"8 milhas. (com interferência) tenta o alinhamento pra mim"
-"Afirmativo, mantenha a presente proa"
-"Mantendo"
-"OK. Motor cortado"
-"Avise caso vá fazer a ejeção. Estamos na escuta"
-"Ciente. Estou agora, cruzando, não sei nem que nível, cruzando 13 mil(20) "
-"OK. Está fazendo curva a direita, deveria manter proa para encaixar na final"
-"OK. Estou curvando pela esquerda, me pare aí, que estou com bússola de emergência".
-"OK"
-"Inicie uma curva leve á esquerda"
-"Iniciando"
-"Qual minha distância no momento?"
-"OK. Pare a curva agora"
-"Parado"
-"5 milhas"
-"5 milhas! Vou baixar meu trem".
-"OK"
-"Daqui um pouquinho"
-"OK"
-"Curva a direita"
-"Direita"
-"Direita Top(21) ".
-"OK, estou indo para a direita"
-"Prossiga fechando mais à direita"
-"Fechando, estou cruzando, que nível agora?, estou cruzando 9 mil"
-"Fechando à direita, está a 4 milhas, entrando no alinhamento agora".
-"OK. Manda eu parar a curva!"
-"Pare!"
-"Parada!"
-"A quatro milhas?"
-"Três agora, fechando mais à direita"
-"Mais à direita, trem em baixo"
-"OK. Está avistando?"
-"Afirmativo!"
-"OK. Assuma a navegação"
-"Assumindo a navegação, prepare
-"Assumindo a navegação, prepare a barreira(22) "
-"OK"

Não se fala mais.
Aí, éramos eu e meu piloto. Ambos com um visual fantástico, embora não de todo diverso daquele que víamos durante o treinamento do tráfego simulado, tínhamos algo de marcante, algo de novo.
Dispensável recordar que, desde a vigésima milha, voávamos por instrumento. Certo que era leve, mas impedia totalmente a visão com o solo, com a Base, e por conseqüência, não tínhamos como avaliar a nossa distância e o nosso alinhamento com a pista.
O Controle radar fora perfeito, mas não impediu de chegarmos um pouco altos e desalinhados com a pista. Aí residia o fato novo, diferente dos treinamentos que efetuávamos. Não sabemos dizer, com segurança, se esse desalinhamento auxiliou-nos ou não, embora nos pareça que a visão desalinhada com a pista permitiu-nos uma melhor noção do afundamento, permitindo-nos um arredondamento(23) perfeito.
Nos conhecíamos bastante, sabíamos do meu imenso afundamento, assim, o fato de estarmos altos, não representava maiores problemas. De mais a mais, já conhecíamos a barreira, e, não restava nenhuma dúvida de que nos seguraria, apesar de termos tocado no meio da pista e chegarmos a ela, se não nos falha a memória, próximos dos 160 Kt(24) .
Estávamos salvos. Meu piloto e eu.
Decidi-me por continuar existindo. Apesar dos pesares, do nome e das gozações, dos problemas de manutenção e de suprimento, voar, com estes pilotos, ainda enobrece e dignifica a qualquer avião.
Até hoje, passados estes 14 anos, continuam me gozando, mas reconhecem, embora bem mais velho, dei exemplos de perseverança, mantive-me disponível como poucos, e já tive a honra de ser considerado o melhor avião do Grupo.

A la chasse!

Bordel!

Contada a história pelo FAB 4924, resta-me, como instrumento desse desejo manifesto pela máquina, retratar o que se passou com o piloto, que escreve estas linhas.
Embora tenha recebido o reconhecimento de Altas Autoridades da Aeronáutica, imerecido, o afirmo com convicção e sem falsa modéstia, porque, se não fosse viável, realizável, e com margem de segurança que, com meus conhecimentos e experiência, não me parecesse suficiente, nunca o teria feito.
Recebi também, e também imerecidamente, a oposição de alguns.
Houvera recebida, e aceito, convite para outra organização, que muito somaria aos meus conhecimentos e onde muito poderia contribuir para o controle de tráfego militar e as comunicações militares, operacionais e administrativas.
Assim, abandonei o sonho do jovem Cadete e Aspirante, que só é pertinente a Cadete e Aspirante, que era o de poder ficar até meus últimos dias montado em máquinas como o Mirage, para dedicar-me a outras áreas que, embora sem o mesmo sabor, sem o mesmo sal, sem a mesma satisfação, contribuíram para melhorias na operacionalidade da Aviação de Caça.
Dar-me-ia por feliz se tivesse convicção de que os pilotos, mais e menos experientes, mais ou menos antigos, aproveitaram da história para corrigir deficiências, para auxiliar uma melhor manutenção, para tratar os fatos como eles são, com realismo e isenção, sem vaidades, sem orgulhos feridos, preservando o espírito imorredouro da Caça, que eu entendo ser fazer o melhor, sempre o melhor, para a operacionalidade, para a missão, e não para si próprios.
Talvez, para encerrar, fosse admissível transcrever frase da lavra do Excelentíssimo Sr. Ten. Brig. Fernando de Assis Martins Costa: "Os nossos oficiais superiores deveriam ler mais nossas publicações técnicas e menos o tico-tico(25)".


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) - "curto de combustível" = o mesmo que "com pouco combustível".
(2) - Detotalizador = instrumento que mostra digitalmente, quantidade restante de combustível no tanque (similar a um odômetro de carro).
(3) - Terminal = Área Terminal de Controle de Tráfego Aéreo (espaço restrito às operações de descida e subida das aeronaves em geral).
(4) - 200 Galões = aprox. 760 litros (1 gal = 3,785 lt).
(5) - 30 milhas = aprox. 56 km (1 milha náutica = 1,852 km).
(6) - "puxar G" = fazer curvas apertadas, gerando acelerações anormais.
(7) - inversor = equipamento elétrico que converte corrente contínua em corrente alternada para utilização de alguns instrumentos.
(8) - 14.000 pés = aprox. 4.270 metros (1 pé = 30,48 cm).
(9) - APP AN = Controle de Aproximação de Anápolis.
(10) - "palier" = parte da operação de pouso em que o avião fica paralelo ao solo antes do toque na pista (francês).
(11) - "boule" = instrumento que indica a posição do avião em relação à linha do horizonte (francês).
(12) - TABA = nome código da torre de controle da Base Aérea de Anápolis.
(13) - THOR = nome código do controle de operações militares de defesa aérea.
(14) - "Okapa" = OK.
(15) - nível = corresponde à altitude em centenas de pés. No caso, nível 130 corresponde a 13.000 pés.
(16) - "conta corrente" = significa a quantidade de combustível ainda existe no avião (saldo).
(17) - 00 = estou com "zero" galões de combustível.
(18) - pista 24 = pista de pouso cuja direção magnética é de 240 graus.
(19) - "Branco Dois" = avião número "dois" da esquadrilha "Branca".
(20) - 13 mil = 13 mil pés.
(21) - "top" = o cumprimento das instruções do radar de aproximação de precisão deve ser executado quando seguido da palavra "top" (no caso significa: - "faça curva imediatamente para a direita").
(22) - Barreira = barreira, similar a uma rêde de lona, que é levantada no fim da pista para "segurar" os aviões que tenham problemas de parada antes do término da pista.
(23) - arredondamento = parte da operação de pouso em que o avião troca a atitude de planeio (descida) pelo vôo paralelo ao solo antes do toque na pista.
(24) - 160 kt = aprox. 295 km/h (1 kt = 1 nó = 1,852 km/h)
(25) - "Tico-Tico" = livreto em que são listados os oficiais por ordem de posto e de antiguidade. Nele se pode avaliar quanto tempo falta para a próxima promoção!

Elias Miana
Jaguar 14

ANO DO F-5


Em 1971/72, os T/TF-33 do Grupo de Caça foram distribuídos para Canoas (CO) e Fortaleza (FZ) e o Grupo de Caça ficou com a tarefa de avaliar e qualificar o AT-26 Xavante na FAB. Esta era uma atividade transitória, enquanto uma solução definitiva era implementada, pois a introdução de uma nova aeronave de caça já estava em andamento, com a compra do Mirage e a criação da 1aAla de Defesa Aérea (1o ALADA) em Anápolis.
Enquanto nos divertíamos voando o Xavante em 72, 73 e 74 - bons tempos - cabeças mais antigas e competentes (sic...) decidiam o futuro da caça. Foi assim que, não sei se no final de 72 ou início de 73, compramos o F-5E Tiger II. Como disse, as coisas estavam acontecendo e nós estávamos bem no miolo da encrenca.
No final de 73 e em todo ano 74 o Grupo teve inúmeras tarefas, importantes e urgentes, a executar, dentre elas destacamos:

·Entregar os Xavantes para o 1o/4o em Fortaleza e para o CATRE em Natal;
·Selecionar e aprimorar os conhecimentos em inglês dos pilotos a serem treinados nos Estados Unidos;
·Desenvolver um programa de treinamento para os mecânicos do F-5 B/E;
·Adequar as instalações do Grupo para receber o F-5;
·Planejar a implantação do F-5 na Força Aérea.

Em 1975 deveríamos fazer o translado das aeronaves e iniciar a operação.
O que começou em 1974 como uma adequação das instalações do Grupo no hangar do Zepelin, (1) terminou com uma completa mudança para novas instalações. O hangar do Esquadrão de Suprimento e Manutenção passaria a ser o hangar de manutenção dos F-5. As instalações do Grupo e dos Esquadrões seriam totalmente novas, assim como o Centro de Treinamento e o Suprimento Técnico.
Também foi decidido iniciar-se a adequação da pista de Santa Cruz (SC) para a operação de aeronaves supersônicas. Era sem sombra de dúvida uma necessidade. Até mesmo para o TF-33 a pista, em algumas ocasiões, era pequena. Para a operação do Mirage e do F-5 era realmente necessário um piso mais resistente e muitos metros de pista a mais.
Com todas estas atividades em andamento é fácil imaginar o nível de agitação da rotina diária do Grupo e da Base Aérea de Santa Cruz (BASC). Por estas razões tenho certeza que todos que serviram em Santa Cruz nesse período, e estiveram envolvidos com a implantação do F-5, têm muitas lembranças do ano de 1975.
Em cada atividade em andamento há matéria suficiente para muita estória, certamente se alguém dentre os protagonistas resolver contar, a história do Grupo de Caça e da Caça seria muito enriquecida. Nossa proposta, entretanto, é apenas relembrar os eventos mais coloridos do translado da terceira esquadrilha de F-5E para o Brasil, incluindo os preparativos para a missão.
A terceira esquadrilha de F-5E foi também a primeira esquadrilha de "puros sangue", como nós nos denominávamos.
Tínhamos três tipos de pilotos de F-5 no Grupo, nesta época. Havia os "Willie Boys", ou seja aqueles que haviam concluído o curso completo de transição operacional no 425o "Tactical Fighter Squadron" (TFS) (2) na Base Aérea de Williams no Estado do Arizona. Havia também os "Half Willie Boys" que haviam concluído apenas o treinamento mínimo requerido para o translado do F-5 no 425o TFS e nós, que fomos treinados pelos "Willie Boys" mais um instrutor da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) no Brasil.
Especificamente, o Passos e eu tivemos como instrutor o Captain Kohen, devido a nossa proficiência em inglês. O Capt. Kohen era recém chegado do Vietnã sendo, portanto, instrutor novo de F-5. Tenho certeza que, devido as condições de vôo que nos foram impostas, ele correu tanto risco aqui quanto no Vietnã. Muitas vezes ele deixou transparecer que sabia disso. Por esta razão, meu treinamento e do Passos foi muito bom pois o gringo era "unforgiving". (3)
Queria provar a todo custo que éramos incompetentes como pilotos, pois como "administradores" de uma Força Aérea isto era por demais evidente. Esta disputa entre ele e nós, quase nos matou. Já já eu conto o evento.
Para transformar uma situação complexa num caos total, o Comando Aerotático (COMAT) para os mais novos, tomou uma série de decisões realmente "brilhantes".
Em primeiro lugar, decidiu que todos os pilotos de caça, não importando o Esquadrão de origem e se ia ou não operar o F-5 nos anos vindouros, deveria participar do translado. Esta decisão multiplicou, como diria um matemático, por "n" sendo n>>0 (muito maior que zero) o trabalho com preparação de pilotos no Grupo. Esta preparação incluía curso de inglês, curso de tráfego aéreo internacional, pré-solo, instrumento, formatura de F-5 e etc...
A decisão garantiu que toda esquadrilha fosse composta por um grupo de pilotos inexperientes no F-5E e no tipo de missão. Realmente "an outstanding decision" (sic...) (4) sob o ponto de vista operacional, mas muito "bacana" (pobre Grupo de Caça) pois proporcionou diária fora de sede e passeio para muita gente.
Em segundo lugar, em vez de permitir que o Grupo se deslocasse para Anápolis para executar os vôos de treinamento naquela localidade, uma vez que a pista em SC estava em obras, o COMAT nos obrigou a operar partindo do Galeão. (5) O pessoal do Comando Aerotático não queria depender do Comando de Defesa Aérea (COMDA) para cumprir sua missão.
Para jogar gasolina no fogo e transformar o caos em inferno a Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Vôo (DEPV), hoje Departamento do Controle do Espaço Aéreo (DCEA) baniu o F-5 dos céus do Rio de Janeiro e dificultou, o máximo que pode, a operação no Galeão. Nos foram concedidos "slots" (6) de decolagem e um atraso superior a três minutos cancelava o vôo.
Treinamentos de toque e arremetida e procedimentos por instrumento eram proibidos no Galeão, só nos foi permitido treinar toque e arremetida na "pistinha" de Guaratiguetá (GW) e um procedimento VOR (7) em São José dos Campos.
Estas decisões brilhantes nos custaram dois F-5 e um piloto, como contaremos a seguir e, pasmem, ninguém foi responsabilizado.
Neste campo de batalha começamos as nossas operações para implantar o F-5 na Força Aérea Brasileira. Evidentemente era necessário, antes de mais nada, trazê-los para o Brasil.
Nem tudo era ruim ou negativo no cenário. A melhor parte, posso afirmar com segurança, eram os pilotos envolvidos na operação. Por sorte, acaso ou obra divina, a maioria dos pilotos de caça em atividade no inicio dos anos 70 era de lutadores acostumados com a adversidade.
Muitos tinham realmente lutado para permanecer na caça, quando outros julgaram que o bom senso determinava que o melhor para si e para a carreira era ir voar em outras "aviações". (8) Daí a expressão corriqueira, na época, "desgraça pouca é bobagem, quanto mais encrenca melhor".
Comecei o treinamento do F-5B (9) tendo como instrutor o Capt. Kohen, não me recordo como se escreve corretamente seu nome mas pelo som me parece correto. Como expliquei ele estava recém chegado do seu "tour" no Vietnã onde havia operado o F-4. Sempre que tinha uma oportunidade nos lembrava disso, não sei se o fazia conscientemente com algum objetivo específico além de enriquecer seus argumentos.
Entretanto, com ou sem ilustrações oriundas do sudeste da Ásia, suas observações eram sempre bem acolhidas como tínhamos aprendido a fazer na Academia da Força Aérea (AFA) e no 1o /4o em FZ. Ele próprio havia passado por um período de re-doutrinamento, e isto se refletia claramente no seu extremo rigor com a precisão de pilotagem.
Nada de novo para nós. Especificamente o Zé Mourão e o Catraca (Montgomery) haviam levado a nossa paciência ao extremo no curso de caça pelo fanatismo de ambos pela precisão nas manobras do programa de treinamento.
Uma missão típica incluía a decolagem do Galeão, um procedimento de subida por instrumentos até a vertical de Santa Cruz e deslocamento visual para a área de treinamento sobre Resende e o Sul de Minas. O treinamento de toque e arremetida era feito em Guaratinguetá, finalizando com deslocamento segundo regras de vôo por instrumentos para o Galeão, via procedimento iniciado na vertical de Piraí, para execução da antiga "Descida Hotel". (10)
O pouso poderia ser feito a partir da aproximação ILS (11) ou, se o tráfego permitisse, executando um pilofe (12) para a pista 14. (13) Raramente era necessário arremeter para pouso visual na pista 32, para a qual não havia um procedimento para aproximação por instrumentos.
O tempo de vôo era de 01:20 hr. No pouso final o combustível era normalmente apenas suficiente para uma arremetida visual para um trafego curto. (14) Qualquer perturbação na sequência das manobras causava prejuízo para a missão podendo provocar um pouso final com combustível extremamente curto.
Os vôos de instrução transcorriam normalmente e nós íamos nos adaptando e aprendendo os truques da pilotagem do F-5B. As novidades, além do vôo supersônico, eram as novas preocupações com ângulo de ataque (15) e aprender a conviver com o comportamento típico de aeronaves supersônicas a baixa velocidade e novos termos como "burbs", "buffets" (16) e etc...
A operação em Guaratinguetá apresentava algumas características interessantes, que merecem comentário específico. A pista era, e ainda é, pequena para operação do F-5. Ainda pior para operação de treinamento, mesmo considerando que não havia "novinho" sendo treinado.
A situação era agravada pelos inúmeros obstáculos fixos no terreno e os voadores nas redondezas do aeródromo. Como sempre acontece nas redondezas das nossas Bases, os urubus se concentravam em grande quantidade ao redor da pista, principalmente no trecho da subida para a perna do vento, quando executando um tráfego curto.
Os circuitos eram feitos sempre para a pista no sentido da serra para a cidade, não importando a condição do vento, pois os obstáculos existentes para aproximação final sobre a cidade eram um grande perigo. Assim sendo, várias aproximações e pouso foram feitos com vento de cauda de até 15 nós. (17)
Evidentemente, somente executávamos toque e arremetida; um pouso com parada completa, em qualquer circunstância, estava fora de cogitação. Quando o vento estava forte de cauda o uso do "afterburner" (18) na arremetida era comum.
Passar perto de urubus no circuito de pouso era normal. Certo vôo, após arremetermos subindo para a perna do vento, atropelamos um. O impacto foi logo atras da porta do trem do nariz. Com a fleuma que a situação recomendava relatei ao Kohen: "We've hit a buzzard" (19) e ele retrucou: "It sounded like a 35" (20) fazendo comparação com o calibre da antiaérea usada pelos vietcongs.
Eu percebi o que me pareceu uma esnobada e complementei: "Yeah, it probably does, but it was just a buzzard, one of this black birds around us, and we better go home and have a look". (21)
Julgo o Capt. Kohen como um bom instrutor e acho que tive sorte em ter voado com ele. Um evento interessante oriundo da competição "Gringo x Cucaracha", devido a impressão que eu tinha de que ele sempre estava nos esnobando, agravado pela minha total inabilidade de perder um "round", somado a um pequeno erro de inglês, merece ser contado, pois quase teve consequências graves.
O gringo era exigente, queria um circuito de pouso impecável, como deve ser, diga-se de passagem. Velocidades corretas, inclinações, g's (22) e etc, tudo "by the book" (23) como fazem os pilotos na guerra. Eu não queria deixa-lo pensar que, só por não termos ido à guerra, não faríamos as coisas direito.
Numa certa perna base (24) após um pilofe caprichado ele me disse: "Schittini, push the stick". (25) Parecia-me que o inicio da curva estava correto, havia um ventinho nos empurrando para cima da pista, portanto, a inclinação e o fator de carga (26) me pareciam "ok", pois eu já estava apertando a curva, não havia necessidade de "puxar" o manche. (27)
A armadilha das línguas estava armada. O gringo queria que eu aliviasse a curva e eu, confundindo "push" com puxe, entendendo que ele queria que a curva fosse mais apertada, apesar de julgar que a curva estava boa. Entretanto, não estava disposto a escutar, no "debriefing", (28) o gringo me explicar como se poderia perceber como e quando o F-5 estava na sua melhor performance de curva, e blá blá blá... como fazer a perna base na melhor performance.
Consequentemente... apertei a curva. O avião me pareceu não gostar muito. Lá de trás, veio novamente com um pouco mais de ênfase: "Schittini, push the stick". Eu pensei: "Gringo maluco, mas se ele pensa que vou arregar, está enganado". O avião foi bem mais enfático do que o gringo, começou a gemer e a sacudir levemente as asas.
Definitivamente, estávamos fazendo uma curva apertada, pelo "book" eu sabia que sacudir as asas (wing rock) era sintoma de pré-estol, (29) mas aquele gringo não ia me dizer, no "debriefing", que a curva tinha sido "xoxó". (30) Portanto, se ele queria uma perna base no pré-estol ele ia ter uma. Foi quando, lá de trás veio uma instrução, onde se podia perceber uma pitada de desespero: "Stick forward, stick forward". (31)
O gringo tinha mais inteligência do que eu bom senso e notou o erro que eu estava fazendo, pois casos de confusões com "push" & "pull" eram contados diariamente.
A cabine dianteira do F-5B ficou, subitamente, desconfortavelmente "hot". (31) O máximo que pude dizer foi: "Ups, roger". (32) Nada mais foi dito e/ou comentado, nem mesmo no debriefing. Acho que me tornei uma pessoa um pouquinho melhor após o evento, no futuro seria um pouco mais humilde em situações semelhantes.
Nos dias subsequentes de treinamento de toque e arremetida em "Guará", tivemos mais um incidente devido a impacto com urubu acho que foi o Silva Junior (Chicão) quem abalroou o bruto. Finalmente, aquilo que parecia que ia acontecer a qualquer momento, aconteceu: perdemos um avião devido a impacto com um urubu.
Na subida para a perna do vento (33) o Maj. Areal e o Maj. Gildo bateram num urubu que desta vez entrou pelo parabrisa e atingiu a face direita do Maj. Areal causando-lhe ferimentos relevantes.
Momentaneamente cego e tonto sem entender claramente o que se passava o Areba, como o Maj. Areal era conhecido na "baixa canalha", optou pela ejeção. Com toda aquela confusão acontecendo lá na frente, o Gildo, ao ver todo o fogaréu da cadeira de ejeção do Areal causado pela ejeção, não perdeu tempo e também "se mandou". O avião ainda voou sem pilotos por algum tempo vindo a cair no terreno da Escola, (34) menos mal pois caiu em terreno da FAB.
Depois deste acidente pensei que seriamos autorizados a nos deslocar para Anápolis, pois nossa vida no Rio estava realmente um inferno. Estávamos meio que "acampados" tanto em SC quanto no Galeão.
Rapidamente o número de F-5B's chegou a 6 e depois 5, porém, devido ao baixíssimo nível de estoque de peças, tínhamos apenas um ou dois aviões disponíveis para vôo, mesmo usando a prática consagrada da "permuta controlada de peças" (canibalização (35) era proibido; nem pensar).
Os pilotos que estavam voando, como era o meu caso, faziam um deslocamento SC-GL, pelo menos uma vez por dia e muitas vezes o vôo era abortado, devido a falta de avião ou devido aos empecilhos colocados pela DEPV.
Os problemas de administração do nosso suprimento eram inúmeros, pois a Diretoria do Material (DIRMA), o Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro (DARJ), o Parque Material Aeronáutico de São Paulo (Campo de Marte) e a Comissão de Recebimento (COMFIREM) em Los Angeles, cada um tinha um apito diferente e a nossa necessidade era ainda uma outra. Dá vontade de chorar só de lembrar, pois eu era o Chefe do Suprimento do Grupo. Muitos dos meus cabelos brancos surgiram, precocemente, nesta época.
Algumas vezes estive muito perto de ser preso, devido aos artifícios para conseguir as peças para manter as aeronaves voando. Nesta época eu era um Tenente meio atrevido e acreditava ser mais eficiente tentar justificar e pedir desculpas do que pedir autorização, o que me forçou a conviver com o perigo. Felizmente meu Anjo da Guarda me ajudou e terminei bem minha tarefa.
Com a queda do avião do Areal, parecia que até o menos inteligente envolvido no processo decisório seria convencido de que aquela operação não poderia continuar. Obviamente seria muito melhor concentrar todos os meios em Anápolis e conduzir todas as operações a partir daquela Base, onde não haveriam os problemas de pista, de tráfego aéreo, de Avenida Brasil, e etc... Em fim, seria como sair do inferno para entrar no paraíso.
Infelizmente isto não aconteceu. O orgulho do COMAT prevaleceu. Não podíamos depender do COMDA. O orgulho do pessoal do COMAT era mais importante do que a perda de aviões ou, eventualmente, de pilotos.
Desta forma, aos trancos e barrancos, concluí as seis horas para ir a cheque. Fiz o meu cheque com o Quírico, "Willie Boy" legítimo. O único detalhe que me recordo do vôo de cheque foi que o instrutor me chamou a atenção por executar parte do taxi para a decolagem com motores defasados de 0,5 % de RPM. (36) Até hoje, sempre que posso, encho a paciência do Quírico por este fato.
O vôo solo teve a peculiaridade de ser também o meu primeiro vôo de formatura solo. Nossa situação de material era realmente muito precária e, normalmente, os poucos aviões disponíveis não estavam completamente equipados (ANCE no jargão militar e na MEL no jargão dos pilotos civis). (37) Este era o caso do F-5B do meu primeiro vôo solo: o ADF (38) estava em pane.
Fiz o briefing do vôo com o Cap. Lazzarini, que era o Oficial de Operações do Esquadrão. O tempo em no Galeão (SBGL) era 20 KM NIL 8SC600 (39) (lembram-se do QAM? Hoje seria um METAR...). (40) Em fim o tempo era bom, mas exigia uma descida por instrumentos. Nada de mais, pois este era o normal do vôo, "any-way". (41)
Eu deveria fazer a Subida 11, (42) ir para a vertical de SC e depois ir para a área Rezende para as manobras. Em seguida voar até "Guará" para os toques e arremetidas, voltar para a vertical de Piraí, fazer a descida "Hotel" com aproximação final ILS no Galeão e pouso final. "Piece of cake". (43)
Não haveria problema para executar os procedimentos por instrumentos para os quais seria necessário o ADF, pois o F-5B estava equipado com DME. (44) Portanto bastava usar a distância como referência para saber a passagem sobre Nova Iguaçu, por exemplo, na Descida Hotel.
Isto posto, isto feito. Aconteceu que, ao abandonar a vertical de SC no topo, tendo voado IMC (45) até 18.000 ft (46) para iniciar as acrobacias, o indicador de atitude passou a indicar uma atitude incorreta. Voei algum tempo nivelado e a situação voltou ao normal.
Pensei estar sendo excessivamente cauteloso e reiniciei as acrobacias. Após um looping (47) , um oito cubano (48) normal e um reverso e tuneau vertical (49) , o indicador de atitude (50) ficou completamente inutilizável e não voltou mais ao normal.
Em contato com Operações na frequência tática fiquei sabendo que o Hortênsio ainda estava em vôo, executando também seu primeiro vôo solo. Marcamos um "rendez vous" (51) na vertical de Pirai, onde nos reunimos com facilidade.
O Hortênsio me trouxe para baixo, para um pouso quase na ala (52) na pista 14 do Galeão. Infelizmente, o Lazzarini considerou que eu tinha feito uma boa parte da missão e não me deixou repeti-la. Assim não consegui adicionar uma hora extra ao meu total de 8 horas de F-5, sendo considerado pronto para fazer o translado de um F-5E para o Brasil, conforme planejado.
Na realidade, estava prevista a execução de algumas horas de F-5E, antes de estarmos liberados para nossa missão. Infelizmente o translado da primeira leva de F-5E estava atrasado e, para manter o cronograma de recebimento das aeronaves, nós partiríamos para nossa missão tendo ou não jamais visto um F-5E. Afinal de contas era só a versão monoposto do F-5B, no qual já éramos "doutores". A Esquadrilha prevista era:

Maj. Luzardo - Comandante
Cap. Sergio Martins - Operações
Ten. Zorron - Material
Ten. Passos - Pessoal
Ten. Schittini - Auxiliar de Operações
Ten. Hortênsio - Auxiliar do Material

Transcorria o mês de Julho de 1975, e o primeiro semestre tinha sido, na melhor das hipóteses, horrível. Entretanto, nós não sabíamos, coisas piores ainda iriam acontecer. Afinal de contas, nosso lema era "encrenca pouca é besteira". Nas conversas de sala de briefing sempre alguém dizia que, "se as coisas continuarem nesta batida, ainda vamos perder mais aviões e alguém vai pular o muro".
Acho que até os mais novos estão familiarizados com a expressão "pular o muro". Outra expressão que era corriqueiramente repetida, e que significava a mesma coisa, era que nós estávamos vivendo dias de "muro baixo" e que todos deviam manter "um olho no padre e outro na missa".
Infelizmente, estas palavras ditas na brincadeira iriam se concretizar.
Não me lembro bem das datas, mas nossa partida para os USA para nossa missão estava prevista para o dia seguinte ao da chegada, no Galeão, da primeira esquadrilha de F-5E. Eu tinha um problemão nas mãos pois nós tínhamos apenas material, mal e porcamente, para um "kit" de translado, portando meu pessoal teria 24 horas para receber o "kit", conferi-lo e preparar todos os documentos de recebimento, dar baixa do material pertinente, preparar um novo kit e embarcá-lo no C-130 (Hércules).
Além disso tinha que me preparar para a missão tratando dos assuntos de Operações referentes à minha esquadrilha. Felizmente meus problemas pessoais eram poucos, pois ainda era solteiro e morava na Base. Nos anos de 73 e 74 eu dividira um apê em Copacabana com o Sandim e o Conrado mas, com as confusões do final de 74, tivera o bom senso de voltar para a Base.
Para complicar ainda mais, um dos F-5E da Esquadrilha que chegava teve uma pane de motor em Zandery (Suriname, Capital da Guiana Holandeza), um dos locais de pouso no caminho, requerendo troca do motor. Obviamente que não possuíamos um motor reserva, e assim sendo, em paralelo com a preparação da minha missão, deveríamos retirar um motor dos aviões que chegavam e preparar um "kit" de troca de motor, exaurindo ainda mais nossos parcos suprimentos, e embarcar tudo num outro C-130, ou um C-115 (Búfalo), que sairia na missão de socorro no mesmo dia seguinte.
Juntamos todo o pessoal do material e fizemos um cronograma de todas as atividades minuto a minuto, desde o momento que os aviões estacionassem até o momento da saída do Hércules, assim as possibilidades de problemas eram minimizadas. Permito-me um comentário: a equipe do Material do Grupo de Caça naqueles tempos, sob a liderança do Maj. Areal, era de primeira linha.
Tudo preparado, bastava então esperar os aviões e "cair de pau" no serviço assim que eles fossem liberados. A chegada na Base Aérea do Galeão seria feita com toda pompa e circunstância que a ocasião merecia, com banda de música, familiares, bandeirinhas e etc...
O dia amanheceu com uma meteorologia típica do inverno daqueles tempos ou seja: nevoeiro no Galeão. Previsão de abertura lá pela metade da manhã. "No sweat" como diriam os gringos. A última perna da viagem era Anápolis - Galeão, cerca de uma hora de vôo, portanto bastava ajustar o horário da decolagem e eles chegariam com o aeródromo aberto.
Como estavam previstas festividades eles iriam tentar manter-se o mais próximo possível do programa. Na Esquadrilha estavam o Cap. Tacariju, Cap. Berto e Cap. João Bosco, o T.Cel. Rubens, Comandante da Esquadrilha e do Grupo de Caça, era quem tinha ficado para trás em pane.
Cheguei no Galeão na madruga e fiquei pela pista conferindo os preparativos e esperando pelos aviões. O nevoeiro não estava tão ruim como parecia e a pista começou a abrir cedo. Assim que tive a notícia que os aviões estavam chegando, fui para o estacionamento a tempo de ver um F-5E arremetendo do procedimento da pista 14 e iniciar as manobras para um pouso na pista 32.
Como eram três aviões que, certamente tentariam chegar juntos ao estacionamento para as apresentações e as festividades, resolvi dar uma chegada até o hangar para uma última olhada nos preparativos para os serviços e dar uma "animada no pessoal". Quando finalmente cheguei ao estacionamento, dois aviões já estavam estacionados e com o canopi (53) aberto.
O primeiro pensamento que me veio à cabeça, ao ver os F-5E, foi de que finalmente o Grupo de Caça tinha novamente um avião de caça. Um avião um pouco narigudo mas definitivamente com um aspecto de guerreiro.
O Berto já estava no chão sendo abraçado pelo "bandão" presente e o Taca estava descendo da escada. Dirigi-me para o Taca pois o Berto já estava muito ocupado. Quando o Taca me olhou era óbvio, pela sua expressão, que havia algo muito errado. Alguém que estava por perto, não me lembro quem, fez a pergunta que já estava na "ponta da língua".

-"Oi Taca tudo bem...? Alguma coisa errada...?

O Tacariju tinha mania de misterioso, mas desta vez ele estava genuinamente muito preocupado quando respondeu:

-Eeeh o Bosco estava entre nós, não pousou e sumiu do rádio.

Parece-me que a maioria dos presentes escutou a observação pois o papo literalmente murchou. O ambiente ficou extremamente pesado à medida que o silêncio aumentava. Para aumentar o desconforto escutou-se a esposa do Bosco, que chegava com o filho no colo perguntar, várias vezes:

-Onde é que está o meu marido? Onde está o meu marido?

Não havia resposta a dar e me pareceu que ninguém queria conversar mais. O impensável tinha, com certeza, acontecido. Pensei, com os meus botões, na melhor das hipóteses o Bosco vai aparecer no Portão da Guarda num carro da polícia.
De repente, me senti deslocado naquele local. Eu tinha muito trabalho pela frente e o que quer que fosse que tivesse acontecido, já tinha acontecido e nada podia ser feito para mudar. Ações deveriam ser tomadas, más não competia a mim tomá-las. Na cabeça eu torcia pelo Bosco, mas no coração sabia que ele não iria aparecer.
Aquilo que temíamos, mas sabíamos que tinha uma grande chance de acontecer, tinha acontecido e da forma mais dramática, na festa de chegada, isto é, tínhamos perdido mais um avião e desta vez, possivelmente, também o piloto.
Nestas circunstâncias, a melhor coisa a fazer era mergulhar de cabeça no serviço, pois no dia seguinte era minha vez de embarcar para os Estados Unidos e trazer para casa um F-5E, igualzinho aqueles que estavam ali.
Achei o Zorron e combinamos, aleatoriamente, qual avião cederia o motor para o resgate do Cel. Rubens. Na presente situação, o Grupo só teria um F-5E disponível por algum tempo. Isto não afetaria a minha esquadrilha, uma vez que já estava decidido que iríamos buscar os aviões sem tê-los voado. Nosso primeiro vôo seria em Palmdale. (54)
Durante o resto do dia a confusão só aumentou. Eu fiz todo o esforço possível para me manter ocupado e nem aparecer no setor de operações. Em algum momento vi o helicóptero com o PARASAR (55) chegar, e sair com o Cel. Menezes, Comandante da Base.
Quando o helicóptero voltou fiquei observando de longe, mas percebi que o Cel. Menezes desembarcou chorando. Fiquei olhando pro nada, perdido nos pensamentos e finalmente concluí:
-É verdade, deu merda, o Bosco pulou o muro.
Realmente o Bosco havia perecido num acidente muito comum em aviação ainda hoje em dia: CFIT (Controlled Flight Into Terrain) (56) na final para pouso. As causas do acidente seriam encontradas na investigação que já começara.
O que aconteceu no restante do dia desapareceu na penumbra, não me recordo de um só detalhe. Acho que passei o resto do dia tentando me ocupar ao máximo para não pensar. Ao entardecer, o C-115 que faria o resgate do avião que ficou para trás, estava carregado e pronto para a missão, e seguiu viagem.
À noite no velório, que surpreendentemente não me lembro onde foi, o Cel Luiz Carlos, ex-Comandante do 1o/4o e que estava então no A-3 (57) do COMAT, procurava a Esquadrilha que iria embarcar no dia seguinte. Quando finalmente nos reuniu, queria saber se nos sentíamos confortáveis com a missão que iríamos executar.
Foi difícil crer que, em última análise, estava cabendo a nós decidir se a missão ia ou não sair, mas ali estava a verdade nua e crua, a pergunta estava feita. Acho que todos nós queríamos resolver aquilo de uma vez por todas, mas a resposta foi, mesmo com uma pontada de frustração, que achávamos conveniente voar o F-5E antes de viajar.
Foi assim que, sob o efeito emocional, da perda de um companheiro e mais um avião, que o COMAT aceitou transferir as operações do 1o GAC do Galeão para Anápolis, e retardar a saída da minha esquadrilha. Tivesse tudo aquilo acontecido numa Força Aérea, com certeza haveria um inquérito para apuração dos erros cometidos e seus responsáveis.
Na nossa força aérea ninguém realmente se incomodou com os fatos, e a vida continuou como se nada houvesse acontecido.
Em função dos eventos, as mudanças no planejamento do translado foram as seguintes:
·Os aviões que já estavam prontos em Palmdale seriam transladados por uma esquadrilha montada com "Willie Boys";
·Minha esquadrilha buscaria os próximos aviões a ficarem prontos;
·O Grupo de Caça transferiria sua operação para Anápolis até a pista de Santa Cruz ficar pronta.
O Maj. Luzardo não ficou muito satisfeito com a mudança na escala e conseguiu fazer alguns vôos de F-5E e se incorporar na esquadrilha de "Willie Boys", que ficou sendo a seguinte:

Maj. Luzardo
Cap. Lazzarini
Cap. Bellon
Ten. Quírico

Na minha esquadrilha, o Maj. Areal assumiu o comando em substituição ao Maj. Luzardo.
Quatro dias depois de todos estes eventos já iniciávamos nossas operações em Anápolis. É difícil descrever o que foi chegar em Anápolis depois de todas as encrencas no Rio de Janeiro. Foi mais ou menos como sair de um filme preto e branco e entrar num filme colorido, tal era o contraste.
Devido à mudança na escala do translado, ficamos com um número de instrutores insuficiente para continuar com o programa de treinamento. Foi assim que nós, que já tínhamos solado o F-5B e estávamos prontos para voar o F-5E, nos tornamos instrutores, com um total de 8 horas em média na aeronave. Como não havia "novinhos" envolvidos no processo, o número reduzido de horas não constituiu problema.
Chegamos em Anápolis com um F-5E e cinco F-5B's, sendo que, com a chegada do Cel. Rubens, passamos a ter dois F-5E's. Como só tínhamos cinco motores, o terceiro F-5E ficou aguardando um motor no Galeão.
Ficou decidido ainda que cada grupo de pilotos passaria 15 dias voando em Anápolis. Portanto nestes 15 dias nós, os pilotos da próxima esquadrilha de translado, deveríamos concluir o nosso treinamento e voltar para o Rio para embarcar para os EUA.
Meu primeiro vôo em Anápolis foi um vôo de duplo comando no Chmielewski, (Chiminho para a turma), enquanto o Sergio fazia seu solo de F-5E. Em seguida, depois de concluir o treinamento preparatório, ou seja: hora de cabine, cheque de olhos vendados (58) , prova de emergência. etc... foi minha vez de voar o F-5E.
Realmente o F-5E parecia uma máquina de guerra. Comparado com o F-5B, era um grande salto em performance. De fato, apesar de serem ambos aviões de carga alar relativamente alta e supersônicos, a semelhança na pilotagem era ou é pequena.
Desde a decolagem ficou evidente que o F-5E tinha uma grande tendência de levantar o nariz (pitch-up). Talvez fosse uma característica que iria merecer atenção na pilotagem. Naqueles dias não fazíamos toque e arremetida no F-5E, para economizar pneus, fazíamos um procedimento chamado de "low approach"(aproximação baixa), que consistia em executar a arremetida no momento em que se iria retirar o motor para o pouso.
No meu pouso final a tendência de "pitch-up" me atrapalhou um pouco e toquei as rodas, não intencionalmente, bem no início da pista ("on the numbers") (59) . Isto foi notado pelo Cel. Rubens, o instrutor, que acompanhava o vôo de outro avião. No debrifim ele comentou o fato, apontando-o como um erro de pilotagem. Ao final do debrifim comentei a tendência de "pitch-up" e o Cel. Rubens achou estranho pois esta característica não fora notada por ninguém antes.
É importante lembrar que o F-5E ainda estava em desenvolvimento e os vôos de ensaios da Northrop ainda não estavam concluídos, de modo que nós poderíamos estar, de fato, notando uma característica não percebida anteriormente. O Sérgio, que havia voado imediatamente antes, havia feito comentário semelhante. Assim sendo, resolvemos investigar o avião para comprovar que tudo estava correto com os comandos de vôo.
Isto feito, constatamos que durante a troca de motor a manutenção havia montado o comando do profundor incorretamente. Haviam deixado desconectada uma interligação profundor/"air brake" (60) e a montagem do profundor estava errada. Isto corrigido, a tendência de "pitch-up" desapareceu. Um a zero para meu ego, que estava machucado com o erro no pouso.
Vale a pena fazer uma pausa na estória para comentar um detalhe importante na compra do F-5. Ao voar o F-5E ficou evidente a limitada validade do treinamento pré-solo no F-5B. Durante o processo de compra dos aviões o Grupo de Caça, sob orientação de seu Comandante, produziu um trabalho demonstrando as vantagens financeiras e operacionais de não se adquirir o F-5B.
A proposta era de enviar todos os pilotos do Grupo para o treinamento de transição operacional no 425o "Tactical Fighter Squadron" enquanto se esperava pela introdução do F-5F (61) para, aí sim, adquirirmos o treinador correto. Alguma brilhante inteligência decidiu o contrario, forçando a FAB ficar engasgada com o F-5B por muitos anos.
O resto do treinamento em Anápolis foi rotineiro e ao final de 15 dias estávamos no Rio prontos para a partida. Estávamos em Agosto de 1975, e parecia que nossas agruras estavam terminadas.
Ledo engano, pois prevíamos fazer o translado em 15 dias, mas a viagem durou 35, tendo culminado com uma grave doença do Comandante da Esquadrilha que o levaria de nosso convívio para sempre.


T.Cel.Av.R.R. Gilberto Pedrosa Schittini
Piloto de Caça - Turma de 1971


VISÃO DO LIDER DA ESQUADRILHA

A leitura do texto do Schittini povoou minhas lembranças de dores nunca esquecidas, mas serviu também para me acordar de uma hibernação da memória.
Gostaria de contar o que se passou e como vivi o acontecimento doloroso do acidente do Bosco.
Naquele dia fatídico, no qual perdi uma amigo muito querido, parece que tudo começou quando estávamos em órbita em Piraí. Lá, recebi do Controle que a visibilidade estava baixa na cabeceira da pista 14 e com visibilidade ilimitada na 32.
Na verdade, desde a decolagem de Anápolis, já sabíamos que o Galeão estava assim e São José inteiramente visual. Querendo maiores detalhes, troquei então de canal (naquele tempo o F5 só falava e ouvia por um canal) (63) e falei com a Torre do Galeão, que confirmou a informação do Controle. Interpretei que seria possível pousar visual na pista 14, ou, na pior hipótese, circular para a 32.
Passei esta informação para a esquadrilha e comandei o início da penetração pelo Berto (no 3 da esquadrilha). Depois de uma órbita, autorizei o Bosco (no 2) a iniciar a penetração; na órbita seguinte, iniciei a penetração.
Ao me aproximar do marcador externo (64) , percebi que a névoa tinha um topo de mais ou menos 1500 pés, isto é, era possível passar o marcador externo completamente visual sobre o colchão branco abaixo. Olhando para frente, a visibilidade era de fato limitada.
Ao passar para o canal da Torre, ouvi a chamada insistente pelo no 2 da esquadrilha. preocupado, mantive-me no topo (1600 pés) e olhei para baixo. Do meio da névoa saia uma coluna de fumaça negra já vista por mim noutras vezes onde a tristeza e a solidão das perdas tomaram conta da minha alma.
O Bosco morreu! - foi o que pensei, ali, naquele momento. Pensando e repensando mil coisas, segui em frente no topo da névoa, avistei a pista logo à frente, fiz o pilofe na 14 e pousei, sem saber exatamente o que estava fazendo.
No chão, soube que o Berto iniciara o ILS e abortara o procedimento, iniciando o pilofe para a 14 ao avistar a pista. Inexperiente com o vôo de caça, a Torre pediu para que o no 2 fizesse 360o, a fim de obter separação do no3.
Nessa curva, não sei se voando por instrumentos, ou no topo da névoa, o Bosco perdeu o controle do F-5 e bateu no chão nas redondezas da Caxias (marcador externo).
Esta é a primeira vez que conto essa história para além dos amigos íntimos. Antes, contei-a para o Rosalvo, que, se não me falha a memória, fez a investigação do acidente.
Na época, ouvir as gravações do papo rádio da esquadrilha foi enormemente dolorido. Recordar o acidente nunca foi sem dor para mim.
Embora não tenha culpa pelo acidente, para mim, tudo o que aconteceu naquele dia com a esquadrilha foi de minha responsabilidade, já que as decisões cabiam exclusivamente a mim como líder.
Pousar ou não no Galeão foi minha decisão solitária e de mais ninguém.
Os fantasmas daquele acidente me assolaram até hoje, quando, enfim, ao contar o que se passou naquele dia planejado para alegrias e vivido em tristezas, afastei-os para longe de minhas recordações.
Acho que, finalmente, consegui me despedir do meu amigo Bosco.
Que as lágrimas do meu adeus evaporem onde as almas do guerreiros descansam da última batalha!

À la chasse!

Cel.Av.R.R. Tacarijú Thomé de Paula
Piloto de Caça

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1)-Hangar do Zepelin = Local, na Base Aérea de Santa Cruz (Rio), onde eram guardados os Dirigíveis Zepellin e Hindenburg quando vinham ao Brasil (bom local para ser visitado).
(2)-"Tactical Fighter Squadron" = Esquadrão Tático de Caça.
(3)-"unforgiving" = não perdoa, não deixava passar nenhum erro.
(4)-"an outstanding decision" = uma decisão importante.
(5)-Galeão = Base Aérea do Galeão (Rio), onde também está localizado o Aeroporto Internacional e por conseguinte, os aviões comerciais têm prioridade de operação.
(6)-"slots" = "fendas" no caso significa um intervalo de tempo alocado para o pouso de uma aeronave.
(7)-VOR = do inglês "Very High Frequency Omini Range" - procediemto de pouso por instrumentos, utilizando o equipamento receptor de rádio que indica, ao piloto, a direção em que se encontra a estação transmissora de "VOR".
(8)-"aviações" = no caso significa "servir" em outros esquadrões que não são de aviões de Caça.
(9)-F5B = O F-5 modelo "B", é um avião de dois lugares (duplo-comando) projetado para ser o avião de instrução do F-5 modelo "A". Servia para instrução do F-5 modelo "E", porém era bem diferente e mais antiquado do que este.
(10)-Descida Hotel = os procediemtos para descida sem visibilidade (por instrumentos) são padronizados para cada local e recebem o nome das letras. No caso a letra "H" (hotel). Isto significava que para o Galeão tínhamos, no mínimo oito procedimentos (A,B,C,D,E,F,G, & H).
(11)-ILS = do inglês "Instrument Landing System", equipamento eletrônico especial para facilitar a aproximação para pouso sem visibilidade (por instrumentos).
(12)-pilofe = do inglês "peel-off", manobra efetuada antes do pouso, visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo. Hoje a palavra foi aportuguesada para "pilofe".
(13)-pista 14 = o número da pista indica a sua orientação magnética. O avião que for decolar, ou estiver pousando, estará com sua bússola indicando 140 gráus magnéticos.
(14)-arremetida, tráfego curto = desistir do pouso (arremeter) e fazer curva (normalmente pela esquerda) e para fazer o pouso final.
(15)-ângulo de ataque = ângulo entre a linha longitudinal do avião e a linha imaginária de seu deslocamento no ar.
(16)-"burbs, buffets" = termos aeronáuticos do inglês, algo parecido com tremidas, solavancos e guinadas.
(17)-15 nós = unidade de velocidade usada em aviação e marinha. 15 nós equivalem a ± 28 km/h (vem da palavra inglesa "knot").
(18)-afterburner = "requeimador" ou pós-combustão é um dispositivo existente nos motores à jato (normalmente dos aviões de caça), que permite requeimar os gases de escapamento criando assim um empuxo adicional (... e um aumento descomunal no consumo!)
(19)-"we've hit a buzzard" = atingimos um urubu.
(20)-"it sounded like a 35" = o "impacto" foi parecido com o do canhão antiáereo de 35 milímetros de calibre.
(21)-"yeah, it probably does,..." = é, provavelmente parece com um 35, mas foi um urubu, um daqueles pássaros pretos à nossa volta, melhor voltar e dar uma olhada.
(22)-G's = símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações (cargas) geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave.
(23)-"by de book" = como diz o livro, de acordo com as regras.
(24)-perna base = posição no tráfego visual, onde a aeronave se encontra a 90 gráus com a pista, antes de fazer a última curva para a posição "final" de pouso.
(25)-"push the stick" = "empurre o manche". Esta frase dá muita confusão, pois os brasileiros entendem o som da palavra "push" com "puxe", o sentido é exatamente o contrário!
(26)-fator de carga = o mesmo que "G"
(27)-manche = alavanca de comando de inclinação longitudinal e lateral dos aviões (principalmente os de Caça).
(28)-debriefing = Reunião dos componentes do vôo, para "avaliar" com foi a missão. Hoje a palavra foi nacionalizada para "debrifim". A reunião antes da missão, é o "brifim".
(29)-pré estol = o "estol" é o fenômeno da perda de sustentação aerodinâmica do avião. No caso, chegou quase ao estol!
(30)-"stick forward" = manche para frente, empurre o manche!
(31)-"hot" = "quente", o ambiente ficou tenso.
(32)-"ups, roger" = "desculpe", ok, vou fazer...
(33)-perna do vento = posição no tráfego visual, onde a aeronave se encontra paralela à pista e em sentido contrário ao pouso. Logo após curvará para a "perna base" e então para a "final" de pouso.
(34)Escola = no caso se refere à Escola de Especialistas da Aeronáutica EEAer que fica na Cidade de Guaratinguetá (SP) e é responsável pela formação de sargentos especialistas.
(35)-canibalização = termo usado em aeronáutica, que significa retirar peças de uma aeronave para usar suas partes como suprimento para outras. Acontece que a frequente utilização deste procedimento acaba condenando "à morte" a aeronave "doadora".
(36)-0,5% RPM = metade de 1(um) por cento de rotação por minuto.
(37)-ANCE & MEL = a sigla brasileira ANCE para "Aeronave Não Completamente Equipada" alerta que alguns equipamentos da aeronave (militar) não estão funcionando, já a sigla inglesa MEL, para "Minimum Equipment List" trata de uma lista com o mínimo de equipamentos que devem estar funcionamndo para que uma aeronave comercial possa voar.
(38)ADF = do inglês "Automatic Direction Finder", equipamento eletrônico que indica a direção de uma estação transmissora de rádio. Embora antiquado, ainda hoje é usado para auxiliar a navegação aérea. As"velhas águias" o chamam de "radio goniômetro"
(39)-20 KM NIL 8SC600 = codificação de boletim meteorológico que significa: 20 quilômetros(km) de visibilidade, nada de anormal (NIL) e camada de nuvens tipo estratocúmulo (SC) a 600 (seiscentos) metros, cobrindo todo céu (8 oitavos da área do céu).
(40)-QAM & METAR = a codigicação para o boletim meteorológico antigo era chamada pela sigla QAM e a atual é chamada de METAR, na realidade não têm traduções.
(41)-"any way" - de qualquer maneira
(42)Subida 11 = os procediemtos para subida (por instrumentos) são padronizados assim com os de descida. As subidas recebiam numerações, ao contrário das descidas que recebiam o nome das letras. No caso o número "11". Isto significava que para o Galeão existiam no mínimo 11(onze) procedimentos de subida diferentes.
(43)-"piece of cake" = "pedaço de bolo", gíria que significa "coisa fácil"
(44)-DME = do inglês " Distance Measuring Equipment", equipamento eletrônico que indica a distância (em milhas marítimas) de uma estação transmissora especial. Normalmente, a estação DME funciona acoplada a uma estação de VOR e é conhecida como VOR-DME.
(45)-IMC = do inglês "Instrument Meteorological Conditions", ou seja "condições meteorológicas de vôo por instrumentos".
(46)-18.000 ft = 18.000 pés (feet) de altitude, o que equivale ± 5.500 metros.
(47)-"looping" = acrobacia que consiste em efetuar uma "cambalhota" para trás.
(48)-oito cubano = acrobacia na qual o avião descreve um "oito" na vertical.
(49)-tuneau (ou tunô) vertical = palavra franceza. Acrobacia na qual o avião faz uma volta em torno do seu eixo longitudinal.
(50)-indicador de atitude = instrumento que indica ao piloto, qual a posição do horizonte da Terra em relação ao (nariz do) avião. Também é conhecido como "horizonte artificial".
(51)-"rendez-vous" = palavra franceza que significa "encontro". Em aviação, tradicionalmente, significa o local em que os aviões de caça se reunem com a formação de aviões de bombardeio que irão escoltar.
(52)-pouso na ala = pouso de dois aviões juntos, ainda em formação de esquadrilha.
(53)-canopi = capota da cabine dos aviões de caça - vem do inglês "canopy"
(54)-Palmdale = Cidade do Estado da Califórnia (EUA), onde estava a fábrica de montagem do F-5 da Northrop.
(55)-PARASAR = Esquadrão de Busca e Salvamento (Search And Rescue) que é especializado no uso de PARAquedas para chegar ao local de salvamento.
(56)-"Controled Flight into Terrain = "Vôo controlado contra o solo", é a maneira "moderna" de se dizer que o avião colidiu com o solo sem ter problemas estruturais.
(57)-A3 = Oficial de Operações (3) do Estado Maior (A).
(58)-Cheque de olhos vendados = prova em que os pilotos, com os olhos vendados, têm que reconhecer todos os dispositivos e instrumentos da cabine do avião.
(59)-"on the numbers" = "sobre os números", pousar logo no início da pista onde estão pintados os números que a identificam.
(60)-"air brake" = freio aerodinâmico
(61)-F5F = O F-5 modelo "F", é um avião de dois lugares (duplo-comando) projetado para ser o avião de instrução do F-5 modelo "E" do qual é derivado.
(63)-... ouvia por um canal = os aviões da Caça da FAB, normalmente, têm dois rádios de comunicações (em VHF) e o piloto consegue ouvir ambos ao mesmo tempo.
(64)-marcador externo = ponto de um procedimento de aproximação ILS, no qual o piloto recebe um aviso (luz e som) de que está se aproximando da pista. Existem ainda o "marcador médio" e o "marcador interno" (que esta bem próximo à pista).


CRÔNICA SOBRE UMA GRANDE FAMÍLIA - 1958


O primeiro Curso de Caça realizado em Fortaleza chegou ao seu término, em dezembro de 1957, somente após uma longa e tumultuada jornada. Empregando inicialmente o alquebrado F-47 "Thunderbolt", desativado em julho, o curso foi concluído, utilizando as conhecidas aeronaves "North American" T-6, empregadas no Estágio Avançado da antiga Escola de Aeronáutica.
Apesar de velhos e não adequados para o curso, eles, no entanto, deram tudo o que puderam em um período de instrução cuja intensidade fazia ultrapassar, continuamente, os limites estruturais daquelas pobres máquinas.
Assim, à medida que entortavam, impedindo a correta fixação dos "dzus" (1) das carenagens (2), principalmente nas laterais da fuselagem, os T-6 eram imobilizados e encaminhados para os confins do estacionamento.
Contudo, o aprendizado foi excelente e o futuro haveria de mostrar que a abnegação e a determinação de realizar um sonho independem do instrumento colocado a disposição do seu artífice.
Concluíram o curso 23 tenentes, dos quais 19 pertenciam à Turma de Aspirantes de 1956. Destes, 7 foram classificados no 1o /14o G.Av. e eu, por opção, estava incluído entre eles. Os demais caçadores tiveram como destino o Grupo de Caça.
O nosso grupinho tinha uma particularidade atípica: a maioria era dotada de nomes nada fáceis de escrever e pronunciar. Foi conhecido, também, como o dos representantes da última turma da FAB a usar a farda caqui. Além disso, todos estavam ávidos pelos conhecimentos que a nova Unidade Aérea tinha a oferecer.
Nossa chegada ao Esquadrão foi recebida com entusiasmo pelo seu Comandante, o Maj. Alberto Bins Neto da Turma de Caça de 1946. A sua calorosa recepção nos cativou e veio confirmar, posteriormente, o elevado conceito que ele usufruía no seio do seu efetivo. Descendente de tradicional família gaúcha, o Maj. Bins era um habilidoso piloto e um competitivo artilheiro. Sua eficiência operacional era também reconhecida com uma das melhores do Quatorze (3).
Entre outras palavras de boas vindas, ele deixou clara a sua convicção do nosso êxito frente à nova aeronave e a certeza de que o sangue novo seria fundamental para a preservação do alto padrão de eficiência da Unidade. A aproximação entre antigos e novinhos foi rapidamente estabelecida. O diálogo era favorecido pela velha amizade dos companheiros de nível intermediário, todos contemporâneos de Escola.
Com relação aos mais antigos, cultuava-se um relacionamento de respeito e admiração pelo que representavam no pedestal da fama na história da nossa Aviação de Caça. Naquela época, as unidades operacionais de caça dispunham de uma aeronave de última geração, o F-8 "Gloster Meteor". Era o primeiro jato a circular nos ares brasileiros, mesmo antes da aviação comercial, o que enchia de orgulho todos aqueles que tinham o privilégio de pertencer ao seleto e restrito círculo de pilotos que o operavam.
Essa prodigiosa máquina era um genuíno produto da indústria inglesa e contava com a garantia da marca "Rolls-Royce" em suas duas turbinas. Ele foi construído para ser um interceptador e dirigido por vetoração radar. Para compensar a falta desse apoio na infra-estrutura aeronáutica nacional, na nossa versão, foi instalado um equipamento ADF (4) sem que nenhum estudo mais aprofundado tivesse sido realizado para comprovar sua eficácia.
Seus quatro canhões de 20 mm davam-lhe um poderoso potencial de fogo. Adaptações de trilhos de foguetes e de suportes de bombas permitiam, também, empregá-lo em missões de ataque ao solo. Tinha um visor que era completo e que incorporava um retículo móvel (5). Seu giro-compasso (6) era moderno e exigia um "ajuste" manual, no mínimo, curioso.
Sua cabine pressurizada permitia um vôo bastante confortável a grande altitude, ainda que, nessa situação, os comandos de vôo se tornassem enrijecidos pelas baixas temperaturas.
Era, no entanto, nos freios, de funcionamento pneumático e operado manualmente, que o "Gloster" tinha a sua característica mais original e que o distinguiria de todos os que o antecederam e viriam suceder.
O curso teórico desse soberbo avião foi assimilado com todo empenho. Havia uma sofreguidão da turma em absorver o máximo e superar o estigma de que teríamos pouca experiência. A prática provaria que os recém chegados estavam a fim de mostrar para o que tinham vindo. Não fossem os "nós de bequilha" (7), causados pelo esdrúxulo sistema de freio do F-8, os vôos solo até que poderiam ter sido antecipados.
De qualquer forma, quando a hora chegou, toda a turma fez bonito e a festa do solo foi muito bem organizada pelo nosso colega de turma, o 2o Ten. Gunther Hans Stolzmann, e regiamente comemorada na Galeteria do Bonassina, em Sebastião do Caí, pequena cidade próxima de São Leopoldo.
A partir daí, a adaptação transcorreu célere. Os aviões eram novos e os instrutores excelentes. Nós, os novinhos, rapidamente assimilamos a técnica de como melhor empregar uma máquina a jato. O clima no Esquadrão era ótimo pois reinavam uma grande harmonia e um congraçamento cada vez maior entre os pilotos, reforçando laços de amizade e companheirismo.
A grande maioria era constituída por solteiros "larangeiras" (8) e eram poucos os que possuíam carro. O frio também não incentivava incursões noturnas. Assim, após o jantar, freqüentemente eram desenvolvidas intermináveis conversas no cassino da Base.
Entre os motorizados, da turma dos novinhos, só o Stolzmann possuía um veículo, o seu conhecido Austin A-40, pau para toda a obra. Do lado dos antigos, estavam o Ferraro Maia, que esporadicamente aparecia com um Chevrolet negro, o Airton Passos que tinha um "brand new" Bel Air automático e o Ivan Ramos que um dia apareceu com um Bentley, bem ao estilo inglês.
Porém, o espécime mais curioso era o que o Jader conseguira, não se soube onde: uma baratinha conversível de dois lugares, Ford 1934, no qual o carona tinha que se instalar no porta-malas convertido em poltrona quando aberto. Nos sábados, ele fazia grande sucesso em seus passeios pelo centro de Canoas.
Quanto a mim, eu possuía, apenas, uma Lambreta, um dos primeiros produtos da nascente indústria automotiva em fase de implantação no Brasil. Mas, voltando às reuniões noturnas, elas eram realmente um grande fator para a congregação do efetivo do Quatorze.
Na roda de papo o nível hierárquico era heterogêneo. Todos os oficiais disponíveis se empenhavam para comparecer e participar das conversas de aviador. A narração era, normalmente, privilégio dos mais antigos e experientes, entre eles os Maj. Adélio Del Tedesco e o Cap. Odony Ramos, "Tatu" para os mais chegados, ambos da Turma de Caça de 1947/48.
O Tedesco, recém promovido, estava transferido, porém, sua movimentação fora retardada a pedido do Comandante para que ele pudesse auxiliar na fase pré-solo e concluir seu importante trabalho de atualização do programa de instrução de vôo do Esquadrão. Companheiro admirável, dotado de uma bondade natural, era muito bem quisto por todos. Pessoa finíssima, muito simples e paciente, ele voava e instruía com maestria. Foi ele quem me checou no TF-7 (9) e me liberou para o vôo solo.
Quanto ao Odony, que passou a ser o oficial de operações, apesar de uma aparência severa, ele, na verdade, era possuidor de um coração de mãe. Jamais o vi tomar uma atitude constrangedora. Ao contrário, gostava de rir alegremente ao tomar conhecimento das mancadas cometidas pelos "incompetentes".
Quando esses dois líderes desandavam a contar as trapalhadas de tantos "ases", atuais e passados, todos os presentes se mantinham atentos para não perder nenhum detalhe daquelas inesquecíveis estórias. Só o folgado do Jader fugia à regra e sempre conseguia se intrometer nas conversas e florear os feitos para torná-los ainda mais engraçados.
A conversa só era encerrada depois que alguém lembrava que a madrugada do dia seguinte aguardaria alguns dos ouvintes para o vôo do picolé. Essa programação sempre se repetia quando o quorum permitia, exceto, nos fins de semana quando a debandada era natural.
Naquela época, a Base Aérea de Canoas ainda se mantinha bastante isolada e livre do estrangulamento provocado pelos loteamentos que a envolvem atualmente. Esta característica permitia, inclusive, a realização de exercícios de instrução de bombardeio e lançamento de foguetes contra alvos localizados ao lado da pista de pouso, dentro do perímetro da Base.
Com isso, as missões de emprego eram efetivadas em curtíssimo espaço de tempo, permitindo a realização de um elevado número de saídas diárias, o que resultava em um avanço rápido da instrução ao longo do ano. Por precaução, no entanto, as missões de tiro terrestre eram realizadas na Marambaia, no estande do 1o Grupo de Caça, no Rio, em campanhas consideradas estimulantes e prazerosas, pela oportunidade de operar junto com os irmãos cariocas.
Somente a partir de 1961, foi possível ao Quatorze dispor de um estande próprio, na localidade de São Jerônimo, próximo do Rio Jacuí. Com a aproximação da Semana da Asa, o Comandante divulgou a notícia da nossa participação nos festejos programados com uma apresentação à população de Porto Alegre de uma demonstração de emprego real contra alvos instalados no Rio Guaíba.
O entusiasmo foi geral. Todos desejavam participar deste evento épico. Porém, o critério estabelecido logo esfriou os afoitos. Ao invés da tradicional antigüidade prevaleceria a eficiência operacional.
Coube ao oficial de tiro e bombardeio apresentar a relação por prioridade. Para surpresa geral, o somatório da pontuação dava primazia a quem? Aos novinhos, é claro! No entanto, os postos de liderança nas esquadrilhas foram destinados, por pontuação, aos antigos mais qualificados, sem dúvida!
O dia da demonstração amanheceu radiante. O público lotava, em toda sua extensão, a Praia de Belas, ao largo do Guaíba, para assistir ao espetáculo inédito na capital gaúcha. A missão foi um sucesso. O sangue novo do Esquadrão deixou a sua marca com acertos precisos.
A nota marcante foi obra do nº 4 da primeira esquadrilha, o novinho Egon Reinisch, que, no bombardeio picado, emplacou dois impactos diretos, pondo a pique a balsa alvo e salvando a reputação do seu quarteto. As esquadrilhas de tiro e de foguete também fizeram um bom estrago nas balsas restantes para a glória do Esquadrão PAMPA.
Nesse clima de sucesso, camaradagem e elevado desempenho, nós, os novinhos, fomos surpreendidos com a convocação para uma reunião formal onde fomos cientificados de que havíamos sido considerados aprovados e declarados alas operacionais de caça, por aclamação.
Como, na época, a temperatura já era de total descontração e a gozação livre, nenhum de nós quis acreditar naquela graduação imprevista. Ficou, então, por conta dos mais antigos a tarefa de nos convencer que a homologação era um fato. Confirmada a declaração, foi estabelecida uma penitência para os incrédulos, cabendo a cada um de nós externar de viva voz, a partir do púlpito da sala de pilotos e perante toda a comunidade, o sentimento de felicidade e deslumbramento pela tão almejada meta operacional alcançada.
Não seria justo encerrar esta crônica sem registrar os nomes de todos os demais oficiais que integravam esse Time de Primeira do Esquadrão PAMPA.
Entre os antigões, comandantes de esquadrilha, estavam os 1o Ten. Jorge Frederico Bins, da Turma de Caça de 1952 ( TC-52 ), Dagberto Sayão de Almeida ( TC- 52 ), Pedro Paulo Ferraro Maia ( TC-53 ) e Rui Messias de Mendonça ( TC-54 ). Nesse rol, incluo, ainda, como "hors-concours", o sempre lembrado médico do Esquadrão, o Cap Marco Antônio Perrone.
O grupo dos antiguinhos, o dos líderes de elemento, era constituído pelos pilotos da Turma de Caça de 1956: o 1o Ten. Andrade Mello e os 2o Ten. Ivo Moraes, Trindade, Stênio, Ivan Ramos, Castro Paz, Façanha, Jader e Holleben, todos ligados a mim por grande amizade.
Participavam, também, eventualmente, das atividades aéreas dois ex-integrantes do Esquadrão pertencentes à Turma de Caça de 1955: os 1o Ten. Barreto Viana e Airton Passos, que serviam no Quartel General da 5ª Zona Aérea e no 2º ECA (Esquadrão de Controle e Alarme) respectivamente. Faço uma menção especial ao inesquecível amigo, 2º Ten. Esp. Av. Cabral, responsável pela manutenção das nossas máquinas.
Por último, nomino os integrantes do time dos novinhos, todos da Turma de Caça de 1957: os 2º Ten. Stolzmann, Azambuja, Baginski, eu, Reinisch, Schalders e Ballesteros.
- Ah! Como eram bons aqueles tempos na grande família do Quatorze!

Ten-Brig.-do-Ar R/R Ronald Eduardo JAECKEL
Piloto de Caça DE 1957


AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA PALESTRA


Esta aconteceu em Anápolis, lá pelos idos de 1975.
Naquela época, não sei porque razão, o médico do Esquadrão na 1a ALADA (Ala de Defesa Aérea, hoje Base Aérea de Anápolis) era um Psiquiatra que, diga-se de passagem, era um tipo meio estranho.
Acho que ele já chegou em Anápolis pensando que os Pilotos de Mirage deviam ser um pouco loucos, pois voar supersônico naqueles tempos, ainda era ainda considerado coisa de extra-terrestre...
Bem, vamos aos fatos. Um mês após sua chegada, o médico (vamos chamá-lo de Dr. Pedro) iniciou suas atividades profissionais na 1a ALADA solicitando ao Ten.Cel. Frota, então Comandante do GDA (Grupo de Defesa Aérea), a permissão para fazer uma palestra somente para os pilotos do Grupo.
O Dr. Pedro preparou seus murais, e na data marcada, arrumou o auditório do GDA para realizar a palestra, tudo dentro do maior mistério. Após a saída dos não-aviadores da sala, o Pedro iniciou sua apresentação. Para nosso espanto, o tema era mais ou menos o seguinte: O avião de caça: um símbolo fálico para os pilotos...
Depois de dissertar sobre o assunto por quase uma hora, e abrindo os murais para cada novo argumento, o Dr. Pedro, em um final apoteótico, apresentou, com um gesto teatral, seu último mural: um gigantesco pênis alado!
Pode-se imaginar o que se seguiu depois: fomos saindo da sala, cada um olhando prá cara do outro, sem ninguém entender nada, o Frota e o Starling confabulando, o Binsinho e o Peixotão incrédulos, e os tenentes e capitães com a certeza de que o maluco era o médico.
Depois deste evento, passei a olhar o Dr. Pedro com uma certa desconfiança, esperando ele "surtar" (10) a qualquer momento.
Esta introdução serve para situar o leitor no contexto dos fatos que se seguiram.
Como nunca perdi uma boa chance, e o médico da ALADA acabava de entrar para a minha lista, foi só uma questão de aguardar a oportunidade para checa-lo emocionalmente...
Não demorou muito: naquela época tínhamos que fazer uma parte do exame médico semestral no Hospital da Base Aérea de Brasília, e o meio de transporte utilizado para o deslocamento Anápolis/Brasília era o bom e tranquilo C-42 Regente.
Deviam ser umas 08:00 h da manhã de uma segunda-feira, e eu estava para dar partida na aeronave com destino a Brasília, quando chega o Dr. Pedro, correndo e bastante nervoso, com o 5ºA (11) meio amarfanhado e suando muito. Bateu com a mão na janela do avião e disse:
- Estou autorizado pelo Comandante da ALA para ir com você para Brasília, pois tenho que comparecer a uma solenidade muito importante...
Imediatamente vislumbrei a chance que eu estava esperando, e pensei comigo mesmo:
- É hoje... Procurando manter isenção total de qualquer emoção, informei bastante sério ao Pedro:
- Cara, acho que não é uma boa você ir para Brasília comigo hoje não.
O pobre Dr. Pedro, sem saber o que o aguardava, encheu-se de razão:
- Você não pode se negar a me levar. Se isto acontecer, vou informar ao Comandante!
Respondi:
- OK. Você é que sabe. Entra aí...
O Pedro entrou, dei partida, taxiei o Regente, decolei, e peguei o rumo de Brasília. Não troquei mais nenhuma palavra com meu passageiro (que estava visivelmente tenso e continuava suando muito) até nivelarmos a uns 1.000 pés sobre o terreno, sendo que durante a subida fui bolando o plano para tumultuar a vida do nosso pobre Psiquiatra.
Com o avião compensado, e voando tranqüilamente no ar parado da manhã, larguei de repente o manche do Regente e informei ao Pedro:
- Você pegou o vôo errado, meu chapa, pois este é meu último vôo!
Pilotando o Regente com os pedais e com o compensador de profundidade - que fica entre os dois bancos - voltei a informar:
- Eu te avisei que não era uma boa, mas você insistiu, e agora vai junto comigo para o inferno!
Nunca vou esquecer o olhar apavorado que o Dr. Pedro me dirigiu, ao perceber que o avião estava entregue a si próprio e aos ventos do Planalto Central.
Devo ter sido muito convincente, pois o Pedro acreditou que algo terrível podia estar acontecendo comigo. Imediatamente ele percebeu que um dos pilotos de Mirage, teoricamente sob sua responsabilidade e supervisão médica, estava prestes a cometer uma loucura com um avião da Força Aérea, e o que é pior, com ele dentro!
Sua primeira reação foi segurar os comandos do Regente, que estranhou a intervenção, e reclamou com uma "bangornada" (12) de asa.
Sem segurar no manche (mas corrigindo com os pedais e o compensador), falei:
- Assim você vai acelerar o processo...
Imediatamente o médico soltou os comandos, e visivelmente assustado, quase em pânico, perguntou em voz trêmula:
- O que aconteceu com você? Sempre foi tão calmo e tranqüilo... Você está com algum problema?
Com um pouco de sadismo, respondi:
- Você nunca me perguntou nada, você nunca se interessou pelo que se passava comigo ou com os outros pilotos. Fica comparando avião de Caça com cacete, e botando idéia maluca na nossa cabeça. Você não faz idéia do que é um vôo de Mirage, das tensões emocionais a que estamos submetidos todos os dias.
Você tinha mais é que conversar e conhecer os pilotos da ALADA. Se você quer saber, tem mais uns dois ou três que estão completamente alucinados, e seguindo sua teoria, vão fazer o mesmo ainda esta semana, só que de Mirage! Com essa, o pobre Dr. Pedro entrou em parafuso mental. Completamente agoniado, ponderou:
- Como assim, seguindo a minha teoria?
Eu então falei:
- É, resolveram se f.... junto com o avião, pô!
Ele ainda tentou dialogar, e me disse:
- Conta o que está se passando com você, o que está afligindo os nossos pilotos?
Respondi:
- Olha Pedro, nossos pilotos é o cacete! Agora não dá mais tempo. Se você não teve competência para descobrir o que se passava em Anápolis depois de tanto tempo, não vai ser agora, que estamos próximos do fim, que eu vou te contar.
A cada minuto que passava, aumentava o pavor do Dr. Pedro, que me olhava sem saber o que fazer, procurando mentalmente nos livros de Psiquiatria uma saída para o problema.
A cada nova tentativa de puxar papo, eu cortava com agressividade:
- Cala a boca e não me enche o saco!
Eu já estava com pena do Dr. Pedro e me segurando para não cair na gargalhada, quando já próximo de Brasília, tive que entrar em contato com o Controle.
Peguei o microfone, (sempre observado pelo assustado médico, que a essas alturas do jogo estava arrasado) e chamei:
- Brasília, FAB ......... procedente de Anápolis, 5 minutos fora, possibilidade de aproximação direta para a pista 10, câmbio.
Foi como se a vida começasse de novo. O Dr. Pedro deu um suspiro de alívio, mas ficou na dele, não disse mais nada.
Após o pouso e táxi para o pátio militar, estacionei o Regente e, antes de sair do avião, perguntei ao Dr. Pedro, com a cara mais cínica do mundo, se ele ia retornar comigo para Anápolis.
Ainda com fortes dúvidas sobre o que tinha acabado de acontecer (e seguramente questionando a minha sanidade mental), o pobre Pedro respondeu:
- Com você eu não entro nunca mais num avião!
E foi-se embora para sua solenidade...

Reinaldo Peixe Lima
Jaguar 25 - King 01 (1 Gp.Av.Ca.)


O PREÇO DA PALAVRA


O Primeiro Grupo de Caça havia recebido os F-5 e operava normalmente, já com alguns pilotos preparados inteiramente no Brasil, inclusive alguns Tenentes recém transferidos para a Base Aérea de Santa Cruz.
Era comum a presença de visitantes, curiosos ávidos em conhecer o novo avião supersônico, adquirido pelo Brasil nos Estados Unidos.
Os chamados treinadores, equipamentos com os principais sistemas da aeronave montados em salas de aula, não só auxiliavam a instrução, como também facilitavam a apresentação das novidades tecnológicas aos visitantes.
Em 1977 uma turma de novos pilotos estava operacional nos "Tiger II" (13) e, por isso, era utilizada nas freqüentes apresentações, normalmente para Escolas Militares, como guias especializados, mostrando as qualidades da nova plataforma de armas.
A visita da Escola de Estado Maior do Exército Brasileiro (ECEME), com seus majores e tenentes-coronéis alunos, altamente interessados nas especificações do produto da Northrop, consistia em conhecer as instalações e participar de uma demonstração aérea.
Era preparado um avião no hangar do Zepellin (14) , com todo o armamento colocado e mais alguns espalhados pelo chão, conjunto denominado de exposição estática.
Nesse momento da visita, estava um dos inúmeros grupos de militares do Exército, inclusive com o General Comandante da Escola e, talvez por isso, os alunos mostravam-se especialmente interessados.
O tenente de plantão na "estática" sofria um verdadeiro bombardeio de dúvidas e discussões acaloradas, como por exemplo um oficial, de Artilharia, afirmando que o canhão 20 milímetros na verdade deveria ser chamado de metralhadora, pois tinha uma alta cadência de tiro. Outro insistia para que o tenente abrisse o jogo e contasse que tipo de armamento estava oculto no tubo de Pitot (15) .
Em suma, sob uma grande pressão, o tenente ia tentando driblar os interessados em mostrar serviço para o General. Este, talvez percebendo a dificuldade do tenente, pediu para sentar na carlinga (16) e assim proporcionou uma folga para o guia, ao ajudar o Comandante a se instalar no avião.
Nesse momento, para espanto do tenente, o General comentou sobre o fato dos alunos estarem frenéticos assim em conseqüência da presença dele, Comandante, no grupo, numa demonstração rara de intimidade com o tenente, que, logicamente se sentiu em casa. Aí estava armada a confusão - o tenente sentindo apoio de um General - que perigo!
Continuava, após o General sair da cadeira, fotografado e tudo mais, a bateria de perguntas: grande insistência do tal que queria que o canhão fosse chamado de metralhadora e no calor dessa batalha um dos oficiais dispara:
Tenente, quanto custa esse avião?
Instantaneamente, rápido e errado como é típico de tenentes em geral, saiu a resposta:
Coronel, desculpe, porém esse avião, apesar de estar em exposição, com todos os acessórios, é somente para atender aos visitantes, não está à venda...
Houve um momento de silêncio, quando, aparentemente, todos refletiam sobre as palavras do tenente, seguido de uma explosão de risadas e comentários jocosos de todos os tipos, dos quais um dos mais repetidos era fulano, o que você quer fazer com um avião desses?... você não sabe andar nem de bicicleta!!!
O grupo seguiu em frente e o tenente ficou com aquele gostinho de vingança, amplificado pela reação do grupo, que mesmo à distância mostrava que continuava a questionar a idéia do oficial perguntador.
No almoço de confraternização, ao qual não compareceram os tenentes, pois o rancho tinha espaço reduzido, foi cumprido o ritual de agradecimentos típico das Escolas, quando um dos alunos elabora um pequeno discurso, indicando as benesses da oportunidade.
Nessa ocasião, o oficial apresentou ao Comandante da Base, como mostra do grande interesse despertado pelas instalações e equipamentos, o fato de um dos estagiários ter ficado interessado em adquirir, para seu uso pessoal, um dos F-5, impressionado pelas palestras e demonstrações de qualidades da aeronave.
E o tenente?
O Comandante da Base, após a saída da comitiva, chamou o tenente e lhe disse que ele tinha muita sorte, pois havia feito aquele comentário descabido exatamente com o chato da turma, indivíduo típico de Escolas Militares, que se destaca pelas perguntas idiotas. Caso contrário não teria ficado ileso no episódio.

Eduardo D'Ávila Duprat
Piloto de Caça de 1972


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) "dzuz" = prendedor, similar a um parafuso, que atua com um girar de somente 180o da chave de fenda.
(2) carenagem = partes removíveis da cobertura externa das aeronaves. Normalmente só têm função de cobrir "aerodinamicamente" a estrutura interna.
(3) quatorze = nome comumente usado para designar o 14o Esquadrão do 1o Grupo de Aviação. Também é conhecido pelo código rádio "pampa".
(4) ADF = do inglês "Automatic Direction Finder", equipamento eletrônico que indica a direção de uma estação transmissora de rádio. Embora antiquado, ainda hoje é usado para auxiliar a navegação aérea. As"velhas águias" o chamam de "radio goniômetro"
(5) Retículo-móvel = A "mira" do visor de tiro do avião (retículo) se movia em função das informações de um computador mecânico (giroscópico). Este movimento (deslocamento) ajudava o piloto a direcionar o avião (canhões) à frente do alvo. Desta maneira, as "balas" eram disparadas para um ponto, lá na frente, local onde o avião inimigo deveria estar, quando elas chegassem lá...
(6) Giro-compasso = bússola giroscópica ( a palavra "compass" em inglês significa bússola)
(7) nó de bequilha = a bequilha (roda dianteira), não tinha comando de direção próprio, ou seja, a bequilha era livre e virava para o lado que se aplicava o freio de uma das rodas principais. As vezes, quando ela passava dos 90o para um dos lados, o movimento era irreversível e quanto mais aceleração se desse aos motores, mais a situação se agravava. Só o pessoal de apoio de terra é que resolvia o problema.
(8) "laranjeira" = refere-se ao militar cuja família reside em outra cidade ou outro estado muito longe do quartel. Ao contrário, os que têm famílias próximas são chamados de "bananeiras"
(9) TF-7 = "F" é usado para designar os aviões de caça (Fighters); o prefixo "T" designa avião de treinamento. No caso, o "TF-7" era o avião de dois lugares que a FAB usava para dar instrução para o F-8 "Gloster Meteor".
(10) "surtar" = giria da atualidade que significa algo como "perder o controle", "dar a louca..."
(11) 5o A = Uniforme 5o A, mais especificamente é o uniforme da FAB que corresponde ao "passeio completo" dos civís. Este uniforme, mais conhecido por sua cor "Azul Baratéia", está sendo desativado e será substituido pela nova cor "Azul Aeronáutica" que é mais escura.
(12) bangornada" = significa dar balançadas com o avião, tentando acertar a sua posição correta. Normalmente estas "balançadas" se transformam em oscilações contínuas.
(13) "Tiger II" = o nome de "batismo" do F-5E é "Tigre Dois", o primeiro caça a ser chamado de "tiger" foi um avião fabricado pela "Grummann".
(14) Hangar do Zeppelin = Hangar existente na Base Aérea de Santa Cruz, com 250 metros de comprimento, 50 de largura e 80 de altura, construído para abrigar os dirigíveis tipo zepelim.
(15) tubo de Pitot = pequeno tubo situado, normalmente, no nariz dos aviões de caça e destinado a captar o ar para medir a sua velocidade (pressão dinâmica). O nome se refere ao físico Henri Pitot.
(16) carlinga = o mesmo que cabine ou nacele


O P-40 NA FAB


O vôo de um avião P-40 no Brasil ocorreu em 07 de agosto de1942 o que aconteceu na Base Aérea de Natal, Rio Grande do Norte, e nesse mesmo ano começaram a patrulhar o litoral. Foram 6 os P-40E recebidos em 1942, que tiveram os números 01 a 06. Na data de 28 de outubro de 1943 foram recebidos em Natal 7 P-40K, de números na FAB iguais a: 12, 13, 14, 15, 16, 17 e 20, com mais 3 P-40M números 18, 19 e 21.
No final de 1943 eram 8 P-40, modelos E e K, apenas, e em julho de 1945 eram 32, que foram de Natal para o 2º Grupo de Caça, em Santa Cruz, Rio de Janeiro. Eram dos modelos E, K, M e N. Seus números na FAB eram os seguintes:
P-40E 4020, 21,22,23,e 25 (Os quatro algarismos representam uma nova numeração adotada pela FAB).
P-40K 4026, 27, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 42, 43, 46, 48, 49 e 50.
P-40M 4053, 54, 57, 58 e 59.
P-40N 4080, 81, 82, 83, 84, e 85.


Os aviões P-40 foram Utilizados:

6 P-40E foram entregues pela USAAF em 1942, todos para a Base Aérea de Natal, Rio Grande do Norte;
30 P-40K foram entregues pela USAAF entre novembro de 1942 e março de 1943, sendo que alguns se acidentaram em vôo de translado, pelo que apenas 25 entraram em serviço. Para a Base Aérea de recife foram 14 aeronaves, e 11 para Natal. Dos acidentados, 2 foram recuperados depois da guerra.
10 P-40M foram entregues pela USAAF em fevereiro de 1943. Apenas 9 entraram em serviço, sendo 4 em Natal, 3 em Salvador, 1 em Recife e o outro com o uso ignorado.
41 P-40N recebidos da USAAF entre outubro de 1944 e março de 1945, e que foram assim distribuídos: 15 em Porto Alegre, com o 3º Grupo de Caça; 20 em Santa Cruz, Rio, com o 2º Grupo de caça e 6 em Natal, com o Grupo Misto.
Em 1946 os remanescentes foram reunidos no 3º Grupo de Caça depois transformado no 1º/14º Gav, em Canoas, Rio Grande do Sul. Os P-40 operaram na FAB de 1942 a 1947, em Natal, e em 1954 foram desativados em canoas. Um dos P-40 Brasileiros chegou a voar 392 horas em Natal, e fez 395 pousos, foi o de Nº 4.
No tempo em que esses aviões integraram a FAB ocorreram alguns acidentes, o de Nº 19, em 12/09/1944, Nº 06 em 20/09/1944, 08 em 20/09/1944, Nº 13 em 26/09/1944, Nº 09 em 03/10/1944 e o de Nº 07 em 18/10/1944.
Com a extinção do Grupo Misto em Natal, Todos os seus aviões P-40 foram transferidos para o 2º Grupo de Caça, à exceção de 3 aeronaves que já haviam sido enviadas para o 3º Grupo de Caça. Em agosto de 1946 o 2º Grupo de Caça ficou sem efetivo e foi extinto no ano seguinte. Seus P-40 mais antigos, inclusive todos do modelo E, foram recolhidos ao Parque Aéreo de São Paulo, os demais sendo transferidos para o 3º Grupo de Caça, que ficou sendo assim a única unidade a operá-los, na época. Esse grupo, posteriormente, passou a se chamar 14º Grupo de Aviação, e só em 1954 os P-40 deixaram o serviço ativo na FAB, pois então já entravam em serviço os Gloster Meteor.
Foram ao todo, 89 aviões P-40 em uso na Força Aérea Brasileira, contando com os 2 P-40K de instrução ao solo, que a USAAF entregou em outubro de 1944.
Para quem nunca viu uma dessas belíssimas aeronaves P-40, existe uma no Museu Aeroespacial, no Campo dos Afonsos. É uma aeronave do modelo N que serviu em Porto Alegre.

Especificações Técnicas


Curtiss P-40E

Período de utilização: 1942 a 1953
Fabricante: Curtiss-Wright Corp. Airplane Division - USA
Emprego: Caça
Características: Monoplano, asa baixa, monomotor, monoplace
Motor: Allison V-1710-39 de 1.150 Hp, 12 cilindros em "V", refrigerado a líquido

Envergadura:...................................... 11,27 m
Comprimento:..................................... 9,65 m
Altura:.............................................. 3,75 m
Superfície alar:................................... 21,92 m²
Peso vazio:........................................ 2.707 Kg
Peso máximo:..................................... 3.804 Kg
Velocidade máxima:............................. 569,9 Km/h a 4.572m
Razão de subida:................................. 624,8 m/min
Teto:................................................ 8.839 m
Alcance:............................................ 1.126 Km

Armamento: 3 metralhadoras Browning M-2 .50 em cada asa. capacidade para cargas externas de até 485,5Kg.
Matrículas: 01 a 06, posteriormente P-40E 4020 a 4025 e depois F-40 4020 a 4025.
Designação: P-40, F-40


Curtiss P-40K


Período de utilização: 1943 a 1954
Fabricante: Curtiss-Wright Corp. Airplane Division - USA
Emprego: Caça
Características: Monoplano, asa baixa, monomotor, monoplace
Motor: Allison V-1710-73 de 1.325 Hp, 12 cilindros em "V", refrigerado a líquido

Envergadura:...................................... 11,37 m
Comprimento:..................................... 19,66 m
Altura:.............................................. 3,24 m
Superfície alar:................................... 21,92 m²
Peso vazio:........................................ 2.903 Kg
Peso máximo:..................................... 4.536 Kg
Velocidade máxima:............................. 528,2 Km/h a 4.572m
Razão de subida:................................. 609,6 m/min
Teto:................................................ 8.534 m
Alcance:............................................ 1,126 Km

Armamento: 6 metralhadoras Browning M-2 .50 em cada asa. capacidade para cargas externas de até 453,6Kg.
Matrículas: P-40 4026 a 4050, 4101, 4102, 4148 e 4149, depois F-40
Designação: P-40, F-40


Curtiss P-40M

Período de utilização: 1943 a 1954
Fabricante: Curtiss-Wright Corp. Airplane Division - USA
Emprego: Caça
Características: Monoplano, asa baixa, monomotor, monoplace
Motor: Allison V-1710-81 de 1.200 Hp, 12 cilindros em "V", refrigerado a líquido

Envergadura:...................................... 11,37 m
Comprimento:..................................... 10,15 m
Altura:.............................................. 3,75 m
Superfície alar:................................... 21,92 m²
Peso vazio:........................................ 2.437 Kg
Peso máximo:..................................... 4.037 Kg
Velocidade máxima:............................. 579,6 Km/h a 4.609m
Razão de subida:................................. 624,8 m/min
Teto:................................................ 9.144 m
Alcance:............................................ 1.126 Km

Armamento: 3 metralhadoras Browning M-2 .50 em cada asa. capacidade para cargas externas de até 485,5Kg.
Matrículas: P-40 4051 a 4059, depois F-40
Designação: P-40, F-40


Curtiss P-40N

Período de utilização: 1944 a 1954
Fabricante: Curtiss-Wright Corp. Airplane Division - USA
Emprego: Caça
Características: Monoplano, asa baixa, monomotor, monoplace
Motor: Allison V-1710-99 de 1.200 Hp, 12 cilindros em "V", refrigerado a líquido

Envergadura:...................................... 11,37 m
Comprimento:..................................... 10,15 m
Altura:.............................................. 3,75 m
Superfície alar:................................... 21,92 m²
Peso vazio:........................................ 2.812 Kg
Peso máximo:..................................... 4.014 Kg
Velocidade máxima:............................. 563,5 Km/h a 4.998m
Razão de subida:................................. 646,17 m/min
Teto:................................................ 9.449 m
Alcance:............................................ 1.206 Km

Armamento: 3 metralhadoras Browning M-2 .50 em cada asa. capacidade para cargas externas de até 680,4Kg.
Matrículas: P-40 4060 a 4100, depois F-40
Designação: P-40, F-40


UMA "CHEGADA" DE F-80

Transcorrida o ano de 1958 e eu era um dos "anacreontes"(1) do 1o/4o G.Av., conforme eram chamados os aspirantes pelo nosso comandante, Maj. Berthier de Figueiredo Prates(1a), por sua vez por nós chamado de "O Magnífico", não sem justa razão.
Naquela ocasião o Esquadrão contava com 28 pilotos e 33 aviões. Eram 3 T-6, 4 T-33A e 26 F-80, na verdade P-80C.
Havíamos iniciado o vôo com 4 aviões e certa vez fui escalado para o último vôo do dia, sendo liberado pelo 1o Tenente Juarez Lopes de Moura, comandante da Esquadrilha de Paus. Eu era o nº 4 (2). Fizemos o "briefing" (3), fomos para os aviões e decolamos normalmente.
O meu avião, do qual não recordo o número, fazia o seu primeiro vôo de instrução no Brasil, pois havia chegado dos Estados Unidos no dia anterior, juntamente com mais 12, fazendo parte da segunda remessa, transladados por pilotos americanos.
O 1o Tenente Márcio Nóbrega de Ayrosa Moreira, chefe da manutenção, havia feito o vôo de recebimento e o avião entrou normalmente para a escala de vôo.
Após um vôo suado, como eram normalmente os liderados pelo Mourinha, voltamos para a Base sem novidades. Zona (4)... Inicial (5)... Pilofe (6).
- 1001... 1002... 1003 (7)... Tirei o motor e puxei.
Uma vez alcançamos os 180o (8).
- Trem... Buzina (9)... Indicadores... Pressão... Flapes... UHHH!!!... O manche (10) ficara duro em minhas mãos.
Que seria? Um pouco de luta e alguns puxões de nada valeram, ao contrário, pioraram um pouco as condições e o nariz ficou muito baixo. A situação era muito difícil, pois eu estava com o trem e os flapes em baixo, o avião fazendo uma curva inclinada e com o nariz (11) querendo chegar rapidamente ao chão, bem antes dos terrenos da Base, em uma atitude que não me agradaria.
EJETAR!!!... Foi coisa que nem me passou pela cabeça. A NPA (12) relativa à ejeção no F-80 dizia o seguinte:
1o - puxe o atuador amarelo, tarjado de preto, localizado à direita do painel até que o "thrust" (uma carga de explosivo) ejete o "canopy" (13) (para trás, de encontro à deriva);
2o - puxe para cima os braços da cadeira até que travem na posição horizontal e fique ao alcance da mão direita um gatilho sob o braço da cadeira;
3o - ao suspender os braços da cadeira recolha os pés e junte-os à cadeira (você lembraria?);
4o - acione o gatilho que disparará uma carga de explosivos que fará a ejeção (e ao mesmo tempo lhe proporcionará uma formidável carga "g" (14), já que está sentado estático em relação ao avião, e a ejeção se fará de uma só vez, diferente do que já é feito);
5o - ao sair do avião, leve a mão ao cinto, puxe sua trava, solte-o e libere da cadeira empurrando-a com o pé (se seu pé não estiver quebrado por haver batido no avião ao sair, pois não havia a tira que puxa os pés automaticamente, e se sua coluna não tiver sido muito afetada pela excessiva carga "g"); e
6o - puxe o atuador do pára-quedas e abra-o (exatamente como os pára-quedistas fazem nos saltos livres, e aguarde uma aterragem suave e tranqüila, se ainda restar alguma coisa de você).
Nota importante: aconselha-se o salto acima de 5.000 pés (15).
E eu estava a 500 ou 600 pés, com o avião todo sujo (isto é, com trem e flapes baixados), com o nariz para baixo e em curva bastante inclinada. Durante a luta com o manche, verifiquei que tinha comando de asas. Com a visão periférica notei a pista passando pelo nariz e nivelei as asas, alinhando o avião, mas tendo o nariz muito baixo.
Naquele tempo o número da pista era 12 (16), tinha somente 2.000 metros de comprimento e, em seu término, logo depois do aterro, havia muitas lavadeiras que, com um pano branco na cabeça, aproveitaram as águas límpidas de um regato que lá passava para lavar montanhas de roupa todos os dias.
- Motor!!!... Dei uma forte manetada (17) que fez o "J33-A35" (18) dar um urro, tremer, mas responder (não sei onde foi parar a temperatura). Funcionou! O nariz passou pelas lavadeiras, passou pelo horizonte e comecei a ver o céu, onde não gostaria de checar tão cedo. Tirei o motor.
- Foi muito bom!!... O nariz baixou mais do que deveria.
- Motor!... Tira!... Dá!... Tira!... Dá!... Cheguei a poucos pés de altura em uma atitude um tanto "diferente", mas não havia muito mais a fazer.
- Basta!!.. E tirei o motor.
Fiz minha "chegada" na direção da pista, dentro dos terrenos da Base, na região já limpa, porém muitos metros antes dela. Foi a minha sorte. Estávamos em julho e havia chovido no dia e também nos dias anteriores. As chuvas tinham sido passageiras, mas haviam molhado e amolecido o terreno, em especial aquele ainda distante, que não havia sido compactado.
O primeiro choque se deu com a roda do nariz, e logo depois com o trem principal. Para surpresa minha o avião continuou se deslocando em direção à pista, foi se aproximando e passou pela cabeceira, início do pavimento, como se nada houvesse acontecido e continuou assim.
- Pacau de Paus (19), quatro de Paus!
- Prossiga...
- Para sua informação, o quatro de Paus pousou sem comando de profundor (20).
- ???!!!
No dia seguinte, a primeira pessoa que encontrei foi o sargento que no dia anterior, ao anoitecer, estava próximo à cabeceira da pista recolhendo o "Joca" (21), equipamento rádio junto ao qual, em algumas ocasiões, ficava um instrutor. Ele tudo vira e me disse:
- Pensei que o senhor fosse morrer!...
Fui então até o ponto em que havia chegado ao solo e verifiquei que a roda do nariz havia aberto um profundo sulco no solo fofo e molhado, e que logo depois as rodas do trem principal haviam feito o mesmo, o que amorteceu muito o choque. Com a velocidade que o avião estava, foi rasgando um sulco em direção à pista, e à medida que se aproximava dela e o solo era mais compactado, foi subindo até chegar à superfície.
Nada se quebrou e rolei (22) até o estacionamento. O pessoal da manutenção abriu as janelas de inspeção na base de deriva e encontrou um pedaço de chapa de ferro, com 3/8 de polegada de espessura, travando uma peça em "L" que ligava o cabo do manche ao cabo do profundor.
- Que estaria fazendo ali?

Maj.Brig. Eng. R/R Hugo Nicodemo Guida
Piloto de Caça de 1958


P-47 NO NORDESTE


O 2o/9o Grupo de Aviação (Ex 2o Grupo de Caça e futuro 2o/1o Grupo de Aviação de Caça), estava no seu terceiro ano de formação de pilotos de caça, 1946/47/48 e terminando o seu E.S.P.C. (Estágio de Seleção para Pilotos de Caça). Os estagiários já haviam solado o P-47 e voado grande parte das missões do curso.
- Em 1946, quando da inauguração do Cassino (23) da Base Aérea de São Paulo, e a pedido de seu comandante, Cel.Av. Nelson Freire Lavenère Wanderley, veterano na Itália, nós nos deslocáramos até lá.
- E agora, em 1948, para as manobras do CTA (Curso de Tática Aérea), também por solicitação do Cel.Av. Wanderley.
Como comandante do esquadrão, desejava que as missões de navegação incluíssem etapas de longo alcance, para as quais o P-47 era especialmente apto, visto sua operação sobre a Alemanha e na campanha do Pacífico. Resolvi tentar permissão para levar o Esquadrão ao nordeste. Não houve dificuldade com o Oficial de Operação da Base, Cap.Av. Newton Lagares da Silva, de quem dependeria o apoio logístico.
O Comandante da Base, Maj.Av. Hermes Ernesto da Fonseca não pôs impecilho, mas mandou-me falar com o Chefe do Estado-Maior da 3a Zona Aérea (24), a quem a Base era subordinada. A próxima etapa foi com o Chefe do Estado-Maior na 3a Zona Aérea; este não disse sim nem não; o caso era da alçada do Brigadeiro Comandante que, por sua vez não era contra, mas havia uma ordem antiga, de 1945, que não poderia ser desobedecida, a menos que o Gabinete do Ministro autorizasse...!!!
Lá fui eu para o Ministério. Os oficiais com quem ia me encontrando, curiosos em saber que eu desejava, eram de opinião que eu estava perdendo o meu tempo; alguns, com resquícios da má vontade com 1o Grupo de Aviação de Caça, diziam que nosso lugar era mesmo voando em Santa Cruz.
O Cel.Av. Henrique Fleiuss, Chefe de Gabinete do Ministro, disse que compreendia a minha solicitação, não havia dificuldade e, por questão de cortesia, iria levar-me para falar diretamente com o Ministro (Ten.Brig. Armando Trompowski de Almeida). Fui recebido pelo Ministro; o chefe de Gabinete já lhe expusera o problema, ele concordara e mandaria um rádio (25) ao Comandante da 3a Zona Aéra (Z.Aer.) autorizando.
De volta ao Quartel General (Q.G.) da 3a Z.Aer.! O Brigadeiro não pareceu muito satisfeito e o Chefe do Estado-Maior foi logo dizendo que não haveria ajuda e eu deveria usar recursos próprios. Esta hipótese já havia sido por nós aventada e havíamos chegado à conclusão que, usando os nossos T-6 do E.S.P.C., poderíamos prescindir de qualquer ajuda externa.
Voltei a Santa Cruz. A autorização chegou. O que me surpreendia é que eu, com dois anos apenas de promovido a capitão, tivesse que chegar até ao Ministro para obter uma autorização a respeito de uma parte de instrução operacional ao nível de Esquadrão! Os mecânicos deram uma caprichada geral. Sem eles nada seria possível.
Os P-47 necessários estavam disponíveis e ainda tínhamos alguns de reserva. Iríamos até Fortaleza, pousando nas Bases de Recife, Natal e Salvador no regresso, de modo a que os estagiários tivessem a oportunidade de conhecê-las e de fazer contato com as Unidades de B-25 que lá operavam.
Decidimos fazer duas viagens com 12 P-47 cada uma, acompanhados por 16 T-6 com os mecânicos e o material sobressalente de maior urgência. Estes aviões também seriam voados pelos comandantes de esquadrilha do esquadrão e pelos estagiários; cada uma fez duas viagens, uma de P-47 e uma de T-6.


18 de novembro de 1948

Começamos o Táxi (26). Na cabeceira da pista fazemos os cheques. Os polegares, a partir do último se vão levantamento.
- Primave (27), Pif-Paf (28) Ás de Ouros (29), 12 aviões, ponto de decolagem.
- Pif-Paf Ás de Ouros, Primave Livre posição e decolagem, pista 04, vento...
Os aviões estão pesados. Carga máxima. Combustível completo, dois "wing-tanks" (30) de 165 galões (31) Só nos faltavam os 2.136 cartuchos .50 (32) nas metralhadoras. No ar deixo ir um pouco além da cabeceira da pista e inicio a curva para a esquerda; todos se juntam e estamos a "caminho da vitória".
Subimos por degraus, 10.000, 15.000, 20.000, 25.000 pés. Em linha de frente aberta o esquadrão vai se ajeitando; uma esquadrilha alta e outra baixa. Os comandantes de Copas e Paus, às vezes, chamam seus alas para uma observação qualquer.
Com o passar do tempo o avião vai se aliviando e junto vem o cansaço e a fome. A máscara de oxigênio começa a incomodar. As cidades vão passando, Vitória, Caravelas, Maraú fechado (33) como sempre. Passamos por sobre enorme colchão de nuvens e não se viu Ilhéus.
Essa era uma missão típica de escolta (34) da IIa Guerra Mundial, sobre as cidades de Berlim, Frankfurt, Dusseldorf, Colonia ou sobre Tóquio; os P-47 chegavam a ficar nove horas no ar. Pra nós, faltavam os Focke-Wulf, os Messerschmitt ou os Zero (35) da defesa aérea e os tiros da anti-aérea. Passam Salvador, Aracajú e Maceió. Nossos T-6 já ficaram para trás.
É hora de iniciar a descida. A velocidade cresce, o avião fica mais "durinho" (36) e todo mundo acorda. O sono que nos vinha perseguindo desaparece. Dez minutos fora, Recife já me atendeu. As três esquadrilhas se juntam em formação básica (37) e o Esquadrão vai passar rasante (38). O pessoal da Base, do Esquadrão de B-25 e do Q.G. da Zona Aérea, no páteo, aguarda a primeira apresentação dos P-47 no Nordeste.
Só em 1945, quando nosso Patrono, Brig. Nero Moura viera dos Estados Unidos, trazendo os veteranos, eles haviam sido visto nessas paragens. A passagem foi caprichada, a adrenalina fizera evaporar o cansaço. Faltava o "peel-off" para, depois no solo, o papo rolar solto e o vôo virar história.

Fila dos P-47 em Recife.

A seguir pousaram nossos T-6. Seu último reabastecimento havia sido em Maceió. Primeiro pernoite fora de Santa Cruz.
Decolamos cedo. Natal nos aguardava; o 1o/5o Gp.Av., com seus B-25 na pista, nos recebeu. Com ele o Comandante e oficiais da Base. A próxima etapa seria rasante, como já fôra a Recife-Natal. As praias do nordeste são lindas e, a mais de 350 km/h, as vemos desfilar sob nossas asas, como que procurando alvos de oportunidade ao longo das areias ou sob os coqueirais. Simulamos ataques a pesqueiros, jangadas e pequenos vilarejos. Entre o nível do mar e 1500 pés fomos "costurando" a arrebentação.
E chegamos a Fortaleza. A visita de uma unidade a outra Base é sempre uma festa. Os amigos se vêem, as novidades são postas em dia e, à noite, a tentativa vai para a cidade conhecer um mundo diferente, mas que é igual em todo mundo. Amanhã iniciaremos o regresso. Falta-nos ver Salvador. Os poucos mecânicos que trouxemos se desdobram e os 12 P-47 e 16 T-6 estão prontos na pista; todos disponíveis! Já voamos mais de 100 horas de P-47 e pouco mais de 200 de T-6.
É um reabastecimento atrás do outro; completar os tanques de óleo hidráulico e lubrificante; encher os cilindros de oxigênio; verificar as pressões dos pneus; limpar os párabrisas e os "canopies". Esse grupo de homens é de uma dedicação sem limites.
Os Casinos dos sargentos também têm estado de festa. Reencontro de colegas que a muito não se viam. À noite procuro um tempo para ir até lá prestigiar o nosso pessoal, mostrando aos anfitriões a consideração que nos merecem. Num deslocamento como esse, cada piloto faz o seu pré-vôo. Os menores recebem auxílio dos maiores por não conseguirem, sozinhos, girar a hélice pendurada nos 18 cilindros do "Pratt & Whitney" (39) de 2.000 hp.
Com proa sul seguimos direto para Salvador. O contraste entre a caatinga e a praia é enorme. Acompanhamos o Rio São Francisco. Durante dois dias aguardamos que o tempo no Rio de Janeiro melhorasse. Quebramos a etapa em Caravelas para nos assegurarmos que o boletim meteorológico era favorável (O P-47 não tinha meios de comunicação que me permitissem recebê-lo em vôo).
Chegamos a Santa Cruz, a manutenção pediu uma semana para preparar os aviões para a próxima viagem. Era a revisão de 25 horas dos P-47 e de bastante mais dos T-6.

1 de dezembro de 1948

Quando decolamos os T-6 já iam longe. Da porta do Esquadrão eu os vira partir. Eram 16. Já éramos todos veteranos na rota. Quem fora de T-6 na primeira ia agora de P-47 e vice-versa. As Bases já nos esperavam. Tudo se repetia. No terceiro dia estávamos em Salvador, na perna de regresso. De novo o tempo nos segurou. Chovia forte desde Ilhéus até um pouco ao norte, perto de Aracajú. Esperei três dias. O Rio de Janeiro dava, sistematicamente, teto variando entre 500 e 1.000 pés, com boa visibilidade. Vitória, minha alternativa, estava com céu azul e visibilidade ilimitada.

Uma chegada diferente

Para o quarto dia marquei o "briefing" para cedo. O Esquadrão se reuniu rápido; abri as esquadrilhas e cada uma foi subindo com seus quatro aviões, com espaçamento de um minuto entre cada uma. O furar da camada de nuvens foi um pouco demorado. Cada vez que a turbulência mexia comigo eu dava uma triscada para os lados, mas lá estavam meus Pif-Paf's quietinhos. Nem parecia que era com eles.
No topo, por volta dos 10.000 pés. Logo a seguir apareceu o Goulart (Copas) e pouco e pouco depois o Binsão (Paus). A 25.000 pés passamos Caravelas e Vitória, o céu estava azul. Logo a seguir estávamos novamente acima de um colchão branco. Meu rumo era Saquarema. Queria interceptar a faixa leste do rádio faixa (40) de Santa Cruz, voar uns poucos minutos, para ter certeza que estava sobre o mar e dobrar à direita para rumo 270o de modo a ir cruzar a perna sul (41) de Santa Cruz.
Chamei Primave ao passar, estimado, sobre a Serra do Mar, entrou alto e claro. Santa Cruz tinha teto de 600 a 1.000 pés. Ainda em linha de frente (42) continuei minha descida. Mesmo meu número 12, pelo último cheque rádio, tinha combustível para tentar a descida e, não podendo aterrar, arremeter e voltar com folga par Vitória.
Rádio faixa de Santa Cruz entrou nítido. Estava dentro do quadrante "A", voando no rumo de interceptação da faixa leste. Aos poucos o ouvido começou a indicar aproximação da faixa. Balancei as asas e as Esquadrilhas se foram juntando e aproximando e, pelo rádio, informaram;
Pif-Paf de Copas em forma.
Pif-Paf de Paus em forma.
Cruzei a faixa com o Esquadrão em cobrinha (43) de Esquadrilhas, logo acima do topo da camada (44). Pouco depois, curva à direita; continuava a 10.000 pés.
Avisei Primave que ia indicar a penetração e reiniciei a descida. Chegada a Santa Cruz. A 2.500 pés ouvi o traço contínuo (45) da perna sul. Curva de 270o pela esquerda, comuniquei a Santa Cruz. Todos sabiam que estávamos a minutos de completar a primeira aproximação por instrumentos com doze aviões de caça, sem rádio goniômetro (46).
Dentro da faixa e com proa para nossa Base. A 1.000 pés entrevi a restinga da Marambaia. Chuvisco ligeiro, descemos mais um pouco e lá estava nossa pista."Peel-off", pouso e relaxar depois de mais cinco horas de vôo.
O Segundo Esquadrão havia realizado;
- O primeiro deslocamento para o Nordeste, duas vezes;
- O primeiro deslocamento com recursos próprios;
- Primeira etapa com penetração e descida por instrumentos, com 12 aviões.
O Esquadrão adquiriu uma enorme dose de personalidade ao completar essa missão. O orgulho de pertencer ao Segundão pareceu crescer.

João Eduardo Magalhães Motta
"Cap.Av." Comandante do 2o/9o Gp.Av. Pif-Paf 05

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) anacreonte = chingamento "técnico" do instrutor para com a ignorância do aluno. Mais usado em sua forma compacta "anacra".
(1a) Consulte a página [MITOS]
(2) No4, número quatro = é o quarto membro da esquadrilha. Normalmente voa nesta posição o piloto que tem pouca qualificação operacional.
(3) "briefing" = Reunião dos componentes do vôo, para "combinar" e planejar a missão. Hoje a palavra foi nacionalizada para "brifim". A reunião após, a missão, é o "debrifim". (4) Zona = posição relativa à pista, na qual os aviões de caça "aguardam" autorização para a entrada no tráfego de pouso
(5) Inicial = posição do tráfego de pouso na qual os aviões de caça informam que estão iniciando a manobra denominada pilofe.
(6) Pilofe = ou "peel-off", Manobra efetuada antes do pouso, visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo. Hoje a palavra foi aportuguesada para "pilofe".
(7) 1001, 1002, 1003... = contagem que indica ao piloto, com bastante precisão, a passagem dos segundos. No caso o intervalo de três segundos é o tempo de espaçamento entre as aeronaves que fazem um pilofe na esquadrilha.
(8) 180o = fazer uma curva de 180 graus, ou seja, fazer meia volta e tomar o sentido inverso
(9) buzina = dispositivo sonoro que, nas baixas potências do motor, indica ao piloto que o trem de pouso não está baixado e travado.
(10) manche = alavanca de comando de inclinação longitudinal e lateral dos aviões (principalmente os de Caça).
(11) nariz = parte dianteira da fuselagem do avião.
(12) N.P.A. = Normas Padrão de Ação, regras escritas normalmente sobre procedimentos operacionais
(13) "Canopy" = ou "canopi", capota da cabine dos aviões de caça. A tradução correta deveria "copa", como as copas das árvores (plural em inglês é "canopies").
(14) "G" = Símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave.
(15) 5.000 pés = equivalem aproximadamente a 1.500 metros.
(16) Pista 12 = o número da pista indica a sua orientação magnética (dividida por dez e arredondada). O avião que for decolar, ou estiver pousando, estará com sua bússola indicando 120 gráus magnéticos.
(17) manetada = variar com rapidez a manete (alavanca) de aceleração do motor. Dar uma manetada significa acelerar rapidamente o motor.
(18) J33-A35 = designação do motor do F-80. "J" significa turbo-jato e "A" significa o nome do fabricante "Allison.
(19) Pacau de Paus = "Pacau" é códido rádio do 1o/4o Grupo de Aviação (Caça) e "paus" é código de uma das esquadrilhas deste Esquadrão.
(20) profundor = parte móvel do estabilizador horizontal dos aviões.
(21) Joca = Código rádio usado pelo instrutor que, em terra, observa e, se necessário, dá dicas para seus alunos em vôo.
(22) rolar = andar com a aeronave no solo, o mesmo do que taxiar.
(23) Cassino = Nome dado, pela Força Aérea, aos locais de descanso e divertimento dos militares dentro das bases (Cassinos do oficiais, dos sargentos e dos cabos e soldados).
(24) Zona Aérea = Naquela época as áreas "administrativas" da FAB eram denominadas de Zonas Aéreas, hoje são os Comandos Aéreos Regionais (COMAR
(25) Antigamente pelo código morse, depois via teletipo e agora pela "intranet".
(26) taxi = andar com a aeronave no solo, o mesmo que rolar.
(27) Primave = Código radio da Torre de Controle de Santa Cruz (PRIMeiro Grupo de AVIação)
(28) Pif-Paf = código de "chamada rádio" dos pilotos do 2o Esquadrão do 1o Grupo de Caça.
(29) Ás de ouros = "Ás" é o código rádio do lider da esquadrilha, no caso, da esquadrilha de "ouros".
(30) "wing-tank" = tanque de combustível que é colocado debaixo das asas e que em missões de guerra é alijado quando está vazio.
(31) 165 galões = aprox. 630 litros (1 gal = 3,785 lt).
(32) .50, ponto cinquenta = Calibre das 8 (oito) metralhadoras do P-47. Cerca de 13 mm de diâmetro.
(33) fechado = tempo fechado, céu completamente coberto de nuvens.
(34) missão de escolta = missão de proteger os aviões de bombardeio.
(35) Focke-Wulf, Messerschimitt, Zero = Famosos aviões de caça da Alemanha e do Japão na Segunda Guerra Mundial.
(36) "durinho" = Nas menores altitudes, a maior densidade da atmosfera e o ganho de velocidade torna os comandos mais eficientes, mais "duros".
(37) Formação Básica ou formatura básica = Disposição da esquadrilha na qual os aviões ficam dispostos em forma de "V" invertido.
(38) rasante = vôos feitos a muita baixa altura e que apesar de muito perigosos, dão enorme alegria aos pilotos.
(39) "Pratt & Whitney = Fabricante de motores da aviões.
(40) radio faixa = Sistema de navegação rádio que utilizava sinais sonoros para definir quatro faixas de aproximação para uma estação transmissora (fixo aeronáutico).
(41) perna sul = "Faixa" localizada ao sul da estação transmissora de "radio-faixa".
(42) linha de frente ou formatura de linha de frente = Disposição da esquadrilha na qual os aviões ficam dispostos em linha, um ao lado do outro, asa com asa.
(43) cobrinha = Formação em que os aviões ficam um atrás do outro e repetem as manobras do avião que está na frente (líder).
(44) topo da camada = Parte superior das nuvens que normalmente é bem definida e parece um colchão branco.
(45) traço contínuo = O som contínuo indicava que o avião havia "entrado" em uma das "faixas" da "radio-faixa".
(46) radio goniômetro = equipamento eletrônico que indica a direção de uma estação transmissora de rádio. Embora antiquado, ainda hoje é usado para auxiliar a navegação aérea. As"velhas águias" chamavam o "ADF" de "radio goniômetro".


NASCIMENTO DO TETÉU


Nos idos de 1954, reiniciamos o curso de Caça em Natal nos P-47 (1), depois do difícil início nos incríveis P-40 (2) em Porto Alegre, que marcou o encerramento do vôo dessa resistente garça como "avião militar", sendo o 1o/14o G.Av. o último Esquadrão a voá-lo no mundo. Nosso comandante, no novo Esquadrão, era o então Maj. Teixeira Rocha, que não só tinha o sorriso do Mandrake (3), mas até parecia com ele: e foi assim que, numa bela manhã de sol "out of the blue" (4) me surgiu o Major quando eu cuidava do meu cachorro e mascote do esquadrão, juntamente com o Ten. Carvalho, o inesquecível "Macaco de Cheiro", e foi logo dizendo:
- Ten. Camisão, depois venha à minha sala. Voltou-se e saiu andando. Claro que na mesma hora o "Macaco" deu um "brake" (5) e desapareceu. Naquele momento apenas olhei para o "Flieger" (que significa aviador em alemão) e pensei:
- Estou ferrado, o gracinha do Flieger aprontou outra.
Vale aqui uma pausa para explicar quem era o Flieger: o nome deste cão foi dado pelo Ten. Gohn quando ganhei o ovelheiro amarelo e branco ainda em Gravataí e que me acompanhou até Santa Cruz, e durante toda a minha vida como "Caçador".
Este cachorro tornou-se um companheirão adulado por todos, mas que, exatamente por isso, criou momentos bastante desagradáveis com o Comandante da Base Cel. Silva Gomes e com o próprio Teixeira Rocha quando, no clube da Base Aérea de Natal (conhecido como "Rampa") demonstrou aos dois oficiais, que conversavam placidamente numa mesa, incorrigíveis maus modos. Durante passeio não autorizado em locais não permitidos à sua espécie, confundindo pernas de mesa e de gente com postes e árvores, satisfez suas necessidades.
Quem conheceu os dois oficiais pode imaginar o que isso significou... O diabo do cão (que diga-se de passagem, não refrescava nenhuma cadela das redondezas) tinha ainda provocado bastante reboliço ao tentar "confraternizar" com o mascote da Infantaria de Guarda da Base, que casualmente era um carneiro (detalhe simplesmente desprezado por ele), o qual, com toda razão, não reconhecia no Flieger qualquer intuito de amizade.
Pode-se imaginar o que este fato proporcionou e como refletiu na minha posição de "aprendiz de Caçador", mas esta é outra história.
Voltando ao curso da história, finalmente me arrastei até o Major, que me disse:
- Ten. Camisão, seus colegas me contaram que você desenha muito bem, assim sendo, quero que você desenhe uma "bolacha" (6) para o Esquadrão.
Senti um alívio imenso, mas por ser uma sexta-feira (e como voamos intensamente também nos fins de semana) queria ter algum tempo para mim. Assim, sem pensar, dei uma resposta precipitada, principalmente em se tratando com uma águia afiada como o Teixeira Rocha.
Eu disse:
- Major, o senhor me desculpe, mas em questões artísticas eu só trabalho quando inspirado.
O Teixeira Rocha, que estava sentado, inclinou a cadeira para trás e argumentou:
- Ten. Camisão, o senhor tem toda razão e como vem um feriado, o melhor é emendar com o fim de semana e ficar na Base até a inspiração chegar e então me apresentar o desenho pronto.
Incrível, nesta mesma sexta-feira a inspiração veio e nasceu o TETÉU com a ajuda do Flieger transformado em "cachorrão" (mais agressivo) e com o tacape para trás das costas e uma flor na mão, o que mais tarde, por consenso dos instrutores, passou para a frente na posição atual, sem a flor.
O nome TETÉU, que foi dado pelos pilotos, também surgiu depois, talvez por influência de um bar bastante conhecido na época, que tinha um cachorro parecido, mas isso também é outra história, que fugiu do meu tempo. O "tô lhe manjando" é óbvio e explica o estado de alerta constante.
Como colocou o saudoso Ten.Cel. Cortes na história do 1o/4o G.Av.: "... antes de tudo nossas cores são, em espírito, uma homenagem ao instrutor de Caça e ao seu espírito irredutível, intelectual e fisicamente incansável, vigoroso e inquebrantável, exigente, sem ser rude, corretivo, sem ser punitivo."


Cel.Av.Ref. Sérgio Camisão
Piloto de Caça


A MULETA


A manutenção do Primeiro Grupo de Caça (1o Gp.Av.Ca.), em plena era dos F-5, aí pelo início da década de 80, funcionava de maneira singular: havia uma espécie de repulsa dos oficiais aviadores em trabalhar na área. Todos desejavam ir para Operações (7) , pedaço nobre, conviver com os príncipes. Enquanto isso, o povo da graxa (8) era relegado ao segundo plano.
Após uma daquelas mudanças de comando ou algo parecido, os cargos estavam em pleno movimento de substituições de seus detentores e a chefia da manutenção do Grupo era aquela coisa: se evitava até falar no assunto, para não lembrar do fato de que estava vago e necessitava ser preenchido.
Normalmente era um Major que assumia o cargo de S-4 (9) , o dono da manutenção do Grupo. Naquele ano não havia um Major disponível e a escolha recaiu sobre um Capitão.
Esse indivíduo, apesar de já estar servindo há alguns anos no 1o Gp.Av.Ca., não dispunha de experiência no setor e procurou o antecessor para obter o máximo de informações, fato que produziu um ótimo efeito, pois ao contrário do novo, o antigo era um especialista e profundo conhecedor das manhas da logística.
Por mais empenho que se tenha, é impossível conhecer tudo sobre o vasto campo da manutenção, que incluía, também, o gerenciamento do suprimento, por direito subordinado ao Esquadrão de Suprimento e Manutenção (ESM) da Base Aérea de Santa Cruz, porém de fato manobrado pela equipe do 1o Gp.Av.Ca., no que se referia ao Projeto F-5.
Assim, o Grupo ia sendo mantido pelo Capitão esperto, porém leigo no tema, aprendendo sempre.
Um belo dia, lá se vão para São Paulo os chefes de setores de manutenção, planejamento e suprimento, acompanhando o S-4 para uma reunião no Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA -SP), encarregado da manutenção de 4o escalão, ou nível parque, que significa industrial.
O tema principal dessa reunião era o suprimento e dentro desse campo havia um item que estava dando dor de cabeça para todos os envolvidos: era o caso dos cubos de roda.
A história envolvia o fato da tentativa de fabricar no Brasil os conjuntos de freio, com seus 11 discos e outras coisinhas mais, partes do tal cubo de roda.
Houve dois momentos interessantes na discussão: o chefe do setor de suprimento do Parque, quando se falava de falta de itens, comentou que a fábrica havia produzido poucos aviões Búfalo e que esse fato restringia a oferta de peças no mercado. Em outro instante diferente, o mesmo Tenente Coronel soltou que o problema do F-5 é que havia muitos aviões pelo mundo e que isso dificultava a oferta de peças...
É evidente que houve um pequeno tumulto na reunião, pois todos queriam saber afinal o que poderia aumentar a oferta no tal do mercado, aliás não queríamos saber de mercado algum, nosso caso era com Esquadrões...
A conversa, em conseqüência desses comentários, tomou um rumo alegre e descontraído, fato inusitado, pois o Diretor Técnico do Parque era um oficial engenheiro muito sério e rigoroso, mas, naquele dia estava um pouco mais descontraído. Contudo, voltamos ao normal e o problema foi retomado.
Apesar do assunto ser de suprimento, houve a intervenção do nosso Tenente de manutenção, bicho bom de trabalho e de cabeça, para comentar o fato dos aviões, que estavam sob inspeção, terem que usar cubos de roda (10) , pois era necessário rebocá-los para o melhor aproveitamento dos espaços do hangar.
Após uma pequena discussão, o Diretor Técnico comenta para os membros da reunião o que eles achariam de se usar "muletas" (11) para os aviões sob trabalhos no solo, evitando assim a utilização dos cubos bons, que seriam utilizados apenas para o vôo.
O nosso Capitão novinho na manutenção achou que era gozação e, dentro do espírito jovial que reinava, não se conteve e aproveitou a oportunidade para sapecar o seguinte comentário:
- Coronel, creio que seria melhor usarmos uns esquis, pois assim poderíamos operar pousos e decolagens da grama e seria contornada a falta de cubos de roda...
Houve uma explosão de risadas e afinal a frase não era tão engraçada assim....
Em vista da balbúrdia que tomou conta da reunião, o Coronel determinou uma pausa para o café, e pediu ao Tenente que explicasse ao Capitão o que ele quis dizer com "muletas".
Muleta, para que não sabe, é uma roda, sem o miolo, sem os discos de freio, pintada de vermelho, que na época era utilizada em Anápolis, nos F-103, para os aviões hangarados poderem se movimentar sem ocupar um cubo de roda completamente disponível.
Olha, foi a maior vergonha, o capitão se desfez em desculpas e depois de uma meia hora de gozações a reunião voltou ao normal.
Nada como fazer graça com aquilo que não se conhece.

Cel.Av.R.R. Eduardo D'Ávila Duprat
Piloto de Caça

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

(1) P-47 = avião de caça batizado de "Thunderbolt" (raio trovão), usado pelo 1o Gp.Av.Ca. na Itália. A letra "P" significa "pursuit" em inglês ou "perseguidor " em português. Hoje os aviões de caça usam como designação a letra "F" que significa "Fighter" ou "Lutador"
(2) P-40 = avião de caça usado no Brasil antes da chegada dos P-47. Este caça era batizado de "Tomahawk" (machado leve usado por índios americanos) mas ficou mais conhecido como "Tigre-Voador"
(3) Mandrake = Um dos poucos heróis das histórias em quadrinhos de antigamente. Era um mágico que usava suas habilidades mágicas e a ajuda do seu poderoso "escravo" Lotar, para derrotar o mal.
(4) "out of the blue" = do inglês "saído do azul", no caso significa um lindo dia de céu azul.
(5) "brake" = do inglês "quebrar". O termo é usado em aviação para significar uma curva muito rápida em direção oposta. No caso "deu um brêique" significa "tratou de sumir".
(6) bolacha = Nome usado para designar os emblemas dos esquadrões que os pilotos usam nas vestimentas de vôo. Passaram a ser denominados de "bolachas" devido às suas formas arredondadas e dimensões similares às deste tipo de biscoito..
(7) operações = Em um esquadrão, os oficiais além de aviadores, também têm funções "no solo". As áreas destas funções são as de administração e pessoal, de informações e inteligência, de operações e navegação de vôo, de material e manutenção, etc.
(8) graxa = apelido usado para o pessoal que trabalha na área de manutenção.
(9) S-4 = designação da área de material de um esquadrão. As outras áreas são respectivamente S-1 pesssoal, S-2 informações e S-3 operações.
(10) cubos de roda = denominação usual do que se pode chamar de "aro da roda", de "jante", ou mais precisamente: local onde se encaixa o eixo.
(11) "muletas" = este termo não vai ser explicado, pois sua explicação tiraria todo o interêsse da "estória"...



COISAS QUE ACONTECEM COM QUEM ESTÁ APRENDENDO

(Histórias verídicas do 2o/5o G.Av., ocorridas durante instrução no AT-26 Xavante)


No pré-solo(1) os procedimentos da aeronave estão sendo massificados, e às vezes acontecem esquecimentos ou mesmo a inversão de ordem nos itens das diversas inspeções. Grande parte dos erros é denunciada pelo próprio estagiário, como neste caso:
- O Aspirante termina a inspeção interna, e ainda antes da partida na aeronave, exclama para o instrutor que esta na nacele traseira da aeronave:
Aluno: "Tenente, o meu anti-G não esta funcionando!
Instrutor: "O que você sugere, meu filho?
Aluno: "Chamar o mecânico."
Instrutor (já sem o menor saco...): "Faz o seguinte, animal: dá a partida no avião e depois checa o anti-G. Garanto que vai funcionar..."
- O Estagiário de Caça costuma ser arisco, principalmente quando está voando solo. Tudo ia bem num vôo de formatura, até que o ala chama seu líder:
Ala: "Az(2), é o dois".
Líder: "Prossiga, dois..."
Ala: "Caiu um negócio aqui..."
Líder: "Confirme, que negócio?"
Ala: "O negócio da manete..."
Líder: "Que negócio da manete?"
Ala: "A rosca..."
Líder: "Ah! Quer dizer que você perdeu a ROSCA(3). Afaste-se um pouco e vê se consegue colocar a sua rosca no lugar. E pode deixar que o Esquadrão vai ficar sabendo..."
Ala: "Dois ciente..."
OBS: A tal "rosca" era a porca de fricção da manete, e o estagiário era gaúcho...
- Estagiário às vezes se atrapalha até quando tem mais de uma pista para pousar...
Quatro aviões se aproximavam para pilofe(4) na pista 16 direita(5), em Natal, porque na pista principal, a da esquerda, havia uma aeronave decolando. O líder puxou sua curva de 180o(6) pela direita e, quando estava já na perna do vento(7), o controlador da Torre ofereceu-lhe a pista 16 esquerda para pouso, pois esta já estava livre.
O líder então pensou: "Beleza, vou economizar tempo e combustível em meu táxi(8) de regresso...", e aceitou pousar na pista da esquerda. Aumentou um pouco a sua perna base(9), enquadrou a aeronave na final(10) e prosseguiu para pouso na 16 da esquerda. O número dois, estagiário safo e atento, seguiu o líder e pousou também na mesma pista. O no 3, experiente, seguiu o líder e o dois.
Mas o número 4... Bem, o no 4 não ouviu o papo entre o líder e a Torre, pois estava muito ocupado:
...baixa o trem, reduz o motor, inclina o avião, olha a velocidade!! segura os 125 Kt(11)!!, puxa o manche(12), mantém o avião controlado, e o flape de mergulho(13)? Dou ou não dou? É muita coisa para fazer, e ainda tem que saber que foi autorizado o pouso na outra pista?
E assim, "surubando"(14) na perna base tentando manter os malditos 125 Kt, o infeliz número 4 pousou sozinho na pista 16 da direita.
Daí veio a pergunta do Instrutor (que estava na nacele traseira(15), e deixou a mancada acontecer, para ver no que ia dar...):
- "Ô aviador, cadê os outros aviões da Esquadrilha?" O aluno olha para frente, para os lados, para trás e conclui agoniado:
"Não sei, Major...".
Assim aconteceu mais um "nabo" (ficha de vôo deficiente) no 2o/5o G.Av. e, em decorrência, o pobre do estagiário ganhou o apelido temporário de "David Copperfield"(16).

Carlos Moura
Piloto de Caça


NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:

.
(1) Pré-solo = curso inicial, teórico e prático, para conhecimento das particularidades técnicas do avião antes do primeiro vôo sozinho (solo
(2) Ás = "Ás" é o código rádio do lider da esquadrilha. Os demais componentes da esquadrilhas são numerados, 2, 3 e 4.
(3) "Rosca" = nas gíria também significa o orifício anal...
(4) Pilofe ou "peel-off" = Manobra efetuada antes do pouso, visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo.
(5) Pista 16 da direita = o número da pista indica a sua orientação magnética (dividida por dez e arredondada). O avião que for decolar, ou estiver pousando, estará com sua bússola indicando 160 gráus magnéticos. No caso devem existir duas pistas paralelas, uma à esquerda e outra à direita
(6) 180o = fazer uma curva de 180 graus, ou seja, fazer meia volta e tomar o sentido inverso.
(7) Perna do vento = trajeto no tráfego visual, onde a aeronave se encontra paralela à pista e em sentido contrário ao pouso. Logo após curvará para a "perna base" e então para a "final" de pouso. Normalmente nesta posição é baixado o trem de pouso.
(8) Taxi = andar com a aeronave no solo, o mesmo que rolar.
(9) Perna Base = trajeto no tráfego visual, onde a aeronave se encontra com o início da pista à sua esquerda (a 90 gráus) e bastará fazer mais uma curva para entrar na "final" de pouso.
(10) Final = trajeto no tráfego, onde a aeronave se encontra com o início da pista ainda longe, mas à sua frente. Normalmente nesta posição é baixado todo o flape.
(11) kt = símbolo de nó (knot), unidade de velocidade usada em aviação e marinha. Equivale a 1,852 km/h.
(12) manche = alavanca de comando de inclinação longitudinal e lateral dos aviões (principalmente os de Caça).
(13) Flape de mergulho = dispositivo que, quando acionado, diminui a velocidade do avião e ajuda o piloto a tirá-lo de um mergulho acentuado. As vezes é utilizado somente com intuito de diminuir a velocidade.
(14) Surubando = se complicando ou "enxendo o saco" de alguém.
(15) Nacele traseira = o mesmo que cabine traseira.
(16) David Copperfield = famoso mágico especialista em fazer desaparecer coisas de grandes proporções (carros, elefantes etc.)

BERTHIER, A PRAÇA E O CAJUEIRO

Havíamos retornado de uma missão de 4 aviões (5F1) (1) também conhecida como "péla a coruja" (2) . A data era Agosto de 1964, e a Turma de Estagiários já estava "entrando em forma (3) e acompanhando acrobacias na ala" (4) , sem espirrar... (5) Debriefing (6) feito, "estrelas " (7) distribuídas, elogios(?) também, era hora de retornar ao assento na sala do Comando do 1o/4o G.Av. E é nesse momento que adentra o Tenente Euclydes, com o semblante de "cachorro que fez xixi dentro da igreja".
Grave e sisudo disse: -"Chefe, o BERTHIER (8) desapareceu em vôo sobre o Ribeirão das Lages"(9) . Choque de espanto inicial, esperança futura... -"Alguma confirmação de perda humana?" questionei de imediato. -"Por enquanto, nada. Só o desaparecimento"...
BERTHIER (pensei comigo mesmo...) é cara safo (10) : certamente encontrará uma saída para qualquer emergência que tenha ocorrido. Cabe esperar, embora não tivesse a mínima idéia do que havia ocorrido. Mas não demorou muito: o grande líder havia nos deixado, no auge de seu astral...
Face ao inexorável, cabia a mim, seu admirador e atento pupilo, imortalizar de alguma maneira sua figura ímpar, que havia deixado tantas lembranças e marcado com seu "timbre" tantos de nós. Eu e minha turma, principalmente.
Revi o tempo passado e reencontrei BERTHIER: ele Major-Aviador, recém-chegado e no máximo da curtição da função de Comandante do 1o/4o G.Av. Eu, Capitão-Aviador do efetivo do 1o Grupo de Caça de Santa Cruz, estava de passagem por Fortaleza.
BERTHIER dirigiu-se a mim e disse: "Me acompanhe, garoto. Vamos filosofar e matar as saudades no meu refúgio". E me conduziu à praça central das edificações do 1o/4o G.Av., que era ladeada pela Ajudância (11) , pela varanda interna (sob a antiga Torre de Controle americana) e a Sala de Briefing.
Ali havia um banco tosco de cimento, caiado de branco, daqueles feitos às centenas (e distribuídos por todas as Bases do Nordeste durante a Guerra), como se fora a marca registrada da passagem dos "construtores gringos" da época (assim como foram os "combongós" (12) ...).
Ali sentados, "filosofando" (ato não muito condizente com a personalidade do HOMEM), permanecemos um bom e longo tempo revivendo a saga da Esquadrilha d'Ouros (13) (assim mesmo) do saudoso 1o Esquadrão do 1o Grupo de Aviação de Caça (1o/1o Gp.Av.Ca.), que eu havia dele herdado, recebendo Rosa Filho, O' de Almeida, Santos e Bion no efetivo.
Sobre nós, com sombra magnânima, um majestoso e encorpado cajueiro conhecido por todos nós como "cajueiro do Berthier". Sob suas folhas nos encontramos naquele dia e ouvimos um comentário: "Nesta sombra resfrio sempre minha cuca, depois da ruma (14) de G's (15) puxados nas missões 5F!"
E, talvez mercê desse hábito, o cajueiro tenha se apossado de seu "dono" ou, ao contrário: o Piloto de Caça tenha se acostumado ao abraço reconfortante e fraterno da velha árvore. Em comunhão... não se sabe. O fato é que "um ficou dono do outro"!
E, sob essas divagações, "viajei em pensamento" para a Área de Instrução do 1o Grupo de Caça tentando reencontrar o HOMEM... Mera ilusão. Mal sucedido, retornei à triste realidade e busquei encontrar uma forma condizente para eternizá-lo, como já pensara. À minha maneira, pois estava no Comando da "Sorbonne da Caça" (16) e sentado na cadeira que fora "dele"...
Contatei a "gente" de Santa Cruz e consegui, a duríssimas penas, catar, captar e transportar os metais recolhidos na última missão de tiro realizada por BERTHIER. Com ela fiz fundir uma placa com dizeres simples:

Praça
Tenente Coronel Aviador
BERTHIER FIGUEIREDO PRATES.


Sob a mesma sombra amiga, com o verde e carinhoso amplexo (17) do cajueiro, eternizei a união do HOMEM com seu refugio, e inaugurei uma respeitosa Praça, que lá permaneceu por longo tempo: quieta, marcante, quase ignorada. Como desejado.
Com a movimentação do 1o/4o G.Av. para Natal, e com a inestimável adesão e ajuda do então Comandante da "Sorbonne", Ten.Cel. SOBREIRA, recuperamos a placa e a transladamos para Natal. Ignoramos as súplicas da velha árvore e a desconectamos de seu usufrutuário, para sempre. Guardamos tudo na memória, para hoje contar.
Quando virem a placa, possivelmente em outra Praça, lembrem-se do "Guerreiro e de seu fiel irmão-de-fé: o Cajueiro da Praça BERTHIER, no Cocorote"... (18)

Lauro Ney Menezes
Piloto de Caça - Turma 1948



PRIMEIRO TORNEIO DA AVIAÇÃO DE CAÇA (1º TAC)


No 1o/14o G.Av., o ano de 1966 começava num clima diferente e estava, ainda, fadado a outros acontecimentos que marcariam a sua história de forma indelével.
A designação de novos oficiais para oxigenar o efetivo da unidade não ocorrera e as perspectivas para a nossa aviação eram sombrias.
A vida do Gloster Meteor (19) vinha definhando. Apesar do esforço da excelente equipe de manutenção, as panes eram cada vez mais freqüentes, algumas intransponíveis. O mau funcionamento do precário equipamento de rádio-navegação, motivo de aflição para aqueles que dele dependiam quando as condições de vôo eram adversas, só foi solucionado tardiamente. O visor giro (20) era pouco confiável. As missões de tiro vinham se tornando, rotineiramente, abortivas (21) , em vista das falhas do armamento.
Os "canopis" (22) rachavam devido à falha estrutural, ou em conseqüência do decurso do tempo de vida e do esgotamento de seus estoques de reposição no mercado internacional, tornando o vôo restritivo. A pressurização não podia mais ser utilizada, sendo a altitude de vôo limitada até 25 mil pés. (23)
Mas, o mais grave foi a constatação de rachaduras nos pontos de fixação das asas. Os limites de tolerância foram estabelecidos e acompanhados através de inspeções de controle rígido de cada aeronave.
Felizmente, os nossos aviões ainda estavam dentro da tolerância e aptos a enfrentar o desafio que se descortinava.
Conforme resolução fixada na Reunião da Caça do ano anterior, seria realizado, em 1966, o Primeiro Torneio de Aviação de Caça - Io TAC, na Base Aérea de Santa Cruz, durante a semana festiva de abril, sob os auspícios do 1o Grupo de Caça. Observando as restrições que o nosso material aéreo impunha, foi feito um adequado plano de preparação para o evento.
A disponibilidade, constantemente prejudicada pelas contínuas inspeções de controle das rachaduras, não permitia uma atualização do treinamento aéreo. Contávamos apenas com a convicção de que nossas tripulações eram bem preparadas e haveriam de corresponder à expectativa.
Entrementes, fui surpreendido, ainda na véspera do deslocamento, quando o Comandante do Esquadrão, Ten.Cel. Jaime Silveira PEIXOTO, comunicou-me que ele havia sido designado para uma nova comissão e que, tendo que assumi-la com a maior brevidade, não poderia, portanto, participar daquela campanha. Em conseqüência, foi-me passado o Comando interino do 1o/14o G.Av. naquele dia, 15 de abril de 1966.
No dia seguinte, estávamos prontos para dar início à "grande jornada". Os oficiais estavam radiantes por essa oportunidade. Ir para Santa Cruz era sempre motivo de alegria e o bom tempo em Canoas (24) parecia nos convidar para uma viagem tranqüila. Porém, a nossa escala, Curitiba, amanheceu fechada devido a nevoeiro, provocando um retardo decepcionante no horário da nossa saída. Mas não havia outro jeito, a escala era imperiosa em função da autonomia, condicionada ao nível possível de vôo.
Finalmente, decolamos com os nossos derradeiros 8 Gloster F-8, ainda não atingidos pelos crivos penalizantes, e um biplace TF-7 (25). Eu liderava o Esquadrão Pampa pilotando o F-8 4456! Estava orgulhoso pelo cargo de que fora tão inopinadamente investido, mas também ansioso pela elevada responsabilidade que me estava sendo atribuída.
O pouso em Curitiba foi seguido de uma atividade frenética por parte de todos componentes do Esquadrão no intuito de acelerar o reabastecimento e reduzir o atraso em relação ao planejado. A nova decolagem foi realizada com o sol a pino. Com os tanques cheios e com aquele calor, a pista parecia ainda menor. Os últimos a decolar só se sentiram no ar depois que a pista praticamente havia terminado!
Na chegada ao Rio, por sugestão dos novinhos (26) , fizemos uma passagem panorâmica sobre a BELACAP (27) e depois pousamos em Santa Cruz, com um caprichado PEEL OFF. (28) Fomos os últimos a chegar, mas a recepção foi calorosa por parte dos anfitriões, ainda que surpresos pela pouca hierarquia dos "tchês" (29) , inclusive do seu Comandante.
Realmente me sentia um peixe fora d'água. À noite, na confraternização realizada no cassino da base, fui convidado para a roda de papo dos comandantes. O Maj. Lauro Ney MENEZES, Comandante da "Sorbonne da Caça" (30) , procurava me descontrair com seu comunicativo jeito alegre e brincalhão.
No dia seguinte, depois dos acertos finais com relação à regulamentação das disputas, o "grande circo" (31) teve início, envolvendo o 1o Grupo de Caça, como um todo, sob o comando do Maj. João Soares NUNES, o 1o/4o G.Av. sob o comando do Maj. MENEZES e eu com o 1o/14o G.Av.
Entremeando as missões aéreas, foram mescladas saudáveis atividades esportivas e competições de tiro aos pratos (32) , todas valendo pontos para a decisão do torneio. Ao término de cada dia, o Oficial de Operações, meu saudoso amigo, o então Cap. Flávio PETERSEN, sintetizava num formulário de mensagem-rádio (33) os resultados das diversas modalidades desenvolvidas na jornada, para encaminhamento ao comando da Base Aérea de Canoas.
Os resultados iniciais dos primeiros dias de disputa não denotavam nenhum candidato mais promissor.
- O 1o/4o G.Av. com os TF-33 (excelentes plataformas de tiro) e seus habilidosos instrutores, era o franco favorito.
-O 1o Grupo de Caça com os Gloster repletos de problemas idênticos aos nossos (entre os quais se destacava o constante engasgamento dos canhões (34) pela munição), dependia principalmente do apoio da sorte.
Ao atingir a fase das missões de tiro, os resultados do torneio foram desequilibrando a pontuação das unidades, gerando grande admiração em todos e provocando prognósticos incertos. Para surpresa geral, os nossos aviões não estavam apresentando a costumeira pane (35) de canhão, enquanto os do 1o Grupo de Caça continuavam às voltas com os problemas que tanto nos haviam perturbado outrora.
Graças a essa diferença, e aos ótimos resultados obtidos pelos nossos tripulantes nas missões aéreas, no campo esportivo e na prática do tiro aos pratos, o 1o/14o logrou conquistar o 1o lugar no torneio com 81 pontos, enquanto os 2o e 3o colocados obtiveram, respectivamente, 65 e 61 pontos .
As regras estabelecidas para o cumprimento das missões aéreas eram simples: a contagem dos acertos se fazia sobre o número máximo da munição transportada, e as abortivas seriam consideradas penalizantes. Era a maneira de avaliar também o desempenho da manutenção.
Somente após a competição foi revelado o porque da excelente "performance" do nosso armamento. O grande responsável por esse feito foi o chefe da equipe de armamento, o 1o Sargento de Armamento Custódio.
Estudando o problema já há algum tempo, descobriu que tudo residia na falta de homogeneidade da espessura do culote da munição de 20 mm (36) , fato este que não permitia uma perfeita atuação do extrator do canhão (37) . Conseqüentemente, o estojo permanecia na câmara (38) , engasgando o armamento.
Para corrigir a falha, o Sgt. Custódio e a sua equipe usaram uma régua de aço com a qual alinhavam a fita de munição, não pela base da espoleta (39) , mas pela ranhura do culote do cartucho. Com tal astúcia, a manutenção do 1o/14o proporcionou o que veio a constituir a grande "surpresa técnica" do torneio.
O último evento desse pioneiro Torneio da Aviação de Caça constituiu-se na solenidade de premiação, realizada no auditório da Base, o "Cine Senta Pua" e que teve como ápice a entrega do troféu ao vencedor.
Como Comandante do Esquadrão fui convidado para receber a Taça das mãos do Maj. Menezes com seus efusivos cumprimentos e o sussurrado comentário:

- "Vocês nos tiraram o pão da boca!"

De posse daquele pequeno, porém lindo e cobiçado prêmio, virei-me para apresentá-lo à platéia. Havia perplexidade no ar! Eu não sabia o que dizer ou fazer. Lembrei-me , então, do gesto de Bellini, capitão da Seleção Brasileira na copa de 58, na Suécia: instintivamente, ergui a taça com as duas mãos por sobre a cabeça!
O silêncio reinante deu lugar a uma estrondosa aclamação, permeada de palmas e de gargalhadas generalizadas diante da minha inesperada atitude.
Terminado aquele inesquecível congraçamento, o Cap. Petersen veio ao meu encontro com uma folha de mensagem-rádio em branco e me perguntou o que registrar. Rapidamente, ditei:

DD BASAER CANOAS VG
TORNEIO AVIACAO CACA CONCLUIDO PT
ESQUADRAO PAMPA CAMPEAO ABSOLUTO PT
SEGUIREMOS AMANHAN CONDUZINDO TROFEU PT
GAV 1/14


No retorno, usamos uma nova rota, passando por Florianópolis como escala para reabastecimento. A nossa chegada ao destino foi pontual. Alinhei o sobrevôo da Base, no sentido da pista 30, para uma passagem do Esquadrão numa bela formatura básica (40) , por sobre o ninho dos PAMPAS (41) . Ao olhar para baixo, verifiquei decepcionado que ninguém nos aguardava. Intrigado com o fato, pensei:
- Teria sido informada uma estimada errada?
A chegada ao estacionamento e o corte das turbinas das aeronaves provocaram em mim um súbito sentimento de alívio da tensão acumulada nos últimos dias.
Naquele instante, constatei assombrado que as imensas portas do hangar se abriam, e dele surgia todo o efetivo da Base em compasso uníssono, marchando ao ritmo da banda, tendo à frente seu Comandante, Cel. Zenith Borba dos Santos.
Acredito que todos pulamos ao mesmo tempo de nossas naceles (42) e nos postamos orgulhosos em frente das nossas máquinas para receber a homenagem que nos prestavam. Só então percebi que portava debaixo do braço a Taça da vitória, transportada durante todo o retorno em meu colo.
Foi um dia de festa e de alegria para a grande família da Base Aérea de Canoas. Todavia, a missão que acabava de ser encerrada seria também a última do Gloster Meteor no 1o/14o G.Av.
Ordens recebidas determinavam que todas as aeronaves deveriam ser novamente inspecionadas, para a reavaliação do grau das rachaduras. Aquelas que estivessem dentro dos limites de segurança teriam uma nova destinação: seriam transferidas para o efetivo do 1o Grupo de Caça.
Assim, no dia 31 de outubro de 1966, as 5 aeronaves que ainda atendiam aos parâmetros exigidos foram trasladadas, em vôo, para Santa Cruz.
Eu fiz parte da tripulação, voando pela última vez um F-8, o de número 4435. Contrastando com a nossa chegada vitoriosa em Canoas, depois da inesquecível participação no Primeiro Torneio de Aviação de Caça, este dia foi um dos mais amargos de toda a minha vida de aviador!

Os seguintes os pilotos do Esquadrão PAMPA participaram do Io TAC:

Cap.Av. Ronald Eduardo JAECKEL
Cap.Av. Flávio PETERSEN
1o Ten.Av. Ivan Von TROMPOWSKY Douat Taulois
1o Ten.Av. Othmard LUYET
1o Ten.Av. Wander MONTANDON
1o Ten.Av. ARCHIMEDES de Castro Faria Filho
1o Ten.Av. João Lúcio GATTI
2o Ten.Av. ADALBERTO de Rezende Rocha
2o Ten.Av. Luiz Fernando Guimarães PONDÉ
2o Ten.Av. Ernesto MARINI Sobrinho
2o Ten.Av. Eduardo Rezende MONTEIRO da Silva

Ronald Eduardo Jaeckel
Piloto de Caça - Turma de 1957



"DOG-FIGHT (43). " NOS CÉUS DA "SORBONNE"

Nos idos de 1957, dois P-47 domesticados pelo Comandante do 1o/4o e do seu Oficial de Operações, encontraram-se a 20.000 pés numa tarde luminosa do Nordeste, sobre a Base Aérea de Fortaleza.
Ato contínuo, o Major Berthier e o Capitão João Luiz engajaram num combate individual. Vantagem de altura é convertida em vantagem de posição (44) provocando "stream" (45) nas portas das asas dos cansados "Thunderbolts". As manobras são seguidas pelos instrutores e estagiários que, do chão, lançavam suas apostas.
Não é preciso muita imaginação para se deduzir que o limite (46) de 8.000 pés não seria respeitado.
Assim, os dois pilotos e suas fantásticas máquinas chegaram à baixa altura sobre a pista, sem que qualquer deles encerrasse o combate. Já bem próximo ao chão, confesso que o mestre caçador Berthier conseguiu alguma vantagem de posição sobre o seu "adversário". Não sei como, nem quem tomou a iniciativa e entrar na inicial para o "peel-off" (47).
Dirigi-me para minha sala e o Berthier para o Comando da "Sorbonne" da Caça (48). Toca o interfone chamando-me à sua sala, onde sou recebido por ele e, sem qualquer comentário, diz:
- "Pacau 02 (49) , 20 estrelas (50) . Você sabe porquê..."
Retruca o Pacau 02:
- "Pacau 01, 40 estrelas pelo exemplo que o Comandante deve dar aos seus comandados".
Saímos juntos do Esquadrão para encontrar no pátio os instrutores e estagiários que, sem qualquer comentário, escondiam um sorriso maroto.
Assim era o nosso Berthier.

João Luiz Moreira da Foncseca
Piloto de Caça - Turma de 1947

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) "5F-1"= As missões de vôo na Força Aérea, principalmente as de instrução, têm uma codificação. Neste caso "5" indica o tipo de missão, ou seja, vôo de esquadrilha; o "F" indica que é uma missão de Caça "Fighter" e; o "1" indica que é o primeiro tipo (mais simples) de missão de instrução de vôo em esquadrilha.
(2) "péla coruja"= "reita as penas das corujas". Fala-se das missões que são realizadas muit cedo, junto com o nascer do sol. São também chamadas de "vôo da madruga".
(3) entrar em forma = Manter o avião na posição relativa dentro de uma esquadrilha.
(4) na ala = manter-se na posição correta ao voar numa esquadrilha. Ala se refere a qualquer avião que faz parte de uma esquadrilha, exceto o seu líder.
(5) "Espirrar" = aumentar muito o raio da curva ou se afastar, sem querer, do avião líder perdendo assim a sua posição correta na esquadrilha.
(6) "Debrieffing" = "debrifim" = reunião feita, logo após o vôo, para se fazer os comentários sobre a missão.
(7) Estrela = Espécie de "moeda virtual" usada até hoje, somente, para "pagar" algum erro cometido e que não chegue a ser transgressão disciplinar. Normalmente são usadas para "punir" falhas nas técnicas de operação das "máquinas aladas". Alguns Esquadrões inflacionaram tanto o "sistema", que foram criados os "Cometas" (correspondem a 10 estrelas...)
(8) Berthier = Ten.Cel.Av. Berthier Figueiredo Prates. Famoso Piloto da Força Aérea Brasileira que faleceu em acidente aéreo quando comandava o 1o Grupo de Aviação de Caça..
(9) Ribeirão das Lages = Grande lago artificial existente no Estado do Rio de Janeiro para represar água para o complexo hidroelétrico da "Light". A área de instrução do Grupo de Caça se sobrepunha a este local. Na realidade o acidente foi mais afastado deste local.
(10) "safo" = gíria que vem do verbo "safar", ou "escapar", diz-se da piloto que tem inciativa, esperto, vivo.
(11) Ajudância = é uma das seções de uma unidade militar. Esta seção é responsável pela parte administrativa do Esquadrão, principalmente a parte de controle de pessoal.
(12) Combongó = espécie se tijolo perfurado que permitia a passagem do ar para refrigerar o ambiente. Normalmente são feitos de cimento, têm a espessura de uma parede porém são bem maiores do que os tijolos comuns. Têm o efeito similar ao da "cerâmica perfurada" nas paredes.
(13) d'Ouros= é o código rádio da Esquadrilha (jamais pronunciado de Ouros...)
(14) ruma = grande quantidade, palavra muito usada no nordeste
(15) G = símbolo de gravidade, medida de aceleração. Em aviação, refere-se às acelerações geradas pelas mudanças na direção de vôo da aeronave. "puxar G" é fazer curvas apertadas, gerando acelerações anormais.
(16) "Sorbonne da Caça" = alusão à famosa Universidade da Cidade de Sorbonne na França. O 1o/4o G.Av. era o local onde eram formados os pilotos de caça brasileiros.
(17) amplexo = abraço
(18) Cocorote = Área ao sul da Base Aérea de Fortaleza onde estava instalado o Esquadrão e a Vila com as casas dos oficiais. Hoje é um bairro, seu nome deriva do inglês "cockroach" que significa o inseto comumente chamado de barata (ortóptero onívoro)...
(19) Gloster Meteor = Caça à jato bimotor da Força Aérea Brasileira. Foi o primeiro tipo de avião a a jato brasileiro.
(20) Visor giro = a "mira" do visor de tiro de um caça, naquele tempo, se movia em função das informações de um computador mecânico (giroscópico). Este mecanismo ajudava o piloto a direcionar o avião (canhões) à frente do alvo de maneira suficiente para que as "balas" fossem "atiradas" para um ponto, lá na frente, onde o avião inimigo deveria estar, quando elas chegarem lá...
(21) abortar = cancelar o vôo ou alguma fase do vôo.
(22) "Canopy" = ou "canopi", capota da cabine dos aviões de caça. A tradução correta deveria "copa", como as copas das árvores (plural em inglês é "canopies").
(23) pés = Medida de altura em aviação (comprimento). 1000 pés equivalem aproximadamente a 300 metros ( 25 mil ± 7.500 metros)
(24) Canoas = Município do Rio Grande do Sul, próximo a Porto Alegre, onde está situada a Base que é sede do 1o/14o G.Av.
(25) "biplace" TF-7 = "F" é usado para designar os aviões de caça (Fighters); o prefixo "T" designa avião de treinamento. No caso, o "TF-7" era o avião de dois lugares ("biplace") que a FAB usava para dar instrução para o F-8 "Gloster Meteor".
(26) "novinhos" = novatos, oficiais recém chegados ao Esquadrão,o mesmo que "bichos".
(27) BELACAP = na época estava se consolidando Nova Capital Federal em Brasília que era chamada de NOVACAP. Os cariocas que estavam perdendo a "capital administrativa" passaram a chamar a "nova cidade" do Rio de Janeiro, a mais bela..., de BELACAP!
(28) "peel-off" = Manobra efetuada antes do pouso visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo. Hoje a palavra foi aportuguesada para "pilofe".
(29) "Tchês" = maneira dos gaúchos chamarem as pessoas. Os membros do 1o/14o G.Av. também são chamados de "Tchês" devido à frase que faz parte da sua "bolacha".
(30) "Sorbonne da Caça" = alusão à famosa Universidade da Cidade de Sorbonne na França. O 1o/4o G.Av. era o local onde eram formados os pilotos de caça brasileiros.
(31) "Grande Circo" = alusão ao livro do mesmo nome sobre combates aéreos na 2a Grande Guerra, escrito pelo famoso Piloto de Caça Pierre Closterman.
(32) Tiro aos pratos = modalidade de treinamento de tiro com espingarda no qual o praticante adquire o reflexo necessário para atingir alvos (pratos cerâmicos) em movimento. O mesmo princípio é utilizado para o combate aéreo. Antigamente este "esporte" era praticado tendo aves como alvo; "tiro aos pombos"...
(33) "mensagem-radio" = mensagem tipo telegrama, enviada antigamente via ondas de rádio pelo código morse, depois via teletipo-radio, depois teletipo-telefone e agora pela pela "intranet
(34) engasgamento dos canhões = na realidade, o canhão não engasga, ele para mesmo, por motivo de defeito na "alimentação" de munição.
(35) pane = defeito, enguiço, vem do francês "panne".
(36) culote da munição de 20 mm = parte trazeira do cartucho metálico que armazena o explosivo. No caso o projétil para este cartucho tem o diâmetro de 20 milímetros.
(37) extrator do canhão = mecanismo que automaticamente, após o disparo, retira o cartucho vazio e o ejeta para fora do canhão.
(38) estojo permanecia na câmara = o "cartucho" não era retirado do canhão pelo extrator.
(39) base da espoleta = local da parte trazeira do cartucho onde é colocada a espoleta que inicia a ignição do explosivo propelente do projétil.
(40) Formação Básica ou formatura básica = Disposição da esquadrilha na qual os aviões ficam dispostos em forma de "V" invertido.
(41) Pampas = Se refere ao local da séde do 1o /14o G.Av., Esquadrão "Pampa".
(42) nacele = o mesmo que cabine, posto de comando dos aviões.
(43) combate individual = combate de um avião contra outro avião. Existem também os combates de elementos (dois contra dois) e os combates de esquadrilhas. O combate individual é comumente chamado em inglês de "dog-fight" (briga de cachorro).
(44) vantagem de posição = consiste em ficar numa posição e numa distância mais vantagosa para iniciar a rajada de tiros. Normalmente, a melhor posição é ficar atrás do "adversário".
(45) "streams" = esteiras de condensação do ar que se formam atrás das pontas das asas como de fossem riscos de nuvens. Para a sua formação é necessário haver condições atmosféricas especiais e que o avião esteja em muito alta velocidade.
(46) limite de altura do combate = os combates de treinamento têm sempre uma altura mínima de segurança para acabar. O primeiro que atingir esta altura encerra o combate e avisa pelo rádio ao seu "oponente". É falta grave não encerrar o combate nestas condições.
(47) "peel-off" = Manobra efetuada antes do pouso visando reduzir a um mínimo o tempo em que a aeronave fica indefesa e exposta ao ataque inimigo. Hoje a palavra foi aportuguesada para "pilofe".
(48) "Sorbonne da Caça" = alusão à famosa Universidade da Cidade de Sorbonne na França. O 1o/4o G.Av. era o local onde eram formados os pilotos de caça brasileiros.
(49) Pacau = código rádio usado pelo 1o/4o G.Av. Neste caso as denominações "01" e "02", se referem aos oficiais mais "antigos" no Esquadrão, o Comandante e o seu Oficial de Operações.
(50) "estrela" = espécie de "moeda virtual" usada até hoje, somente, para "pagar" algum erro cometido e que não chegue a ser transgressão disciplinar. Normalmente são usadas para "punir" falhas nas técnicas de operação das "máquinas aladas". Alguns Esquadrões inflacionaram tanto o "sistema", que foram criados os "Cometas" (correspondem a 10 estrelas...)


MAIS UM "JESUS ESTÁ CHAMANDO"...


Para efeito de sobrevivência disciplinar, afinal ainda estou na ativa, irei me abster de citar nomes, mas bastará uma consulta à escala de vôo para identificar os envolvidos. O ano era 1993. Em mais uma Festa da Caça, optou-se por realizar um daqueles estrondosos desfiles aéreos.
Neste caso, 33 aeronaves de caça, a saber: 9 A-1 "AMX" (bons tempos...) do 1o/16o Grupo de Aviação "Adelphi" , 8 F-5, sendo 4 do 1o/14o Grupo de Aviação "Pampa" e 4 do 1o Grupo de Caça (GAC) "Jambock" e "Pif-Paf", 4 F-103 "Mirage" do 1o Grupo de Defesa Aérea "Jaguar" e 12 AT-26 "Xavantes", sendo uma esquadrilha do 1o/4o G.Av."Pacau", uma do 2o/5o G.Av."Joker" e uma do 3o/10o G.Av."Centauro", onde eu me encontrava como número 2 (na verdade eu era o número 31 do Grupo). Para os participantes, eventualmente irei trocar a ordem de alguns eventos, pois a memória apresenta alguns lapsos depois de 10 anos. Peço desculpas por isso.
Irei pular o "briefing", (1) pois teve gente que quase dormiu só na chamada das equipagens (2) . Seriam dois vôos, sendo um de treinamento e um pra valer. Como eram aeronaves com desempenhos diferentes, ficou padronizado que tudo seria feito com 300 Kt (3) , de modo que tanto os F-103 como os Xavantes conseguissem se virar.
O perfil básico do vôo era o seguinte: todos decolavam em direção a Volta Redonda, onde o Grupo iria se ajeitar e aguardar a liberação para uma única passagem sobre o palanque de Santa Cruz, sendo que o Adelphi 9 (entenda o nono avião da formação) iria se reunir ao Grupo em Seropédica (4) , após fazer uma demonstração de Bombardeio Picado (BP) (5).
Como uma das Unidades de Caça tinha um avião mais "pobre", dotado de apenas 1 VHF (6) , tudo era coordenado num canal único (tático, joca, controle, torre, etc) (7) . Não é preciso muito esforço para imaginar como ficou o fluxo de informações entre as 33 aeronaves. E não é que um nobre piloto de Xavante resolveu avisar que estava vazando combustível pelo "vent line" (8) de seu líder na subida...
Evidentemente, o dia não estava CAVOK (9) no treinamento. Eis que o líder do Grupo resolve dar uma "entradinha" numa nuvem. Um nanosegundo depois, um dos pilotos da Unidade que só tinha 1 VHF fez um comentário bastante claro: "o treinamento já foi feito, se entrar em nuvem de novo eu vou embora".
Eu, um pobre Tenente, lá da minha cozinha (10) , pensei: "Temos um Major dando uma chamada num Comandante de Esquadrão e não temos nem 20 minutos de vôo; é, vai ser uma missão interessante...".
A reunião do Adelfi 9 também foi bizarra. Ele informou: "Adelfi 9 em Seropédica, não está visual com o Grupo". Aparece então uma voz que não reconheci: "Meu filho, você deve estar cego, pois são 32 aeronaves". Então veio a tréplica: "Só se vocês estão em outro lugar, pois em Seropédica estou eu". Aí veio o pobre líder informar que estava um "pouco" afastado (10 milhas...) (11) da posição prevista.
No enquadramento da final para passagem, começou a ficar difícil manter a posição, quando soou um comentário no VHF: "Coronel, quanto é que o senhor está mantendo de velocidade?", ao que foi respondido: "Desculpe, deixei embalar para 350 Kt". Instintivamente, todos deram aquele motorzinho (12) para chegar lá. O resultado foi que a mola de 33 aeronaves, após uma distensão, sofreu uma compressão, pois enquanto todos buscavam 350 nós, o líder voltou para 300 Kt.
E tudo isso bem em cima do palanque. Não sei como ficou de fora, mas a minha esquadrilha foi parar embaixo dos F-5 que estavam à frente. Como acredito na frase "você luta como treinou", já fiquei imaginando como seria o vôo do dia seguinte. À noite, eu, o 32 e o 33 da formação tomamos um "whisky" e nos auto-desejamos boa sorte.
Finalmente, chegou o dia. Novamente não amanheceu CAVOK. E lá fomos nós. A espera em Volta Redonda foi tranqüila, tranqüila demais para o meu gosto. Nossa diversão começou na curva para descer a serra, quando um piloto do Grupo de Caça bradou: "tem morro aí", ao que o líder respondeu: "eu sei, estou visual", "mas tem morro aí" veio como tréplica.
Lá da rabeira, dava pra ver aquela fileira de 32 caças curvando e ciscando (13) para conseguir descer. Eis que o líder do esquadrão de Xavantes (12 aeronaves) resolve espirrar (14) para evitar entrar IMC (15) . Ao atingirmos a base da camada, acabamos praticamente em linha de frente (16) com os A-1, F-5 e F-103. Pelo menos, entre mortos e feridos, todos se salvaram.
Finalmente conseguimos entrar na final para passagem, todos alegres e saltitantes quando o líder anuncia: "cuidado que tem urubu". Particularmente, dadas as condições, achei a mensagem inadequada, pois deu aquela chacoalhada geral. Finalmente ele anunciou: "já passou". Foi nessa hora que a urubuzada chegou lá na cozinha e em seguida o Pacau 2 avisou: "colidi com um pássaro" e abandonou a formação por cima e para a esquerda.
O apoio mútuo (17) foi dado espiritualmente e o Pacau 4 avisou: "estou indo para a posição do 2 para não ficar feio".
Novamente o "urubuzado" informou sua situação e foi orientado a chamar no canal secundário para fazer seu pouso e não atrapalhar a passagem. E lá foi o pobre infeliz realizar seu tráfego de emergência sozinho, abandonado...
O saldo do evento foi um Xavante machucado e emoções para os participantes, muitas emoções...

Mário César Berto
Piloto de Caça - Turma 1989 (Centauro 122, Joker 08, Jaguar 188)


QUEBRA-GELO

Era uma vez em Santa Cruz, lá pelo início dos anos 80, e o Grupo de Caça vivia uma época singular: a situação mostrava uma série de percalços, iniciados pelo desaparecimento do Comandante Fleury, em um acidente no Chile, durante uma visita de cortesia. Pode-se dizer que a sorte não estava brindando aquele pedaço distante do Rio de Janeiro.
Depois de uma seqüência de fatos, deixados propositadamente fora dessa história, assim como os nomes envolvidos, o Grupo de Caça estava sendo administrado por um Major e vários Capitães, isso porque o Comandante estava em convalescença de uma hepatite.
A diferença na antigüidade hierárquica do efetivo de oficiais era pequena, entretanto todos eram experientes, desde Tenentes voando o F-5. Existia uma harmonia destacada, talvez fruto da pressão externa que gerava uma união maior do efetivo. De qualquer forma, era uma equipe invejável. Além disso, existia grande afinidade entre as Unidades da Base Aérea de Santa Cruz, fato raro, em vista da diversidade de objetivos e especialidades.
Um grande exemplo dessa época foi a operação conjunta entre o 1o Grupo de Caça (GAC) e o 1o Grupo de Aviação Embarcada, que passaram a operar da seguinte forma: as missões de deslocamento de F-5 utilizavam um P-16 (Tracker) como avião de apoio, e os P-16, nas missões de treinamento, utilizavam os suportes, lançadores, bombas e foguetes de instrução dos F-5.
Portanto, era um tempo de cooperação, paz e harmonia sempre grande e conturbada Base, chamada, na época, de "maior complexo aerotático brasileiro". Nesse cenário, foi planejado e executado o deslocamento anual para Anápolis, ocasião em que era exercitado o combate dissimilar (18) entre os F-5 e os F-103 Mirage.
Aconteceria, também, a primeira Operação Quebra-Gelo, entre a Força Aérea e o Exército, o qual apresentaria a sua artilharia antiaérea. Foi estabelecido o cronograma das atividades até o início do deslocamento, de modo que houvesse a maior disponibilidade possível, tanto em aeronaves como em horas (19) e pilotos.
O setor de controle de manutenção, que havia conseguido, após três anos de duras penas, colocar as revisões na diagonal (20) , mostrou ser imperativo um grande esforço para evitar o desperdício de horas e aviões, apertando mais ainda a vigilância sobre cada vôo realizado.
O setor de operações olhava gulosamente aqueles aviões completamente disponíveis e parados, resultado do perfeito controle das horas voadas a fim de evitar qualquer acúmulo de inspeções. Isso não era novidade, já havia muito tempo que essa prática pouco simpática, porém eficaz e inevitável para proporcionar uma boa disponibilidade média, em longo prazo, era praticada com rigor.
Na verdade, a segurança de não abortar (21) vôos, porque sempre havia aeronaves reserva, era ótima para o setor de Operações e, por isso, todos acabavam participando integralmente da política do Material, pois os resultados favoráveis acabaram aparecendo, após algum tempo. Foi difícil iniciar, porém, após "pegar", funcionou quase sem atrito.
A indispensável disponibilidade de pessoal era fator imperativo para o sucesso da operação em Anápolis. Para que todos os pilotos participassem, aqueles que terminavam o curso de Aperfeiçoamento foram contatados para postergar a dispensa, prevista para após o encerramento do estágio, para outra época, pois coincidia com o início do combate dissimilar.
Em suma, todas as pontas foram atadas, contando, inclusive, com uma missão precursora que acertou detalhes com o Comandante da Base Aérea de Anápolis. O deslocamento previa um número substancial de pessoas e o apoio de rancho, alojamento e outros tipos de suporte precisavam estar bem ajustados para evitar contratempos. Eram cerca de 200 militares no total.
Próximo ao dia do deslocamento, foi preparada a viagem, com aproveitamento para o Oficial de Operações (S-3) do 1o Grupo de Aviação de Caça completar seu curso de Líder de Grupo (que ainda existia naquela época). Para isso, foi estabelecida uma reserva de níveis de cruzeiro que permitisse a ocupação de cerca de 10.000 pés (22) de altitude, durante o vôo.
O exercício proposto consistia numa simulação de deslocamento de autoridades, dentro de uma área próxima a um Teatro de Operações (TO), e portanto, com grande risco de sofrer ações hostis. A idéia era levar o Comandante, ainda um pouco enfraquecido pela doença, num dos F-5B, biplace (23) . Afinal, como Comandante, ele tinha que chegar à frente do Grupo.
O esforço valeu a pena, chegou o dia e os números compensaram todo o planejamento e trabalho da equipe: havia 18 aviões disponíveis de uma frota de 21, somente três estavam passando por algum tipo de manutenção. Desses 18, 4 eram F-5B. Isso nunca havia acontecido, nem quando as aeronaves chegaram ao Brasil!
O deslocamento foi realizado com 17 aviões e um ficou em Santa Cruz para atender ao alerta (24) de defesa aérea. Foi criado um grande cubo no céu, a tal da formatura "Box", com os 4 biplace F-5B considerados, para efeito do tema da manobra, como as aeronaves a serem protegidas pelos mono-places F-5E. Oriunda dos antigos "gurus" da Caça, essa formatura causou muita discussão entre os puristas na ocasião.
Dos F-5E, 12 posicionaram-se em Escolta (25) Próxima, Média e Afastada, com cada esquadrilha em Linha de Frente Tática (26) , e um avião isolado em Cobrinha Radar (27) , com instruções para ser o primeiro a engajar combate, caso a formação fosse atacada.
A chegada em Anápolis, domingo, foi em diamante (28) com 16 aviões e o isolado para as passagens baixas sobre a vila, o clube dos oficiais e sobre a Base. O pouso com os F-5B à frente - pilofe americano (29) em diamante mesmo - a comando dos líderes, foi uma beleza, segundo os companheiros de Anápolis.
O pátio ficou quase lotado com tantos aviões. Os 20 pilotos entraram em forma e o Comandante à frente agradeceu pela belíssima demonstração de eficiência.
Na segunda-feira já começava o combate dissimilar, mas o S-3 teve que ir a Brasília com sua equipe, pois havia uma reunião para tratar de uma operação com o Exército, que iria instalar as baterias antiaéreas em Anápolis. Era a primeira ocasião em que seria treinada a defesa de uma Base Aérea com três Centros Diretores de Tiro (CDT), e os radares e computadores do Sistema de canhões "Oerlikon".
No Comando de Defesa Aérea (COMDA), a reunião teve início com a apresentação, pelo oficial do Exército que ali prestava serviço, dos planos da operação, denominada de Quebra-Gelo. Um dos pontos que o Tenente Coronel do Exército insistia era o das três janelas (30) diárias de uma hora cada, quando deveriam ocorrer as incursões aéreas de penetração da área a ser defendida.
Naquele momento, a baixa disponibilidade de F-103 Mirage não permitia a utilização desse tempo para o treinamento com o Exército, além de participar do combate dissimilar e ainda atender ao alerta de defesa aérea.
O Comandante do COMDA exalava insatisfação, desolado por não ter como ocupar com vôos os intervalos propostos pelo oficial do Exército para tão oportuno e importante treinamento, básico para o estabelecimento de uma relação muito especial entre a Força Aérea e o Exército, que iria resultar em algo inédito até aquela data: Unidades de duas Forças Armadas trabalhando com vínculo de subordinação operacional.
Estava em gestação a idéia da antiaérea ficar operacionalmente subordinada ao COMDA. Mas o risco de fracasso por falta de aviões era forte e poderia gerar numa solução completamente diversa do desejo de todos envolvidos. Para a Defesa Aérea seria um desastre!
O Oficial do Exército conhecia a vulnerabilidade da frota dos Mirage, pois servia no COMDA e acompanhava a disponibilidade de Anápolis diariamente. Parecia que ele estava saboreando, logicamente de forma não intencional, aquele embaraço com algum prazer. Ele passara a bola para o Comandante do COMDA e agora era a vez do Major Brigadeiro resolver a parada.
Todavia, era tudo o que o pessoal de Operações do Grupo de Caça estava esperando: quando foi perguntado se poderiam ajudar, foram colocadas as cartas na mesa, de maneira simples e direta.
- "Brigadeiro, o senhor pode contar com, no mínimo, cerca de 18 incursões (31) distribuídas durante o período compreendido entre 07:00 e 22:00, isso somente contando com as missões completas".
- "Como vocês poderão executar essas missões?" Perguntou o Brigadeiro.
- "Estamos com 16 aeronaves disponíveis em Anápolis (um F-5B já havia regressado para o Rio) e 44 pilotos operacionais, prevendo voar 500 horas em Anápolis, no mês de julho. Além das missões, Brigadeiro, o alerta em Santa Cruz está com dois aviões". Havia um que só podia voar poucas horas e foi deixado para trás por isso mesmo, já que o alerta raramente usava duas saídas seguidas ou simultâneas.
- "Para melhorar a disponibilidade do F-103, Brigadeiro, um F-5 poderá assumir, também, o alerta de Anápolis".
A felicidade foi imediata, aparecendo um sorriso triunfal no rosto do Comandante do COMDA, até então em visível desvantagem com relação ao fato de não ter meios aéreos para compor a Operação, mesmo com os poucos intervalos propostos.
O ambiente ficou ainda mais favorável quando foi informado aos presentes que poderiam ocorrer mais incursões, por exemplo, se houvesse algum combate dissimilar que o outro avião abortasse em vôo, os F-5 poderiam executar até mais de uma sortida (32) por missão.
Funcionaria assim: após o encerramento da missão de combate, normalmente os F-5, especialmente os 'B', estavam ainda com combustível suficiente para descer e fazer uma pequena navegação a baixa altura e simular um ataque à pista ou às instalações da Base.
Além disso, nas outras missões, os pilotos receberam instruções para fazer as sortidas no retorno, ampliando assim a oferta de incursões bem além das três janelas iniciais. A fim de atender a essa nova situação, era imperioso que a antiaérea estivesse aprestada (33) pelo menos por 10 horas, pois havia alguns intervalos no planejamento que possibilitavam a saída do ar dos sensores de terra.
Não só o COMDA estava atendendo ao plano, como, agora, havia a solicitação de mais tempo de atuação das defesas, invertendo o jogo completamente. O problema era que as CDT só funcionavam com o gerador, não existindo, naquela oportunidade, a possibilidade de conexão com a energia elétrica comercial. Isso significava consumo de combustível e, portanto, a história das três janelas de uma hora era devido a reduzida disponibilidade de recursos para esse fim. Ou seja, era uma limitação no funcionamento das CDT.
Foi feito um acordo, buscando otimizar o aproveitamento, agora, da fartura de incursões oferecida pelo 1o Grupo de Caça. A missão, a partir daí, foi um sucesso.
É interessante notar que no início das incursões, os artilheiros "derrubavam" tudo que voava: amigos ou inimigos, não importava - eram "abatidos".
Talvez o maior ensinamento decorrente dessa operação foi a dificuldade em se estabelecer a situação aérea adequada para evitar que os aviões aliados fossem atingidos pelo fogo de sua própria defesa. Como a defesa está, quase sempre, dentro de uma área onde trafegam os amigos, isso é um ponto importantíssimo e deve ser treinado à exaustão, como ficou demonstrado naquela operação, hoje tão longínqua, mas, ainda clara na memória.
A missão foi um sucesso total, com muitas horas voadas e todo esforço anterior recompensado amplamente.
A Quebra-Gelo foi repetida nos anos seguintes e depois, quando não havia mais gelo para ser quebrado, a operação mudou de nome.
É importante lembrar que aquela disponibilidade excepcional era fruto de mais de três anos de trabalho duro, tanto de controle das aeronaves, como de planejamento, como o Projeto 200 horas que preparava a lista dos suprimentos necessários para a frota voar duzentas horas por avião por ano.
Contando, isso parece fácil, mas não foi. Os anos consumiram os profissionais, em vista de todas as dificuldades logísticas da época, acentuadas pela inclemente necessidade do inglês para o suporte técnico e operacional do F-5.
O mais importante fator desse sucesso foi a equipe: o Grupo tinha um efetivo invejável: não cabe citar nomes, porém quem conheceu ou participou não tem dúvidas. Por diversos motivos do acaso, foram reunidos indivíduos que tinham capacidade especial e tornou possível a administração da frota e dos pilotos com muito sucesso.
A turma da manutenção, só para se ter uma idéia, era composta por 12 oficiais: seis aviadores, com o S-4 (34) e seis especialistas. Cerca de 450 sargentos, além dos cabos e soldados. Tanto os Oficiais como o corpo de Graduados, algumas feras inesquecíveis, faziam a diferença.
Um dos critérios interessantes adotados na época: os inspetores técnicos não eram, necessariamente, os mais antigos e sim os mais capazes, inclusive no domínio do inglês, fundamental para trafegar com desenvoltura pela enorme biblioteca técnica. Isso trazia algum desconforto para aqueles Suboficiais antigões, porém despreparados, que ficavam, de certa forma, fora do esquema.
É lógico que nem tudo eram flores, porém a eficiência foi inegável.
Outro detalhe importante: os aviadores do material eram escolhidos entre os melhores pilotos, pois como o trabalho era muito árduo e o tempo era reduzido para a preparação da instrução e o treinamento aéreo, se tornava forçoso que os pilotos não tivessem dificuldade no aprendizado das técnicas de vôo, de modo a não prejudicar o rendimento individual.
Essa equipe da manutenção foi a principal causa da brilhante atuação do 1o Grupo de Caça, na medida em que proporcionou o elemento fundamental para a unidade poder executar suas missões: aviões e horas em quantidade.
O aspecto temporal, também, contribuiu para o sucesso: nada foi conseguido de forma revolucionária. Foi um esforço contínuo, durante muitos anos, cada um realizando seu trabalho cotidiano anônimo com dedicação. Tudo atendendo a uma concepção de longo prazo, que não foi abandonada, mesmo com mudanças no pessoal, estabelecendo as metas e processos, dos quais um dos mais importantes foi o projeto 200 horas.
Só esse levou mais de três anos para funcionar satisfatoriamente, após um extenuante serviço conjunto dos setores de suprimento e manutenção. É lógico que os 44 pilotos também mostraram seu valor, pois durante esse período bom não aconteceu acidente algum com perda total. Eloqüente fato, suficiente para dimensionar a quantidade dos aviadores, dos sistemas de instrução e critérios de avaliação da época.
Há muitas histórias desse tempo, mas, por enquanto, vamos ficar por aqui. Espero que outros - especialmente os componentes da "turma do funil" - sintam-se impelidos a contar sua parte da vida, que era boa e não sabíamos...
Á la Chasse!!!

Eduardo d'Avila Duprat
Piloto de Caça - Turma de 1972

NOTAS DO GERENTE DO SÍTIO:


(1) "briefing" = Reunião dos componentes do vôo para "combinar" e planejar a missão. Hoje a palavra foi nacionalizada para "brifim". A reunião após a missão é o "debrifim".
(2) chamada das equipagens = início do brifim, quando o líder faz a chamada dos pilotos que integrarão a missão.
(3) 300 kt = 300 nós (nó é uma unidade de velocidade usada em aviação e marinha. 300 nós equivalem a ± 560 km/h - "kt" vem da palavra inglesa "knot")
(4) Seropédica = Município do Estado do Rio de Janeiro onde se situa a Universidade Rural. Fica a noroeste de Santa Cruz.
(5) bombardeio picado = é o tipo de bombardeio em que o avião vem em ângulo muito acentuado na direção do alvo (± 60o com a linha do horizonte ).
(6) VHF = sigla em inglês de "muito alta frequência" (Vey High Frequency). Refere-se aos equipamentos de rádio comunicação aeronáutica que utilizam ondas eletromagnéticas nas frequências compreendidas entre 118 e 136,975 megahertz.
(7) Canais tático, joca, controle e torre = se referem às frequências de comunicação rádio (canais) respectivamente para: comunicação entre aeronaves da mesma formação (tático); entre aeronaves e um controlador ou observador no solo (joca); entre aeronaves e o controle de tráfego de área (controle) e; entre aeronaves em aproximação para pouso e a torre de controle do aeródromo (torre).
(8) "vent-line"= tubo(s) de respiro (alívio) do(s) tanque(s) de combustível. "Linha de ventilação" em inglês.
(9) CAVOK = código utilizado em meteorologia aeronáutica para designar que a visibilidade atmosférica está maior do que 10 km, que não existem nuvens abaixo de 1.500 metros e que não há turbulência nem trovoadas. Vem do inglês "Ceiling And Visiblity OK", ou seja: teto e visibilidade "jóia"!
(10) cozinha = gíria que se refere ao local mais afastado ou mais atrás.
(11) "10 milhas = 10 milhas náuticas, ± 18,5 quilômetros.
(12) "dar um motorzinho" = acelerar o motor e conseqüentemente aumentar a velocidade.
(13) ciscar = voar rente a alguma coisa. Normalmente "ciscar" é voar baixo para evitar entrar nas nuvens.
(14) "Espirrar" = aumentar muito o raio da curva ou se afastar, sem querer, do avião líder perdendo assim a sua posição correta na formação.
(15) IMC = condições meteorológicas de vôo por instrumentos. Do inglês "Instrument Meteorological Conditions".
(16) linha de frente = formação em que as aeronaves ficam lado a lado, com suas asas em uma mesma linha imaginária.
(17) apoio mútuo = quando uma aeronave protege a outra, ou seja, a que está com alguma incapacidade é protegida e acompanhada por outra que lhe dará todo apoio possível e, se for o caso, marcará a posição onde ela pousar fora de campo ou onde o piloto se ejetar...
(18) Combate dissimilar = combate de um avião contra outro de diferentes características de desempenho. Embora este devesse ser o treinamento normal para combater um inimigo real, ele é muito pouco praticado nos esquadrões que só possuem um mesmo tipo de aeronave.
(19) disponibilidade em horas = tempo em horas de vôo que um avião pode voar antes de sofrer uma inspeção/revisão obrigatória.
(20) diagonal de revisões = consiste em planejar a época da revisão de cada avião da frota de maneira que um que tenha muitas horas de vôo após a última revisão, entre em manutenção exatamente no dia em que um outro está saindo da revisão e voltando para o vôo (com muitas horas a voar até a próxima revisão). Desta maneira não há falta de aviões e nem acúmulo de serviço na área de manutenção. A "arte" consiste em planejar o vôo de cada um dos aviões do esquadrão de maneira que cada um deles acumule um número de horas diferente de quaisquer um dos outros. Assim sendo, o gráfico que representa o total de horas acumuladas por cada aeronave formará uma "escadinha" ou "diagonal".
(21) abortar = cancelar o vôo ou alguma fase do vôo.
(22) 10.000 pés = ± 3.000 metros na altura.
(23) biplace = avião de dois lugares (deveria ser biposto). Normalmente são aviões usados para vôos que necessitam de instrutor à bordo.
(24) alerta = diz-se da aeronave e/ou do piloto que estão preparados para decolar e efetuar uma interceptação.
(25) escolta = missão em que uma ou mais aeronaves de caça protegem o deslocamento de outras, sejam estas de qualquer tipo.
(26) linha de frente tática = é uma formação em linha de frente na qual as aeronaves estão mais distantes uma das outras e podem evoluir individualmente com mais facilidade. O contrário da linha de frente tática é a linha de frente "show", na qual os aviões voam asa com asa.
(27) cobrinha radar = é a formação em que um avião vai atrás do outro, bem distante e fora do alcance visual, ou seja, a distância é mantida com o auxílio do radar de tiro.
(28) diamante = formação em que os aviões são dispostos em forma de um losango.
(29) pilofe americano = manobra efetuada antes do pouso visando reduzir a um mínimo o tempo em que a(s) aeronave(s) fica(m) indefesas) e exposta(s) ao ataque inimigo. O "pilofe americano" difere do outro pois neste é mantida a mesma altura desde o início até 90 graus do alinhamento com a pista antes do pouso.
(30) janelas = intervalos de tempo disponíveis para o treinamento.
(31) incursões = "ataques"
(32) sortidas = saídas de vôo para missão real ou de manobra.
(33) aprestada = pronta, preparada.
(34) S-4 = oficial encarregado da área de material em um Grupo de Aviação (S-1 é da área de pessoal, S-2 é de informações e S-3 de operações)

 

ALDIR RAPOSO MARTINS
PACAU, PAMPA E PIF PAF

Já são passados muitos anos. Mais de cinqüenta. Nos conhecemos no Colégio Militar em 1952.
Mas amizade mesmo, só em 1954 quando começamos a cogitar a ida para a EPCAR.
Nesse meio século de vida, jogamos muita bola juntos. Nos Afonsos, ele zagueiro central e eu goleiro. E muito vimos Garrincha jogar torcendo pelo Botafogo.
Fizemos o Curso de Caça juntos, ambos na Esquadrilha de Espadas de Baltar e depois Barrinhos. Na companhia de outros amigos que já partiram, Fleury e o indefectível Tabalipa, Oficial de Manutenção do 1/4 GAV. E também do Doc Paulo Fernandes, nosso médico, que anos mais tarde estaria a bordo do 2068 naquele trágico acidente na Amazônia.
Em FZ, eu deixei de ser Pinto (já existia um no 1/14) e passei a ser Paulo. Ele deixou de ser Martins (havia o Silvio Romero em SC) e passou a ser Raposo. Foi quando surgiu o Aeroporto "Paulo Raposo", gozação do "Shooting" Starling.
Terminado o curso, ele Pampa e eu Pif Paf, nos tornamos adversários de futsal e Torneios da Caça.
Voltamos a nos encontrar em 1966 em Fortaleza quando compusemos a turma de "Instrutores de 66" sob a batuta de Lauro Ney. Isso depois de uma memorável viagem de carro junto com Fleury e Celestino em que encaramos 1500 km de terra entre SV e FZ. E a companhia do desajeitado perdigueiro "porra louca", o Yuki. Que teve, segundo as más línguas da turma, o desaparecimento, meses mais tarde, imputado a nós.
Em 24 Mai 66, jogando juntos de novo, derrotamos no futsal a imbatível equipe do Exército de quem ninguém ganhava em FZ (eles tinham um time fantástico formado em volta do Castelo Branco, um cracão de bola que disputava o campeonato cearense)
Cumprido o nosso dever de instrução, destino Santa Cruz. Agora, êle Pif Paf e eu, Jambock. Um de cada lado do hangar. Êle, Operações do lado do Bar do Lauro com Baptista e eu, com Baltar, do lado do Bar do Zezinho.
Um ano e meio depois estávamos juntos de novo no Esquadrão de Caça Quadrimotor do Galeão, o 1/1 GT onde, quem não era, acabou sendo por força do ambiente. Ou porque já nascera com o espírito, mesmo não tendo feito o curso, era o caso do Murillo, de quem nos tornamos grandes amigos - eu já o conhecia de SC como "Anujá", no Esquadrão de Helicópteros da Embarcada.
E mais uma vez, fomos vizinhos no Galeão. E alguns anos mais à frente, de novo, como instrutores da ECEMAR.
Pois o meu amigo e compadre Aldir se foi.
Recebi a notícia em Caxias do Sul. Por email do Duncan, duas horas depois de atender a um telefonema de sua filha Laíse, amigona da minha, com quem ela queria combinar alguma coisa.
Aceitei a notícia com a frieza que a vida nos habituou a ter - não tem jeito, todos vamos um dia.
Mas, passadas as horas, comecei a recapitular o que havíamos vivido juntos e me dei conta de que nunca me havia passado pela cabeça que o Aldir fosse mortal.
Ele era dessas pessoas, todos nós temos alguma referência semelhante, que julgamos super-homens.
Inteligente, destemido, personalidade marcante - teimoso, há que ser justo - atleta incomparável, líder nato, dedicado à família, amigo de fé. O que mais dizer?
Apenas que foi um dos melhores pilotos que conheci.
Profissional do ar. Marcou presença no Tiro e Bambardeio do 1/14 inovando o emprego do Gloster com as técnicas do Fighter Weapons que havia sido nossa "biblia" em FZ.
Na Seção de Treinamento do 1/4, fluente em inglês, refez todo o MAVI depois de fazermos juntos um estágio com um instrutor da então IPIS da USAF (Instrument Pilot Instructor School) - curso que ele faria mais tarde.
Em SC, vindos diretamente do 1/4, atuamos incisivamente na doutrina de implantação do TF-33 que substituía o Gloster.
Na ECEMAR, foi um destaque representando a FAB na ECEME.
Tudo o que o Aldir fez na vida, foi bem feito , por onde quer que haja passado, marcou presença. Deve estar agitando as coisas lá no segundo andar. Junto com Fleury, Starling e Gonçalves,
Fica aqui a saudade do seu amigo e dos Instrutores de 66.
Menezes, Silveira "Bacalhau", Salazar "Zé Bironga", Celestino, Fleury, Starling, Paulo, Gonçalves"Azul", Villaça, Marees, Frederico Veiga, "Zé"Areal e Chagas.

Paulo J. Pinto
www.gaveasky.com.br

 

 

 

CONTINUA...

 

 

TERCEIRA PARTE        HOME